Os poucos leitores do meu blog sabem que eu adoro fumar. O fumo é pra mim um prazer indescritível e incontrolável. Acho que têm mais textos falando sobre cigarro nesse blog do que sobre amor ou qualquer outra coisa. A senhorita Lispector certa vez disse, após ouvir as recomendações de um médico para que parasse de fumar, a seguinte frase: "Mas como posso deixar de fumar? O calor humano é tão parco... eu fumo então." O meu cigarro é o meu melhor amigo, como penso que ele também o era para Clarice Lispector. Mas o que me levou a fumar inicialmente foi a estética. Os movimentos inerentes ao cigarro, o ir e vir das mãos de um fumante, o leve inclinar da cabeça no momento em que a fumaça do cigarro sai da boca... Sempre achei toda essa vida que só os movimentos de um fumante têm genial, única, belíssima. Certa vez vi uma menina numa lanchonete fumando um Camel enquanto lia um livro. Ela era magra, cabelos lisos e castanhos, pele alva, olhos sérios, indefinidos, puros mistérios. Quase enlouqueci... Há coisa mais atraente numa mulher do que vê-la assim, dessa forma em que vi essa menina nessa lanchonete? Sou dos que acham que uma mulher deve se dar ao respeito. E pra se ter respeito, as mulheres devem, antes de qualquer coisa, ter atitude, postura, pois há momentos na vida, e eles não são poucos, que o que nos restam são as nossas atitudes, puras e simples. E para se ter atitude com o fim do respeito, é indispensável a uma mulher acender um cigarro.
A despeito disso, ando muito triste com a seriedade com a qual meus amigos têm insistido para eu parar de fumar. Não estou triste com eles, lógico que não. Estou triste com a razão deles. Quando um amigo meu diz que eu vou me fuder se continuar fumando eu fico triste porque ele tem razão. E, pra piorar a minha desgraça, uma conhecida minha morreu ontém, dia 6 de dezembro de 2010, vítima do cigarro. Tá certo que ela já era idosa, mas ouvi dizer que o câncer dela foi provocado pelo cigarro, começou no pulmão e se espalhou pelo corpo todo, chegando até o cérebro. Minha mãe me contou com detalhes isso que lhes conto agora, meus leitores. E confesso que fiquei apavorado.
O que me apavora não é o cigarro nem os males que ele causa. O que me apavora é a vida. É impressionante como a vida é absurda, como a gente tem de se prevenir contra inúmeros males físicos possíveis de abater o corpo humano. Transar sem camisinha pode levar a AIDS, dentre outras doenças ( e como é ruim transar com camisinha...). Beber pode levar a cirrose. Ouvir música no último volume com o fone do celular pode levar a perda gradativa da audição. Ser professor pode desencadear problemas psicológicos ligados ao absurdo que nós professores estamos condenados a lidar somente por sermos quem queremos e gostamos de ser. Comer determinados tipos de alimentos pode causar problemas de estômago. Beber coisas com corante amarelo e vermelho causa câncer. Coca-Cola causa problema nos ossos. Enfim, viver mata. Ser feliz mata. Ser você mata.
É por isso que me sinto obrigado a concordar com o horrível Cazuza. Digo horrível porque vejo os intelectuais brasileiros encherem a bola dele chamando-o de "o poeta". Porra nenhuma. Cazuaza foi mais um insuportável burguês carioca a participar dessa coisa fétida e idiota que convenciou-se chamar de MPB. Foi mais um playboy da Zona Sul com um violãozinho no colo e que se pôs a cantar o céu, o amor, as ondas do mar... Enfim, merda. Mas uma coisa ele disse que não só é verdade como me obrigou a bater palmas para ele: "O meu prazer virou risco de vida..." E é exatemente assim que me sinto quando abro o meu maço diário de cigarros para fumar e me perder na fumaça dele. Me sinto com prazer e medo de viver. Me sinto corajoso e acuado ao mesmo tempo. Me sinto livre e escravo, senhor e servo, patrício e plebeu...
Viver é foda. Eu só queria viver sem medo, morrer velhinho fazendo tudo aquilo que eu mais gostei de fazer ao longo de toda a vida. Eu só queria viver com prazer nas coisas que faço, pura e simplesmente. Não quero morrer aos 40 alojado numa sala qualquer do Hospital do Câncer. Só queria e quero e sempre vou querer viver...
