segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Medo. Angústia.



Sou professor de sociologia da Educação Básica (ensinos fundamental e médio) desde 2009. No início era péssimo professor. Não tinha ideia de como preparar uma aula, tampouco de como desenvolver um tema sociológico com os meus alunos. Sinto uma certa dó dos primeiros bacuris que se sentaram numa sala de aula diante de minha pessoa. Os coitados devem ter sofrido um bocado, muito embora alguns dissessem, de vez em quando, que gostavam de mim.

Com o tempo acabei pegando o jeito da coisa. Não que hoje as minhas aulas sejam fantásticas. Ainda tenho muito o que aprender. Sempre serei um professor incompleto. Mas acabei por conseguir desenvolver planos de curso mais elaborados e criativos, assim como aulas melhor estruturadas. Tenho enriquecido a minha visão sobre a escola, a qual deixou de ser reprodutora para ser profundamente crítica e libertária.

Hoje me considero um professor de relativo sucesso. Muitos alunos gostam de mim e das minhas aulas. Canso de ouvir deles que as minhas aulas eram as únicas "que valiam a pena". Alguns chegam a dizer "professor, hoje só vim porque é a sua aula". Esse tipo de elogio me traz um misto de satisfação e preocupação. Satisfação óbvia, pois é uma demonstração de carinho com o meu trabalho e a minha pessoa. Preocupação em relação à escola como um todo. Se o aluno acha que somente a minha aula vale a pena, o que há de errado com a educação de nosso Estado?

Questões espinhosas a parte, eu tomei um belo balde de água fria ao conversar com um amigo dia desses. Através desse amigo - professor de sociologia como eu - fiquei sabendo que um conhecido professor do bairro onde moro e trabalho havia sido, na juventude, um profissional admirado e querido pelos seus alunos, como sou hoje. Com o passar dos anos, contudo, ele havia se tornado um professor distante, grosso, arrogante e saturado em dar aula na rede pública estadual de ensino.

Ao ouvir isso tive medo. Comecei a me perguntar até quando conseguiria aguentar as péssimas condições de trabalho nas quais sou obrigado a exercer o magistério na rede pública de ensino do Estado do Rio. Tenho hoje uma enxurrada de turmas, o que implica uma enxurrada de alunos e de diários. Como professor de sociologia eu tenho um tempo de aula por semana (isso mesmo, um tempo de aula por semana) em turmas de 1º e 2º ano, e dois tempos em turmas de 3º ano. Eu tenho turmas que chegam a mais de 40 alunos. Mesmo com apenas quatro anos de magistério eu sou obrigado a trabalhar com amplificador de voz, pois já sofro de calos nas pregas vocais.

Esses são apenas os problemas mais superficiais da escola. "Superficiais" não é exatamente a palavra, mas é a que me veio agora à mente. O fato é que a escola hoje é uma instituição que não faz sentido aos jovens (se é que algum dia o fez), sobretudo aos jovens das classes populares, os quais não se identificam com o currículo proposto pela escola. O resultado disso são alunos cada vez menos dispostos a prestar a atenção nas aulas ou dispostos, ao contrário, a agirem de forma violenta contra seus professores e contra os demais funcionários da escola.

Fora os inúmeros alunos com problemas graves os quais a escola sequer toma conhecimento e, quando toma, ignora solenemente. Professores e diretores da rede pública estão sendo, hoje, transformados em meros burocratas pela secretaria de educação. E que se fodam os alunos e suas histórias, assim como a falta de aprendizado deles. Soma-se a isso um agravante: a maioria dos professores se recusa a repensar a escola e a agir politicamente em busca de uma escola melhor. O primeiro caso é coisa de professores novinhos e idealistas; o segundo é perda de tempo, "pois lutar não adianta nada".

E assim professores morrem antes do tempo ao exercerem, durante anos a fio, uma profissão na qual não mais acreditam, dando pseudo aulas em pseudo escolas, com pseudo direções num pseudo sistema pseudo educacional. Haja "pseudos" para uma instituição só. No meio disso, me pergunto até quando terei fôlego, gás, garra e determinação para conseguir trabalhar de forma efetiva, resistindo à burocratização, ao autoritarismo do governo e à apatia de meus colegas de profissão. Vou aguentar por muito tempo? E se não aguentar, o que farei, se a única coisa que sei fazer é dar aulas? Será que a vida levará com a minha juventude os meus ideais? O que há de errado com os ideais?

Hoje eu tenho muitas perguntas, um medo e nenhuma resposta.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Vida e morte despedida

                           




"Quero destruir tudo o que há de vida em mim". Foi o que ele disse logo quando se conheceram, numa tarde de festa perdida há décadas em Botafogo. Ela, na época, era muito mais bela do que hoje. Logo se encantou pelo rapaz de cabelos encaracolados, olhos castanhos, sorrisos fáceis, claros. A sensação de estar vivendo um momento especial bateu-lhe forte no peito. Os 20 anos de uma pessoa trazem sensações que nunca mais se repetem. Pelo menos foi assim com ela.

Aqueles cabelos logo estariam em seus ombros ao cair daquele dia. Seus lábios desceriam pelos seus seios, assim como seu pênis, duro, que entraria pelo vácuo molhado de sua vagina, que ardia tanto de desejo que parecia ter esperado a vida inteira por aquele momento, com aquele rapaz.

Casaram-se e foram morar num apartamento simples, bem no Centro da cidade, por pura opção. (A pobreza e a simplicidade encantam quem tem muito dinheiro.) Inúmeras foram as vezes que pela janela se deleitaram com a vista de um lugar corrido, feio e belo nas suas corridas. O deleite era externo e interno, espiritual e sexual, como tudo entre eles durante seus longos anos de casados.

Mas Caio, desde sempre, nunca ligou muito para a vida. Não que ele não amasse a vida, ou que não a amasse. Pelo contrário, ele vivia como se cada dia fosse o último, como se o derradeiro suspiro fosse iminente a cada segundo de um dia qualquer. Era preciso, portanto, poetar, beber, fumar, se embriagar, transar, rir, chorar, sem se importar com o corpo. "Quero destruir tudo o que há de vida em mim". Isso significava: "quero viver, viver, viver... Como quase ninguém vive nesse mundo irracional na sua racionalidade extrema."

Por ser de família rica, Caio pôde virar poeta e viver de poesia. Ela também era da arte, pintando em cores abstratas o mundo como ele lhe aparecia no peito. Seu amor por Caio virou uma espécie de devoção surda, muda e cega de tão profundamente íntima que era. Queria viver ao lado dele por 60, 70, 80 anos, realizando um projeto de família burguesa o qual ela jamais pensara que fosse seu.

Entre copos e cigarros, noitadas e devaneios poéticos, Caio, no entanto, poetava, vivia e morria em rápidos passares de dias, como só morre quem vive uma vida plena. Logo os primeiros problemas no fígado e em sua respiração apareceram. E Caio continuou vivendo porque morria, e morrendo porque vivia.

Naquela noite ela olhava para ele com o coração apertado, apesar do sorriso no rosto e a satisfação do espírito. Entre amigos e parentes, Caio comemorava a publicação de mais um livro, o que seria seu último. A bebida descia leve em seu peito. Seu beijo colava repentinamente nos lábios dela. E contra todas as ordens médicas, Caio vivia como nenhum médico jamais permitirá que alguém viva. (E quem precisa de permissão médica para viver?)

Uma semana depois ele faleceria, aos 44 anos. Ela deixaria uma parte de si ser levada com ele, o que era inevitável. A poesia brasileira ganhara mais um mestre imortal. E ela, mais uma saudade.


O perder-se




Perder-se é se encontrar pelos caminhos do sentimento. É estar onde pede o corpo, o momento. É flutuar pelo instante do ser até desembocar no nada, para depois ser novamente. É remar contra a civilização objetiva que está ao nosso redor. É ousar viver o sentir, e expressar a vida que se carrega dentro de si. É encarar de frente e de forma criativa o sofrimento. É se emaranhar na teia das convenções que nos classificam disso, daquilo e daquilo outro. É perceber, depois de ter caminhado diversos caminhos, que a vida sempre tem, em algum lugar de nós, um vazio. Quem nunca se perdeu, esse, sem dúvida, é o mais perdido...

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Sísifo

                           






Quando criança, fui muito feliz. Não porque a felicidade seja inerente à infância. Em muitos lugares as crianças não existem. A própria infância é uma categoria muito recente na história ocidental. Eu fui feliz porque fui, porque sentia em mim uma alegria genuína, profunda, aquela alegria que vê esperança em tudo. A alegria da jovem e bela Natasha, de Tolstoi. A alegria de quem acredita que tudo está em seu devido lugar. Que tudo é belo em si mesmo, e que irá ficar cada vez melhor. Um sábado me trazia alegria. A chegada do meu pai do trabalho me trazia alegria. Um brinquedo, uma tarde jogando bola, um encontro com os colegas de minha idade. Tudo isso tinha, em si mesmo, uma razão para me deixar muito feliz, muito satisfeito com a vida.

Parece que os anos levaram a minha capacidade de sonhar. A beleza foi se distanciando de mim como as pessoas se distanciavam dos leprosos nos tempos de Cristo. O fluxo dos meus sentimentos foram, aos poucos, sendo repreendidos em mim, alguns taxados como loucura, outros como impossibilidade, e outros, ainda, como total e profunda incompreensão. O tempo trouxe o trabalho compulsório, a pouca remuneração, a necessidade imposta de sobrevivência, o desejo de ter o que, agora, não se pode ter. De viajar, de morar, de conhecer, de se tranquilizar. Por detrás de cada um desses verbos, há uma quantia alta a ser paga. A mim não cabia seguir o meu coração e vencer distraído, como dizia o poeta Leminski. Distraído perdi o trem que levou com ele a minha esperança e a calma para a busca de uma vida melhor...

Tento ser a resistência num mundo que não admite rebeldes. A calma de quem, de uma forma ou de outra, está em conformidade com o poder hegemônico, diz para eu ter calma e tranquilidade, pois a vida é assim mesmo. A sociedade não foi construída por ninguém, de fato. Ela não foi fruto de um plano pensado, muito embora ela seja, hoje, controlada por poucos, os quais, entendo, são a fonte do poder do "compre", "trabalhe", "estude", "durma", "acorde", "tome café", "saia", "recarregue", "retorne". A fonte de um poder cuja base somos todos nós, que seguimos, de um jeito ou de outro, os rumos da história. "Onde há poder, há resistência", disse Foucault. Mas há quem tenha mais poder, sem dúvida. E há quem perca a vontade de sonhar...


A pedra rolou novamente para os pés da montanha. E Sísifo olha para ela hoje, distante, sabendo que a pedra precisa ser posta novamente no topo desse assombroso morro que é a eternidade. Mas ele perdeu totalmente a vontade de descer e subir a montanha novamente. Sísifo está mais do que extenuado. Ele está neutralizado por uma vida que, em sua cabeça (e em si mesma?), não faz o menor sentido. Seu espírito não grita nada dentro de si. Quem o vê de longe pensa que ele sequer tem espírito. Até ele se pergunta, agora, onde foi parar o ser que sempre houve dentro de si. A luz se foi, ao que tudo indica. E a montanha se metamorfoseou em Medusa, petrificando Sísifo. Petrificando a mim...

domingo, 25 de agosto de 2013

Setas




     



Desde junho ando lendo e pensando política todos os dias. Uma enxurrada de manifestações levou o nosso país às ruas. Das que aconteceram no Rio eu fui a muitas, muitas mesmo. Vi o movimento crescer, tomar corpo, forma, proporções gigantescas, as quais ninguém previu. E agora o vejo minguar, ser reduzido ao que estava antes, a um punhado de pessoas que participam e praticam política em movimentos sociais, partidos políticos ou de forma solitária, ao mesmo tempo que coletiva.
                Pus todas as minhas energias nessas lutas. Reinventei a minha agenda, reconfigurando a minha vida profissional e pessoal para colocar passeatas e mais passeatas nela, além de leituras de textos sobre as mesmas. Talvez eu nunca tenha me sentido tão vivo quanto nesses últimos meses. E talvez esse sentimento de vida tenha sido a causa do vazio que esteja sentindo agora.
                Ando sentindo aquela sensação de sem mais nem por que que me atingiu a vida inteira em tempos determinados, específicos. Alguns desses momentos foram ligeiros, como um sussurro, um lampejo. Outros duraram meses, até anos. Trata-se das famosas trevas que se escondem por detrás da vida e dos afazeres humanos, penetrando pelos poros de cada atitude e crença nossa. Trata-se da falta de sentido. Viemos a esse mundo sem saber o porquê. O máximo que temos hoje são doutrinas e teorias científicas e filosóficas sobre a origem de nós mesmos e do universo que nos cerca. O que de fato temos, contudo, são fluxos de sentimentos, os quais, em geral, perdem gradativamente o sentido conforme envelhecemos e vamos percebendo, consciente ou inconscientemente, que o passar da vida leva um pouco de nós a cada momento. A morte é a gradativa perda da vida em vida. Estamos morrendo enquanto estamos respirando e deixando de acreditar nas coisas. A morte não é só física, mas sobretudo espiritual. Vive eternamente aquele que, até o último suspiro, acredita que a sua mísera existência tenha servido a um sentido maior do que a própria miséria.
                O volume das manifestações foi intenso. E está intenso até agora. Enquanto a civilização segue o seu processo de compra e venda, de trabalho e salário, de contas e consumos inúteis, uma porção de jovens está indo às ruas hoje para tentar derrubar o governador e o prefeito do Rio. Uns acreditam que estão num processo revolucionário. Outros que estão exercendo a democracia pura e simples. O que vejo é um movimento perdendo a força e, por vezes, a orientação. Isso vem causando em mim um cansaço físico e mental enorme e um sentimento de que a minha vida não vale de todo a pena. De que não há sentido para isso tudo que vemos em frente aos nossos olhos.
                Vendo o belíssimo filme "Histórias cruzadas" nessa última tarde de domingo, me deparei mais uma vez com a insanidade que foi (e é) o racismo americano, que perdurou até às lutas pelos direitos civis nos anos 1950 e 60. A coragem das empregadas negras e da jornalista Skeeter para escrever o livro que desafiou a cidade de Jackson. A tristeza e a dor daquelas empregadas em encarar a dureza da vida dia a dia, dentro e fora de casa. Uma pequena cidade do Mississipi é, nessa obra, palco de uma história na qual cabem todos os sentimentos do mundo. Mas é história, um momento na (suposta) eternidade do nosso universo. Skeeter vai pra Nova York no final do filme, a grande cidade dos Estados Unidos. E deixa pra trás uma cidade de mulheres incríveis, tão incríveis quanto ela, para ganhar um mundo que, no final das contas, nenhum de nós pode ganhar, porque ele não nos pertence. Somos mais dele do que ele nosso. E nossa vida não passa de uma seta sem rumo, a qual irá parar em algum lugar, que talvez não cogitávamos a possibilidade de ser o nosso destino. Assim é a vida...

                

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Preenchimento



                                         
                                          Na bunda 
                                          A beleza
                                          Nos pêlos
                                          Leveza
                                          Nos peitos
                                          Destreza
                                          No sorriso
                                          Gentileza
                                          Na boca
                                          A saideira
                                          Na vagina
                                          A certeza
                                          A cama
                                          Festeja
                                          Vazia

                                          Tristeza...  

                                           

          

Fluxo sentimental







A minha dor
É saudade...
De tal forma
Que já não sei mais
O que lembra

E o que arde...

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Sentidos

                              







                            Para além do seu corpo
                                                 
                                              Das suas razões

                                                            Das suas emoções

                                                                         Dos seus sentidos


                                Há outros corpos

                                               Outras razões

                                                             Outras emoções

                                                                          Outros gemidos...

                           

                           

                                       

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A parede azul




                   


Fazia uns 30 anos que ele olhava para aquela parede mofada, de um azul tacanho. A lâmpada era amarelo fluorescente. Eram lâmpadas sempre velhas, empoeiradas, as que o dono daquele bar colocava ali. Parecia ser a mesma lâmpada de 30 anos atrás. Aliás poucas coisas mudaram no bar do Zeca, a não ser o fato de que o próprio Zeca tinha morrido há cinco anos, de um enfarte fulminante. No lugar dele passou a tocar o bar seu irmão, Seu Pedro. Este não mudara nada ali. Era a mesma mesa de sinuca, os mesmos jogos de cartas, as mesmas marcas de bebidas, o mesmo azul tristonho da parede, o mesmo mofo. Quanto aos frequentadores, eram quase os mesmos também. O mundo mudara tanto, mas aquele bar estava ali, inexpugnável, como um manto sagrado numa guerra perdida.
                José olhava, já tonto, para a rua que ficava em frente daquele bar. Havia acordado às 7 da manhã, como sempre fazia. Tomou um banho, vestiu sua bermuda marrom, sua camisa de botão verde clara, já um tanto desbotada pelo tempo, e partiu para o bar. Sua mulher ainda dormia quando ele saiu. Não raro ele saía enquanto ela dormia e voltava quando ela já estava dormindo. Isso o machucava um bocado. Mas com isso ele fazia a mesma coisa que ele fazia com todo o resto que o machucava: deixava correr, deixava ser. Doía, mas ele não ligava nem para a própria dor. Aliás a dor era algo que o atraía. Ele parecia viver para a dor cotidiana de quem não é querido pela família, nem ouvido. A dor de quem não quer ser feliz porque simplesmente não consegue ser feliz. A dor de quem decide deixar a vida transcorrer no ir e vir de sóis, de carros, de pessoas, de nuvens, de chuvas.
                Naquele dia, como em tantos outros, ele olhava para rua vendo todo esse ir e vir. Seu olhar já estava meio turvo, mas dava para notar quanto carro havia hoje na cidade. No seu tempo de moleque só tinha carro quem era gente fina. Hoje lhe parecia que qualquer bocó poderia comprar um carro, e dos bons. Os prédios também subiram. Muitos prédios. Os brejos da cidade dos seus tempos de garoto, nos quais ele brincou, brigou, namorou, se escondeu já não existiam mais. Era tudo prédio agora, condomínios com piscinas, com grades, com portões eletrônicos, porteiros, carrões, carrinhos. Um do lado do outro. Uma mutunheira de prédios que não acabava mais.
                Essas e outras coisas ele observava de forma muito lenta. Não era do tipo que analisava as coisas. O mundo ia acontecendo em sua volta. De repente ele, como num milagre, percebia uma mudança. E sua vida seguia, como sempre. Nascera na Paraíba, onde, ainda muito criança, começou a trabalhar em roças. Pouco tempo depois disso veio com a família para o Rio. Se tornou um desses homens muito comuns no Brasil, os quais sabem fazer de tudo um pouco. Fora pedreiro a vida toda, trabalhando para uma construtora grande. Por fora fazia biscates para aumentar a renda. Casou com 21 anos, pois lhe pareceu ser uma idade boa para casar. Julieta era menina direita, virgem, bonita. Construiu, muito aos poucos, a sua própria casa lá no Cachamorra, em Campo Grande. A mesma casa na qual criara seus dois filhos. Quando foi tempo de se aposentar, o fez, sem pestanejar, pois era isso que se fazia quando se tinha trabalhado tempo suficiente com carteira assinada. A aposentadoria não era muito, mas pagava as contas. E os biscates continuaram, é claro. Dava metade de tudo o que ganhava para Julieta. A outra ficava para si. Gastava tudo no bar.
                Não se lembrava da primeira vez na qual bebeu uma pinga. Só sabia dizer que todo o santo dia, desde muito jovem, frequentava bares. O do Zeca era, de longe, o seu predileto, mas não sabia porque. No bar fazia de tudo um pouco: conversava, jogava, ria, se calava. A única coisa que ele não fazia pouco no bar era beber. Sempre saía dos botecos cambaleando. Nunca foi desses que, quando bêbado, dizia impropérios aos outros. Era homem de poucas palavras em qualquer situação. Não sabia ao certo o que lhe atraía nos bares. Depois do trabalho a sua vida sempre entrara numa espécie de parêntesis, no qual ele não sabia como agir, nem sentia haver um motivo para agir. Ir ao bar era uma forma de ver as coisas passarem, de dar conteúdo a um tempo que se recusava a passar rápido.
                Sentia um vazio enorme em si, o qual nada preenchia, nem a mulher, nem os filhos, nem o trabalho. Até a igreja, refúgio predileto dos miseráveis de bens e de alma do Brasil, não lhe deu um sentido para as coisas. No seu íntimo sentia que, no princípio, era o ir e vir, o qual fundou o mundo, compôs o mundo e no qual o mundo sempre vai viver. Aquele papo de Jesus, amor, salvação lhe pareceu esquisito. E, o pior, um homem de Deus não podia beber. Tinha sempre que buscar ser santo. Aquilo não era para ele...
                Julieta chorou boa parte do seu casamento por ver José bêbado, capengando pelo quintal até alcançar a porta de casa. Seus filhos aprenderam a manter a distância dele. O mais velho o via como a causa dos sofrimentos de sua mãe. O mais novo simplesmente o ignorava. José reagia a isso indo tomar banho e dormir, sempre. Nunca fora de discutir. Não via motivo para isso. Não estava nem aí, nem aqui. Não via porque se importar com as lágrimas de Julieta. Não porque não gostasse dela. Era uma mulher boa, criara bem seus filhos. O que mais poderia querer de uma mulher? Seus filhos tomaram seus rumos na vida. Um conseguiu ser doutor. O outro não, mas se mantinha com seu próprio dinheiro. Isso lhe parecia bom. Nunca aprendeu a esperar mais nada da vida, a não ser o que lhe parecia razoável...
                A tristeza cotidiana de José era pagar a conta do bar. Tinha medo de sair daquele ambiente, o único que parecia lhe aceitar do jeito que era. Nunca entendeu o porquê daquilo tudo. Dos carros indo e vindo, de Julieta chorando, dos prédios sendo erguidos, das pessoas se apressando, da formatura do seu filho doutor, da sua aposentadoria, dos seus biscates, das ruas, da sua infância na Paraíba. Desde que se entendia por gente, sempre houve um céu e gente trabalhando duro embaixo dele. As coisas passavam, envelheciam, morriam. Aquela parede azul, toda mofada, parecia lhe dizer algo, mas não sabia bem o quê. Talvez fosse o seu sentido. Mas não se lembrava de sentir prazer em estar ali. Ia para o bar, bebia e ia embora. O tempo passava assim, muito embora a visão sempre ficasse turva no final do dia, e as pernas teimavam em não lhe obedecer. Estava bem assim. Na verdade não estava propriamente bem. Mas estava. No final das contas, nunca tinha visto sentido no estar. Desde que se entendia por gente José sempre estivera. Em algum lugar, de alguma forma, fazendo alguma coisa. E ponto.
                Pagou a conta naquele dia, como sempre fazia. Despediu-se de quem estava presente no bar. E foi embora. Mais uma vez cambaleando. Mais uma vez vendo as coisas passarem. Mais uma vez vendo tudo borrado em sua frente. Mais uma vez. Amanhã teria mais. Mais bebida, mais cartas, mais conversas. Mais bar do Zeca. Mais parede mofada. Mais azul tristonho. Mais do mesmo. No princípio era a parede azul. A parede azul estava com deus. A parede azul era deus. E ela se movia sobre a face das águas... A questão que parece percorrer a vida de José e dos seus é saber o que existia antes do mistério da criação. O que havia antes de deus? O que era o mundo antes de ele não ser? Qual é o princípio da eternidade? E qual é o seu fim? Ele jamais formulara essas questões claramente na sua cabeça, mas não houve um dia no qual ele não as sentisse em si. Eram elas, no fundo, o cimento dos seus dias inúteis. E, suspeitava, eram também a estrutura de todo o mundo humano...

                José franziu a testa e, pela primeira vez em anos, pôs-se a chorar...

terça-feira, 23 de julho de 2013

Pobre razão...

                           


Humberto Gessinger, vocalista e baixista da banda Engenheiros do Hawaii, tem várias frases certeiras em suas críticas, apesar de serem obscuras na sua forma. Uma dessas frases tem vindo à minha cabeça constantemente nos últimos dias. Trata-se de dois versos da letra de "Cidade em chamas", uma das faixas do melhor disco da banda gaúcha, "Ouça o que eu digo, não ouça ninguém". A referida frase é composta pelos versos seguintes: "Eu sei que eles têm razão/Mas a razão é só o que eles têm".
                Minha mente gira em torno dessas palavras ultimamente, pois esses protestos que estão deixando a sua marca no cotidiano da cidade do Rio de Janeiro, assim como em sua história, divide as opiniões sobre eles lançadas em basicamente dois lados: os que defendem o ideal de democracia moderna, o qual podemos denominar de democracia liberal; e os que defendem uma mudança na ordem social, numa luta contra o sistema capitalista. Esses últimos são chamados genericamente de esquerda, para alguns radical, para outros revolucionária e delirante na visão de uma outra galera. Nela se misturam anarquistas, socialistas das mais variadas correntes e movimentos sociais diversos, todos questionando a ordem social vigente, cada um a seu modo.
                Olhando essa dicotomia de longe, parece que ela divide lúcidos (a direita) dos sonhadores (a esquerda). Essa é a impressão que a própria estética dessa dicotomia passa. O discurso liberal é convincente, bem amarrado, difícil de desconstruir. O discurso da esquerda é muito mais fragmentado, de difícil elaboração, recebendo como tempero os cassetetes da polícia quando esse mesmo discurso resolve tomar as ruas. De um lado direitistas cheios de razão, sentados em suas poltronas, sem um pingo de spray de pimenta nos olhos. Do outro um bando de jovens gritando, roucos, palavras de ordem, muitas das quais difusas. A partir desse cenário, fica fácil deduzir que a razão está com o primeiro grupo. Mas ironicamente há uma razão para isso.
                A filosofia liberal, de acordo com Merquior, surge no momento no qual o capitalismo está se estabelecendo como sistema social predominante na Europa, isto é, durante a Revolução Francesa e as revoluções industriais, as quais, como sabemos, alteraram profundamente a sociedade europeia dos séculos XVIII e XIX. O liberalismo é uma interpretação da realidade a partir dos princípios lançados pela própria realidade a qual eles pensam. Para ficarmos somente com um exemplo, enquanto o mercado estava se impondo como poder máximo da nova ordem social, Adam Smith estava tentando nos covencer de que a "mão invisível" do mercado controlava suficientemente bem a sociedade, cabendo, portanto, ao Estado a mínima intervenção possível nela.
                Já a esquerda se levanta desde sempre na tentativa de questionar a própria essência da sociedade capitalista. Uns fazem isso de forma profundamente bisonha, acreditando que uma revolução se fará através de uma vanguarda de revolucionários, a qual consiste num punhado de crentes de alguma ideologia esquerdista. Outros o fazem elaborando críticas e ações mais consistentes, inclusive tentando usar elementos da própria ordem política para subvertê-la, formando partidos políticos, por exemplo. De qualquer forma, ser esquerda representa questionar a estrutura de uma sociedade organizada em torno do dinheiro, da produtividade e do "progresso", em nome dos quais a riqueza mundial é produzida e a natureza e a vida humana são devastadas. Pois é essa a ordem na qual vivemos. Nasça, cresça, estude, trabalhe feito louco, não se informe o suficiente, não saia da linha, se alimente mal, respire um ar poluído e morra de câncer, ganhando uma aposentadoria ínfima, caso você a consiga.
                O pior é que os liberais têm razão em muitas de suas afirmações. De fato, o que adianta irmos às ruas se a ordem que questionamos é fruto de um processo de formação cultural que levou décadas para se estabelecer, e que não irá acabar com alguns milhares de pessoas se manifestando contra ela? Essa é a hora que eles dão um riso irônico para nós e dizem que já foram iludidos como nós, e que hoje são lúcidos, enquanto nós somos "imbecis coletivos". Contudo a razão liberal é fruto do limite intelectual do próprio liberalismo, que é, como disse, pensar a sociedade dentro das cadeias que ela nos impõe. Diante desse tipo de pensamento, é fácil cair no ridículo se você defende o fim do consumismo, do desperdício, do controle internacional por grandes bancos e empresas, da relação nefasta entre governos e grandes empresários e banqueiros, da exploração intensa e desumana da mão de obra nas fábricas, indústrias e lojas e das desigualdades sociais em seus múltiplos aspectos, a começar pelo econômico.
                Quanto a mim, eu penso que vivemos numa ordem podre, na qual ser humano implica perder a sua própria humanidade, como bem falou Marx. A nossa civilização é baseada em princípios violentos, e mesmo quem se enquadra nela parece não se satisfazer com ela. Se assim não fosse, os livros de autoajuda não seriam tão vendidos e os analistas não teriam tantos clientes. De qualquer forma eu prefiro ir às ruas e ser rebelde, mesmo que isso, no fim das contas, seja inútil (o que eu não acho que seja) a simplesmente ser dócil nesse sistema, ou, pior, ser neutro e optar, assim, pelo mais forte. Acabo por virar um alvo fácil de ironias de pessoas que, estando do lado de lá, olham passivamente para nós tomando bombas e tiros de borracha na cara, enquanto eles, os racionais, dizem de forma taxativa que não adianta insistirmos, pois no final a ordem prevalecerá.

                E vai prevalecer. Mas não com a minha obediência. Quem pensa com a ordem tem razão. "Mas razão é só o que eles têm"... Continuemos na luta. Desobedecer é preciso... E fundamental para viver... 

terça-feira, 16 de julho de 2013

Deus e o boteco




Há algum tempo eu venho tendo conflito com a ideia de Deus. Aliás esse conflito já dura há bastante tempo na minha vida. A única fase da minha existência na qual eu tive uma relação pacífica com Deus foi na minha infância. Até os meus 10 anos, mais ou menos, Deus era um ser com o qual eu conversava antes de dormir, pedindo proteção e agradecendo pelo dia. E ponto. Nessa época a minha família já era evangélica, mas esse costume eu havia adquirido ainda nos tempos nos quais a minha família era católica.
                  A partir daí a coisa foi ficando mais tensa. Deus foi se tornando, gradativamente, um ser austero, altivo, arrogante, egoísta e, sobretudo, exigente. Na igreja a qual eu frequentava, as pregações sempre giravam em torno da necessidade de termos que nos adequar a um modelo de ser humano para podermos entrar pelas portas estreitas dos céus. O trecho da Bíblia que mais me dava medo era o que dizia que "todo joelho se dobrará, e toda a língua confessará que Jesus é o senhor". Esse Deus me dava arrepios e um ódio escondido, camuflado. Como assim eu terei de me ajoelhar? Pra que isso?
                É claro que essas perguntas eram respondidas ao longo das inúmeras pregações as quais eu assistia pelo menos duas vezes por semana. Era preciso dobrar o joelho porque Jesus, o ressurreto, havia dado a sua vida por mim. Nada mais justo que eu me ajoelhasse, então, mesmo que não quisesse. O problema era que eu estava imiscuído numa cosmologia da qual, em última instância, eu não havia pedido pra fazer parte.  Aquilo não me parecia justo, da mesma forma que não me parece justo até hoje.
                Isso foi me dando uma raiva, um desejo de quebrar padrões, regras, de me libertar e ser o que quer que eu fosse, de fato. Era muito duro para mim ter que justificar o tempo inteiro pra mim mesmo que eu devia continuar obedecendo as regras prescritas para mim, desde a fundação do mundo, ou, quem sabe, antes dela. Aos dezenove anos, por fim, resolvi tocar o foda-se e meter o pé da Igreja. Acho que essa foi a decisão mais acertada que tomei na minha vida.
                Mas a coisa ficou feia, feia demais depois disso. Eu era livre agora. Porém, como diria o bom e velho Sartre, eu era igualmente escravo da minha própria liberdade. Sem um deus paternalista para poder chorar nos ombros dele. Sem diabo e demônios para poder culpar pelos males da minha vida. Agora era eu, meu corpo e uma estrada pela frente. Deus estava morto em minha vida. Não havia mais Deus, nem mais fé, muito menos chão. O chão, agora, deveria ser construído por mim mesmo. Era Sísifo empurrando a pedra até o cume da montanha para vê-la cair de lá, para depois poder buscá-la e vê-la caindo novamente. Isso é poético, mas não era nada bonito de se viver.
                O medo e a raiva enrustida deu lugar a um ódio declarado por Deus e pelo cristianismo. Foi, sem dúvida, o período mais sombrio da minha vida, e o mais catártico também. Eu era pura raiva travestida em humano. Ódio pelo meu passado no qual eu tentava, de forma hipócrita, seguir padrões impostos por pessoas moralistas e sem moral, na defesa direta ou indireta de um Deus que pouco se importava com a minha opinião.
                Vim voltar a acreditar em Deus e a me reconciliar com ele quando, vivendo tempos de agruras amorosas, me vi numa casa espírita, lá pelos idos de 2009. Logo comecei a ler os livros, me empolgar e tudo o mais. Deus voltou a ser o princípio criador do universo. O velho argumento de que o mundo não poderia ter vindo do nada me convenceu novamente. Porém, o espiritismo sofre de um grave problema: se trata de uma religião que acredita que é ciência; uma filosofia que herdou o que de pior surgiu no século XIX: a ideia de progresso, de evolução humana, a mesma filosofia que serviu de base para as teorias eugênicas, que desembocaram - vejam que lindo - no nazismo. Aliás antes do nazismo a eugenia já tinha matado muitos milhões na África e na Ásia, e todas as mortes foram justificadas pela ideia de que esses povos não eram "evoluídos", civilizados. Então poderiam morrer.
                Sem ser violento fisicamente, o espiritismo, assim como todas as religiões, nos colocam como pessoas doentes. Estamos nesse mundo de passagem, pois não somos evoluídos o bastante. Um dia seremos perfeitos, seja lá o que isso signifique. Somos imperfeitos agora  porque somos humanos. Somos culpados, e devemos expiar a nossa culpa. Por detrás de uma filosofia mansamente formulada e pregada, com ares de saber superior, de religão-ciência, mora a péssima e velha culpabilização do homem pelos seus males, que remonta ao casal mais badalado do mundo ocidental: Adão e Eva.
                Nem preciso dizer da tristeza que me causou quando descobri essas coisas sobre o espiritismo. E, no estilo Chaves, "volta o cão arrependido...": meu conflito com Deus retorna, mais poderoso que o exterminador do futuro. Acho que esse conflito é eterno em minha vida. Digo eterno porque, hoje, sinto que a ideia de que somos frutos de um acidente natural me parece um tanto quanto absurda. A vida é uma realidade tão forte que penso ser surreal o fato de ela acabar aqui, depois de eu dar meu belo último suspiro. Acredito que eu esteja reconciliado com a ideia de Deus, mas que nunca me reconciliarei com "Deus" propriamente dito, seja lá quem ele seja.
                O ponto central da pobreza de todas as religiões é que elas nos colocam como centros de uma escatologia a qual nós não escolhemos, nem teria como escolhermos. Ir para o céu ou para o inferno, para um mundo feliz ou para a erraticidade é passado como sendo uma escolha nossa, quando na verdade não é, nem teologicamente falando. Assim como, quando um bandido aponta uma arma para a minha cabeça e diz "passa a mochila, ou morre", eu não tenho opção alguma pela vida. Por instinto corro atrás dela, entregando a mochila.
                Toda religião é uma tentativa humana de entender um mistério legítimo: o que será de nós depois da matéria? Por isso todas elas possuem incongruências. Isso não tem nada a ver com o amor. Deus não ama ninguém, ao menos não esse Deus que leio na Bíblia. Por isso acredito que a melhor saída para tudo isso é manter a fé e a criticidade, a fim de não virarmos Malafaias ou Felicianos da vida que, fazendo o que acreditam ser o certo, destroem, de fato, almas promissoras num mundo que parece carecer disso. Deus não está morto, nem precisamos matá-lo. Levemo-nos, então, a um bar e troquemos com ele uma ideia. E jamais deixemos de sermos humanos. Esse é o caminho da salvação.

domingo, 14 de julho de 2013

Sobre o amor e a ciência

Einstein sexy



Jamais me esquecerei do Lima, um cientista amigo meu. Era um daqueles profissionais que respiram a sua profissão, vivendo-a, exalando-a em cada segundo da sua humilde existência. Na época em que o conheci ele estava pesquisando as teses de Girard, na tentativa de criar a sua própria tese sobre a essência do homem, que visava associar a antropologia à biologia. Seus livros viviam rabiscados, de tal forma que parecia que ele já os tinha comprado assim. Era engraçado que, por vezes, eu observava que ele riscava parágrafos inteiros desses livros, como se ele estivesse querendo corrigir o autor da obra que tinha em mãos. E de fato era o que ele queria. E, ao que me parece, fazia com propriedade.

Mais rabiscada do que seus livros era a sua aparência. Lima era a encarnação do estereótipo do cientista, o mais clichê que se possa imaginar, como se tivesse saído de um filme qualquer de sessão da tarde, digamos, um De volta para ao futuro. De calças jeans desbotadas, camisas sociais velhas, canetas nos bolsos e livros sempre a mão, Lima parecia um personagem. E de fato o era. Fazia de tudo para ser reconhecido como nerd. Falava como uma pessoa que jamais perdia o foco do seu estudo, olhando sempre fixo nos olhos do seu interlocutor, coçando de vez em quando a cabeça e ajeitando quase sempre os óculos.
Era impossível falar com o Lima sobre futebol ou qualquer coisa que estivesse fora de suas preocupações antropo-filosóficas. Quando da derrota do Vasco para o Flamengo na final da Copa do Brasil de 2006 - a qual me doeu como se eu tivesse perdido uma perna - Lima foi incapaz de ouvir as minhas lamentações de bêbado. Como Jeremias, eu quase procurei um muro para poder expressar a dor que sentia pela derrota de uma guerra, na qual do outro lado o inimigo, de uniforme preto e vermelho, parecia vencedor antes mesmo do jogo acontecer. Tempos difíceis aqueles. Tempos que o Lima não compreendeu.

Certa vez tive a péssima ideia de chamar o Lima para tomar uma cerveja comigo, o Vieira, o Saulo e o André. Entre idas e vindas de copos cheios do líquido mágico que se vende nos botequins do Rio, eis que nos aparece uma menina cujo corpo foi, de certo, um dos mais bonitos que eu já vi na vida. Com uma minissaia apertada, barriga de fora, umbigo redondinho, como um pequeno abismo no meio de um corpo perfeito, e, por debaixo da blusinha, uns seios desprovidos do cárcere do sutiã, cujos mamilos estavam arrepiados, nos fazendo a todos no bar aplaudir aquela linda moça de pé - a despeito de todos nós continuarmos sentados. Lembro-me de todos a nossa mesa termos ficado desconcertados, como que hipnotizados. No meio desse êxtase coletivo e silencioso, íntimo, surdo e assustadoramente expresso, eis que o Lima solta a seguinte pérola:

- Incrível a força da estética social impressa na mentalidade humana, não é? Daí o fato de Elias dizer que a estrutura psíquica do homem seja moldada pelo processo civilizatório. Essa menina é bela, belíssima. Mas devemos pensar que essa beleza não está nela, mas sim em nós. Se as formas dela, que nos fazem nos excitar como agora estamos, foram formadas, antes, na nossa mente pela educação, então poderíamos dizer que a realidade de sua beleza é socialmente construída, concordando, assim, com Berger.

É impressionante a capacidade que as palavras possuem de amolecer o pau de um homem. Todos na mesa olharam para o Lima como um condenado olha para o seu carrasco no momento final da sentença. Que porra de comentário foi aquele diante de uma beleza quase supra-humana que era a daquela menina? Não vimos outro jeito senão o de pedirmos a conta e irmos embora. A ciência, travestida de Lima, havia acabado com toda e qualquer paixão nossa naquela noite.

Tinha meu amigo como um caso perdido para a humanidade, uma máquina de pensar dentro um corpo mais desalmado do que um muro, quando liguei para ele um dia e não obtive resposta. Estranho. Lima poderia ser um amigo inútil no sentido humano do termo, mas sempre respondia as minhas ligações. Procurei no laboratório de Ciências Sociais da universidade, e nada. Isso era mais estranho ainda. Quando Lima não estava comendo ou cagando, ele estava no laboratório lendo ou resenhando. Mas não naquele dia. Fui, quase correndo e com um pressentimento não muito bom, para o quarto de Lima no dormitório da universidade. A porta - que sempre estava trancada quando ele não estava no quarto - estava dessa vez aberta, e sem uma viva alma dentro. Os livros de Lima estavam jogados sobre sua cama, e uma toalha estava no chão de seu banheiro, parecendo estar ainda úmida. Ao lado dela havia o objeto mais estranho que poderia haver dentro do quarto do Lima: uma calcinha.

Uma calcinha? Teria o Lima aderido ao cross-dressing? Seria uma tara à la David Beckham? Teria ele descoberto o cheiro especial de feminilidade que uma calcinha possui? Será que ele queria me dizer num grito surdo o tempo inteiro que ele era gay? Ah! Minha cabeça girava de tanto pensar nessas loucuras. Não conseguia imaginar o Lima dando um estalinho nem na sua mãe, que dirás dando a bunda, meu Deus, A BUNDA! Não que eu seja homofóbico malafaísta, desses que citam versículos do Levítico para justificar todo o seu ódio (e esconder seus desejos homoeróticos?) contra pessoas que amam e dormem com outras do mesmo gênero. Mas é que eu tinha o Lima como uma espécie de santo que, em defesa da pureza da alma e da ciência, mantinha a castidade do corpo para libertar a mente do cárcere dos limites cerebrais humanos.

No auge da minha desolação, sentado na cama do quarto do Lima e com a calcinha - aquela calcinha - na mão, eis que eu vejo pela porta aberta, lá do outro lado, um casal que andava mais abraçado do que amantes em episódios finais de novelas mexicanas. Limpei meus óculos para ver melhor, e sintonizei minha mente na imagem que tinha no horizonte: era o Lima abraçado a uma negra com corpo de passista da Mangueira, dando bitoquinhas em seus lábios, apalpadelas na busanfa dela (e que busanfa...), andando pelo pátio da universidade, feliz da vida, rei do pátio e da juventude. Ele chegou ao ponto de estar usando bermuda. Bermuda, minha gente! Lima, o santo, de bermuda, mostrando toda a graça de suas canelas brancas com punhados de pelo esparsos ao longo das pernas. Que visão do inferno, Deus. Que visão...

Enquanto aquele casal que unia a imagem mítica de uma deusa negra ao titã mais feio e inútil da mitologia grega se aproximava de mim, inebriando o quarto com toda a sua espiritualidade, eu só fiz ficar parado e perplexo. Ao entrar no quarto, pela primeira vez em (talvez) 20 ou 30 horas, Lima desgrudou os olhos da linda mulher que tinha nos braços e, surpreso, me viu em sua cama. - HÁ, Tiago, é você, filhote! Deixa eu te apresentar a Silvia, minha mulher. Ah, casei, antes que você me pergunte. Nos conhecemos ontem no pagode ali da esquina. Não, não, eu não tinha ido ao pagode. Estava indo comprar um miojo quando passei em frente ao boteco da esquina e essa linda sorriu pra mim, e o resto se deu naturalmente... Casamos! Conta pra ele, Silvinha...

A Silvinha, dona de um belo corpo e de um sorriso encantador, falava pra mim como que em slow motion tudo o que tinha acontecido desde o encontro dos dois até aquele momento. Confesso que não conseguia prestar a atenção em nada... Era tudo muito irreal pra mim. Lima, falando gíria, usando bermuda e casado com uma criatura celeste daquelas...


Ao sairmos do quarto, depois que Lima reuniu as suas coisas e colocou nas malas, ele virou pra mim e disse, em voz baixa: - Tiago, a beleza existe! Ela é real. E a boceta dela é mais leve e fluida do que veludo... - Dando um tapinha nas minhas costas, Lima me deixou com essa reflexão na cabeça: o que uma mulher é capaz de fazer com a mente e o comportamento de um homem! O que é o amor, a paixão, o sexo! O que não faz um roçar de corpos com o espírito do ser humano... Hoje Lima e Silvia fazem 10 anos de casados. Lima largou a ciência pela praxis da vida...

A sociedade dos átomos




Todas as sociedades possuem problemas coletivos. Saúde, educação, estrutura urbana, corrupção e muitos outros elementos de ordem geral, que tocam a vida das pessoas como um todo, não são exclusivos do Brasil, nem dos brasileiros. Mas talvez não haja uma sociedade onde impere uma lógica tão individualista quanto a nossa. Passamos de uma sociedade aristocrática para uma sociedade liberal como num passe de mágicas. De repente estava abolida a escravidão e o Império estava acabado. Começou a democracia que, apesar de falsa e incompleta, era a nova ordem da nação. A partir daí, ao que me parece, o indivíduo passou a ser a medida de todas as coisas no Brasil. O país da desigualdade institucional passou a ser o país cujo horizonte era, agora, a igualdade, mesmo que posta num discurso vazio de nossos governantes e das instituições daqui. Igualdade no discurso e desigualdade na prática. Assim começamos a caminhar nos tempos modernos brasileiros...

Hoje temos uma sociedade onde o ideal de indivíduo e de mérito vigora muito fortemente em nós. Acreditamos que o aluno que passa no vestibular é um herói solitário, que não precisou de nada nem de ninguém para conseguir seu feito. O mesmo serve para jogadores de futebol como Romário, o qual acreditamos que não treinava, pois se tratava de um gênio que driblou a pobreza para se tornar ídolo, apesar de ele mesmo já ter falado em entrevista que as pessoas confundiram o fato de ele não gostar de treinar com a ilusão de que ele não treinava. Os livros de autoajuda pululam nas estantes das lojas brasileiras, todos eles nos ensinando a nos superarmos, como se somente de nós dependesse todo o nosso destino. O facebook, por sua vez, reflete isso na quantidade de posts nos quais as pessoas tiram fotos de si mesmas, do cachorro, do gato, contam intimidades, fazem comentários fúteis, por vezes agressivos, mas que se recusam a discutir questões mais gerais, achando-as enfadonhas e chamando de enfadonhos quem levanta essa peteca.

Vivemos numa sociedade de átomos no Brasil, ao que tudo indica. As pessoas vivem como átomos, cagando para a coletividade, se cultuando e cultuando pessoas que se cultuam, as famosas celebridades brasileiras, que são tão célebres quanto idiotas (Luciano Huck, Angélica, Regina Casé e afins...). Os problemas coletivos daqui estão cada vez mais graves, mas a crítica a esses problemas surgem de átomos, nunca de indivíduos com alguma mentalidade coletiva. A percepção das pessoas aqui é individual, assim como a ação na vida também o é. Quem nada contra essa corrente por aqui ou vira um chato, ou um formador de opiniões; ou, o que é pior, um chato formador de opiniões. Compram-se opiniões prontas, mas ninguém quer se dar o esforço de construir uma opinião própria e com qualidade. Deve ser por isso que Jabor faz tanto sucesso por aqui...

As discussões também são realizadas no nível dos átomos. Pessoas se ofendem quando se sentem encaixadas em alguma colocação com a qual não concordam. Eu mesmo já fui muito criticado por postagens que tinham um teor crítico contra determinados grupos sociais, como evangélicos, professores (grupo do qual faço parte), policiais, classe-média etc. Vários amigos aparecem para dizer "sacanagem você dizer isso, pois você está generalizando". Se a gente critica a bancada evangélica do Congresso Nacional, os evangélicos do face aparecem, ofendidos. O mesmo ocorre com os professores e com os outros grupos aqui citados. Vivendo como átomos e fazendo parte da coletividade de forma atomizada, nunca a crítica é percebida como uma argumentação que atinge a essência de um grupo, mas sim como uma questão pessoal, um ataque ao próprio caráter da pessoa. Ninguém pensa que precisa rever seus conceitos ou os conceitos dos grupos dos quais faz parte. São as nossas escolhas, o nosso grupo, a nossa vida, e ninguém tem o direito de falar nada, pois se o fizer, ofenderá.

Hoje mesmo entrei numa discussão feroz com amigos médicos, os quais estimo de verdade. O motivo foi uma postagem que criticava a postura de parte da classe médica, que se opôs a vinda de médicos cubanos ao Brasil, por razões superficiais, as quais ninguém entende direito, talvez nem eles. A essa parte me referi com a expressão "bando de otários". Acabei por acender um barril de pólvoras, pois muitos colegas entenderam que eu estava chamando a todos os médicos desse país de otários e de playboys. Mais uma vez me senti mal por iniciar uma discussão que não tomou os rumos que eu queria...

Sabemos que médicos não têm vida fácil no Brasil, ao menos não no exercício de sua profissão. Contudo, sabemos também que o padrão de vida dos médicos daqui é bem mais razoável do que a da média do trabalhador brasileiro. A própria faculdade de medicina no Brasil é, em si mesma, uma espécie de "limpeza social", pois as universidades particulares são caríssimas, e as públicas exigem anos de estudos pro vestibular, o que elimina aí em muito a possibilidade de pobres cursarem medicina, apesar de alguns vitoriosos conseguirem. Percebo no Brasil uma classe de médicos que é muito pouco popular e tem uma vida acima do nível popular, apesar de trabalhar muito e em condições precárias. Médicos por aqui reclamam muito, e com razão. Mas se mobilizam muito pouco politicamente. Parecem com os professores daqui, que reclamam de Deus e do mundo, mas na hora de pensar uma prática coletiva que vise à mudança, paralisam na lógica do átomo. Em suma, os médicos no Brasil possuem o mesmo problema dos demais grupos de trabalhadores brasileiros: dificuldade de ultrapassar o individualismo da sociedade no geral e da sua atuação profissional em particular. Por isso não entendo a manifestação de parte da classe médica brasileira, me parecendo ser uma postura individual e míope de pessoas que acordaram junto com "o gigante", mas danando a falar bobagens.


Acho que é importante a discussão, sempre. Sempre vale a pena discutir. E discutir implica estar aberto a mudar de opinião, assim como a não se ofender enquanto pessoa quando ouvirmos uma crítica a um grupo do qual fazemos parte. Sou professor e critico muito os professores daqui. Quem é meu aluno ou quem acompanha as minhas postagens no face, sabe disso. Ou a gente ultrapassa a lógica atômica da nossa sociedade, ou viveremos como átomos, trabalharemos como átomos, discutiremos como átomos... E o país inteiro vai implodir, devido à inércia coletiva dos átomos... Não se trata do discurso medíocre de autoajuda que nos enche o saco dizendo-nos que temos que nos amar, olharmos pro próximo e outros blablabla... Trata-se, acima de tudo, de uma necessidade humana o comunicar-se e a construção de uma vida mais coletiva e menos atomizada...

terça-feira, 2 de julho de 2013

Notas sobre uma noite triste

                                      

Triste e com um sentimento de derrota no peito... O movimento que foi para as ruas da Tijuca hoje não estava pedindo a saída da Dilma, nem a redução da maioridade penal ou o fim da corrupção (alguém é a favor?); não cantou o hino nacional, não estava com tintas verdes e amarelas no rosto cantando o orgulho e o amor de ser brasileiro. Por isso as bombas e tiros que tomamos hoje nas ruas não foram televisionadas. O nosso movimento não interessa mais a quem está no poder. Só os restos hoje foram às ruas, a linha de frente da contestação desse país; a galera que está sempre aí para o que der e vier.              

                Muitos policiais estavam nas ruas tijucanas. Muitos mesmo... Parecia que eles iriam enfrentar um exército organizado e armado. Do lado de cá tínhamos vinagre, máscaras, gargantas gritando palavras de ordem e a consciência de que o Maraca não é mais nosso. Aliás nem as ruas são mais nossas, pois sequer conseguimos nos aproximar do estádio para além da São Francisco Xavier. A nossa polícia, cumprindo ordens do governo e da prefeitura, fiéis defensores da classe-média e da FIFA (argh!), não nos permitiu passar. E, de resto, o de sempre: bombas, tiros de borracha, corre-corre, pessoas lacrimejando, tossindo, quase desmaiando...

               O movimento de hoje foi violentamente dispersado. Tentamos resistir, mas não deu. Quando vi que o pessoal já não tinha mais fôlego, nem possibilidades de luta, guardei meu casaco e o cachecol que estava usando para cobrir meu rosto, e fui andando, sozinho, olhando as pessoas em volta, espalhadas. Alguns carros do BOPE passaram por mim, provavelmente indo matar algumas vidas numa favela qualquer. Ouvi também alguns gritos de gol... Parecia que estávamos ganhando... Só não sei o que... 

                
                Andei em direção ao metrô mais próximo, paguei a passagem cara; saí na Central e peguei o trem que ia pra Santa Cruz. Indo pra casa olhava, volta e meia, pela janela do trem. Meu olhar se perdia por uma cidade desigual, que nunca foi pensada para mim e para os meus, os Zé-Ninguém. Os preços estão ficando mais caros, a vida mais dura, a educação mais precária, o transporte mais lotado, a saúde mais privatizada, e o futebol, a nossa única catarse numa cidade dominada por interesses tão poderosos quanto individuais, já não é mais para a gente... Eu não tenho dinheiro para pagar o ingresso do Maracanã, muito embora eu tenha pagado a "reforma" bilionária desse templo do futebol mundial, agora ex-templo... Me resta os botequins de Campo Grande, com pay-per-view, a nova geral do Rio de Janeiro... O Maraca agora é da classe-média branca desse país...          

                Cada vez que olho pro Rio vejo estampada nessa cidade a mesma miséria que contorna a minha vida, a miséria diária do trabalhador que mata uma selva por dia para conseguir sobreviver. Mas estamos aí, com ideias na cabeça, crítica na visão e com um grito de indignação na garganta, que pode não mudar nada, mas é símbolo de resistência e de humanidade, ao menos... Viver e não pensar a sua própria realidade social é uma contradição humana...

                Espero que as ilusões um dia salvem o mundo, porque a realidade tá foda...

sábado, 29 de junho de 2013

Notas sobre uma esperança...


                           



Nas últimas semanas, acredito que não tenha havido ninguém que não tenha ficado perplexo diante do que estava acontecendo no Brasil. Multidões nas ruas aos berros reivindicando inúmeras coisas, Congresso Nacional invadido, Movimento Passe Livre resistindo às ações policiais em São Paulo, mais de 300 mil pessoas nas ruas do Rio, protestos em tornos dos estádios de futebol que estão sendo palco dos jogos da Copa das Confederações. Diante de tudo isso, a velha e tosca ideologia do “gigante adormecido” virou a igualmente tosca, mas nova, ideologia do “gigante que acordou”.

            É preciso dizer que toda ideologia tem a sua base real de ser, como nos lembra Clifford Geertz. A ideia de que o Brasil havia acordado mora no número reduzido de militantes que temos no nosso país. Eu mesmo sou professor da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro, e já fui a muitas passeatas com 100, 200 pessoas; já fiz paralisações solitárias nas escolas nas quais trabalhei; já fui minoria em greves... Enquanto a maior parte dos meus colegas reclamam de Deus e do mundo na sala dos professores, sem a mínima capacidade de transformar em prática política a sua pretensa criticidade. Os professores da rede estadual de ensino são a metáfora do Brasil, democracia que não é, e do Rio, a cidade maravilha que nunca foi. São professores que não são, são projetos de pseudo-intelectuais (pois até para ser pseudo-intelectual tem que ter lido, ao menos, orelhas de livros importantes...); são míopes que se sentem pilotos de avião...

        Para além do “gigante desperto e feroz”, o que vimos nas ruas (e ainda estamos vendo e continuaremos a ver, tomara!) foi a história acontecendo. E como é difícil entender a história. Ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo nas ruas, o porquê dessa mudança abrupta do comportamento da massa brasileira, nem o que estava sendo, de fato, reivindicado. Oportunistas de plantão, como a senhora Rede Globo, não tardaram em colocar as suas próprias pautas nas reivindicações difusas das ruas. De baderneiros viramos, em uma semana, pessoas lutando contra a corrupção (quem é a favor?), contra a PEC 37 (quem leu?) e contra “tudo o que está aí” (aí aonde?) E ficou difícil entender como tudo começou. Hoje mais do que nunca compreendo como é difícil o trabalho dos amigos historiadores. Se é quase impossível traçar a história de um movimento de semanas ou meses, o que dizer sobre a história de séculos ou milênios?

            Quanto a mim, eu penso que esse movimento começou com os jovens de Porto Alegre, os quais lutaram e conquistaram, há pouquíssimos meses, a redução das passagens de ônibus de sua cidade. As imagens da estética do movimento gaúcho circularam a Internet. Pouco tempo depois, o Passe Livre foi às ruas de São Paulo para ser pisoteado pelo Estado diante das câmeras de TV, que diziam que a culpa dos quebra-quebras era dos vândalos, não do governo. As imagens das atrocidades de São Paulo circularam as redes de TV e os sites de relacionamentos. A raiva foi aumentando em quem lê com criticidade tudo o que vê. E, de repente, o movimento tomou as ruas das principais cidades brasileiras. Os jovens deixaram de ser dóceis. O Rio, a cidade pseudo-maravilha da alegria sem sentido e sem noção, se tornou a capital dos protestos, onde mais pessoas foram às ruas.

            A raiva que tive e tenho da atuação da polícia me fez mudar por completo a minha opinião sobre protestos. Eu comecei “paz e amor” e me tornei, rapidamente, um vândalo convicto, que se sente representado ao ver prédios pixados, bancos quebrados, lixos queimando nas ruas, barricadas montadas e policiais correndo dos manifestantes. A minha subjetividade política foi (re)construída na rua e nos posts de facebook, os quais mostravam as atrocidades de uma governo corrupto e de uma polícia acéfala e militarizada. Eu queria ter a coragem de usar coquetéis molotov. Confesso que não tenho. Mas quem tem, me representa. A violência do quebra-quebra é uma linguagem necessária para se comunicar com um governo que nos oprime diariamente, rindo da nossa cara pelas nossas costas. O Maracanã não é mais do povo, assim como o Rio não é mais dos cariocas (será que um dia foi?). A Alerj, com exceção de Freixo, “a voz que clama no deserto”, não nos representa. Que se foda a Alerj então...

              O que fica em mim de todo esse movimento ocorrido no Brasil das últimas semanas é a esperança que dele saia uma reviravolta na cultura política do brasileiro. Da apatia materializada nos programas dos domingos na TV ou dos gestos mecânicos de apertar as teclas das urnas eletrônicas de dois em dois anos, espero que as pessoas passem a ir às ruas, sem gritos cretinos de “eu sou brasileiro, com muito orgulho e muito amor”, mas com raiva, com disposição de botar o caveirão pra correr. Além disso, eu nunca me senti tão vivo quanto nas últimas duas semanas. Também nunca me senti tão puto, com tanta vontade de gritar a plenos pulmões que esse país me envergonha, não com sua cultura, mas com a sua representatividade tosca, que nunca representou ninguém, exceto as elites que dominam esse país. “Onde há poder, há resistência”, diz Foucault. Resistamos, então. Resistamos no dia-a-dia, no face, nas ruas, nos almoços de família, nas escolas... Desejo que a resistência se torne cultura nesse país...

            E quanto a você, que assina em baixo a truculência da polícia e as desigualdades desse país... Eu tenho pena de você... Foda-se você...

            

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Imagens de uma segunda-feira cinza





Pela janela vejo uma manhã chuvosa de uma segunda-feira meio cinza. Estou com o meu gato, Tom, no colo, o qual resiste em me deixar escrever, pois ele adora morder os meus dedos. Está tudo tranqüilo. Mas não sei se meu dia terminará assim, pois ele também não começou tranquilo. Acordei com o barulho de bombas na minha cabeça e com a sensação de estar sendo perseguido... Acordei com uma raiva e com uma tristeza que não cabiam em mim... Carrego no peito o ódio de quem não tem o direito de dar a sua opinião, de expressar aquilo que sente e que pensa... Ideias no Brasil são motivos para levar balas de borracha pelo corpo... E no protesto de ontem, no Rio, não foram só balas de borracha que foram usadas...

            O medo de estar diante de uma polícia que não tem senso nenhum de cidadania e humanidade é devastador. Só quem viveu isso é quem sabe. Os fardados no nosso país não nos defendem, nos humilham, nos batem, nos expulsam do exercício da cidadania. É na rua que se faz política. Mas no Brasil a rua é um lugar perigoso para quem não anda na linha... E andar na linha aqui é fazer parte de uma ordem que nos fere, nos machuca, nos rouba de forma descarada, ao mesmo tempo que muda, surda, cega... Mas não inconsciente... Pois todos sabem que esse país é sistematicamente saqueado... Uns sabem mais, outros menos, mas todos sabem... O problema é que o saque e a consciência dele fazem parte da ordem brasileira... Lima Barreto já denunciou isso há cem anos... E de lá pra cá a ordem permanece...

            Há quem pregue a ida às ruas com coquetéis molotov. Eu não sei até que ponto eles estão errados, se é que estão. A estética da violência é bela, mas sua beleza é mortal. É bonito para quem está na frente da TV, mas feio para quem respira um gás que te faz chorar, tossir e respirar mal... As pichações e os lixos pegando fogo, os ônibus depredados e os vidros de bancos quebrados são horríveis aos olhos de quem caminha nas ruas, mas belo para quem entende que essas instituições são as que nos destroem de forma imperceptível, pois nós queremos a destruição de nós mesmos. Nascemos num mundo que nos ensina a gostar e a querer sermos explorados... Nós somos feridos e não sentimos a dor... E quando um de nós quebra as amarras, esse um grita, esperneia, mas ninguém ouve... “You shout but no one seems to hear...” As palavras de Waters nunca fizeram tanto sentido pra mim...

            E quem dirá que a violência suja de uma manifestação não é justa? Se ser pacífico não adiantou de nada até agora, porque não destruir os vidros de uma cidade que nos destrói por dentro de nossos espíritos? Ontem, na manifestação do Maracanã, estávamos de joelhos diante da polícia, quando eles começaram a dar tiros e a jogar bombas de gás lacrimogêneo em  cima de nós... Éramos os bonequinhos de fazer rir policiais que, de todo, não têm muito o que fazer... Os fardados do Brasil possuem um senso de ordem sem igual, mas não têm alma, tampouco inteligência... Acham que veem, mas não veem. Acham que ouvem, mas não ouvem... São espantalhos feitos da palha mais suja que há entre as palhas usadas para construir a nossa democracia... A democracia de uma constituição ambígua, confusa e constantemente manipulada a favor do mais forte...

            Hoje é dia de luta, de rua, de cidadania exercitada. Aos moralistas eu dou o meu “foda-se”. Aos estáticos eu sugiro a leitura de Marcuse, Foucault, Adorno, Barreto, Torres, Leminski e companhia... E aos manifestantes eu desejo sorte e, sobretudo, força... Que possamos voltar pra casa com a sensação de dever cumprido, de cidadania exercida, e sem marcas pelo corpo... E aos policiais... Bem, de vocês... Eu tenho pena...

            

sábado, 15 de junho de 2013

Riots



Eu prometi pra mim mesmo que não iria assistir ao vídeo do Arnaldo Jabor falando sobre os protestos em São Paulo e no Rio. Mas depois que vi que tem mais de 40 mil pessoas curtindo a página dedicada e esse cidadão no facebook, resolvi assistir. Antes eu tivesse mantido o meu projeto inicial de não assistir... Mas na vida é preciso dialogar com os idiotas também, né? Então, vamos lá...
Não consigo entender a admiração que muitas pessoas têm por personagens como Jabor e Bial. Há quem se derreta em falar sobre eles, dizendo que se tratam de pessoas muito inteligentes e coisa e tal. Quando eu era moleque eu assistia ao JN com a mesma opinião dessa galera, apesar de não entender patavinas do que o Jabor dizia nos discursos que assistia nessa época.
A impressão que tenho é que todo o mundo que fala meia dúzia de palavras bonitas e de forma (mais ou menos) bem articulada, usando um terno e gravata ou com um óculos estilo "você é a doença e eu sou a cura" (e como os pseudo intelectuais à la Bial gostam desses óculos...) vai ser considerado inteligente, crítico, interessante ou qualquer desses blablablas que a gente ouve por aí...
O fato é que por detrás das palavras enfeitadas de pessoas como Jabor se escondem ideias fracas e, por vezes, desconexas da realidade. De fato os protestos estão sendo marcados pela presença de jovens de classe-média. E daí? A juventude de classe média nesse país é a galera que possui capital cultural e tempo de reflexão e atitude políticas, coisa que a imensa maioria dos trabalhadores adultos brasileiros, subempregados e superexplorados, não possui. 
Eu não estou dizendo que esses jovens de classe-média são os únicos capazes de raciocínio crítico nesse país. Não é nada disso. Em geral o brasileiro é sim um povo crítico, nem de longe bobo e cego como muitos acham. O problema é que a atitude política requer um tempo e um capital que o trabalhador brasileiro em geral não possui. O cara vende o almoço para comprar a janta. E agradece a Deus pelo pão de cada dia... Mal tem tempo pra si mesmo, quem dirá para a coletividade. Protesto para ele é luxo...
É por isso que é a classe média jovem que está indo paras as ruas, puxando os protestos. E eles estão fazendo isso em nome de toda a cidade e de todo o país. Mas é preciso dizer uma coisa: eles não estão totalmente sozinhos. No protesto que fui no Rio na última quinta-feira, eu vi membros de torcidas organizadas de futebol do Vasco e do Flamengo, e também estudantes de colégios estaduais e federais, todos muito populares, muito povão, cada um agindo a seu modo. Em São Paulo a Gaviões da Fiel já está se mobilizando para participar do ato de segunda-feira. Enfim, o movimento é mais complexo do que um boçal como o Jabor pode imaginar...
Não sabemos ao certo o que significa, de fato, essa onda de protestos. O que me parece é que a juventude brasileira, de forma geral, não aguenta mais ver um país manipulado ao bel prazer de uma elite porca, que não possui nenhum tipo de compromisso com o bem comum.
Os cariocas veem estarrecidos a venda da nossa cidade para Eikes Batistas da vida. E a imprensa (com raras exceções) assinando embaixo tudo isso, com terno, gravata, sorriso no rosto e um plim plim nos dentes cínicos de quem constrói e vende a realidade da forma que bem entende, compactuando com os políticos mais sujos e perversos desse país.
E há o terror que a pretensa "fúria" dos manifestantes (ops, vândalos...) causa... Muros pichados, vidros quebrados, trânsito parado e lixos queimados. Os reaças assistem a isso com horror. Mas a violência nossa de cada dia dos hospitais sem equipamentos e médicos suficientes, das escolas sem infraestrutura, do Bope subindo os morros e matando pobres (e, sobretudo, negros), do trânsito infernal das grandes cidades e das enchentes de todos os verões, essas e muitas outras violências não são vistas como tais. No máximo são falhas técnicas, erros institucionais, "coisas que acontecem", mas nunca, nunca são vistas como violência...
E ainda vem o Jabor dizer que não pode ser por causa de R$ 0,20; que a causa dos protestos é a falta de causa; e que os turcos sim têm motivos para reclamar, nós não. Nós estamos muito bem, obrigado, com muito dinheiro no bolso, uma imprensa formidável, um governo que luta por nós e longe de qualquer fundamentalismo religioso (Feliciano e Malafaia são turcos, e não brasileiros...).
Toda essa droga sendo vomitada em horário nobre, por uma emissora que é a única a atingir a todos os cantos desse país. Mostram o quebra-quebra, a turbulência dos protestos, mas não dizem que essa turbulência é a síntese de uma sociedade saqueada por governos comprometidos com elites, e não com a população. Penso ser muito legítimo quebrar os vidros de instituições que querem que a gente se dane, desde que nos mantenhamos vivos para enriquecê-los às nossas custas.
Arnaldo Jabor vale R$ 0,20. Quem concorda com ele vale menos que isso, bem menos. E quem vai para as ruas paralisar o trânsito para esfregar na cara da sociedade os problemas dela mesma vale muito, vale tudo. Vale a vida, vale o país...

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Para além de Cazuza



Pensadores como Foucault e Bourdieu afirmam que a verdade é algo construído, inventado pelo empreendimento humano, sobretudo através do discurso, segundo Foucault. Concordo com essa afirmação. Porém, se por um lado a verdade é uma construção, por outro é preciso notar que há umas construções que são melhores do que outras.
         A questão da verdade veio até mim quando estava assistindo ao programa "Provocações", do Antônio Abujamra. Esse senhor sempre inicia seu programa dizendo que ele, há não sei quantos anos, "exalta a dúvida". É legal termos dúvida, pois assim temos menos chances de sermos escrotos intolerantes. Contudo a dúvida só é positiva quando ela é base para um pensamento crítico e construtivo. A dúvida pela dúvida me parece algo tão idiota quanto o relativismo pelo relativismo. O sujeito eternamente em dúvida é a inércia travestida de pessoa. Uma nulidade, trocando em miúdos. A dúvida é um momento que precisa ser superado para virar uma ação lúcida, crítica e objetiva.
         Tenho para mim que esse país está cheio de imbecis porque os imbecis daqui falam. Eles não têm dúvidas (e muito em função disso são imbecis), são empreendedores e danam a falar cretinices da forma mais convincente possível. Os seres pensantes do Brasil, por outro lado, geralmente não ultrapassam a dúvida. Nadam nela, mergulham nela, a exaltam e assistem ao cretinismo crescer nesse país em cima do muro, comendo pipoca, de camarote, e com alguma revolta.
            Eu tenho um amigo que se define hoje como um cara em cima do muro. Ele é genial, inteligentíssimo, um intelectual de primeira. Uma das coisas que ele coloca para mim é a questão da inexistência da divisão entre direita e esquerda na política atual. Ao mesmo tempo ele afirma que não há sociedade sem divisão de classes, dizendo que "tem que haver pobre e tem que haver rico". Nisso eu percebo duas coisas. A primeira é a de que há direta e esquerda sim na política atual, isso se pensarmos política para além da esfera do Estado. A segunda é que o meu amigo em questão está caindo para o lado da direita. Explico-me.
         Existem dois tipos de verdades: a subjetiva e a objetiva. Ambas se formam através da comunicação entre homem e realidade, como todas as verdades humanas se formam. Porém a verdade subjetiva é desconexa da realidade, apesar de ter nela a sua base. Penso aqui nos meus amigos leninistas, que acreditam na revolução guiada pela "vanguarda do proletariado" num mundo onde não cabe esse tipo de sonho (na verdade nunca coube). A verdade objetiva, por outro lado, é aquela que reproduz, nua e cruamente, a realidade do que jeito que ela é, sem criticá-la, numa resignação (ou prazer) quase cristão. Penso aqui nos meus amigos liberais, que afirmam, triunfantes, ser impensável uma sociedade sem capitalismo, pois este é real, é o que há, o que vemos, o que as pessoas e os países reproduzem.
        A verdade objetiva do liberalismo, contudo, se faz vitoriosa nas suas argumentações porque ela é medíocre. Se limita a afirmar o que existe, justificando a essência do sistema capitalista, a saber, a competitividade, o individualismo e a aguda desigualdade social. Os discursos do liberalismo, no entanto, não deixam de ser subjetivos e ilusórios, tão infantis quanto os discursos dos marxistas toscos. Isso porque eles se esquecem de um fato sociológico básico: o de que os homens são construtores de sua própria realidade. São limitados, pois expressam a objetividade da realidade social em seus discursos subjetivos, mesmo que o façam de forma rebuscada.
            A minha definição de direita e esquerda parte desse fato. O pensamento de direita (lúcido ou tosco) é a expressão da realidade objetiva. A esquerda (lúcida ou tosca) é a vontade de transformação da realidade, uma visão crítica do que se vê e uma proposta de mudança. Tanto um quanto o outro são pensamentos iludidos, verdades construídas. Mas a ilusão melhor construída, a arquitetura intelectual mais bela é a esquerda. Entre um gole de uísque a base de risadas cortesãs e um coquetel molotov, eu fico com o segundo. Se é para ser iludido, que sejamos iludidos com estilo e caráter.
            É do lado do uísque que o meu amigo está quando ele fala que tem que ter pobre e rico, mesmo que ele não queira. Eu respeito a posição dele. Mas gostaria que os liberais tivessem coerência com as suas próprias ideias. Se eles acreditam na permanência da desigualdade, que ela se mantenha pelo mérito pessoal do empreendedor capitalista; que a riqueza venha através da inovação, do empreendedorismo, do "espírito animal" do capitalismo, e não da exploração desumana da mão de obra alheia. Digo isso porque o argumento liberal na sua ilusão objetiva acaba por legitimar de forma sofisticada as atrocidades que o capitalismo faz com a natureza e com as pessoas.
            Não que eu acredite num sistema social perfeito, na revolução. Já disse aqui em outro texto que essa não é, nem de longe, a minha praia. Só penso que ficar em cima do muro nesse debate é se posicionar a favor do mais forte. Enquanto houver capitalismo, haverá direita. E enquanto houver quem queira acabar com ele, mesmo que de forma bisonha, haverá esquerda, dentro ou fora do Estado.