domingo, 14 de julho de 2013

Sobre o amor e a ciência

Einstein sexy



Jamais me esquecerei do Lima, um cientista amigo meu. Era um daqueles profissionais que respiram a sua profissão, vivendo-a, exalando-a em cada segundo da sua humilde existência. Na época em que o conheci ele estava pesquisando as teses de Girard, na tentativa de criar a sua própria tese sobre a essência do homem, que visava associar a antropologia à biologia. Seus livros viviam rabiscados, de tal forma que parecia que ele já os tinha comprado assim. Era engraçado que, por vezes, eu observava que ele riscava parágrafos inteiros desses livros, como se ele estivesse querendo corrigir o autor da obra que tinha em mãos. E de fato era o que ele queria. E, ao que me parece, fazia com propriedade.

Mais rabiscada do que seus livros era a sua aparência. Lima era a encarnação do estereótipo do cientista, o mais clichê que se possa imaginar, como se tivesse saído de um filme qualquer de sessão da tarde, digamos, um De volta para ao futuro. De calças jeans desbotadas, camisas sociais velhas, canetas nos bolsos e livros sempre a mão, Lima parecia um personagem. E de fato o era. Fazia de tudo para ser reconhecido como nerd. Falava como uma pessoa que jamais perdia o foco do seu estudo, olhando sempre fixo nos olhos do seu interlocutor, coçando de vez em quando a cabeça e ajeitando quase sempre os óculos.
Era impossível falar com o Lima sobre futebol ou qualquer coisa que estivesse fora de suas preocupações antropo-filosóficas. Quando da derrota do Vasco para o Flamengo na final da Copa do Brasil de 2006 - a qual me doeu como se eu tivesse perdido uma perna - Lima foi incapaz de ouvir as minhas lamentações de bêbado. Como Jeremias, eu quase procurei um muro para poder expressar a dor que sentia pela derrota de uma guerra, na qual do outro lado o inimigo, de uniforme preto e vermelho, parecia vencedor antes mesmo do jogo acontecer. Tempos difíceis aqueles. Tempos que o Lima não compreendeu.

Certa vez tive a péssima ideia de chamar o Lima para tomar uma cerveja comigo, o Vieira, o Saulo e o André. Entre idas e vindas de copos cheios do líquido mágico que se vende nos botequins do Rio, eis que nos aparece uma menina cujo corpo foi, de certo, um dos mais bonitos que eu já vi na vida. Com uma minissaia apertada, barriga de fora, umbigo redondinho, como um pequeno abismo no meio de um corpo perfeito, e, por debaixo da blusinha, uns seios desprovidos do cárcere do sutiã, cujos mamilos estavam arrepiados, nos fazendo a todos no bar aplaudir aquela linda moça de pé - a despeito de todos nós continuarmos sentados. Lembro-me de todos a nossa mesa termos ficado desconcertados, como que hipnotizados. No meio desse êxtase coletivo e silencioso, íntimo, surdo e assustadoramente expresso, eis que o Lima solta a seguinte pérola:

- Incrível a força da estética social impressa na mentalidade humana, não é? Daí o fato de Elias dizer que a estrutura psíquica do homem seja moldada pelo processo civilizatório. Essa menina é bela, belíssima. Mas devemos pensar que essa beleza não está nela, mas sim em nós. Se as formas dela, que nos fazem nos excitar como agora estamos, foram formadas, antes, na nossa mente pela educação, então poderíamos dizer que a realidade de sua beleza é socialmente construída, concordando, assim, com Berger.

É impressionante a capacidade que as palavras possuem de amolecer o pau de um homem. Todos na mesa olharam para o Lima como um condenado olha para o seu carrasco no momento final da sentença. Que porra de comentário foi aquele diante de uma beleza quase supra-humana que era a daquela menina? Não vimos outro jeito senão o de pedirmos a conta e irmos embora. A ciência, travestida de Lima, havia acabado com toda e qualquer paixão nossa naquela noite.

Tinha meu amigo como um caso perdido para a humanidade, uma máquina de pensar dentro um corpo mais desalmado do que um muro, quando liguei para ele um dia e não obtive resposta. Estranho. Lima poderia ser um amigo inútil no sentido humano do termo, mas sempre respondia as minhas ligações. Procurei no laboratório de Ciências Sociais da universidade, e nada. Isso era mais estranho ainda. Quando Lima não estava comendo ou cagando, ele estava no laboratório lendo ou resenhando. Mas não naquele dia. Fui, quase correndo e com um pressentimento não muito bom, para o quarto de Lima no dormitório da universidade. A porta - que sempre estava trancada quando ele não estava no quarto - estava dessa vez aberta, e sem uma viva alma dentro. Os livros de Lima estavam jogados sobre sua cama, e uma toalha estava no chão de seu banheiro, parecendo estar ainda úmida. Ao lado dela havia o objeto mais estranho que poderia haver dentro do quarto do Lima: uma calcinha.

Uma calcinha? Teria o Lima aderido ao cross-dressing? Seria uma tara à la David Beckham? Teria ele descoberto o cheiro especial de feminilidade que uma calcinha possui? Será que ele queria me dizer num grito surdo o tempo inteiro que ele era gay? Ah! Minha cabeça girava de tanto pensar nessas loucuras. Não conseguia imaginar o Lima dando um estalinho nem na sua mãe, que dirás dando a bunda, meu Deus, A BUNDA! Não que eu seja homofóbico malafaísta, desses que citam versículos do Levítico para justificar todo o seu ódio (e esconder seus desejos homoeróticos?) contra pessoas que amam e dormem com outras do mesmo gênero. Mas é que eu tinha o Lima como uma espécie de santo que, em defesa da pureza da alma e da ciência, mantinha a castidade do corpo para libertar a mente do cárcere dos limites cerebrais humanos.

No auge da minha desolação, sentado na cama do quarto do Lima e com a calcinha - aquela calcinha - na mão, eis que eu vejo pela porta aberta, lá do outro lado, um casal que andava mais abraçado do que amantes em episódios finais de novelas mexicanas. Limpei meus óculos para ver melhor, e sintonizei minha mente na imagem que tinha no horizonte: era o Lima abraçado a uma negra com corpo de passista da Mangueira, dando bitoquinhas em seus lábios, apalpadelas na busanfa dela (e que busanfa...), andando pelo pátio da universidade, feliz da vida, rei do pátio e da juventude. Ele chegou ao ponto de estar usando bermuda. Bermuda, minha gente! Lima, o santo, de bermuda, mostrando toda a graça de suas canelas brancas com punhados de pelo esparsos ao longo das pernas. Que visão do inferno, Deus. Que visão...

Enquanto aquele casal que unia a imagem mítica de uma deusa negra ao titã mais feio e inútil da mitologia grega se aproximava de mim, inebriando o quarto com toda a sua espiritualidade, eu só fiz ficar parado e perplexo. Ao entrar no quarto, pela primeira vez em (talvez) 20 ou 30 horas, Lima desgrudou os olhos da linda mulher que tinha nos braços e, surpreso, me viu em sua cama. - HÁ, Tiago, é você, filhote! Deixa eu te apresentar a Silvia, minha mulher. Ah, casei, antes que você me pergunte. Nos conhecemos ontem no pagode ali da esquina. Não, não, eu não tinha ido ao pagode. Estava indo comprar um miojo quando passei em frente ao boteco da esquina e essa linda sorriu pra mim, e o resto se deu naturalmente... Casamos! Conta pra ele, Silvinha...

A Silvinha, dona de um belo corpo e de um sorriso encantador, falava pra mim como que em slow motion tudo o que tinha acontecido desde o encontro dos dois até aquele momento. Confesso que não conseguia prestar a atenção em nada... Era tudo muito irreal pra mim. Lima, falando gíria, usando bermuda e casado com uma criatura celeste daquelas...


Ao sairmos do quarto, depois que Lima reuniu as suas coisas e colocou nas malas, ele virou pra mim e disse, em voz baixa: - Tiago, a beleza existe! Ela é real. E a boceta dela é mais leve e fluida do que veludo... - Dando um tapinha nas minhas costas, Lima me deixou com essa reflexão na cabeça: o que uma mulher é capaz de fazer com a mente e o comportamento de um homem! O que é o amor, a paixão, o sexo! O que não faz um roçar de corpos com o espírito do ser humano... Hoje Lima e Silvia fazem 10 anos de casados. Lima largou a ciência pela praxis da vida...

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