
Humberto Gessinger, vocalista e
baixista da banda Engenheiros do Hawaii, tem várias frases certeiras em suas
críticas, apesar de serem obscuras na sua forma. Uma dessas frases tem vindo à
minha cabeça constantemente nos últimos dias. Trata-se de dois versos da letra
de "Cidade em chamas", uma das faixas do melhor disco da banda
gaúcha, "Ouça o que eu digo, não ouça ninguém". A referida frase é
composta pelos versos seguintes: "Eu sei que eles têm razão/Mas a razão é
só o que eles têm".
Minha
mente gira em torno dessas palavras ultimamente, pois esses protestos que estão
deixando a sua marca no cotidiano da cidade do Rio de Janeiro, assim como em
sua história, divide as opiniões sobre eles lançadas em basicamente dois lados:
os que defendem o ideal de democracia moderna, o qual podemos denominar de
democracia liberal; e os que defendem uma mudança na ordem social, numa luta
contra o sistema capitalista. Esses últimos são chamados genericamente de
esquerda, para alguns radical, para outros revolucionária e delirante na visão
de uma outra galera. Nela se misturam anarquistas, socialistas das mais
variadas correntes e movimentos sociais diversos, todos questionando a ordem
social vigente, cada um a seu modo.
Olhando
essa dicotomia de longe, parece que ela divide lúcidos (a direita) dos
sonhadores (a esquerda). Essa é a impressão que a própria estética dessa
dicotomia passa. O discurso liberal é convincente, bem amarrado, difícil de desconstruir.
O discurso da esquerda é muito mais fragmentado, de difícil elaboração,
recebendo como tempero os cassetetes da polícia quando esse mesmo discurso
resolve tomar as ruas. De um lado direitistas cheios de razão, sentados em suas
poltronas, sem um pingo de spray de pimenta nos olhos. Do outro um bando de
jovens gritando, roucos, palavras de ordem, muitas das quais difusas. A partir
desse cenário, fica fácil deduzir que a razão está com o primeiro grupo. Mas
ironicamente há uma razão para isso.
A
filosofia liberal, de acordo com Merquior, surge no momento no qual o
capitalismo está se estabelecendo como sistema social predominante na Europa,
isto é, durante a Revolução Francesa e as revoluções industriais, as quais,
como sabemos, alteraram profundamente a sociedade europeia dos séculos XVIII e
XIX. O liberalismo é uma interpretação da realidade a partir dos princípios
lançados pela própria realidade a qual eles pensam. Para ficarmos somente com
um exemplo, enquanto o mercado estava se impondo como poder máximo da nova
ordem social, Adam Smith estava tentando nos covencer de que a "mão invisível"
do mercado controlava suficientemente bem a sociedade, cabendo, portanto, ao
Estado a mínima intervenção possível nela.
Já
a esquerda se levanta desde sempre na tentativa de questionar a própria
essência da sociedade capitalista. Uns fazem isso de forma profundamente
bisonha, acreditando que uma revolução se fará através de uma vanguarda de
revolucionários, a qual consiste num punhado de crentes de alguma ideologia
esquerdista. Outros o fazem elaborando críticas e ações mais consistentes,
inclusive tentando usar elementos da própria ordem política para subvertê-la,
formando partidos políticos, por exemplo. De qualquer forma, ser esquerda
representa questionar a estrutura de uma sociedade organizada em torno do
dinheiro, da produtividade e do "progresso", em nome dos quais a
riqueza mundial é produzida e a natureza e a vida humana são devastadas. Pois é
essa a ordem na qual vivemos. Nasça, cresça, estude, trabalhe feito louco, não
se informe o suficiente, não saia da linha, se alimente mal, respire um ar
poluído e morra de câncer, ganhando uma aposentadoria ínfima, caso você a
consiga.
O
pior é que os liberais têm razão em muitas de suas afirmações. De fato, o que
adianta irmos às ruas se a ordem que questionamos é fruto de um processo de
formação cultural que levou décadas para se estabelecer, e que não irá acabar
com alguns milhares de pessoas se manifestando contra ela? Essa é a hora que
eles dão um riso irônico para nós e dizem que já foram iludidos como nós, e que
hoje são lúcidos, enquanto nós somos "imbecis coletivos". Contudo a
razão liberal é fruto do limite intelectual do próprio liberalismo, que é, como
disse, pensar a sociedade dentro das cadeias que ela nos impõe. Diante desse
tipo de pensamento, é fácil cair no ridículo se você defende o fim do
consumismo, do desperdício, do controle internacional por grandes bancos e
empresas, da relação nefasta entre governos e grandes empresários e banqueiros,
da exploração intensa e desumana da mão de obra nas fábricas, indústrias e lojas
e das desigualdades sociais em seus múltiplos aspectos, a começar pelo
econômico.
Quanto
a mim, eu penso que vivemos numa ordem podre, na qual ser humano implica perder
a sua própria humanidade, como bem falou Marx. A nossa civilização é baseada em
princípios violentos, e mesmo quem se enquadra nela parece não se satisfazer
com ela. Se assim não fosse, os livros de autoajuda não seriam tão vendidos e
os analistas não teriam tantos clientes. De qualquer forma eu prefiro ir às
ruas e ser rebelde, mesmo que isso, no fim das contas, seja inútil (o que eu
não acho que seja) a simplesmente ser dócil nesse sistema, ou, pior, ser neutro
e optar, assim, pelo mais forte. Acabo por virar um alvo fácil de ironias de
pessoas que, estando do lado de lá, olham passivamente para nós tomando bombas
e tiros de borracha na cara, enquanto eles, os racionais, dizem de forma taxativa
que não adianta insistirmos, pois no final a ordem prevalecerá.
E
vai prevalecer. Mas não com a minha obediência. Quem pensa com a ordem tem
razão. "Mas razão é só o que eles têm"... Continuemos na luta.
Desobedecer é preciso... E fundamental para viver...
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