
Quando criança, fui muito feliz.
Não porque a felicidade seja inerente à infância. Em muitos lugares as crianças
não existem. A própria infância é uma categoria muito recente na história
ocidental. Eu fui feliz porque fui, porque sentia em mim uma alegria genuína,
profunda, aquela alegria que vê esperança em tudo. A alegria da jovem e bela
Natasha, de Tolstoi. A alegria de quem acredita que tudo está em seu devido
lugar. Que tudo é belo em si mesmo, e que irá ficar cada vez melhor. Um sábado
me trazia alegria. A chegada do meu pai do trabalho me trazia alegria. Um
brinquedo, uma tarde jogando bola, um encontro com os colegas de minha idade.
Tudo isso tinha, em si mesmo, uma razão para me deixar muito feliz, muito
satisfeito com a vida.
Parece que os anos levaram a
minha capacidade de sonhar. A beleza foi se distanciando de mim como as pessoas
se distanciavam dos leprosos nos tempos de Cristo. O fluxo dos meus sentimentos
foram, aos poucos, sendo repreendidos em mim, alguns taxados como loucura,
outros como impossibilidade, e outros, ainda, como total e profunda
incompreensão. O tempo trouxe o trabalho compulsório, a pouca remuneração, a
necessidade imposta de sobrevivência, o desejo de ter o que, agora, não se pode
ter. De viajar, de morar, de conhecer, de se tranquilizar. Por detrás de cada
um desses verbos, há uma quantia alta a ser paga. A mim não cabia seguir o meu
coração e vencer distraído, como dizia o poeta Leminski. Distraído perdi o trem
que levou com ele a minha esperança e a calma para a busca de uma vida
melhor...
Tento ser a resistência num mundo
que não admite rebeldes. A calma de quem, de uma forma ou de outra, está em
conformidade com o poder hegemônico, diz para eu ter calma e tranquilidade,
pois a vida é assim mesmo. A sociedade não foi construída por ninguém, de fato.
Ela não foi fruto de um plano pensado, muito embora ela seja, hoje, controlada
por poucos, os quais, entendo, são a fonte do poder do "compre",
"trabalhe", "estude", "durma",
"acorde", "tome café", "saia", "recarregue",
"retorne". A fonte de um poder cuja base somos todos nós, que
seguimos, de um jeito ou de outro, os rumos da história. "Onde há poder,
há resistência", disse Foucault. Mas há quem tenha mais poder, sem dúvida.
E há quem perca a vontade de sonhar...
A pedra rolou novamente para os
pés da montanha. E Sísifo olha para ela hoje, distante, sabendo que a pedra
precisa ser posta novamente no topo desse assombroso morro que é a eternidade. Mas
ele perdeu totalmente a vontade de descer e subir a montanha novamente. Sísifo
está mais do que extenuado. Ele está neutralizado por uma vida que, em sua
cabeça (e em si mesma?), não faz o menor sentido. Seu espírito não grita nada
dentro de si. Quem o vê de longe pensa que ele sequer tem espírito. Até ele se
pergunta, agora, onde foi parar o ser que sempre houve dentro de si. A luz se
foi, ao que tudo indica. E a montanha se metamorfoseou em Medusa, petrificando
Sísifo. Petrificando a mim...