domingo, 5 de dezembro de 2010

O cigarro





Parecia que ia ser um dia comum, com sensações e sentimentos corriqueiros, típicos da vida comum que se leva nas cidades por esse mundo afora. Tinha acabado de sair do trabalho quando resolvi passar na loja de uns amigos para bater um papo, matar um pouco a saudade das pessoas que as obrigações da vida adulta afastam de nós.

Logo que toquei a campainha, percebi que lá dentro tocava uma música de Etta James. Logo abri um sorriso de satisfação. Como é bom escutar uma música de jazz depois de um dia cansativo e chato. É como se fosse um parêntese, uma licença dentro do inferno, um gole de cerveja debaixo de um sol escaldante. Zeca e Théo sempre faziam as coisas desse jeito: final de expediente, música, cerveja e cigarro. Era bom revê-los nesse dia. Era uma terça-feira de novembro em Duque de Caxias. Caxias ficava apocalíptica em novembro de tanta gente na rua, de tanto caos e calor.

De repente a porta abre e aparece Théo. - Grande Cezão. Esqueceu dos amigos pobres? - Porra, tô rico pra caralho dando aulas de filosofia pra adolescentes, respondi. Com um sorriso aberto e um abraço apertado, Théo me cumprimentou e, logo em seguida, virou pro interior da loja e gritou: - Olha aqui quem chegou, Zeca.

Zeca tinha um corpo de ogro. Gordo, meio careca e com os dentes amarelados, ele abriu aquele sorriso típico dele, quase paterno. Me abraçou com força e disse que estava com saudades. Lembro que ele lacrimejou quando me olhou pela segunda vez. É incrível como no meio de 6 bilhões de seres humanos tão poucos se importam realmente com a gente. Théo e Zeca eram parceiros meus e um dos poucos que realmente se importavam comigo.

Assim que eu entrei na loja a música mudou. Começou a tocar "Pra te lembrar", de Caetano Veloso. Essa música me fazia lembrar de Maria, um antigo amor da minha vida, meu único amor pra falar a verdade. Zeca e Théo sabiam disso. Foram eles que ficaram do meu lado no momento da separação. Logo quando a guitarrinha da música começou a tocar, Zecão olhou pra mim com um sorriso amigo, como quem queria dizer "Calma, cara. A vida é assim mesmo..."  Passado esse momento inicial de dor, a música começou a soar no meu espírito como arte, como uma massagem na alma. O clima ficou bom...

Entrei na última sala da loja. Sentamos e começamos a conversar sobre a vida. Todas as vezes em que faço isso, fico impressionado com o quanto que a vida às vezes parece um script, algo já pré-definido, pois ela se repete em suas múltiplas facetas  nas vidas de todos nós: corações partidos, amores perdidos, traições, amizades, copos de cerveja, arrependimentos, uma música que traz recordações, momentos eternos... Quem não tem parte disso ou isso tudo dentro de si, que atire a primeira pedra. Ou, melhor dizendo, quem não tem nada disso para contar, eu realmente sinto pena dessa pessoa, pois ela nada viveu na vida. Pensava nisso enquanto o Zeca me contava a última decepção que ele havia tido com pessoas as quais ele considerava amigas. Théo me falou depois da dificuldade que ele tava tendo pra sustentar a sua filha, que o monento na loja não era dos melhores para ele o pr'o Zeca... E eu falei sobre o que era ser professor num país que cospe na educação diariamente. Falei da saudade que sentia de Maria, da dor que era não ter mais notícias dela, do último amor casual que tive nos últimos tempos... Entre risos e olhares preocupados, íamos conversando eu, Théo e Zeca. E como era bom tê-los comigo para dividir a minha vida...

De repente Zeca pegou um cigarro. Era um cigarro pra nós três. A conversa continuava e dessa vez falávamos sobre mulheres. Esse assunto já estava me dando nos nervos nos últimos tempos, pois só tinha passado por experiências nessa área que mais pareciam um soco na minha cara do que com qualquer outra coisa. Zeca deu uma tragada no cigarro e passou pr'o Théo. Enquanto isso Zeca começou a falar de sua ex-mulher, que tinha feito uma escrotice enorme com ele na semana anterior. Théo passou o cigarro pra mim depois de três tragos que ele tinha dado. Enquanto eu sentia a fumaça do cigarro penetrar nos meus pulmões, puxei um papo sobre futebol. O fluminense tinha acabado de ser campeão brasileiro. Que lixo, um time de playboy, de patricinhas, com uma história medíocre campeão do Brasil. Ainda tinham a petulância de dizer que eram tri-campeões. Aonde, se o título de 1970 não era campeonato brasileiro? Foi aí que dei a minha terceira tragada no cigarro e o passei novamente para o Zeca.

O tempo foi passando e os assuntos iam variando, até que chegou um momento em que eu não sabia mais do que tínhamos falado ou não tínhamos falado. Sentia minha cabeça suspensa no ar. Na verdade não era a minha cabeça que estava suspensa, mas os meus pensamentos. Do centro do meu cérebro comecei a sentir que havia algo como um feixe de energia que irradiava luz dentro do meu corpo, e parecia que cada raio de luz era uma estrela com o poder de me suspender da realidade. Zeca tentou falar algo comigo. Eu tentei prestar a atenção, me esforcei, mas não consegui. Théo teve que repetir o que Zeca já tinha falado duas vezes. Houve um momento em que achei que Théo estava falando coisas nada a ver. Na verdade eu já não sabia mais o que tinha a ver e o que não tinha a ver com a conversa. Não estava mais na loja do Zeca e do Théo, nem estava mais em lugar algum. Estava numa realidade na qual a realidade em que eu vivia não existia, nada existia, nem mesmo Maria. Estava num mundo a parte. Não sabia dizer se isso era ruim ou bom, mas estava gostando daquilo. Nunca havia sentido isso antes. E não queria parar de sentir. Estava de saco cheio de tudo na minha vida e achei que aquela era a hora de desaparecer. Comecei a ficar meio constrangido, pois sou o tipo de pessoa que sente uma obrigação absurda em corresponder a presença de alguém que se encontra no mesmo recinto que eu. Eu não estava mais falando com Théo nem com Zeca fazia uns vinte minutos. Foi aí que virei pr'o Zeca e disse que ele deveria virar um doutor da alegria e trabalhar com criancinhas com câncer. Ele havia me dito uma vez que ele queria trabalhar com crianças um dia, então achei que seria legal dizer isso a ele. Ele me disse, porra, mas eu não sou médico. Fiquei meio sem saber o que falar. - Mas não precisa ser médico. Precisa não. Sei lá, acho que não. Não sei... Precisa não. Me calei de novo. Tentava voltar a mim mas não conseguia. Tentava pelo Zeca e pelo Théo, não por mim. Nem sei se o Zeca e o Théo estavam nas realidades deles. Acho que teve uma hora em que ouvi o Zeca falar sobre pinicos. Pensei, "Deus, o que leva um ser humano a falar sobre pinicos? Acho que o Zeca não está bem."

Peguei a minha pasta, me despedi deles e fui embora. Peguei o ônibus para ir pra minha casa. O ônibus era desconfortável que só a porra, mas eu dormi nele o sono dos justos. Nem senti o caminho até o Centro do Rio. Só me lembro que tinha momentos nos quais eu achava que as pessoas estavam constrangidas em sentar ao meu lado no ônibus. Acho que algumas chegaram a sentar e depois mudaram de lugar. Acho que eu estava fazendo caretas enquanto dormia, pois me lembro vagamente de ter feito caretas enquanto dormia.  Quando menos vi, já estava na rodoviária, super cansado e feliz por ter chegado em casa. Da rodoviária pra minha casa eram dez minutos, que me pareceram dez dias nesse momento. Quando cheguei em casa, preparei rapidamente sanduíches de alguma coisa, acho que de presunto. Devorei uns três. Depois fui dormir. Deixei a janela do quarto aberta, pois estava fora da realidade, estava em outra realidade, que não a do Rio. O vento da rua batia no meu peito e no meu rosto enquanto eu dormia. Não sei se tirei a roupa pra dormir. Só sei dizer que dormi bem, nem feliz nem triste. Somente bem...