Há algum tempo atrás conheci o trabalho deste que parece ser um dos diretores mais controversos do cinema atual. Estou falando, como o título desse post já deixa claro, do dinamarquês Lars von Trier. E a razão de escrever um texto sobre essa figura não é a de uma admiração profunda pelo trabalho alternativo desse cineasta. Tampouco se trata de uma repulsa pelos filmes dele. E tá aí o motivo desse texto: von Trier é um daqueles poucos profissionais os quais conheço e dos quais não nutro nem simpatia, nem antipatia. E isso me incomoda, pois não gosto de ser neutro. Uma vez um professor meu de geografia disse para a minha turma de 2º ano do Ensino Médio que, em uma guerra, os neutros eram os primeiros a morrerem. Portanto nunca deveríamos ser neutros, e sim tomar uma posição, fosse qual fosse. Nessa lógica, se eu estivesse numa imaginária guerra cinematográfica que estivesse realmente ameaçando a minha vida, eu morreria, e tudo por causa desse sujeito dinamarquês, desse tal de Lars não sei das quantas...
Se não sou fã do cinema de Lars, tampouco consigo ficar indiferente aos filmes dele. Não que eu tenha vontade irresistível de assistir aos filmes dele quando são lançados, tipo quando ocorre com um novo filme do Almodóvar. Não é esse o caso. Mas quando eu assisto a um filme de Lars von Trier eu não consigo me desprender da história. Primeiro foi Dogville, um filme totalmente diferente de tudo o que vi no cinema. Depois foi o Anticristo, um filme de terror que fez O Exorcista virar o segundo filme mais assustador que eu já vi. O segundo, pois o primeiro virou o Anticristo. E por último vi o filme Melancolia, obra que me prendeu do início ao fim com seu enredo enigmático, suas cenas carregadas de depressão e angústia e seu desenrolar curioso.
Essa é a primeira qualidade do Lars: os filmes dele dialogam com quem está do outro lado da tela. Não é um daqueles filmes tipo Godard que dialogam com um grupinho de (pseudos) filósofos ou (pseudos) universitários que se acham fodas porque (pensam que) entendem um filme que quase ninguém (com certeza não) entende. Lars não é assim. Os filmes dele mexem com a gente. Intrigam. Sufocam. Arrepiam. Angustiam. Fazem acontecer, e fazem isso dentro de nós, na nossa mente. Modificam alguma coisa na gente, ao menos enquanto o filme tá rolando. Tá aqui a primeira e mais importante função da arte para mim: ser inteligível, comunicável, intercambiável. Não me venha com aqueles quadros cheios de riscos, cheios de cores, cheios de alguma coisa que ninguém sabe o que é; tampouco me venha com aquele filme cheio de cenas soltas, sem sentido. Eu direi em alto e bom som: isso pra mim não é arte. A arte comunica, força, modifica. Lars von Trier faz isso. Para o bem ou para o mal, mas faz.
Outra coisa que vejo nas cenas dele, principalmente em Melancolia é uma espécie de materialização da angústia, da tristeza. Não que isso me faça bem ou que seja realmente legal ver um filme down o tempo todo, como se fosse a biografia do Joy Division. Mas não é qualquer um que torna real aquilo que é imaginário. O artista tem um mundo em sua cabeça e em seu coração. Colocá-lo em sua obra é uma verdadeira guerra, pois existe um abismo entre a cabeça do artista e sua obra. Isso não parece ocorrer com o Lars. Ele é um maluco deprimido e angustiado. A obra dele é exatamente assim. Existe loucura e angústia em cada cena, e nesta, em cada detalhe. Em Melancolia Kirsten Dunst, uma atriz que até então eu achava mediana, se torna a própria melancolia. Ela tira de si mesma uma expressão profunda do que seja uma pessoa em estado de depressão. Em volta dela o cenário bucólico vira uma espécie de parêntesis num mundo onde tudo parece andar, menos ali, naquele lugar onde a história do filme se passa.
Aliás, se Dunst em outros filmes é tão fraquinha, como ela se torna essa baita atriz no filme de Lars von Trier? Foi ela quem tirou aquele peso todo no olhar que a gente vê no filme ou foi o diretor? As cenas em câmera lenta com música clássica tocando no fundo viraram marca registrada do diretor. Isso ocorre em Melancolia, apesar de eu achá-las meio forçadas, meio sem lugar no filme. Lars tenta ser diferente o tempo todo. Às vezes lembra um adolescente querendo dizer para os adultos "Olha, sou foda, sou diferente, sou esquisito, escuto rock pesado, faço culto ao diabo...". Isso irrita um pouco nele. Digo, na obra dele. Ele é demasiadamente pessimista. Em Dogville ele mata toda uma cidade. Em Melancolia ele acaba com o planeta todo. Isso tudo porque o ser humano parece não valer a pena para Trier.
Às vezes também não vale para mim. Eu tenho meus momentos Trier no qual rola a maior vontade de mandar um foda-se pra todo o mundo, principalmente para aquele pessoal que adora frases de auto-ajuda. Tipo aquela "tudo depende de você! Basta lutar, você vai conseguir!" Na boa, vai tomar no cu e não enche o saco. Mas prefiro os personagens criativos, loucos e cheios de miséria do Almodóvar; os chatos questionadores e apaixonados do Woody Allen; os sábios de Kurosawa ( maior de todos!), do que a melancolia de Trier. Ele parece ser o cineasta do ponto final. O cara que fala "a vida é uma merda" o tempo todo. Já os outros que citei parecem que são os cineastas da névoa. Tipo, aqueles caras que falam assim: "a vida é estranha, tem gente esquisita, e precisamos de coisas malucas. Mas, quer saber? 'Bora trilhar alguma coisa nesse deserto aí. Deve ser divertido..."
Não sou fã do Trier. Não odeio Trier. Eu assisto o Trier.
