segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Medo. Angústia.



Sou professor de sociologia da Educação Básica (ensinos fundamental e médio) desde 2009. No início era péssimo professor. Não tinha ideia de como preparar uma aula, tampouco de como desenvolver um tema sociológico com os meus alunos. Sinto uma certa dó dos primeiros bacuris que se sentaram numa sala de aula diante de minha pessoa. Os coitados devem ter sofrido um bocado, muito embora alguns dissessem, de vez em quando, que gostavam de mim.

Com o tempo acabei pegando o jeito da coisa. Não que hoje as minhas aulas sejam fantásticas. Ainda tenho muito o que aprender. Sempre serei um professor incompleto. Mas acabei por conseguir desenvolver planos de curso mais elaborados e criativos, assim como aulas melhor estruturadas. Tenho enriquecido a minha visão sobre a escola, a qual deixou de ser reprodutora para ser profundamente crítica e libertária.

Hoje me considero um professor de relativo sucesso. Muitos alunos gostam de mim e das minhas aulas. Canso de ouvir deles que as minhas aulas eram as únicas "que valiam a pena". Alguns chegam a dizer "professor, hoje só vim porque é a sua aula". Esse tipo de elogio me traz um misto de satisfação e preocupação. Satisfação óbvia, pois é uma demonstração de carinho com o meu trabalho e a minha pessoa. Preocupação em relação à escola como um todo. Se o aluno acha que somente a minha aula vale a pena, o que há de errado com a educação de nosso Estado?

Questões espinhosas a parte, eu tomei um belo balde de água fria ao conversar com um amigo dia desses. Através desse amigo - professor de sociologia como eu - fiquei sabendo que um conhecido professor do bairro onde moro e trabalho havia sido, na juventude, um profissional admirado e querido pelos seus alunos, como sou hoje. Com o passar dos anos, contudo, ele havia se tornado um professor distante, grosso, arrogante e saturado em dar aula na rede pública estadual de ensino.

Ao ouvir isso tive medo. Comecei a me perguntar até quando conseguiria aguentar as péssimas condições de trabalho nas quais sou obrigado a exercer o magistério na rede pública de ensino do Estado do Rio. Tenho hoje uma enxurrada de turmas, o que implica uma enxurrada de alunos e de diários. Como professor de sociologia eu tenho um tempo de aula por semana (isso mesmo, um tempo de aula por semana) em turmas de 1º e 2º ano, e dois tempos em turmas de 3º ano. Eu tenho turmas que chegam a mais de 40 alunos. Mesmo com apenas quatro anos de magistério eu sou obrigado a trabalhar com amplificador de voz, pois já sofro de calos nas pregas vocais.

Esses são apenas os problemas mais superficiais da escola. "Superficiais" não é exatamente a palavra, mas é a que me veio agora à mente. O fato é que a escola hoje é uma instituição que não faz sentido aos jovens (se é que algum dia o fez), sobretudo aos jovens das classes populares, os quais não se identificam com o currículo proposto pela escola. O resultado disso são alunos cada vez menos dispostos a prestar a atenção nas aulas ou dispostos, ao contrário, a agirem de forma violenta contra seus professores e contra os demais funcionários da escola.

Fora os inúmeros alunos com problemas graves os quais a escola sequer toma conhecimento e, quando toma, ignora solenemente. Professores e diretores da rede pública estão sendo, hoje, transformados em meros burocratas pela secretaria de educação. E que se fodam os alunos e suas histórias, assim como a falta de aprendizado deles. Soma-se a isso um agravante: a maioria dos professores se recusa a repensar a escola e a agir politicamente em busca de uma escola melhor. O primeiro caso é coisa de professores novinhos e idealistas; o segundo é perda de tempo, "pois lutar não adianta nada".

E assim professores morrem antes do tempo ao exercerem, durante anos a fio, uma profissão na qual não mais acreditam, dando pseudo aulas em pseudo escolas, com pseudo direções num pseudo sistema pseudo educacional. Haja "pseudos" para uma instituição só. No meio disso, me pergunto até quando terei fôlego, gás, garra e determinação para conseguir trabalhar de forma efetiva, resistindo à burocratização, ao autoritarismo do governo e à apatia de meus colegas de profissão. Vou aguentar por muito tempo? E se não aguentar, o que farei, se a única coisa que sei fazer é dar aulas? Será que a vida levará com a minha juventude os meus ideais? O que há de errado com os ideais?

Hoje eu tenho muitas perguntas, um medo e nenhuma resposta.

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