Tratava-se de seis jovens em um país estrangeiro. Era noite e toda noite trás esperança aos corações juvenis. Parece que na cabeça de um rapaz, sempre que anoitece algo está por vir, algo de bom, de surpreendente. Um jovem nunca se cansa de procurar aventura, nunca se cansa de se divertir com bobagens, com pequenos momentos de gargalhadas gratuitas jogadas no vento. E há momentos na vida de um coração jovem que é somente isso que ele procura: momentos de diversão.
A noite estava fresca em Montevidéu. O céu estava sem estrelas e sem nuvens. Estava num tom negro profundamente forte, talvez como todos os céus ficam em certas noites de verão. Com os seis jovens caminhava mais um que, diferente daqueles, era natural de Montevidéu e conhecia essa cidade como a palma de sua mão. Era fim de ano e grande parte da população local estava de férias se divertindo em outras praias uruguaias. Por isso, mesmo de dia, a cidade parecia um pouco vazia, monótona. Montevidéu tem o seu lado de cidade grande, capitalista, mas não perde nunca o seu lado pacato. No fim da tarde é possível ver nas praças dessa cidade inúmeras pessoas sentadas conversando em grupos de amigos, ou tomando chimarrão, ou olhando para o nada e sem pensar em nada... Parece que o povo de Montevidéu sabe que, no fundo, a vida não tem grande mistério. Basta acharmos um lugar para fixarmos o nosso espírito de forma espontânea e distraída que sempre se pode ser feliz. E essa descoberta é uma descoberta sem procura. Basta deixar o espírito fluir que logo ele encontra um cantinho para reclinar a cabeça. Essa é uma filosofia simples que o dia a dia das grandes cidades não nos permite pegar no ar. Mas Montevidéu tem ela inserida em seus ventos...
Aquela noite estava tão tranquila quanto os dias da cidade. As ruas vazias não levavam medo aos corações dos nossos seis jovens; sete na verdade. Estavam eles em busca de um bar, de uma cerveja, de uma roda, de meninas bonitas e jovens como eles... Estavam em busca de vida, de diversão. Somente isso. Pararam numa mesa de bar, reuniram cadeiras, pediram as bebidas e começaram a conversar. Sobravam risos, abraços, gozações, memórias, descobertas, palavras inúteis, comoções. Cada um daqueles jovens vivia e sentia aquela noite uruguaia do seu jeito. Cada um enxergava a felicidade da maneira que esta lhes vinha aos olhos e ao coração. E no meio desse fluido distraído de vida, apareceu entre eles uma criatura da noite, dessas que andam bêbadas pelos centros das cidades vindo sabe-se lá Deus de onde, sem mais nem por quê, "sem lenço, sem documento". Era um homem negro como aquela noite, alto e barrigudo. Deu um beijo no rosto de cada um dos jovens sentados à mesa, o que eles acharam estranho, pois de onde eles vinham homens não se beijavam no rosto. Mas vai lá, era uma noite uruguaia. De repente o homem, que se denominava "super negro", se pôs a cantar. Eram canções estranhas as que saíam da boca dele. Quase todas começavam com um "tch-tcha-tchá, tch-tcha-tchá", som esse que ele fazia com sua mão esquerda tapando a sua orelha esquerda. Finda uma canção, ele recebia os aplausos dos rapazes, pegava um copo de cerveja da garrafa deles e começava a cantar mais uma outra canção. Algum tempo depois disso ele foi embora, sumindo na noite, na mesma noite que o pariu e que provavelmente iria velá-loao final do espetáculo de sua vida.
Ah, a noite... Ah, a juventude... Noite e juventude combinam tanto que parecem irmãos gêmeos. Quando se é jovem nada parece estranho na noite. Mas como a noite tem criaturas estranhas... Um dos nossos jovens resolveu ir ao banheiro do bar. Como estava cheio o banheiro, ele esperava do lado de fora, olhando para o interior do bar, distraído como a juventude sempre é. De repente aparece uma bela mulher na frente dele, bêbada, muito bêbada, mas bela em sua loucura. Quase caindo, essa bela mulher pergunta a ele: "És corto o largo?" O nosso jovem, que não falava nada de espanhol, ficou sem entender nada do que ela dizia. Ela repetiu rindo: "És corto o largo?" Ele achou que ela estava perguntando a ele se ele estava esperando para ir ao banheiro. Ela ria de sua cara. "Yo se que quieres ir al baño, pero quiero saber: és corto o largo?" Como o nosso jovem continuava sem entender o que ela dizia, a mulher desistiu dele e entrou no banheiro. Ele aproveitou para voltar à mesa e comunicar ao amigo uruguaio o que a mulher lhe disse. "O que ela quis dizer com isso?", perguntou o nosso jovem com cara de bobo. O uruguaio, espantado com a lerdeza do nosso jovem, disse em bom português: "Ela queria saber qual é o tamanho do seu pau! Fala que é largo! Diga que bate no joelho... Beija ela agora..." Nisso a mesa já não se aguentava de tanto ir. Todos riam da situação, inclusive o jovem que tinha acabado de deixar passar a oportunidade mais fácil em toda a sua vida de ir pra cama com uma mulher linda... Ele voltou desesperado para o interior do bar e esperou ela sair do banheiro. Quando ela saiu ele disse a ela em alto e bom som: e com muita esperança no coração "Soy largo!". Ela, já sem tesão, talvez, respondeu: "Bien...", e se foi... Nosso jovem voltou à mesa desolado, mas rindo de si mesmo e da situação. Os outros jovens riam tanto que alguns chegaram a chorar de tanto rir. E eles ririam pelo resto de suas vidas, contando essa história para filhos, netos, para outros amigos... Ririam devido ao resquício de juventude que sempre estaria com eles pelo resto de suas vidas... Ririam porque jamais deixariam de ser jovens dentro de si mesmos... Ririam porque a vida é bela, mesmo em seus pequenos desastres...
Deus salve a noite, suas criaturas e os jovens...
P.S.: Quando uma mulher uruguaia perguntar a você se "és corto o largo", responda "largo, muy largo" e seja muito feliz...
Ah, a noite... Ah, a juventude... Noite e juventude combinam tanto que parecem irmãos gêmeos. Quando se é jovem nada parece estranho na noite. Mas como a noite tem criaturas estranhas... Um dos nossos jovens resolveu ir ao banheiro do bar. Como estava cheio o banheiro, ele esperava do lado de fora, olhando para o interior do bar, distraído como a juventude sempre é. De repente aparece uma bela mulher na frente dele, bêbada, muito bêbada, mas bela em sua loucura. Quase caindo, essa bela mulher pergunta a ele: "És corto o largo?" O nosso jovem, que não falava nada de espanhol, ficou sem entender nada do que ela dizia. Ela repetiu rindo: "És corto o largo?" Ele achou que ela estava perguntando a ele se ele estava esperando para ir ao banheiro. Ela ria de sua cara. "Yo se que quieres ir al baño, pero quiero saber: és corto o largo?" Como o nosso jovem continuava sem entender o que ela dizia, a mulher desistiu dele e entrou no banheiro. Ele aproveitou para voltar à mesa e comunicar ao amigo uruguaio o que a mulher lhe disse. "O que ela quis dizer com isso?", perguntou o nosso jovem com cara de bobo. O uruguaio, espantado com a lerdeza do nosso jovem, disse em bom português: "Ela queria saber qual é o tamanho do seu pau! Fala que é largo! Diga que bate no joelho... Beija ela agora..." Nisso a mesa já não se aguentava de tanto ir. Todos riam da situação, inclusive o jovem que tinha acabado de deixar passar a oportunidade mais fácil em toda a sua vida de ir pra cama com uma mulher linda... Ele voltou desesperado para o interior do bar e esperou ela sair do banheiro. Quando ela saiu ele disse a ela em alto e bom som: e com muita esperança no coração "Soy largo!". Ela, já sem tesão, talvez, respondeu: "Bien...", e se foi... Nosso jovem voltou à mesa desolado, mas rindo de si mesmo e da situação. Os outros jovens riam tanto que alguns chegaram a chorar de tanto rir. E eles ririam pelo resto de suas vidas, contando essa história para filhos, netos, para outros amigos... Ririam devido ao resquício de juventude que sempre estaria com eles pelo resto de suas vidas... Ririam porque jamais deixariam de ser jovens dentro de si mesmos... Ririam porque a vida é bela, mesmo em seus pequenos desastres...
Deus salve a noite, suas criaturas e os jovens...
P.S.: Quando uma mulher uruguaia perguntar a você se "és corto o largo", responda "largo, muy largo" e seja muito feliz...
