quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Volta ao mundo





Sábado partirei para uma viagem pela América do Sul. Na verdade será uma viagem na qual eu passarei pelo Uruguai, Argentina, Chile e Paraguai, nessa ordem. Estou animado, pois essa será a primeira vez que eu faço um mochilão por outros países. Será minha primeira viagem ao exterior, minha primeira viagem de avião e minha primeira saída do estado do Rio de Janeiro. A minha vida toda passei dentro da região metropolitana do Rio, mas precisamente em Duque de Caxias, minha terra natal. Conhecer outros países, sair do lugar no qual vivi minha vida toda é algo que me excita, ao mesmo tempo em que me deixa meio que com medo. Esse mundo é muito vasto, como diria Drumond, e toda essa vastidão me assusta. Tenho a impressão que o homem moderno, se é que ele realmente existe, vive fragmentado em várias opções de caminhos a serem seguidos. O problema, ou a solução do problema, é que nenhum desses caminhos devem ser obrigatorimanete seguidos. Para vivermos basta darmos o primeiro passo que poderá nos levar a um lugar foda, ou ao inferno, ou a lugar algum ou ao ponto do qual partimos. E tudo isso fica muito nítido quando andamos pela cidade e vemos a diversidade de pessoas e de linguagens que pode existir num mesmo espaço. Nem acho que o Rio de Janeiro seja uma cidade cosmopolita. Caxias certamente não é, mas o Rio é a mistura do podre com o belo espalhado numa sopa confusa e fedorenta e com uma embalagem escrita "cidade maravilhosa". E dentro disso tudo é fortemente sentido um cheiro de tradicionalismo muito profundo no modo de pensar das pessoas. Resumindo: carioca não é um tipo de pessoa doido, malucão, porra louca. É um conservador travestido disso tudo. O Rio me dá náuseas. E é por isso que eu estou muito empolgado com essa minha viagem por esses países latino-americanos, pois penso que agora finalmente eu verei coisas diferentes, sentirei o gozo e o medo da modernidade e da multiplicidade de coisas que ela traz. 

Mas é nessa hora que me lembro das palavras de um amigo meu autor de um blog já extinto. Ele disse em certa ocasião que quando viajamos levamos conosco os problemas e os dilemas que estão instalados em nós. Viajar pode mudar a nossa sorte e o nosso estado de espírito, mas não apagará marcas que o passado nos deixou. E o passado tem deixado marcas cruéis em mim. Fico impressionado como existem pessoas que passam pelas nossas vidas com a habilidade de deixar rastros de perversidade e mágoas. E é incrível como que os papéis se invertem. Às vezes nós somos as vítimas, enquanto noutras somos os assassinos. Digo isso porque eu já deixei marcas, rastros ruins em pessoas as quais amei e amo muito. E hoje sou eu quem está nessa posição de soldado em fim de guerra, marcado por memórias tristes e pelo cansaço de batalhas perdidas. Estou de saco cheio de tudo. De tudo, mas não de todos. Tenho amigos queridos, tenho uma família que, apesar de ser bem diferente de mim, é a minha família que sempre esteve ao meu lado, muito embora não da forma que eu gostaria. E tenho o carinho dos meus alunos, os quais com o afeto  que lhes são particular me fazem continuar a querer ser professor, pois são eles quem me fazem professor. Enfim, as últimas batalhas que enfrentei me deixaram meio que sem graça. Mas há pessoas que me cercam  e que me inundam de um amor meio raro nos tempos de hoje. O amor que tenho recebido de pessoas queridas por mim tem funcionado como um curativo das granadas que recebi em 2010. E essas granadas não foram poucas, e desde a minha infância não têm sido poucas. Já que a vida é assim, que venham, então, as granadas. Mas que venham também na mesma proporção o amor com o qual pessoas queridas me cercaram nesse ano. 

Parto em breve e retorno bem, se Deus quiser. Tentarei mandar notícias inúteis de uma viagem fantástica. Sinto que a América do Sul ficará pequena. Que fique então...

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Existir



Os poucos leitores do meu blog sabem que eu adoro fumar. O fumo é pra mim um prazer indescritível e incontrolável. Acho que têm mais textos falando sobre cigarro nesse blog do que sobre amor ou qualquer outra coisa. A senhorita Lispector certa vez disse, após ouvir as recomendações de um médico para que parasse de fumar, a seguinte frase: "Mas como posso deixar de fumar? O calor humano é tão parco... eu fumo então." O meu cigarro é o meu melhor amigo, como penso que ele também o era para Clarice Lispector. Mas o que me levou a fumar inicialmente foi a estética. Os movimentos inerentes ao cigarro, o ir e vir das mãos de um fumante, o leve inclinar da cabeça no momento em que a fumaça do cigarro sai da boca... Sempre achei toda essa vida que só os movimentos de um fumante têm genial, única, belíssima. Certa vez vi uma menina numa lanchonete fumando um Camel enquanto lia um livro. Ela era magra, cabelos lisos e castanhos, pele alva, olhos sérios, indefinidos, puros mistérios. Quase enlouqueci... Há coisa mais atraente numa mulher do que vê-la assim, dessa forma em que vi essa menina nessa lanchonete? Sou dos que acham que uma mulher deve se dar ao respeito. E pra se ter respeito, as mulheres devem, antes de qualquer coisa, ter atitude, postura, pois há momentos na vida, e eles não são poucos, que o que nos restam são as nossas atitudes, puras e simples. E para se ter atitude com o fim do respeito, é indispensável a uma mulher acender um cigarro. 

A despeito disso, ando muito triste com a seriedade com a qual meus amigos têm insistido para eu parar de fumar. Não estou triste com eles, lógico que não. Estou triste com a razão deles. Quando um amigo meu diz que eu vou me fuder se continuar fumando eu fico triste porque ele tem razão. E, pra piorar a minha desgraça, uma conhecida minha morreu ontém, dia 6 de dezembro de 2010, vítima do cigarro. Tá certo que ela já era idosa, mas ouvi dizer que o câncer dela foi provocado pelo cigarro, começou no pulmão e se espalhou pelo corpo todo, chegando até o cérebro. Minha mãe me contou com detalhes isso que lhes conto agora, meus leitores. E confesso que fiquei apavorado. 

O que me apavora não é o cigarro nem os males que ele causa. O que me apavora é a vida. É impressionante como a vida é absurda, como a gente tem de se prevenir contra inúmeros males físicos possíveis de abater o corpo humano. Transar sem camisinha pode levar a AIDS, dentre outras doenças ( e como é ruim transar com camisinha...). Beber pode levar a cirrose. Ouvir música no último volume com o fone do celular pode levar a perda gradativa da audição. Ser professor pode desencadear problemas psicológicos ligados ao absurdo que nós professores estamos condenados a lidar somente por sermos quem queremos e gostamos de ser. Comer determinados tipos de alimentos pode causar problemas de estômago. Beber coisas com corante amarelo e vermelho causa câncer. Coca-Cola causa problema nos ossos. Enfim, viver mata. Ser feliz mata. Ser você mata.

É por isso que me sinto obrigado a concordar com o horrível Cazuza. Digo horrível porque vejo os intelectuais brasileiros encherem a bola dele chamando-o de "o poeta". Porra nenhuma. Cazuaza foi mais um insuportável burguês carioca a participar dessa coisa fétida e idiota que convenciou-se chamar de MPB. Foi mais um playboy da Zona Sul com um violãozinho no colo e que se pôs a cantar o céu, o amor, as ondas do mar... Enfim, merda. Mas uma coisa ele disse que não só é verdade como me obrigou a bater palmas para ele: "O meu prazer virou risco de vida..." E é exatemente assim que me sinto quando abro o meu maço diário de cigarros para fumar e me perder na fumaça dele. Me sinto com prazer e medo de viver. Me sinto corajoso e acuado ao mesmo tempo. Me sinto livre e escravo, senhor e servo, patrício e plebeu...

Viver é foda. Eu só queria viver sem medo, morrer velhinho fazendo tudo aquilo que eu mais gostei de fazer ao longo de toda a vida. Eu só queria viver com prazer nas coisas que faço, pura e simplesmente. Não quero morrer aos 40 alojado numa sala qualquer do Hospital do Câncer. Só queria e quero e sempre vou querer viver...

domingo, 5 de dezembro de 2010

O cigarro





Parecia que ia ser um dia comum, com sensações e sentimentos corriqueiros, típicos da vida comum que se leva nas cidades por esse mundo afora. Tinha acabado de sair do trabalho quando resolvi passar na loja de uns amigos para bater um papo, matar um pouco a saudade das pessoas que as obrigações da vida adulta afastam de nós.

Logo que toquei a campainha, percebi que lá dentro tocava uma música de Etta James. Logo abri um sorriso de satisfação. Como é bom escutar uma música de jazz depois de um dia cansativo e chato. É como se fosse um parêntese, uma licença dentro do inferno, um gole de cerveja debaixo de um sol escaldante. Zeca e Théo sempre faziam as coisas desse jeito: final de expediente, música, cerveja e cigarro. Era bom revê-los nesse dia. Era uma terça-feira de novembro em Duque de Caxias. Caxias ficava apocalíptica em novembro de tanta gente na rua, de tanto caos e calor.

De repente a porta abre e aparece Théo. - Grande Cezão. Esqueceu dos amigos pobres? - Porra, tô rico pra caralho dando aulas de filosofia pra adolescentes, respondi. Com um sorriso aberto e um abraço apertado, Théo me cumprimentou e, logo em seguida, virou pro interior da loja e gritou: - Olha aqui quem chegou, Zeca.

Zeca tinha um corpo de ogro. Gordo, meio careca e com os dentes amarelados, ele abriu aquele sorriso típico dele, quase paterno. Me abraçou com força e disse que estava com saudades. Lembro que ele lacrimejou quando me olhou pela segunda vez. É incrível como no meio de 6 bilhões de seres humanos tão poucos se importam realmente com a gente. Théo e Zeca eram parceiros meus e um dos poucos que realmente se importavam comigo.

Assim que eu entrei na loja a música mudou. Começou a tocar "Pra te lembrar", de Caetano Veloso. Essa música me fazia lembrar de Maria, um antigo amor da minha vida, meu único amor pra falar a verdade. Zeca e Théo sabiam disso. Foram eles que ficaram do meu lado no momento da separação. Logo quando a guitarrinha da música começou a tocar, Zecão olhou pra mim com um sorriso amigo, como quem queria dizer "Calma, cara. A vida é assim mesmo..."  Passado esse momento inicial de dor, a música começou a soar no meu espírito como arte, como uma massagem na alma. O clima ficou bom...

Entrei na última sala da loja. Sentamos e começamos a conversar sobre a vida. Todas as vezes em que faço isso, fico impressionado com o quanto que a vida às vezes parece um script, algo já pré-definido, pois ela se repete em suas múltiplas facetas  nas vidas de todos nós: corações partidos, amores perdidos, traições, amizades, copos de cerveja, arrependimentos, uma música que traz recordações, momentos eternos... Quem não tem parte disso ou isso tudo dentro de si, que atire a primeira pedra. Ou, melhor dizendo, quem não tem nada disso para contar, eu realmente sinto pena dessa pessoa, pois ela nada viveu na vida. Pensava nisso enquanto o Zeca me contava a última decepção que ele havia tido com pessoas as quais ele considerava amigas. Théo me falou depois da dificuldade que ele tava tendo pra sustentar a sua filha, que o monento na loja não era dos melhores para ele o pr'o Zeca... E eu falei sobre o que era ser professor num país que cospe na educação diariamente. Falei da saudade que sentia de Maria, da dor que era não ter mais notícias dela, do último amor casual que tive nos últimos tempos... Entre risos e olhares preocupados, íamos conversando eu, Théo e Zeca. E como era bom tê-los comigo para dividir a minha vida...

De repente Zeca pegou um cigarro. Era um cigarro pra nós três. A conversa continuava e dessa vez falávamos sobre mulheres. Esse assunto já estava me dando nos nervos nos últimos tempos, pois só tinha passado por experiências nessa área que mais pareciam um soco na minha cara do que com qualquer outra coisa. Zeca deu uma tragada no cigarro e passou pr'o Théo. Enquanto isso Zeca começou a falar de sua ex-mulher, que tinha feito uma escrotice enorme com ele na semana anterior. Théo passou o cigarro pra mim depois de três tragos que ele tinha dado. Enquanto eu sentia a fumaça do cigarro penetrar nos meus pulmões, puxei um papo sobre futebol. O fluminense tinha acabado de ser campeão brasileiro. Que lixo, um time de playboy, de patricinhas, com uma história medíocre campeão do Brasil. Ainda tinham a petulância de dizer que eram tri-campeões. Aonde, se o título de 1970 não era campeonato brasileiro? Foi aí que dei a minha terceira tragada no cigarro e o passei novamente para o Zeca.

O tempo foi passando e os assuntos iam variando, até que chegou um momento em que eu não sabia mais do que tínhamos falado ou não tínhamos falado. Sentia minha cabeça suspensa no ar. Na verdade não era a minha cabeça que estava suspensa, mas os meus pensamentos. Do centro do meu cérebro comecei a sentir que havia algo como um feixe de energia que irradiava luz dentro do meu corpo, e parecia que cada raio de luz era uma estrela com o poder de me suspender da realidade. Zeca tentou falar algo comigo. Eu tentei prestar a atenção, me esforcei, mas não consegui. Théo teve que repetir o que Zeca já tinha falado duas vezes. Houve um momento em que achei que Théo estava falando coisas nada a ver. Na verdade eu já não sabia mais o que tinha a ver e o que não tinha a ver com a conversa. Não estava mais na loja do Zeca e do Théo, nem estava mais em lugar algum. Estava numa realidade na qual a realidade em que eu vivia não existia, nada existia, nem mesmo Maria. Estava num mundo a parte. Não sabia dizer se isso era ruim ou bom, mas estava gostando daquilo. Nunca havia sentido isso antes. E não queria parar de sentir. Estava de saco cheio de tudo na minha vida e achei que aquela era a hora de desaparecer. Comecei a ficar meio constrangido, pois sou o tipo de pessoa que sente uma obrigação absurda em corresponder a presença de alguém que se encontra no mesmo recinto que eu. Eu não estava mais falando com Théo nem com Zeca fazia uns vinte minutos. Foi aí que virei pr'o Zeca e disse que ele deveria virar um doutor da alegria e trabalhar com criancinhas com câncer. Ele havia me dito uma vez que ele queria trabalhar com crianças um dia, então achei que seria legal dizer isso a ele. Ele me disse, porra, mas eu não sou médico. Fiquei meio sem saber o que falar. - Mas não precisa ser médico. Precisa não. Sei lá, acho que não. Não sei... Precisa não. Me calei de novo. Tentava voltar a mim mas não conseguia. Tentava pelo Zeca e pelo Théo, não por mim. Nem sei se o Zeca e o Théo estavam nas realidades deles. Acho que teve uma hora em que ouvi o Zeca falar sobre pinicos. Pensei, "Deus, o que leva um ser humano a falar sobre pinicos? Acho que o Zeca não está bem."

Peguei a minha pasta, me despedi deles e fui embora. Peguei o ônibus para ir pra minha casa. O ônibus era desconfortável que só a porra, mas eu dormi nele o sono dos justos. Nem senti o caminho até o Centro do Rio. Só me lembro que tinha momentos nos quais eu achava que as pessoas estavam constrangidas em sentar ao meu lado no ônibus. Acho que algumas chegaram a sentar e depois mudaram de lugar. Acho que eu estava fazendo caretas enquanto dormia, pois me lembro vagamente de ter feito caretas enquanto dormia.  Quando menos vi, já estava na rodoviária, super cansado e feliz por ter chegado em casa. Da rodoviária pra minha casa eram dez minutos, que me pareceram dez dias nesse momento. Quando cheguei em casa, preparei rapidamente sanduíches de alguma coisa, acho que de presunto. Devorei uns três. Depois fui dormir. Deixei a janela do quarto aberta, pois estava fora da realidade, estava em outra realidade, que não a do Rio. O vento da rua batia no meu peito e no meu rosto enquanto eu dormia. Não sei se tirei a roupa pra dormir. Só sei dizer que dormi bem, nem feliz nem triste. Somente bem...