segunda-feira, 10 de junho de 2013

Para além de Cazuza



Pensadores como Foucault e Bourdieu afirmam que a verdade é algo construído, inventado pelo empreendimento humano, sobretudo através do discurso, segundo Foucault. Concordo com essa afirmação. Porém, se por um lado a verdade é uma construção, por outro é preciso notar que há umas construções que são melhores do que outras.
         A questão da verdade veio até mim quando estava assistindo ao programa "Provocações", do Antônio Abujamra. Esse senhor sempre inicia seu programa dizendo que ele, há não sei quantos anos, "exalta a dúvida". É legal termos dúvida, pois assim temos menos chances de sermos escrotos intolerantes. Contudo a dúvida só é positiva quando ela é base para um pensamento crítico e construtivo. A dúvida pela dúvida me parece algo tão idiota quanto o relativismo pelo relativismo. O sujeito eternamente em dúvida é a inércia travestida de pessoa. Uma nulidade, trocando em miúdos. A dúvida é um momento que precisa ser superado para virar uma ação lúcida, crítica e objetiva.
         Tenho para mim que esse país está cheio de imbecis porque os imbecis daqui falam. Eles não têm dúvidas (e muito em função disso são imbecis), são empreendedores e danam a falar cretinices da forma mais convincente possível. Os seres pensantes do Brasil, por outro lado, geralmente não ultrapassam a dúvida. Nadam nela, mergulham nela, a exaltam e assistem ao cretinismo crescer nesse país em cima do muro, comendo pipoca, de camarote, e com alguma revolta.
            Eu tenho um amigo que se define hoje como um cara em cima do muro. Ele é genial, inteligentíssimo, um intelectual de primeira. Uma das coisas que ele coloca para mim é a questão da inexistência da divisão entre direita e esquerda na política atual. Ao mesmo tempo ele afirma que não há sociedade sem divisão de classes, dizendo que "tem que haver pobre e tem que haver rico". Nisso eu percebo duas coisas. A primeira é a de que há direta e esquerda sim na política atual, isso se pensarmos política para além da esfera do Estado. A segunda é que o meu amigo em questão está caindo para o lado da direita. Explico-me.
         Existem dois tipos de verdades: a subjetiva e a objetiva. Ambas se formam através da comunicação entre homem e realidade, como todas as verdades humanas se formam. Porém a verdade subjetiva é desconexa da realidade, apesar de ter nela a sua base. Penso aqui nos meus amigos leninistas, que acreditam na revolução guiada pela "vanguarda do proletariado" num mundo onde não cabe esse tipo de sonho (na verdade nunca coube). A verdade objetiva, por outro lado, é aquela que reproduz, nua e cruamente, a realidade do que jeito que ela é, sem criticá-la, numa resignação (ou prazer) quase cristão. Penso aqui nos meus amigos liberais, que afirmam, triunfantes, ser impensável uma sociedade sem capitalismo, pois este é real, é o que há, o que vemos, o que as pessoas e os países reproduzem.
        A verdade objetiva do liberalismo, contudo, se faz vitoriosa nas suas argumentações porque ela é medíocre. Se limita a afirmar o que existe, justificando a essência do sistema capitalista, a saber, a competitividade, o individualismo e a aguda desigualdade social. Os discursos do liberalismo, no entanto, não deixam de ser subjetivos e ilusórios, tão infantis quanto os discursos dos marxistas toscos. Isso porque eles se esquecem de um fato sociológico básico: o de que os homens são construtores de sua própria realidade. São limitados, pois expressam a objetividade da realidade social em seus discursos subjetivos, mesmo que o façam de forma rebuscada.
            A minha definição de direita e esquerda parte desse fato. O pensamento de direita (lúcido ou tosco) é a expressão da realidade objetiva. A esquerda (lúcida ou tosca) é a vontade de transformação da realidade, uma visão crítica do que se vê e uma proposta de mudança. Tanto um quanto o outro são pensamentos iludidos, verdades construídas. Mas a ilusão melhor construída, a arquitetura intelectual mais bela é a esquerda. Entre um gole de uísque a base de risadas cortesãs e um coquetel molotov, eu fico com o segundo. Se é para ser iludido, que sejamos iludidos com estilo e caráter.
            É do lado do uísque que o meu amigo está quando ele fala que tem que ter pobre e rico, mesmo que ele não queira. Eu respeito a posição dele. Mas gostaria que os liberais tivessem coerência com as suas próprias ideias. Se eles acreditam na permanência da desigualdade, que ela se mantenha pelo mérito pessoal do empreendedor capitalista; que a riqueza venha através da inovação, do empreendedorismo, do "espírito animal" do capitalismo, e não da exploração desumana da mão de obra alheia. Digo isso porque o argumento liberal na sua ilusão objetiva acaba por legitimar de forma sofisticada as atrocidades que o capitalismo faz com a natureza e com as pessoas.
            Não que eu acredite num sistema social perfeito, na revolução. Já disse aqui em outro texto que essa não é, nem de longe, a minha praia. Só penso que ficar em cima do muro nesse debate é se posicionar a favor do mais forte. Enquanto houver capitalismo, haverá direita. E enquanto houver quem queira acabar com ele, mesmo que de forma bisonha, haverá esquerda, dentro ou fora do Estado.