sexta-feira, 11 de julho de 2014

Um filme humanista, para todo o mundo







A obra Inquietos (2011), do cineasta americano Gus van Sant, é de notável beleza. O filme conta a história de Enoch, um "garoto-problema" que, ao perder os pais num acidente de carro e ficar em coma por um tempo, passando por um estágio de quase morte, se vê morando com a tia, espiritualmente perdido e fixado em frequentar funerais de estranhos.

            Em um desses funerais ele conhece uma menina chamada Annabel, com quem começa uma relação, no início um tanto quanto conflituosa, para depois passar para a amizade e, enfim, chegar a um amor de juventude. Logo Enoch descobre que Annabel está vivendo seus últimos meses de vida, devido a um tumor que a menina tem no cérebro. Annabel, contudo, decide viver esses tempos de forma leve, alegre, curtindo as coisas mais banais do cotidiano, como uma festa de Halloween e um livro sobre as várias espécies de pássaros existentes na natureza.

            As cenas da película, que foram gravadas na cidade de Portland, Oregon, possuem uma coloração amarelada, que confere a elas um tom de saudade, marcando a beleza estética e sentimental da obra. A beleza dos dois atores escolhidos para estrelarem esse filme só completa o (in)crível quadro que Gus pinta ao longo do desenrolar de Inquietos.

            O filme faz também uma homenagem ao realismo fantástico ao colocar Hiroshi, o espírito de um soldado kamikaze morto na II Guerra Mundial, como um personagem importante da obra. Hiroshi se comunica com Enoch ao longo de toda a história, sendo o único amigo dele por muito tempo. É Hiroshi quem leva Annabel para o "outro lado" da vida quando o momento da morte da menina chega, metaforizando o falecimento humano de uma forma tranquila, ao mesmo tempo mostrando a morte como ela realmente é: algo natural.

            Interessante notar que aqui Gus volta ao tema do "garoto-problema", já explorado pelo diretor em Gênio indomável (1997), que fala de um garoto órfão com uma inteligência extraordinária e uma personalidade forte e difícil. Se no filme de 97 o garoto-problema encontra o seu caminho pelos conselhos de um velho analista, em Inquietos ele encontrará nos meses de amor com uma doce menina o chão para continuar a construir o seu caminho.

            O filme escapa dos clichês quase inescapáveis que esse tipo de história traz, como as lições de moral dadas a uma pessoa que precisa se "endireitar" na vida. Longe disso, Enoch descobre em Annabel o amor pela vida em si mesma, um amor que abarca o absurdo da morte e que enxerga no banal a graça de toda a existência humana. Trata-se de uma mensagem humanista, sempre apropriada para a sociedade americana que, como a brasileira, busca seu sentido no espetáculo do consumismo e na fé em um deus punitivo, severo e salvador dos escolhidos.

           Por causa dessa mensagem (o amor pela vida em si mesma) e guardadas as devidas e muitas ressalvas, Inquietos pode ser visto como um 2666 cinematográfico. O livro do escritor chileno Roberto Bolaño versa o tempo inteiro nas suas entrelinhas sobre esse amor, vivido pelo próprio Bolaño que, como Annabel, passou seus últimos meses de vida fazendo o que gostava de fazer: lendo, vendo amigos e, sobretudo, escrevendo.