sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O tempo na pena do Baleiro

A letra de "Minha Casa", canção de Zeca Baleiro do disco "Líricas" (2000) é de uma força poética e existencial muito profunda, ao menos para mim. Ela começa com uma sequência de versos arrebatadora, na qual passado e futuro são confrontados, estando, no meio deles, o eu poético discursando suas reflexões sobre esses dois tempos, estando o presente implicitamente representado pelo próprio eu lírico na canção.



Os verbos mimeografar e imprimir são usados de forma genial e sutil para representar, respectivamente, passado e futuro ("É mais fácil mimeografar o passado/que imprimir o futuro"). A palavra "fácil" aqui não quer dizer que, de fato, (re)construir lembranças de episódios já vividos por nós seja algo fluido, com o qual nós sempre lidamos com facilidade. A colocação dela, é claro, é relativa à palavra futuro, que aqui representa o desconhecido, o vácuo do nosso próprio tempo de vida, que de fato não existe, como Renato Russo já colocava em Pais e Filhos.  

Para o poeta (ou para seu eu poético, como queiram; mas nem preciso dizer que eles não são a mesma pessoa...), a construção do futuro é um desafio maior justamente por ele não existir. Daí a maior dificuldade em imprimi-lo: o passado já tem uma base de significado. O futuro, não. O futuro é a construção de lugares, de territórios, de caminhos, enquanto o passado é um labirinto móvel, dinâmico, de lugares que viram não lugares, de caminhos que viram descaminhos ou do esquecimento que vira lembrança. O passado é a lembrança de uma infância. O futuro é uma viagem para a Sibéria.

O desejo da felicidade aparece aqui de uma forma serena; realista, mas sem ser fria; crítica, mas sem deixar de sonhar, sem que a vida perca a beleza e a poesia. Afinal de contas, o poeta quer "tatear estrelas distraídas". Mais uma referência sutil ao passado é feita aqui. Se os astrônomos estão certos, o brilho das estrelas é uma marca do passado, pois elas não existem mais, só seus brilhos. Então, tocar em "estrelas distraídas" poderia ser, aqui, sentir as lembranças de forma bela, como se elas fizessem parte da vida humana de um jeito harmônico, como numa sinfonia. Esse equilíbrio talvez seja o maior dos "para-raios" aos quais o poeta se refere na penúltima estrofe da canção. Esses para-raios postos na canção entre as coisas mais simples da vida: a delícia das frutas num passeio público e os beijos apaixonados em dias de chuva. As dificuldades e a doçura da vida aparecem aqui lado a lado, estando na mesma estrofe do poema. Como não na própria vida.

Ao chegarmos à última estrofe nos defrontamos com o eu lírico na porta de sua casa, a casa de toda a sua vida ("a mesma e única casa/a casa em que eu sempre morei"). Passado e presente se unem aqui na figura dessa casa, que é o território do poeta por excelência. A passagem do tempo é mostrada na imagem de uma escola de samba que atravessa a avenida ("vejo o mundo passar como passa/uma escola de samba que atravessa"). Se a casa velha é a díade passado-presente se tornando unidade, a escola de samba é o futuro, pois ela passa, ela anda para um final que se repete, como Sísifo, no marcante mito grego. O futuro aqui não é necessariamente inovação.  E as marcas de uma pessoa que passou pela vida do poeta estão aqui postas com a calma de alguém que aprendeu a amar a vida pelo que ela é ("pergunto onde estão teus tamborins").

Essa é, talvez, a composição mais completa e bonita do Zeca Baleiro, esse artista maranhense de voz forte e delicada ao mesmo tempo e com uma poesia muitíssimo potente, de um humanismo refinado, nem severo, nem ingênuo. Apenas poético.  

domingo, 12 de outubro de 2014

Memória

Donna Summer,1989



Quando foi que o sábado se tornou para mim um dia como outro qualquer? Quando foi que deixei de sentir todas as dores e alegrias desse mundão de meu deus? Como fui parar aqui, nesse apartamento velho de uma cidade que nem se pode chamar de esquecida, visto que jamais foi lembrada? Numa rua qualquer de uma cidade qualquer de uma periferia qualquer dessa cidade também qualquer chamada Rio e que insistem por aí em dizer que é maravilhosa...

Antigamente eu costumava sentir o cheiro do resto, daquilo que o nosso ideal excludente e patético de sociedade tenta pôr para debaixo do tapete, tenta fingir que não existe ou, se percebe que existe, o apreende como uma personagem de um mundo distante, de uma história fantástica, como se fosse um vírus que existe no lugar mais distante da África, como se esse fosse o lugar da miséria, que é o oposto do nosso lugar, que é o lugar onde cada coisa está em seu devido lugar, pois é assim que acreditamos ser o nosso lugar. Sentia o cheiro dos viados de glamour fosco e imaginário, das putas baratas, dos travecos sem destino, dos bêbados, dos brigões, dos meninos de rua, das pessoas sem casa... Sentia o cheiro da dor que as ruas do Rio antigo carregam no bairro da Lapa. Sentia o cheiro do sangue derramado pelos esquadrões da morte em Caxias. Sentia o cheiro de comida barata, da lâmpada fluorescente de luz fraca e de música dos anos 80, cheia de teclados e de letras que falavam de um amor fácil. O cheiro das biroscas de nossa cidade, o cheiro dos pontos de encontro dos restos, das legiões de resto que esse país guarda em si e para si, mas sempre debaixo do tapete, dentro do armário, em corredores escuros...

Lembro que quando jovem em passava em frente ao bar da esquina de minha rua e sempre ouvia músicas que me lembravam a minha infância ou que me lembravam uma noite de sábado ou que me faziam viver uma noite de sábado. Billy Idol, Tina Turner, Paul Young, Roxette, Donna Summer, Bee Gees, Elton John, Rod Steward, Brian Adams, Celine Dion... Bagaceiras… Tudo aquilo que a dita alta cultura, a autointitulada fina arte nunca iria aceitar em seus meios. E mesmo quando aceitavam o faziam como uma espécie de concessão. Lembro de uma época, há muitos anos atrás, não sei se trinta ou quarenta anos atrás, na qual Maria Bethânia cantou em seu show a música de uma funkeira carioca... Oh, meus amigos foram à loucura enquanto eu fui às náuseas. "Maria Bethânia... você viu o que ela fez?" "O coral da USP fez o mesmo... você viu?", diziam eles nas antigas redes sociais que existiam na internet. Ora, quem gosta de bagaceira são aqueles que põem música dos anos 80, dos anos 1980 para tocar em juicebox de botequim. Esses são os bagaceiras e até hoje eles existem. E ponto. O resto é concessão à bagaceira. Jamais serão bagaceira... Jamais serão resto... Como eu sou hoje...

Acho que foi aí, foi quando virei resto que perdi a capacidade de sentir o cheiro de um sábado, que é um cheiro parecido em intensidade e profundidade com o cheiro de natal. Quando eu mesmo me tornei um bêbado, um solitário que perscruta a vida alheia pela janela sentindo todo o pesar que subjaz às dores humanas das vidas da Baixada. Um assalariado que não sabe pra que ganha um salário. Lembro-me que costumava amar os sábados. Eram dias que me pareciam guardar sempre uma surpresa para mim. Uma banda de uma cidade próxima à minha terra, da qual não me recordo mais o nome, mas era uma banda de reggae, disso eu sei, fez uma música em homenagem às noites de sábado. Eu faria se pudesse uma música para o dia de sábado inteiro, manhã, tarde e noite, naquela época, tamanha era a alegria que sentia nesses dias, nos dias de sábado.

Talvez eu tenha perdido essa alegria, a minha alegria, quando fui percebendo aos poucos que a vida era grande demais para caber em mim, e que meus sentimentos eram complexos, fortes e intensos demais para caber numa vida. Ou quando vi mamãe pela primeira vez chorar no sofá por causa de papai. Ou quando vi um amor passar, quando fiquei sozinho em um encontro marcado ou quando deixei alguém sozinho em um encontro marcado. Quando comecei a sentir medo pelos entardeceres da primavera ou angústia em dias cinzentos. Quando vi meu irmão num leito de hospital, ou quando vi minha avó parar de fazer roscas de fubá pois ela havia morrido, e mortos não fazem roscas de fubá. Antes disso minha vozinha tinha parado de andar e depois tinha parado de enxergar e depois de lembrar da trajetória que ela tinha construído em sua vida. Perdi a alegria, talvez, quando vi que me enrolar num cobertor e me esquentar num dia frio não me protegia mais das incertezas da vida. Eu estava aqui. Não sei se vim parar aqui, mas estou aqui, na vida, nessa vida. Vivo hoje como vivi ontem e anteontem. Viverei mais um pouco amanhã e cada vez menos no futuro. Até que deixarei de ser. É assim para mim, é assim para todos, e um cobertor num dia frio ou o colo de minha mãe após um pesadelo não mudaria isso. Até porque houve tempos em que a minha própria família foi meu pesadelo. Um abraço, um laço, uma facada. Tanta coisa em um mesmo ato. Tanta vida e morte num mesmo verso.

A mim restou a vida. As ruas, as crianças, as mulheres, as luzes, a noite, a brisa, a arte... As coisas. Ver e viver as coisas. Um dia após o outro. Sem pecado e nem perdão, como disse um poeta. Ou sem deus nem diabo. Encarar o tédio e o vazio. Encarar a saudade e a ternura. Encarar a dor de quem vê um ente amado ir embora. Viver a perda tão intensamente quanto o gozo. Fazer sexo e tomar um café com pão e manteiga na esquina. Ver seu time perder e ganhar. Gritar com isso. Gritar com tudo isso. E tentar passar pro papel o sentimento que guardo sobre todas as coisas. Assim tem sido. Assim foi e será, não sei até quando, pois vou em breve, muito em breve. Minha vista já está cansada. Meu corpo dói. Minha pele está cheia de caminhos que não existiam antes e que não dão em lugar nenhum. Como a vida. O olhar está cheio de marcas. Como minha pele. Meu peito bate cada vez mais fraco. E só sinto essa dor que abraça tudo, tudo, tudo... A dor de quem olha para trás e vê um caminho repleto de ossos, uns saudosos, outros não. E pra que tudo isso? Tanta vida... Tanta dor... Tanta fome... Tanta saudade... E a morte.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Noite no motel

Das curvas do teu corpo
Fazia meus movimentos

A janela aberta
Trazia os fluidos do relento

A música do rádio contribuía
Para o construir do sentimento

E numa sinfonia perfeita
Fazia com você o meu momento

E nessa noite sacra éramos deuses
Elaborando gozo no lugar do lamento




(Denis de Barros, setembro de 2014)

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Velhice

Esse é o poema
Do tempo perdido
O que foi
Terá sido?
A manhã
Amanhecido?
O terno
Enternecido?

Os sorrisos que sorri
Os amores que amei
Os carinhos que recebi
Os caminhos...

Foram?

Existência, existência...
Onde estará
a sua

consistência? 


(Rio de Janeiro, 2014)

sábado, 19 de julho de 2014

Entrevista com Pablo Borges, por Gerardo di Paula (Revista Literária da Universidade Nacional, nº 123, 2022, Rio de Janeiro, Brasil)

Essa é a primeira de uma série de cinco partes nas quais foram divididas a entrevista que o escritor Pablo Borges deu ao jornalista Gerardo di Paula, da Revista Literária da Universidade Nacional. Avesso às entrevistas, Borges concedeu muito poucas ao longo de sua vida. Nessa aqui ele esteve particularmente aberto para falar do que pensava e do que sentia enquanto ser humano. Seu contato com a literatura, sua visão da arte e da política, seu desencanto com as instituições, sua relação de rancor com o cristianismo evangélico, a paternidade, a universidade e muitos outros temas aparecem aqui nesse material inédito elaborado pouco antes da morte do único prêmio Nobel que a literatura brasileira possui em toda a sua história.

Os especialistas em sua obra, assim como seus biógrafos, acreditam que essa foi uma entrevista de despedida de Pablo, já que meses depois ele se mataria num hotel da cidade de Congonhas, Minas Gerais. A professora Isadora de Barros Moreira, da Universidade Livre do Ceará, diz que essa entrevista constitui um material chave para entendermos a ontologia da obra de Borges. O também prêmio Nobel Vargas Llosa por sua vez comentou que as palavras de Pablo aqui expostas revelam um homem que estava "convicto de ter visto e vivido de tudo na vida", fazendo referência ao que o próprio Pablo escreveu em sua carta suicida. 

Gerado foi recebido na casa de Borges, no bairro de São Francisco, em Duque de Caxias, num singelo sítio de propriedade do escritor. Barbudo, rodeado por livros e fumando seus lendários maços de Camel, Gerardo diz ter conversado durante seis horas com um Borges sereno e enérgico ao mesmo tempo, sempre muito firme nas suas colocações. "Foram dois dias nos quais fiquei hospedado na casa do escritor, nos quais respirei arte o tempo inteiro, entre cervejas, vinhos, cigarros e muita comida. Se de fato essa foi uma entrevista de despedida, Borges deu um adeus a esse mundo da mesma forma como ele viveu nele: fazendo arte. Sinto-me privilegiado por ter sido o escolhido para isso", diz Gerardo, emocionado.

Os leitores da obra de Pablo Borges terão, pelos próximos cinco meses, a possibilidade de ler as últimas palavras desse que, desde Lima Barreto e Machado, foi o maior de todos os nossos escritores, muito embora ele odiasse essa comparação ("Como diria minha mãe, antes de ela ser crente, comparar a mim com Machado e Barreto é comparar o cu com as calcinhas. Nada a ver", disse ele tantas vezes).

Nessa primeira parte da entrevista, publicamos duas respostas dadas por Borges a Gerado di Paula. Trata-se quase de uma introdução ao que virá pelos próximos meses. Esperamos que os leitores gostem do que lerão. Mesmo que Borges tenha ido, suas palavras, nas poucas entrevistas que deu e nas vozes dissonantes de seus muitos personagens, continuam vivas. Ainda bem...



RLUN: Você é considerado um dos grandes artistas brasileiros dos últimos 50 anos, tendo sido reverenciado por nomes de peso como Chico Buarque, Antônio Torres e Arnaldo Antunes. Como é ser você? Como é carregar o peso de ser um gênio?

P.B.: Interessante que por esses dias eu estava lendo uma matéria do Jornal do Rio sobre mim e a minha obra. Nela, Heródoto Suarez se referiu a mim como o maior artista da primeira metade do século XXI e me definiu como um "supra-humano". O mais legal que eu estava lendo isso enquanto estava no banheiro da rodoviária de Petrópolis, cagando. E enquanto eu me borrava entre peidos e mais peidos, eu fiquei com a expressão "supra-humano" na cabeça. Acho que um supra-humano não deveria cagar, sobretudo no banheiro de uma rodoviária. No entanto, lá estava eu.

Isso de as pessoas acharem que os artistas são pessoas geniais, seres humanos especiais e tudo o mais, isso é bobagem. O artista é um trabalhador. O artista rumina, pensa, repensa, constrói, reconstrói. Arte é trabalho no sentido marxiano do termo, ou seja, no sentido de ser uma atividade que modifica o homem ao mesmo tempo em que modifica algo. O artista modifica a si mesmo enquanto está modificando a linguagem e o próprio mundo no qual as pessoas vivem. Isso é trabalho, não é fruto de uma mente brilhante. Não existem mentes brilhantes. Existem trabalhadores. Eu sou mais brilhante do que o José que construiu a minha casa? Eu sou mais brilhante do que a Maria que lava as minhas roupas toda semana? A prostitua que está, nesse momento, pagando um boquete para um velho bêbado em algum puteiro de Caxias é menos genial do que eu?

Eu não entendo que haja gênios. Dostoievski não foi um gênio. Nem Tolstói, nem Balzac, nem Almodóvar, nem Dalí, nem Bolaño, nem Dante, nem Lima Barreto, nem Remedios Varo, nem Jovelina Pérola Negra, nem Machado de Assis, nem Leminski, nem Mano Brown, nem J.K. Rowling, nem Jane Austen, nem Coppola, nem Gus van Sant, nem etc., etc., etc. Não há gênios, só trabalhadores. O que não deve nos fazer confundir esse fato com a ilusão de que qualquer um é artista. Isso foi uma confusão criada pela arte contemporânea ou pela forma como a arte contemporânea foi recebida. A arte contemporânea colocou que qualquer coisa pode ser arte, não que qualquer coisa é arte. A arte pode vir de qualquer lugar, de qualquer objeto, de qualquer atitude. Mas isso não quer dizer que se eu grito "Au" na rua esse grito faz de mim um artista. Pois não haveria nenhum trabalho nisso. Mas se eu grito "Au" numa reunião de altos executivos, desafiando a lógica utilitária dessa ocasião, e filmo isso, tudo intencionalmente e com a reflexão inerente a todo esse ato, uma reflexão que visa questionar ou problematizar, o que dá no mesmo, a realidade da forma como a entendemos ou como ela se apresenta pragmaticamente a nós, então, e só então, sou artista. E se eu não filmo isso, então não sou artista, mas sim um revolucionário, mas não um artista, pois eu não comuniquei nada a ninguém e a arte comunica, sempre, comunica, tem que comunicar, não há arte solitária, senão punheta seria arte, e não é, a não ser que eu toque uma punheta em um palco ou em uma paisagem urbana nas pernas lisas de uma mulher, esparramando a minha porra na sua perna lisa, deixando meu leite descer na perna lisa de uma bela mulher numa paisagem urbana, numa praça, por exemplo.

E por que raios estou falando de punheta numa entrevista para uma revista de literatura? Simples, porque estou sendo artista agora, estou fazendo arte agora, na sua frente, aqui, agora, estou resignificando a forma que as pessoas têm de dar entrevista, falando de punheta pra você. Isso é trabalho, pois requer reflexão, coragem, leitura, desapego, filosofia. E isso não faz de mim melhor do que ninguém. É só trabalho, trabalho artístico, político e apolítico ao mesmo tempo, pois toda arte é militância, mesmo sendo uma atividade que possui fim em si mesma.

RLUN: Fale mais um pouco sobre essa relação entre arte e militância.

P.B.: Não há relação entre arte e militância. A arte é militância. A arte é a ação humana por excelência, é a humanidade no seu estado mais puro e político e apolítico ao mesmo tempo. Pensa no cosmococa de Oiticica. Pensa na nona sinfonia de Beethoven. Pensa no Sandman de Gaiman. Pensa no Aleph de Jorge Luís Borges. Isso é militância pura, todas essas obras e todas as outras obras já criadas e as que ainda não foram criadas. Pensa: vivemos num mundo no qual o racionalismo, a lógica impera. Você tem que trabalhar, pagar contas e trabalhar e pagar contas e trabalhar e pagar contas para depois, depois de uns, digamos, 50 anos, você descobrir que está com câncer em algum lugar do corpo, mesmo que você nunca tenha fumado, mas você pode ter bebido muito kisuco na infância - aqueles corantes amarelo e vermelho são um veneno, poucos sabem disso - e morrer tendo trabalhado e pagado contas, e as que você não pagou seus filhos pagarão, caso você os tenha. Olha a merda que é isso tudo! Aí vem um escritor argentino e escreve um texto sobre um ponto do universo o qual contém todos os demais pontos do universo! Aí vem Antunes e diz "Tire a mão da consciência e meta no cabaço da cabeça!" Aí vem Jorge Mautner e diz "No meu corpo sangue não corre não/Corre fogo e larva de fulcão"! É como se eles tivessem dizendo, mesmo sem querer, mas dizendo "Foda-se essa porra toda! Vou fazer arte!" A arte é a antilógica, o anticapital, a anticivilização, a aberração mais doce e mais humana do mundo. É política pura isso tudo.


Remedios Varo, por exemplo, tem um quadro "El paraíso de los gatos" que é a suprema militância, nada mais militante que aquele quadro, nada foi mais revolucionário que aquele quadro, nem a Revolução Industrial. Essa obra mostra uma paisagem campestre com torres e brinquedos, com árvores de um verde lindo - que só Varo poderia ter pintado - e com um rio ao fundo. Por essa paisagem se espalham gatos de várias cores, com aquele jeito que só os gatos possuem, aquela cara de nada, aquele deitar-se despreocupado mesmo que o mundo esteja acabando, aquela paz que só os vagabundos possuem, que só a vagabundagem felina constrói. Quando os gatos querem dormir eles dormem. Quando querem seu carinho eles se enroscam em você. Quando querem comida, miam. E dormem, e dormem, e dormem. Quando acordam, brincam. Quando veem, caçam. Quando se cansam, bocejam e se lambem. E contemplam, sobretudo contemplam. Se quisermos ser felizes e revolucionários, devemos aprender com os gatos. Eles não têm grandes aspirações na vida. Os gatos entendem que a vida é o que ela é, e que devemos aprender a nadar nesse rio sem nos deixar levar de todo, mas seguindo seu fluxo, aceitando, como diria o poeta, "a dor e a delícia de ser o que é". Quer coisa mais militante que isso? Seria o fim das terapias e do dinheiro que se gasta com elas, assim como das religiões e dos remédios rivotril e dos prozac. O paraíso dos gatos é uma sociedade revolucionária, a pregação da própria revolução. Quem diz que arte e militância são coisas opostas, não entende nada, absolutamente nada de arte, nem de política. Uma idiota desses já nasceu morto. 

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Um filme humanista, para todo o mundo







A obra Inquietos (2011), do cineasta americano Gus van Sant, é de notável beleza. O filme conta a história de Enoch, um "garoto-problema" que, ao perder os pais num acidente de carro e ficar em coma por um tempo, passando por um estágio de quase morte, se vê morando com a tia, espiritualmente perdido e fixado em frequentar funerais de estranhos.

            Em um desses funerais ele conhece uma menina chamada Annabel, com quem começa uma relação, no início um tanto quanto conflituosa, para depois passar para a amizade e, enfim, chegar a um amor de juventude. Logo Enoch descobre que Annabel está vivendo seus últimos meses de vida, devido a um tumor que a menina tem no cérebro. Annabel, contudo, decide viver esses tempos de forma leve, alegre, curtindo as coisas mais banais do cotidiano, como uma festa de Halloween e um livro sobre as várias espécies de pássaros existentes na natureza.

            As cenas da película, que foram gravadas na cidade de Portland, Oregon, possuem uma coloração amarelada, que confere a elas um tom de saudade, marcando a beleza estética e sentimental da obra. A beleza dos dois atores escolhidos para estrelarem esse filme só completa o (in)crível quadro que Gus pinta ao longo do desenrolar de Inquietos.

            O filme faz também uma homenagem ao realismo fantástico ao colocar Hiroshi, o espírito de um soldado kamikaze morto na II Guerra Mundial, como um personagem importante da obra. Hiroshi se comunica com Enoch ao longo de toda a história, sendo o único amigo dele por muito tempo. É Hiroshi quem leva Annabel para o "outro lado" da vida quando o momento da morte da menina chega, metaforizando o falecimento humano de uma forma tranquila, ao mesmo tempo mostrando a morte como ela realmente é: algo natural.

            Interessante notar que aqui Gus volta ao tema do "garoto-problema", já explorado pelo diretor em Gênio indomável (1997), que fala de um garoto órfão com uma inteligência extraordinária e uma personalidade forte e difícil. Se no filme de 97 o garoto-problema encontra o seu caminho pelos conselhos de um velho analista, em Inquietos ele encontrará nos meses de amor com uma doce menina o chão para continuar a construir o seu caminho.

            O filme escapa dos clichês quase inescapáveis que esse tipo de história traz, como as lições de moral dadas a uma pessoa que precisa se "endireitar" na vida. Longe disso, Enoch descobre em Annabel o amor pela vida em si mesma, um amor que abarca o absurdo da morte e que enxerga no banal a graça de toda a existência humana. Trata-se de uma mensagem humanista, sempre apropriada para a sociedade americana que, como a brasileira, busca seu sentido no espetáculo do consumismo e na fé em um deus punitivo, severo e salvador dos escolhidos.

           Por causa dessa mensagem (o amor pela vida em si mesma) e guardadas as devidas e muitas ressalvas, Inquietos pode ser visto como um 2666 cinematográfico. O livro do escritor chileno Roberto Bolaño versa o tempo inteiro nas suas entrelinhas sobre esse amor, vivido pelo próprio Bolaño que, como Annabel, passou seus últimos meses de vida fazendo o que gostava de fazer: lendo, vendo amigos e, sobretudo, escrevendo. 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Água de chuva



Querida Ana,

Estou indo embora para Portugal. Deixei Luiza, arrumei minhas coisas e, antes de partir, estou escrevendo, agora, essa carta patética para você, te deixando de presente esse livro que me marcou muito. Não passei nas escolas nas quais trabalho. Tô tão saturado daquilo tudo que não quero falar com ninguém, só quero ir embora. Tentar a vida, a sorte, o azar, o amor, o ódio. Tentar. Ser ou tentar ser o que sempre quis ou o que sempre fui e não sabia, ou fingia que não sabia. Deixar a arte correr nas minhas veias e cortar essas veias para, delas, ver jorrar criatividade, horror, beleza, dor... Sei lá. Talvez eu busque a mais pura criação artística ou existencial. Talvez eu busque a alegria fácil da infância. Talvez eu queira me sentir vivo de novo. Talvez eu queira mesmo ser surpreendido de alguma forma. O que levaria, pois, um homem na minha idade a fazer a loucura que agora faço? Minha pequena Lu não me verá enquanto ela estiver crescendo. Não sei dizer se fico feliz ou triste com isso. Crescer para mim é caminhar rumo ao matadouro. O caminho até esse matadouro é belo, sem dúvida. Mas é pesado demais, pelos menos o foi para mim até aqui. Já não me importa mais saber quem sou. Já não acredito mais nisso de "eu sou". Como se um eu estivesse dormindo dentro de cada pessoa esperando que ela deixe a sua própria filha para ser descoberto. Eu sou, ora. Na vida se é. Simplesmente se é e, um dia, cedo ou tarde, se deixa de ser. Não é assim? 

Naquelas escolas nas quais lecionei há tanta pobreza. Pobreza de todos os tipos. Os nadas. As ausências. A falta do domínio da nossa língua como uma das principais ausências. Do domínio completo da língua, quero dizer. Saber brincar com a língua de tal forma que se possa ouvir Construção, de Chico Buarque, por exemplo, e poetar junto com o eu-lírico dessa canção. Não que eu ache que isso seja necessário. Só acho que é uma possibilidade, uma habilidade negada aos filhos esquecidos desse país, os novos esquecidos, os subesquecidos, os esquisitos, os "restos de nada", os um monte de coisas. (E quem os esqueceu?) Um monte, quase todas pejorativas. O que dá dó, pois eles são tão doces, tão doces, tão doces... E tão violentos, tão agressivos. Tão cheios de vida, de energia, de alegria, de força, de criatividade. De tantos sonhos não sonhados e abortados antes do ato próprio de sonhar. Tantos sonhos sem sonhar, tantos sonhos sem início, tantos sonhos sem pensar, tantos sonhos, deus, tantos, tantos... Tantos afogados nos caminhos de pedra quente e áspera da morte cristã, a mesma que promete salvação matando o espírito para salvar o espírito. Tantas são as almas perdidas buscando se encontrar na perdição do caminho rumo a uma eternidade inútil na qual se falará hosana nas alturas ao todo poderoso. Tantas dentro das minhas escolas, tantas, tantas...

Já me perco ao escrever. Me perco por falar nisso de tanto que me dói. Volto ao livro. A esse livro. Esse que foi o último que li antes de decidir fazer o que hoje estou fazendo. Trata-se de 2666, de Bolaño. As últimas páginas dessa obra foram escritas praticamente no leito de morte. O autor estava morrendo, mas continuou a escrever. O livro é inacabado, pois o autor morreu antes de acabá-lo. Mas grande foi o impacto que essa obra me causou. Ela começou cansativa, meio sem nexo. Seu grande tema é a banalidade, o fluir da vida humana, as decisões das pessoas, o cotidiano delas, o que há de banal nesse cotidiano, e o extraordinário emergindo do cotidiano. Bolaño é o poeta da vida tosca, que é bela simplesmente por ser tosca, simples, sem sentido último, pleno, futuro, mas tão cheia de sexo, de amigos, de música, de livros, de mais sexo, e mais livros, e histórias, de caminhos e descaminhos. Ele cria aqui um mundo que é uma pintura do mundo real, no qual as pessoas aparecem caminhando em caminhos que desenham riscos sem sentido, rumo a morte, destino de todos nós. No lugar dele eu, talvez, tivesse me matado para agilizar a morte; ou tivesse fumado muito, ou bebido muito, ou transado muito, ou dormido muito, ou reclamado muito. Mas Bolaño passou seus últimos anos escrevendo. Talvez porque ele acreditasse que a arte é o nosso único sentido. Enfim... O fato é que esse livro me tomou, me arrebatou de certa forma. Meu personagem favorito nele é Hans Reiter. Uma criança peculiar, estranha, mágica, que se tornou um adulto mágico depois de ter passado pelo exército nazista e ter casado com uma louca romântica (isso não é redundância?). Enfim... 

Ana, esse livro está manchado embaixo. Trata-se de água de chuva. Fico envergonhado em te dar um livro nesse estado, mas penso que você deva se orgulhar dessa mancha, como eu mesmo me orgulho dela. Eu a ganhei numa manifestação de rua em decorrência da última greve dos professores de nossa cidade (lembra? você ouviu falar?). A chuva começou a cair logo depois do início do ato. A polícia começou a nos empurrar gritando “meia pista, meia pista, porra, meia pista, caralho!”. Fechamos a Presidente Vargas. Éramos tão poucos. E a chuva desabava. Como tão poucos fecham quase todas as pistas de uma enorme avenida de uma cidade enorme? Fechamos e pintamos o chão com palavras de ordem (mas a chuva levou as palavras de ordem, como num ato de deboche ou de advertência) e desafiamos a polícia e gritamos e pulamos e ficamos na frente dos carros. Alguns companheiros meus foram agredidos e detidos; duas amigas minhas tiveram seus cabelos puxados pelos policiais. Eu me perguntava o que estaria fazendo ali. Pra quê? Por quê?A chuva caía com força. Qual era o sentido daquilo tudo? Esse livro estava na minha mochila. A chuva caía com força. Eu acreditei que a mochila fosse forte o suficiente, mas não era. A chuva caía com força. E a chuva manchou meu livro. Lembro de ter chorado nessa manifestação. Eram uns 200 professores contra toda uma cultura política. Ou contra a mais pura indiferença. Ou a mais sensata razão. Uns poucos bárbaros desafiando inutilmente a nossa civilização bárbara. Por isso me orgulho dessa mancha. Foi a mancha certa no livro certo. A chuva caiu com força naquele dia. O desafio pode ter sido inútil. Mas a ação é alguma coisa, ué? A chuva penetrou na minha mochila e manchou o meu livro. Choveu horrores naquele dia. 

Tirei dessa obra o que pude. Tire dela agora o que você puder. Mantenha-na contigo. Sonhei com você lendo esse livro. Você estava nua no nosso. Foi um sonho bonito. Foi quando descobri que esse livro era, na verdade, seu. Dê a quem você quiser depois de lê-lo. Mas leia-o, por favor. Cuide de Luiza por mim como não pude cuidar dela eu mesmo. Como cuidei de você um dia. Lembra que cuidei de você? Estranho não saber eu hoje como pude parar aqui, no início de um caminho inverso da colonização. Na solidão. Na vastidão. Na abertura. Como vou te deixar pra trás? Como posso deixar a minha vida aqui para trás? Como cheguei a esse ponto? O que me trouxe aqui? Algo me trouxe aqui? Duvido. Somos tão diferentes do que esperávamos nos tornar, né? Como é estranha a nossa juventude... Estranha beleza, estranhos sonhos. Estranha... 

Como não sei terminar cartas, nem conversas, nem relacionamentos, nem nada, termino essa por aqui. Espero viver o suficiente para te reencontrar. Espero mais ainda morrer um dia, repentinamente, sem dor.

Até,



P.

domingo, 23 de março de 2014


E de repente tudo se fez estranheza. O mundo, que até ali tinha sentido, agora parecia ser um labirinto de becos sem razões e sem destinos. Tinha sido um menino que caminhara num mundo no qual deus era o arquiteto e satanás o contra-arquiteto. O que não viesse do planejamento divino viria, forçosamente, do anti planejamento do maior de todos os anjos decaídos. Na verdade, o mundo tinha tanto sentido para ele que as forças satânicas estavam inscritas na vontade de deus. Tudo no final acabaria bem para os justos. A única e inabalável questão nesses tempos era se, no fim dos dias, ele seria ou não um justo, pois isso dependeria do julgamento de deus. De resto, era viver esperando a volta do dito ressurreto.

Mas as águas de Março batiam agora na janela do ônibus que rumava para a faculdade. E ele já não tinha mais certeza de nada. Não estava mais fugindo dos seus demônios, tampouco estava convencido de que eram demônios. A opressão da certeza dava lugar agora ao medo da profunda abertura do futuro. Tudo agora era arte, e ele era, em última instância, um artista, como todos eram.

Havia descoberto recentemente a música de seu país. Como era emotiva a música brasileira, não? Como eram introspectivas as palavras dos compositores brasileiros... Voltava da faculdade à noite olhando fragmentos da cidade em luzes amarelas, espantado com o encanto de bairros decadentes como São Cristóvão, o antigo lar do Império. Havia uma beleza mórbida no seu estado de confusão. Enfim havia sentido em poetar sobre a vida e a morte de pessoas comuns, os sentimentos mesquinhos das pessoas, o sorriso belo da mulher bela, o sexo de um casal qualquer, o apagar das luzes de um quarto do subúrbio, os meninos jogando bola na rua, as colegiais rindo e correndo até o ônibus, o mendigo dormindo e vivendo assim a sua vida trágica, uma pessoa descobrindo pelo seu corpo o seu próprio desejo, as árvores de ipês, o entardecer de um dia de outono, um gol no último minuto da partida, um dia de carnaval, com as suas fantasias e seu cansaço, o mar, o céu, uma cena, um desenho com pincel, um conto, um ponto, um tonto. Finalmente entendera o porquê eram belos os sambas produzidos nos morros cariocas, nos quais corriam o sangue e a poesia dos povos da senzala e dos deuses da mitologia negra.

Tudo o que era contraposição à vida passou a ser, a partir de então, objeto de seu desprezo. Quando chegasse em casa rasgaria a bíblia sagrada, pois o Sagrado estava agora nos seus orgasmos solitários debaixo dos seus lençóis de solteiro, na recém descoberta música brasileira, no rock inglês, nas páginas de Virginia Woolf, no cinema que retratava o desespero humano e nos gritos vascaínos da arquibancada do velho Mário Filho. As madrugadas insones e os sonos das manhãs de sábado eram, agora, tudo que ele tinha e tudo que ele poderia querer ter. A morte era o ponto final das obras de artistas inconscientes. Estava condenado a ser humano. Nesse novo gênesis, tudo era dor e alegria. Tudo era poesia. E cada lágrima levaria um pouco de si para, paralelamente, reconstruir esse si como uma nota musical de uma composição lapidada e destinada à eterna imperfeição. 

quinta-feira, 6 de março de 2014

Carta do artista suicida Pablo Borges

Esse bilhete ou carta foi escrito por Pablo Borges momentos antes de ele se matar num hotel em Congonhas, Minas Gerais, com um tiro na cabeça. Essa carta foi encontrada pelo delegado Plínio Lopes, da polícia de Congonhas. Foi publicada na íntegra no jornal local A Cidade um dia depois do corpo de Pablo ter sido descoberto. Os jornalistas d' O Horizonte de BH não se conformam até hoje com o fato de essa carta ter sido publicada num insignificante jornal mineiro. Mas A Cidade foi quem entrou para a história.

Há algumas controvérsias em torno dessa carta. O terceiro parágrafo foi encontrado com muitas manchas de sangue, não só ele, é claro, mas sobretudo ele, de modo que ficou muito difícil a leitura do mesmo. Foram necessários dois peritos para decifrar a carta como um todo e, sobretudo, seu terceiro parágrafo. Os dois, Pedro Paulo, de 28 anos, e Antônio Carlos, de 37, não chegaram a um consenso sobre o que estava escrito nele. Certo é que esse trecho trata de Lúcia Santos, importante artista plástica brasileira, que fora casada com Pablo durante dez anos. Na versão da carta produzida pelo perito Pedro esse parágrafo é bem menos elogioso do que na versão de Antônio. Mas, por qualquer razão, foi o último quem teve os louros da ter saído vencedor na perícia da carta do prêmio Nobel Pablo Borges.

De acordo com o delegado Plínio Lopes, ao lado do corpo de Pablo, além dessa carta, havia uma guimba de cigarro Camel. Acima da cama do escritor havia um maço de cigarros vazio, assim como o livro O Aleph, de Jorge Luís Borges, uma edição portuguesa de A Literatura Nazi nas Américas, de Roberto Bolaño, o Sandman- Prelúdios e Noturnos, de Neil Gaiman e, por fim, uma edição de A morte de Ivan Ilítch, de Tolstói. Havia também uma mochila com algumas roupas do escritor, uma carta de um homem chamado Henrique, ao que tudo indica o mesmo Henrique citado na carta suicida de Pablo, desodorante, pasta e escova de dente e um notebook. Segundo informações não oficiais, nesse aparelho havia algumas obras inacabadas do escritor.

Borges deixou dois filhos, um amante - esse tal de Henrique que ninguém sabe quem é ao certo - e uma vasta obra composta por 10 romances, 13 contos e 22 ensaios de crítica literária, sendo o mais famoso deles Dostoiévski, um escritor de direita, que causou profundas e fervorosas críticas por parte dos ensaístas e estudiosos da obra do autor russo, os quais consideram até hoje Dostoiévski como um pensador de inclinação esquerdista. Borges recebeu vários prêmios de literatura ao longo da carreira, dentre os quais o maior deles foi o Nobel de Literatura, conquistado em 2009, para delírio de toda a imprensa brasileira. Sua ex-esposa, Lúcia Santos, detém os direitos da obra do autor. Seus fãs, espalhados pelo Brasil, Europa e Américas do Sul, Central e do Norte, continuam ávidos pela publicação de obras novas, mesmo que inacabadas, de Borges. Lúcia não se pronuncia sobre isso, tampouco os secretários responsáveis pela revisão e publicação da obra de Borges.

                                                                        ***

Acho que eu descobri da vida tudo o que ela poderia me oferecer. Mesmo sem ter vivido tudo, conhecido tudo, feito sexo com todas as mulheres e homens existentes no planeta; mesmo sem ter estado em Woodstock ou visto um show do Led Zeppelin; mesmo sem ter conhecido Virginia Woolf ou ter conversado horas a fio com Roberto Bolaño; e mesmo sem ter tido a experiência de ser possuído por um orixá, num transe homérico e profundo do qual eu saísse esbaforido, creio ter captado tudo o que há na vida, através de mim, através de meus pensamentos, através da arte, da minha arte.

Nasci numa família pobre, apesar de ter tido todos os bens materiais que uma criança pudesse querer ter. Cresci em escolas medíocres e cercado de bons amigos. Cheguei à faculdade e descobri meu desejo por meninas e meninos. Meu corpo mostrava a mim que ele era o expressar da difusão de minha própria alma. Desde pequeno sempre olhei tudo e todos com muita curiosidade. Nada me chamou a atenção de forma exclusiva por muito tempo. Minha vida sempre foi uma eterna e infinita distração à la Leminski. E creio que tenha vencido, distraído. Amei e fui amado. Escrevi livros e tive sucesso. Conheci Paris, Londres e Berlim. Amei intensamente um homem pobre de Chicago, num bairro pobre de Chicago. Conheci o terreiro no qual Pierre Verger foi iniciado no candomblé em Benin. Fui considerado um dos melhores escritores de minha geração. Escrevi sobre o sentimento humano, sempre. Escrevi o já escrito. E fui aplaudido de pé em centenas de cerimônias de prêmios literários pelo mundo afora.

Lúcia Santos foi a mãe de meus dois filhos e minha mulher durante meus mais belos anos. E durante parte dos mais sombrios e belos anos de minha vida também. A bela e inigualável Lúcia. A também artista consagrada, mais consagrada do que eu. A Lúcia do sorriso leve e dos pelos púbicos mais lindos e cheios que já vi em toda a minha vida. A Lúcia com sua nudez pornô-erótica anos 60 e 70. A Lúcia da pele clara, dos cabelos negros e da arte mais profunda e do sorriso mais bonito, e dos lábios mais bem desenhados e dos quadros mais bem pintados e das cores mais almodóvicas na sua arte. A Lúcia que me fez aprender o que é arte contemporânea. A Lúcia que me fez apreciar a arte em todos os seus tempos e em todas as suas formas. A Lúcia, sobre quem tanto se escreveu em tantos livros sobre arte em todo o mundo, foi a minha mulher e minha companheira. Mãe dos meus filhos. Minha primeira ménage à trois. A minha Lúcia por dez anos.

Vendo hoje meus filhos entrando na faculdade e sendo encaminhados para os caminhos superficialmente retos da vida, me lembro de quando eles eram pequeninos. Seus sorrisos, seus choros, seus abrigos em meu peito. Seus sonos. Pedro gostava de dormir na minha barriga, babando-a como um chafariz de alegria e descaso com o mundo em sua volta. Ríamos muito dessa cena, e mesmo que minha barriga se balançasse em intensas contrações de uma graça mal prendida, Pedro dormia como se o mundo não existisse, como se só seu sono existisse. Mariana aprendeu a amar e a odiar Pedro na mesma medida. Não me via como um porto seguro e um amigo para todas as horas, como Pedro. Desde pequena, Mariana sempre foi desconfiada e arredia. Mas seu rosto nunca conseguiu esconder o mistério de seu coração. Ela sempre olhou o mundo com uma sensação de estranheza, como se tudo em sua volta fosse muito esquisito, esquisito demais para ser levado a sério ou para ser amado. Mas ela amava. Não o mundo, mas a mim e a sua mãe. E a Pedro, seu maior inimigo e maior de todos os amigos. Do seu jeito, Mariana sempre amou a todos. E eu tive o prazer de gerar, criar e ver crescer dois seres humanos que de mim saíram.

Estranho notar que a mesma porra da qual meus filhos saíram foi a mesma, mesmo que não exatamente a mesma, que joguei em tantos homens e mulheres que tive. A mesma que jogava em Henrique, bem dentro de Henrique. A mesma que eu esparramava, por um prazer puro, quase artístico, nos pelos de Lúcia. O branco leitoso no negro áspero mais doce do mundo. Do mesmo rio natural branco cremoso pode sair belezas muito diferentes. A beleza de poder ver seus filhos crescerem. E a beleza do sexo. Da liberdade do sexo. Da confusão do sexo, onde nada pode ser cartesiano, não se as pessoas se permitirem sentir. Talvez seja por isso que a Igreja sempre tenha visto no sexo o seu inimigo. Ela percebeu que o sexo era a origem da família, dos homens, das mulheres, das crianças, dos gays, das lésbicas, das bruxas, dos transexuais, dos assassinos, dos corruptos, dos santos e dela mesma. Decidiu, pois, por esconder essa incongruência, colocando-a no interior dos desejos calados das batinas apertadas. Do decoro hipócrita. Da violência nossa de cada dia, que mantém a nossa civilização respirando.


Seja como for, creio que vi e vivi o bastante. Depois que vi o Cosmococa de Oiticica em Inhotim, percebi que não se pode ir mais longe numa existência humana do que as experiências que tive. Ouvir rock deitado numa rede é a síntese mais possível e certeira das possibilidades e da miséria da vida humana. Pois a mesma civilização hipócrita defendida pela Igreja permanece à espreita de Oiticica o tempo inteiro. Cosmococa só faz sentido por causa dessa civilização. A anti-civilização só pode existir por causa de seu contrário. E isso é tudo. E já estou cheio de tudo. Esse texto é o último livro que escrevo. Essa cidade é a última que respiro.  

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Poemas em um poema de um poeta impostor


Tarja preta                                                                                

O que
fazer
Quando a alma
Insiste em
doer?
O que nos resta
quando
por dentro
comanda o inquietar
a não ser
cair
em si
e poetar?

...


Porão                                                                                      


Agora
   minha alma
      se encontra
             na mais escura
                        das horas...


...



Resistência

À racionalidade imposta
pelas coisas
oponho o meu livre
poetar

Durmo quando tenho sono
acordo quando
tenho
que

acordar...


...


Recortes

Uma manhã
cinza
garrafa de cerveja
vazia
no espírito
jazia
uma dor surda, pujante,
insolúvel

As cortinas
meio cerradas
no computador
uma carta
a cama
bagunçada
o corpo estirado
no chão
da sala
e o ir e vir da barriga peluda
dava o ritmo
do passar do tempo

Os olhos
se abriram
o corpo
doía
a cabeça
doía
a alma
existia
os livros
que tanto amava
de frente para si
o chão
gelado
o teto branco
escuro
a casa
com gosto de adeus

Levanta
e anda
o espelho do banheiro
a cara amarrotada
o gosto de ressaca na boca
o olhar cerrado
doído
esculachado
inchado
e no ar
uma pergunta

A vida ainda
vale
a pena?







domingo, 5 de janeiro de 2014

O estranho mundo dos shoppings




Houve uma época da minha vida na qual eu adorava ir ao shopping. Ir ao shopping para passear, andar, ver as coisas e as pessoas. Só de entrar pelos portões automáticos e ver aqueles pisos sempre muito luxuosos, em combinação com aquele monte de vidro das vitrines das lojas, os designs dos tetos, em geral bastante modernos (muito embora não faça ideia do que seja moderno em arquitetura), o burburinho de vozes e o barulho dos passos da multidão de consumidores. Acho que era isso tudo (isso é tudo?) que me fazia entrar nos shoppings e achar aquilo tudo um máximo. Não que eu fosse consumista desde sempre. Eu sempre consumi em shoppings basicamente cinema e comida. E em comida podem ler Bob's. Durante muito tempo meu ritual de sábado a noite era ir ao cinema (de preferência na última sessão) e com um lanche do Bob's nas mãos, que eu pedia para a viagem só para poder levar pra sala de cinema e comer vendo filme. Isso me fazia muito bem, mas muito bem mesmo. Me sentia eu; me sentia livre, jovem. Enfim, eu sentia.

Meu gosto pelos shoppings era algo tipo o shopping pelo shopping. Mas isso começou a mudar, creio eu, quando vi uma professora minha problematizar os shoppings na minha frente, numa orientação de pesquisa. O que ficou registrado na minha cabeça dessa problematização é a informação que ela me deu sobre o porquê de os shoppings, em sua maioria, serem locais fechados.  Segundo ela, o motivo era simples: fazer com que as pessoas perdessem a noção do tempo e se concentrassem nas compras. Eu nunca tinha parado pra pensar nisso. Mas quem de nós nunca perdeu a noção da hora no interior desses templos do consumo? Quem nunca saiu de um shopping e fez uma das seguintes colocações: "caramba, já é noite!"; "nossa, está chovendo!"; "puxa vida, choveu!"? Mas como quase tudo na vida, a gente aprende a naturalizar as coisas; ou, pior, tem coisas que nunca se tornam problemas (no sentido filosófico do termo) para nós, em nenhum momento.

Mas, olhando de forma nua e crua, como um etnógrafo europeu chegando numa tribo do interior da Melanésia, um shopping é um lugar fechado, de certa forma isolado do resto da cidade, no qual as pessoas vão pra gastar dinheiro e andar em círculos (não necessariamente nessa ordem). Óbvio que se nós estranharmos tudo que nos é familiar, quase todas as coisas da nossa existência irão nos parecer bizarras, mesmo que momentaneamente. Mas penso que é importante fazermos reflexões sobre nossos próprios costumes, pois isso pode ser, de alguma forma, libertador. Não que isso nos torne mais felizes. Às vezes pensar/problematizar simplesmente nos dá a consciência das nossas correntes e do fato de que nós não podemos nos libertar delas, ao menos não na nossa geração, a não ser pelo espírito. Problematizar, contudo, nos traz de volta à nossa condição criativa. Somos os únicos animais no mundo que possui a capacidade de criar símbolos. Isso não é pouco.

A questão, então, é nos perguntarmos o porquê que a gente se presta ao papel de sair de casa e ir a um lugar (fechado, não se esqueçam) que se destina única e simplesmente ao consumo, andar em círculos e descobrir em cada loja uma coisa útil (útil?) para comprar, estourando o limite do nosso cartão. Por que fazemos isso? O que queremos num shopping? Por que queremos? Queremos de fato alguma coisa ou simplesmente não temos ideia melhor? Perdemos a capacidade de ter ideias melhores? Algum dia nós tivemos essa capacidade? Temos opção em nossa cidade? Qual? Quais?

No Rio de Janeiro, por exemplo, as opções são muito poucas, na minha opinião. Pra quem é de fora (e pra alguns cariocas boçais), estamos na cidade maravilhosa.  Mas o Rio é uma cidade cara, desorganizada, com um transporte ineficiente e com uma concentração absurda de ofertas culturais numa única região, a toda poderosa (apesar de não muito rica, se é que ainda é rica) Zona Sul. Se eu quiser ir a um bom teatro, por exemplo, terei de ir a essa região, que fica a mais de 60 km do bairro onde moro, a charmosa e encantadora Campo Grande, terra dos milicianos. Transporte público, só até meia-noite, senão terei de dormir na casa de amigos, o que não curto. Fora o preço do ingresso, que, tirando um CCBB da vida, custa o olho da cara. Algo análogo ocorre com os cinemas de rua. Acho que a Zona Sul é o único lugar onde ainda existem bons cinemas de rua. Nas demais regiões, ou esses espaços viraram cinemas de filmes pornôs (adoro filmes pornôs, mas ainda tenho em mim alguma dignidade que me impede de ir a um cinema ver filme pornô) ou viraram igreja. O cine Santa Tereza, em Santa Tereza, e o Odeon, no Centro, são as únicas exceções das quais me recordo.

E pra onde foram os cinemas? Adivinhem? Pros shoppings, óbvio. Além do estacionamento dos shoppings (em geral caríssimos) e das promoções que você acaba comprando num shopping, você ainda gasta uma grana preta no ingresso do cinema, na pipoca e no refrigerante. Cinema hoje em dia é caro. Se você for toda semana, fodeu, vai ter que arranjar mais um emprego só pra se dar o luxo de ver filmes. Aí chegamos à trágica conclusão de que no Rio não há muito como fugir dos shoppings. Eu não sei vocês, mas acho essa descoberta desoladora.

O problema dos shoppings pra mim é que eles são a anticidade. Ir ao shopping é sair da cidade e entrar num beco de ofertas ("compre batom, compre batom..."). Claro que no capitalismo toda cidade vira uma vitrine. Mas se você vai a um cinema de rua, por exemplo, ao sair dele você vê de cara a rua, as calçadas, os postes, os carros, o céu. É como se a gente se lembrasse, mesmo que inconscientemente, de que estamos vivos, e de que existe algo além do consumo na vida. No ritual circulatório dos shoppings, a gente perde essa dimensão, muito embora as pessoas se sintam super vivas nesses lugares. Mas canso de ver nos shoppings casais que não interagem, não se olham, não conversam de todo; vejo também muitos pais com filhinhos lindos no colo ou no carrinho, mas que não dão a mínima atenção pros bacuris. Afinal de contas, se estamos ali pra consumir e andar na romaria capitalista nossa de cada dia, então, pra quê interação?

Não sou daquela esquerda que acha que sabe o que é melhor para as pessoas. Tampouco penso que as pessoas são burras, alienadas, e que eu, que conheço o pensamento de Marx, Weber, Simmel, Durkheim; que leio Bolaño, Leminski e sei um cadinho de Nietzsche, sei por onde o mundo deveria caminhar. Só acho que a crítica é fundamental na vida humana, sobretudo a autocrítica. E hoje me dei conta, finalmente, depois de ter passado metade de meu dia de sábado num shopping,  de que não faz o menor sentido eu sair de casa para ir a um shopping se eu tiver uma outra opção do que fazer. Acho que os shoppings são a expressão mais forte de como o capitalismo mina a criatividade humana no seu íntimo, tirando de nós a capacidade de expressar o nosso sentir. Trata-se de um desconforto puramente pessoal. Não acho que seja possível fazermos uma revolução; tampouco que os shoppings são o grande mal que assola a humanidade. Penso nos shoppings como efeito de uma sociedade profundamente mecanicista, na qual estamos todos cheios de objetivos, boa parte dos quais nós não escolhemos de fato. A gente nasce, não percebe que cresce, trabalha feito mula a vida inteira, não tem muito tempo pra pensar na nossa existência e, por fim, morre.

Concordo com Norbert Elias quando esse sociólogo alemão disse que ninguém inventou a sociedade, nem um grupo organizado, tampouco uma pessoa isolada. Para ele, a sociedade é fruto de um processo espontâneo e difuso de formatação das mentalidades e dos comportamentos. No Ocidente isso resultou numa profunda individuação, na qual o "eu" foi forjado e é vivido como realidade. Esse foi o "processo civilizador" que resultou na elaboração da modernidade. Salvo os eurocentrismos das análises de Elias, penso que ele tem razão. Acho que o capitalismo é fruto de uma explosão de relações humanas, desencadeadas numa rede que foi se tornando mais complexa, até desembocar no Estado e no capital. À sua maneira, o shopping reforça e reatualiza esse processo, com a legitimidade dada pelas pessoas. Por isso acho pouco possível que ocorra uma revolução no mundo, muito embora o meu maior desejo fosse poder viver numa sociedade na qual o trabalho fosse poetar, ler, trepar, se descobrir no eterno fluxo do existir, e não viver produzindo riqueza para os outros, como vivo hoje.

Acredito, contudo, que a rebeldia tem ao menos a chance de nos mostrar a miséria na qual vivemos, assim como o ímpeto de criatividade que temos ou podemos ter. As pessoas querem o capitalismo e gostam dele. Mas se elas estivessem realmente tão bem assim, por que os livros de autoajuda vendem tanto? Se estamos bem, porque precisamos de autoajuda? Quem precisa da salvação de Cristo? Por que tomamos ansiolíticos? Por que estamos enfartando tão cedo? Por que estamos nos tornando hipertensos? Por quê?

Estranhar a sua própria sociedade é cavar cavernas dentro de seu próprio peito, criando abismos entre você e as pessoas, à maneira de Policarpo Quaresma. Cabe a mim construir pontes nesses abismos, senão eu enlouqueço...