terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Uma vida sem mágica

Como tinha gente na estação de metro da Pavuna, pensava Marcos. Todos os dias ele chegava àquela estação do metrô pontualmente, às 7 horas da manhã. Precisava estar na repartição às 8:30. Saltaria na Central e iria andando até lá. Todos os dias da semana fazia tudo sempre igual, às vezes repetindo a mesma roupa dois dias seguidos, pois não era dado a vaidades. E todos os dias ficava espantado com a quantidade de gente que se apertava no vagão do metrô para poder chegar, cada um, no seu destino cotidiano. Quanta gente essa cidade tem, pensava ele. São Paulo é muito pior. Deus me livre...

Na sua bolsa, e ele usava a mesma bolsa havia 3 anos, uma pequena mochila preta com uma alça somente, ele levava sempre alguns livros, para a viagem passar mais rápido. Estava lendo um livro espírita, um outro livro de poemas e relendo pela quarta vez na sua vida “Crime e Castigo”, de Dostoievski, seu autor favorito. Não se podia dizer que Marcos era um intelectual, posto que sua mente funciona lenta demais, e sem ideias muito bem elaboradas, por serem sempre muito caóticas. Mas adorava ler. Gostava de ler novas ideias, relatos dramáticos, poesias de vida e de amor... Era a inspiração necessária à vida de um homem no meio de uma multidão cotidiana e mecânica.

Sentia um leve desprezo pelo mundo que o cercava. Dava graças a Deus por ser concursado e receber todo mês os seus R$ 2.500, que não somavam uma grande fortuna num país cheio de contas a serem pagas, como o Brasil. Mas eram mais do que o suficiente para ele se sustentar e comprar os seus livros. Morava em um apartamento próprio em Duque de Caxias. Seria mais fácil pegar um ônibus direto para a Central. Mas no metrô ele iria lendo e evitava engarrafamentos. Como a rotina era algo detestável para ele. Mas não tinha opção. O mundo não é dos sonhadores. O mundo é dos objetivos. Deveria trabalhar, ganhar dinheiro, pagar contas e envelhecer. E pronto.

No olhar de Marcos havia algo como uma marca, como se ele houvesse perdido um filho em sua vida. Mas nunca perdera um filho, pois nunca nos seus 30 anos de vida fizera um filho em alguma mulher. Morava sozinho e há alguns anos o amor se reduzia a pequenas e freqüentes aventuras que começavam na mesa de um bar e terminavam na cama, dentro do seu quarto. Não mentia: para todas as mulheres que com ele se envolviam não prometia nada, somente momentos. E cumpria a sua palavra. E depois que elas adormeciam em seu peito, pois ele era romântico e sempre levava as cabeças das mulheres para o seu peito liso de jovem, ele demorava a pegar no sono ao mesmo tempo em que olhava para o teto e via crescer dentro de si o seu olhar cada vez mais perdido e consciente. Marcos nunca perdera um filho, mas tinha perdido a mágica no olhar de uma pessoa.

Se tratava de um olhar profundo e aéreo ao mesmo tempo, e a profundidade desse olhar estava justamente nesse tom aéreo e nos segredos que ele escondia atrás de si. Às vezes achava que o mundo era composto por pessoas fúteis, que não conseguiam pensar para além do materialismo que cerca as coisas desse lindo mundo moderno. Outras vezes achava que esse pensamento era preconceito seu, pois todos deviam ter os seus problemas e dores íntimas, mas a luta diária pela vida uniformizava a todos numa máscara de segurança e postura de adulto. Talvez todos tivessem um olhar semelhante ao de Marcos. Não importa. O certo é que o olhar de Marcos não mais tem a mágica da pureza inocente de quem nunca perdeu. E, imprensado contra a parede do vagão, com as costas doendo e sentindo o cheiro de um perfume de mulher, Marcos estava, agora, tentando pegar o seu livro de poesias para ler um pouco. E lera, até chegar a Central.

E depois tudo se repetiu, como num filme: Marcos chegou na Central, comeu seus dez pãezinhos de queijo com mate natural e foi para o trabalho. Mas seu olhar continuava sem mágica. Às 17 horas Marcos saiu do trabalho e pegou o metrô novamente, de volta para casa. Chegava sempre por volta das 19 horas em casa, faminto e demasiadamente cansado. E sem aquela mágica no olhar. Tomou banho, preparou a sua janta, viu o telejornal, reclamou do país. Depois pegou o seu maço de cigarros e pôs-se à janela para ver a rua. Fazia uma noite fria e estrelada. Pessoas passavam pelas ruas o tempo todo. Cada pessoa tinha a sua história, a sua vida, o seu destino. E isso o oprimia, pois era gente demais, destinos demais que passavam por ele, ali na frente da sua janela. Queria abraçar as pessoas de uma só vez, não elas propriamente ditas, mas o fluxo de vida que elas representavam. Era muita coisa, era vida demais. Ele se sentia velho diante de tanto peso que lhe caía na alma. Já estava no seu nono cigarro e o relógio marcava meia noite. Mas não tinha sono, só estava cansado. Cansado da rotina, cansado de ler, cansado da vida. Tinha somente 30 anos, mas estava cansado como um velho de 80. E sem mágica no olhar.

Até que ele resolveu fazer uma coisa que há 4 anos não fazia. Foi a uma gaveta fechada à chave que ficava de frente para a mesinha de centro da sala, numa pequena estante. Pegou aquela caixa de papelão com desenhos do Elvis Presley. Tinha lágrimas nos olhos. Abrindo a caixa, lá estava a sua mágica: cartas de amor. Eram cartas de um amor antigo, que há muito se perdera nas vielas da sua vida. Eram cartas de um amor mágico, imaturo e sem máculas. Cartas longas, sinceras, vindas de um coração o qual ele nunca mereceu, mas obteve durante um ano e meio de sua vida. Mas não tinham somente cartas. Tinha fotos, bilhetes de entradas de cinemas, teatro, museus. Todas datadas do ano de 1999.  Havia uma história dentro daquela caixa. E as lágrimas, cheias de mágica, brotavam de seu rosto e manchavam aqueles elementos todos, guardados como relíquias, como provas de uma civilização perdida. Eram marcas de sorrisos sinceros, de noites eternas de um amor singelo. De planos e fantasias que não se realizaram enão se realizariam nunca...

Até que Marcos não mais agüentou: fechou a caixa de papelão, pôs tudo dentro da gaveta e a trancou. Cansado e já sem mágica, se jogou na cama dentro do quarto já escuro, iluminado vagamente pela luz da sala. Naquela noite, como em muitas outras do seu passado e do seu futuro, Marcos pegaria no sono enquanto chorava. Seu choro era pura dor nesses momentos, não mágica. E nos dias seguintes tudo aconteceria de forma sempre igual na vida de Marcos: mecânica, poética e sem mágica...

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Pai e filha





Estava de frente para a janela no quinto andar olhando o amanhacer cinzento daquele sábado. Era um daqueles dias que não prometia nada num coração humano, nem alegria, nem tristeza. Somente vida tranquila. Ele olhava os poucos carros que passavam na rua de frente ao prédio em que morava, sentindo o vazio desse edifício dentro de si, pois se tratava de um estabelecimento comercial, sendo seu apartamento um dos poucos residenciais que ali havia. Era um homem vivido dentro de seus 32 anos, de estatura mediana, moreno e com cabelos levemente crespos. Não se podia dizer que era bonito, mas seu rosto tinha uma beleza singela, discreta, porém profunda. Seu olhar já tinha deixado muitas mulheres afim, e seu sorriso marcara a vida de outras tantas. Mas hoje morava sozinho e guardava muitos dos seus amores passados na lata do lixo e poucos no coração.

Pensava nisso quando aquele pequeno ser vivo apareceu em sua frente. Seus cabelos loirinhos e sua barriguinha levemente proeminente avançavam em direção ao pai que, na janela, viajava em seus pensamentos, sem perceber a presença cada vez mais próxima da filha. Sua boneca pendia na sua mãozinha esquerda e seu lençolzinho ficara pelo caminho enquanto ela caminhava. Um álbum de Caetano tocava na sala enquanto essa cena se desenrolava. De repente, ela abraçou uma das pernas de seu pai, que a acompanhava com o seu olhar de pai, aquele olhar carregado de sentimento, como quem viu uma coisa linda e nunca antes vista... Viu o rostinho daquela menininha linda olhando para cima com um olhar de sono, um pouco tristonho. Era difícil descrever o amor que ele sentia por ela. Certamente era a mulher de sua vida, a única pela qual ele morreria ou pela qual viveria.

Ele a pegou no colo e colocou-a na mesa da cozinha que, apesar de apertada, era o cômodo do apartamento onde, curiosamente, os dois passavam a maior parte do tempo juntos, vendo TV, conversando, lendo livros infantis, brincando... Clarice gostava de tomar seu achocolatado assim que acordava. Seu pai, sempre zeloso por ela, preparava-o assim que ela vinha para ele depois do sono. Naquela manhã ele pegou o copo maior, que era o que eles chamavam de "o copo do sábado". Encheu-o de leite e depois colocou duas colheres de chocolate em pó e uma de açúcar. Enquanto ele mexia o copo do achocolatado  e o líquido girava dentro do copo, pôs o canudinho com desenhos do ursinho pooh  no achocolatado, que passou a girar juntamente com o líquido. Isso sempre arrancava doces gargalhadas de Clarice. E não foi diferente naquela manhã...

Mas uma coisa houve naquela manhã que marcaria a vida daqueles dois para sempre. Logo após tomar  seu achocolatado, Clarice pôs sua mãozinha direita na testa, com o cotovelo escorado na mesa, como se tivesse uma questão em sua cabecinha de criança. Notando isso, seu pai deu um leve carinho em seu rosto e lhe perguntou:

- Tá tudo bem com você, filha?
- Tá sim, pai. 
- Dormiu bem?
- Um-hum. Só tive um sonho ruim essa noite...
- Sonhou com o monstro de novo?
- Não. Sonhei que eu morria.
- Sério? E como isso aconteceu no sonho?
- Num sei. Eu caía de um lugar alto e morria...

...


- Pai...
- Oi, amor.
- Eu não quero morrer.
- Por que você não quer morrer, linda? Todo mundo tem que morrer um dia...
- Porque morrer é ruim, papai.
- Como você sabe que morrer é ruim? Você já morreu alguma vez?
- Não...
- Então?
- Hum...
- Lembra que semana passada você não queria comer ovo cozido por que achou que era ruim?
- Am-ham.
- E você acabou gostando no final das contas, né?
- Am-ham.
- Então, talvez morrendo você vai descobrir que morrer é uma grande aventura. Nunca se sabe...
- Mas quando eu morrer eu não vou poder mais brincar. E eu gosto muito de brincar, de correr, de... De tudo... Eu não quero morrer...

Nesse momento Roberto olhou pra Clarice... Seu olhar ganhou um quê de sabedoria e tristeza... Não podia mais controlar as suas palavras... Algo havia cortado o seu espírito, como um raio... E queimava como larva de vulcão em atividade clandestina... As palavras ganharam vida própria e saíram de sua boca de forma quase sem querer...

-Filha... Vai chegar um dia, daqui a muito, muito, muito tempo, que você não vai querer mais brincar, pois já vai ter brincado muito, bem muitão. Você vai acordar e vai ver que brincar não tem mais a mesma graça que antes... Será nesse momento que a morte vai chegar, e você vai partir bem. Confia no papai, é isso o que vai acontecer... Brincar cansa... Chega uma hora que a gente perde a graça de brincar... Aí outras pessoas nos substituem, pois o mundo, filha... O mundo não pode parar...

De olhos fixos em Roberto, Clarice não entendeu as palavras dele com a cabeça, mas sim com o seu coraçãozinho de criança... Jamais esqueceria disso em seu espírito... Viveria com aquelas palavras gravadas em seu interior pelo resto de sua vida, na qual ela brincaria muito... Muito... E se cansaria depois de ter brincado muito...




Dedico esse texto ao diretor italiano Mário Monicelli, que percebeu que não queria mais brincar e se matou em novembro do ano passado num hospital de Roma, se jogando da janela do quinto andar, aos 95 anos de idade.