Existe uma frase no livro “O
Pequeno Príncipe” que chama a atenção por si só, independente do livro. É essa:
“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.
Essa frase daria uma dissertação,
uma tese, um livro. Uma vida. A filosofia inteira de uma geração poderia estar
contida nessa frase, tamanha a complexidade do dizer dela. E o que ela diz? O
que ela significa? Vamos ver se consigo expressar o que ela me faz ver e
sentir...
Houve épocas nas quais ser uma
pessoa não era algo de grande valor. Na Grécia Antiga, por exemplo, o termo “idiot”
denominava a pessoa que não tinha vínculo algum com um grupo social importante,
com uma família tradicional. O indivíduo isolado era visto como algo um tanto
quanto deplorável. Desprezível. O valor estava na coletividade, em pertencer a
ela.
Com o passar do tempo isso mudou.
Lutero, o monge reformista criador (involuntário?) da Igreja Protestante
começou por colocar o homem diretamente diante de Deus. Não havia nada mais
entre o ser humano em busca da salvação de sua alma e o Deus todo poderoso, amável
e severo ao mesmo tempo. Agora a responsabilidade de conquistar a alma cabia a
cada um, e ponto final. Traduzida a Bíblia do latim para as línguas faladas e
entendidas pelo povo, cabia a cada um aprender a ler e buscar as bênçãos de
Deus para a sua vida.
Daí pra frente na história do
pensamento ocidental, a pessoa foi ganhando gradativo valor. Essa mudança filosófica
foi homologada pela estruturação do sistema social capitalista, vitorioso nas
revoluções da França e da Inglaterra. E, posteriormente, no mundo. Instituída a
primazia do dinheiro, cabia agora ao indivíduo o seu próprio sustento através
do seu salário. A individualidade ganhou valor e preço, sendo aquele maior e
mais importante do que este.
Hoje vivemos na chamada (pós)modernidade. Ser um indivíduo é, antes de tudo, uma vitória material, a ser conquistada com a entrada no mercado de trabalho. Trata-se também de uma vitória espiritual. Ninguém tem paciência hoje para pessoas muito amáveis e dependentes. Todos exigem que tal pessoa seja mais “livre”, que aprenda a ser menos carente e mais ativa, mais independente. Mais pessoa. Mais núcleo de si mesma.
Os liberais gritam, enfurecidos,
contra qualquer programa social do governo. É a pessoa que tem que trabalhar e
conquistar, dizem eles, e não a política fazer isso por ela. As feministas
lutam pelo aborto dizendo que esse ato se trata da conquista do direito de a
mulher decidir sobre o seu próprio corpo. As pessoas se isolam na frente da TV
dentro de seus condomínios fechados. Tudo o que é coletivo dá medo. Ergamos
muros, portanto. Vamos trabalhar, consumir, nos afastar e depois morrer... Nesse
processo vale transar, e muito! Mas, favor, não se envolver... Isso é perda de
tempo...
Com a ideia da primazia do indivíduo,
tudo pode ser justificado. “A casa do favelado não tem acabamento”, diz o
liberal, “porque ele é preguiçoso, um porco”. Em defesa do corpo da mulher grávida
e feminista, ignora-se o outro corpo que está dentro dela. Dentro das grades do
condomínio, perde-se a habilidade de conviver com os perigos da vida. No sexo
hard sem envolvimento, perde-se a chance de amar e sofrer... E ser humano de
fato...
E nesse fluxo cultural individualista
vamos perdendo o aprendizado de se preocupar de verdade com o Outro. Vamos
seguindo a nossa vida, indo e vindo, chegando e, depois, se despedindo. E se
por um acaso alguém se apegar a nós, azar. “Foi sem querer. Ela que procure uma
terapia. Nunca quis que ninguém me amasse...”.
Algumas pessoas que passaram pela
minha vida me cativaram. Umas querendo. Outras sem querer. Mas todas, em algum
momento, foram embora sem olhar para trás. Algumas deram um tapinha nas minhas
costas como consolo. Outras nem isso. No final eu busquei algum tipo de terapia
e sobrevivi. E aprendi, com lágrimas, a ser pessoa, a me virar sozinho...
Não sou a favor do auto-sacrifício.
Só penso que devemos procurar um equilíbrio entre o nosso eu e o eu das pessoas
que se relacionam conosco, seja na amizade, seja no amor. Afinal de contas só há
sentido em ser pessoa quando temos outras pessoas em nossa volta. É nesse
sentido que entendo que nós, indivíduos, devemos cuidar dos outros indivíduos
que nós, por um acaso ou por vontade, cativamos.
Dar as costas e buscar o que
queremos, simplesmente porque queremos, é ser irresponsável com as pessoas que
se machucarão com o nosso querer. Mutilar o nosso querer e, com isso, machucar
o Outro e a nós mesmos, é ser irresponsável com o Outro e com a gente mesmo.
Dificuldades a parte, buscar o equilíbrio utópico entre o eu e o Outro é
preciso...
