Fazia algum tempo que eu não ouvia uma música que me tocasse
tanto quanto Hold me up, da banda
estadunidense Live. A primeira vez que ouvi essa canção foi em 2008, no cinema,
vendo a excelente comédia Pagando bem que
mal tem? (Jack and Miri make a Porno,
2008). A música começou a tocar quando Jack e Miriam, amigos desde os tempos de
escola, estavam numa cena de sexo para um filme pornô muito trash que eles estavam
fazendo para ganhar dinheiro e se livrarem das muitas dívidas que tinham.
Ao rever esse filme há algumas semanas atrás eu novamente
tornei a encontrar essa canção. E o efeito que ela teve sobre mim foi, de novo,
muito bom, muito embora o som aqui de casa não seja nem de longe tão maneiro
como o do cinema. Hold me up me soa como um rock muito americano e muito final dos
anos 80 e início dos anos 90, com teclado, guitarra e um vocal poderoso,
semelhante ao que bandas como Van Halem faziam. E mesmo não sendo um crítico musical
de fato, com conhecimento verdadeiro sobre música (aliás não sou crítico de
verdade de nenhuma arte), acho que bandas de rock que usam teclado têm um
profundo cheiro de Estados Unidos e de anos 80.
E aí mora o que muito provavelmente é a chave para o
encantamento que tive com essa música: os anos 80. Nasci em 1986. Completei em
2015, no último de 13, 29 carnavais. Apesar de a minha maior referência de
música na minha adolescência ter sido o rock grunge e o metal do Iron Maiden,
os teclados dos anos 80 (ou nos anos 80?) sempre formaram uma trilha sonora
constante na minha vida, sobretudo na minha infância e adolescência. Teclado em
música de rock, pra mim, tem cheiro de passado, daqueles acontecimentos que
foram e não são mais; daquilo que um dia fui e que hoje está muito diferente, e
que vai ficar ainda mais diferente, até não ser mais de todo.
Em determinados momentos da minha vida (isso só acontece
comigo?) eu tomei consciência de que o tempo estava, de fato, passando. Esses
momentos são para mim como se uma enchente invadisse a minha casa, ou como se
eu tivesse tomado um soco ao passear na rua, sem mais nem por quê. Achava um
máximo quando estudava os poetas do arcadismo brasileiro na escola e lia que
eles falavam do carpe diem, da
efemeridade da vida e tudo o mais. Era tudo poético, lindo nas páginas do livro
de literatura. Parecia que a danada da efemeridade nunca sairia dali das
páginas do livro. Até que a escola acabou e veio a faculdade; e namoros
malogrados; e perenes problemas familiares; e depois o mercado de trabalho; e
agora os 29 ou os quase 30. E com isso a sensação de que perdi algo que ficou
no caminho, algo que nunca mais vou recuperar. E que não soube usar direito
esse algo.
Parece loucura eu me sentir velho com 29 anos de idade. Mas
para mim, nesse momento, parece algo muito compreensível. Já não tenho mais a
inocência e a energia de antes. Há uns 15 anos atrás eu não precisava de muito
para me sentir vivo e esperançoso. Hoje já não é mais assim. E isso caiu na
minha cabeça enquanto meu aniversário se aproximava. Não faço ideia do que farei
com os meus 29. Só sei que muitos dos que cresci vendo e ouvindo já se foram,
muitos em 2014, muitos rostos que eu via na TV e muitos pensamentos que eu lia
nos livros. E que eu mesmo, daqui há algumas décadas, “passarinho” (e o grande
Mário também já se foi). Isso me apavora.
Hold me up é a
lembrança de minhas adolescências, das que vivi e das que não vivi, das esperanças
que sentia e dos sucessos que nunca tive; dos amigos e amigas que fiz e da banda
de rock que nunca formei; dos amores que vivi em prazer e dor e dos que vivi em
sonho; dos carnavais que nunca pulei. Toda vez que ouço essa música sinto um
misto de emoções e uma aura enorme de passado. A miséria humana da morte, já
cantada muitas vezes por muitos e muitos poetas, têm me sondado constantemente.
A passagem do tempo é cruel. Mais cruel é senti-la.
O que, então, faremos com isso?
