![]() |
| Cena do filme "Boa noite, e boa sorte" de Geroge Clooney |
Eu poderia começar esse post com um texto que falasse sobre qualquer outro assunto: política, literatura, cinema, teatro... Mas começo o meu querido post escrevendo sobre um outro elemento também querido e já há muito estimado por mim: o cigarro!
Todo o mundo reclama de fumantes. Todos, é claro, menos os próprios fumantes. “Você vai morrer!” “Para com isso, pelo amor de Deus.” “Você está se matando...” As frases de indignação são infinitas, e uma é mais chata do que a outra. Mas não foram essas frases que me fizeram escrever esse post, pois a maioria das pessoas que me diz isso me ama e se preocupa comigo de verdade. Então, não escreveria nada para ironizar ou criticar esse tipo de colocação. O que me fez escrever esse post é a febre de anti-tabagismo que vem assolando o Brasil (e, me parece, grande parte do mundo ocidental).
Já perdi as contas de quantas vezes vi programas de Tv se dedicando somente a elucidar os males causados pelo cigarro à saúde humana. Se você digitar no google a frase “males causados a saúde”, você verá inúmeros sites que são dedicados especificamente ao cigarro e aos problemas que ele traz à saúde. Isso sem contar as propagandas da televisão. Mas o pior são os avisos do Ministério da Saúde brasileiro nas caixinhas de cigarro que nós, pobres fumantes, compramos semanalmente. Esses avisos são acompanhados de imagens de fumantes no hospital à beira da morte, de bebês espontaneamente abortados por causa do vício da mãe, um homem jovem olhando desesperado para o seu impotente órgão genital, que o deixou na mão justo na hora “H”, dentre outras bizarrices, que constituem um verdadeiro terrorismo psicológico para os fumantes.
É um prazer comprar um maço de cigarros, abri-lo, dar aquela cheiradinha neles antes de tirar um para, finalmente, depois desse pequeno ritual, fumar um cigarrinho ao ar livre, pensando na vida, ou não pensando em absolutamente nada, simplesmente existindo, entre uma baforada e outra. Mas esse prazer se transforma, momentaneamente, em um verdadeiro suplício para os fumantes. Eu fico horrorizado com aquelas propagandas anti-tabagistas. Me faz mal, me deixa muito preocupado. Mas rapidamente eu as ignoro e começo a fumar.
Mas a questão é: porque isso tudo contra o cigarro? Não estamos numa sociedade livre, onde a comercialização das coisas deve ser feita sem sentimento nenhum de culpa, nem por parte do vendedor, muito menos por parte do comprador? Mas o pior é a seguinte questão: numa sociedade ultra-capitalista e industrial, como é a sociedade contemporânea, não temos a menor idéia sobre os processos produtivos que estão por trás dos elementos alimentícios que compramos. Isso porque, diante de tantos avanços tecnológicos e do surgimento de grandes cidades, características marcantes e únicas das sociedades capitalistas pós-Século XIX, o conhecimento passou a ser algo muito específico e penoso para ser adquirido. Alguém aqui saca alguma coisa de química? Quem é que tem consciência da composição química do miojo, do refresco de laranja da Tang, da Coca-Cola, do arroz, do feijão, do tomate? Numa sociedade industrial, quase tudo que compramos para nos alimentarmos passa pela indústria para receber uma série de elementos químicos que surtem uma outra série de efeitos para variados fins, principalmente para a conservação dos alimentos para os mesmos não estragarem antes de serem vendidos. Então, numa sociedade materialista como a nossa, onde “tempo é dinheiro”, quase tudo é artificial. E vai pra nossa barriga.
Aí fica a pergunta: porque nas garrafas de Coca-Cola não vêm uma imagem de alguém morrendo acompanhada de um texto enumerando todos os elementos químicos que fazem parte desse refrigerante e que fazem mal à saúde humana? Porque a mesma coisa não é feita na caixinha de leite, no todynho, no ki-suco, no saco de arroz, de feijão e por aí vai? Só o cigarro causa males à saúde?
Diante dessa verdadeira demagogia e palhaçada, eu resolvi falar sobre o que o cigarro representa para mim. Cigarro não resolve os problemas de ninguém. Nunca fumei pensando que isso resolveria os problemas que tenho de enfrentar enquanto adulto. Falo isso porque esse constitui o pior argumento dos guerreiros anti-tabagistas que me cercam. “Porque você fuma? Isso resolve os seus problemas?” Não, sua anta estúpida, eu não fumo para resolver problemas. Antes de o cigarro virar um prazer para mim ele era pura estética. Comecei a fumar por ver os outros fumando e achar bonito. E ponto. Depois sim o cigarro virou um prazer para mim. E, a partir daí, o cigarro virou o que ele é para mim até hoje e será até o dia do meu enfisema pulmonar: o meu melhor amigo.
A qualquer momento, em qualquer hora e por um preço tão caro quanto as passagens de ônibus desse país patético em que vivemos, o cigarro está aqui, no meu bolso, pronto para ouvir o meu silêncio. Amigos se cansam de ouvir sobre as nossas ideias e problemas. Meus parentes vivem um cristianismo medieval onde tudo é explicado e resolvido se obedecermos e orarmos a Deus. Para eles não há espaço para criatividade e idiossincrasias: cala a boca, peça perdão e obedeça. Heil Jesus! Terapeutas, em sua maioria, são pagos para fazer a gente se sentir bem com a gente mesmo, independente do que o ser humano que está por trás do terapeuta acha realmente do que nós somos. Os livros de auto-ajuda são a mesma coisa, mas com um colorido bem diferente: neles sempre somos fortes, felizes, guerreiros, saudáveis. Só nós não percebemos isso antes. Daí vem um escritor e diz isso tudo para a gente, publica, põe no shopping para vender e todo mundo sai feliz ao ser convencido de que é feliz e forte, apesar de ser velho, brocha, divorciado, doente, sozinho e com uma aposentadoria pífia.
O meu cigarro nunca tentou me convencer de que sou o que não sou, de que não cometi os erros que cometi, de que não perdi as coisas que perdi na vida, de que sou foda quando não passo de um rapaz de 24 anos, professor de sociologia da rede pública e privada, ganho pouco e mal tenho dinheiro para realizar planos que considero essenciais na minha vida, como comprar um carro e uma casa. Toda vez que eu abro meu maço de cigarros eles, os cigarros, não me dizem nada. Enquanto a fumaça entre pela minha boca, passa pela minha garganta, chega nos meus pulmões para depois fazer o caminho inverso, eu sinto o gosto do cigarro e, paralelo ao prazer que isso em si mesmo me dá, eu vou pensando e repensando a vida e tudo que nela há. Aos poucos eu vou tomando consciência de mim mesmo, lembrando e relembrando o tempo presente e o tempo passado, e descobrindo que eles, na verdade, são um só. Nesses momentos eu me reconstruo e, às vezes, depois que termino o cigarro, vou dormir triste comigo mesmo e com a vida. Outras vezes durmo, não feliz, mas conformado. Em outras ainda durmo indiferente, convencido de que a vida é um mistério e a sabedoria, muitas vezes, só nos chega quando não precisamos mais dela, como dizia o prolixo Gabriel Garcia Marques.
O cigarro é, enfim, um amigão. Um amigo silencioso e que me mata aos poucos, sem que eu perceba. Assim como as pessoas... Assim como a vida...
Denis de Barros
Denis de Barros


