sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O tempo na pena do Baleiro

A letra de "Minha Casa", canção de Zeca Baleiro do disco "Líricas" (2000) é de uma força poética e existencial muito profunda, ao menos para mim. Ela começa com uma sequência de versos arrebatadora, na qual passado e futuro são confrontados, estando, no meio deles, o eu poético discursando suas reflexões sobre esses dois tempos, estando o presente implicitamente representado pelo próprio eu lírico na canção.



Os verbos mimeografar e imprimir são usados de forma genial e sutil para representar, respectivamente, passado e futuro ("É mais fácil mimeografar o passado/que imprimir o futuro"). A palavra "fácil" aqui não quer dizer que, de fato, (re)construir lembranças de episódios já vividos por nós seja algo fluido, com o qual nós sempre lidamos com facilidade. A colocação dela, é claro, é relativa à palavra futuro, que aqui representa o desconhecido, o vácuo do nosso próprio tempo de vida, que de fato não existe, como Renato Russo já colocava em Pais e Filhos.  

Para o poeta (ou para seu eu poético, como queiram; mas nem preciso dizer que eles não são a mesma pessoa...), a construção do futuro é um desafio maior justamente por ele não existir. Daí a maior dificuldade em imprimi-lo: o passado já tem uma base de significado. O futuro, não. O futuro é a construção de lugares, de territórios, de caminhos, enquanto o passado é um labirinto móvel, dinâmico, de lugares que viram não lugares, de caminhos que viram descaminhos ou do esquecimento que vira lembrança. O passado é a lembrança de uma infância. O futuro é uma viagem para a Sibéria.

O desejo da felicidade aparece aqui de uma forma serena; realista, mas sem ser fria; crítica, mas sem deixar de sonhar, sem que a vida perca a beleza e a poesia. Afinal de contas, o poeta quer "tatear estrelas distraídas". Mais uma referência sutil ao passado é feita aqui. Se os astrônomos estão certos, o brilho das estrelas é uma marca do passado, pois elas não existem mais, só seus brilhos. Então, tocar em "estrelas distraídas" poderia ser, aqui, sentir as lembranças de forma bela, como se elas fizessem parte da vida humana de um jeito harmônico, como numa sinfonia. Esse equilíbrio talvez seja o maior dos "para-raios" aos quais o poeta se refere na penúltima estrofe da canção. Esses para-raios postos na canção entre as coisas mais simples da vida: a delícia das frutas num passeio público e os beijos apaixonados em dias de chuva. As dificuldades e a doçura da vida aparecem aqui lado a lado, estando na mesma estrofe do poema. Como não na própria vida.

Ao chegarmos à última estrofe nos defrontamos com o eu lírico na porta de sua casa, a casa de toda a sua vida ("a mesma e única casa/a casa em que eu sempre morei"). Passado e presente se unem aqui na figura dessa casa, que é o território do poeta por excelência. A passagem do tempo é mostrada na imagem de uma escola de samba que atravessa a avenida ("vejo o mundo passar como passa/uma escola de samba que atravessa"). Se a casa velha é a díade passado-presente se tornando unidade, a escola de samba é o futuro, pois ela passa, ela anda para um final que se repete, como Sísifo, no marcante mito grego. O futuro aqui não é necessariamente inovação.  E as marcas de uma pessoa que passou pela vida do poeta estão aqui postas com a calma de alguém que aprendeu a amar a vida pelo que ela é ("pergunto onde estão teus tamborins").

Essa é, talvez, a composição mais completa e bonita do Zeca Baleiro, esse artista maranhense de voz forte e delicada ao mesmo tempo e com uma poesia muitíssimo potente, de um humanismo refinado, nem severo, nem ingênuo. Apenas poético.  

domingo, 12 de outubro de 2014

Memória

Donna Summer,1989



Quando foi que o sábado se tornou para mim um dia como outro qualquer? Quando foi que deixei de sentir todas as dores e alegrias desse mundão de meu deus? Como fui parar aqui, nesse apartamento velho de uma cidade que nem se pode chamar de esquecida, visto que jamais foi lembrada? Numa rua qualquer de uma cidade qualquer de uma periferia qualquer dessa cidade também qualquer chamada Rio e que insistem por aí em dizer que é maravilhosa...

Antigamente eu costumava sentir o cheiro do resto, daquilo que o nosso ideal excludente e patético de sociedade tenta pôr para debaixo do tapete, tenta fingir que não existe ou, se percebe que existe, o apreende como uma personagem de um mundo distante, de uma história fantástica, como se fosse um vírus que existe no lugar mais distante da África, como se esse fosse o lugar da miséria, que é o oposto do nosso lugar, que é o lugar onde cada coisa está em seu devido lugar, pois é assim que acreditamos ser o nosso lugar. Sentia o cheiro dos viados de glamour fosco e imaginário, das putas baratas, dos travecos sem destino, dos bêbados, dos brigões, dos meninos de rua, das pessoas sem casa... Sentia o cheiro da dor que as ruas do Rio antigo carregam no bairro da Lapa. Sentia o cheiro do sangue derramado pelos esquadrões da morte em Caxias. Sentia o cheiro de comida barata, da lâmpada fluorescente de luz fraca e de música dos anos 80, cheia de teclados e de letras que falavam de um amor fácil. O cheiro das biroscas de nossa cidade, o cheiro dos pontos de encontro dos restos, das legiões de resto que esse país guarda em si e para si, mas sempre debaixo do tapete, dentro do armário, em corredores escuros...

Lembro que quando jovem em passava em frente ao bar da esquina de minha rua e sempre ouvia músicas que me lembravam a minha infância ou que me lembravam uma noite de sábado ou que me faziam viver uma noite de sábado. Billy Idol, Tina Turner, Paul Young, Roxette, Donna Summer, Bee Gees, Elton John, Rod Steward, Brian Adams, Celine Dion... Bagaceiras… Tudo aquilo que a dita alta cultura, a autointitulada fina arte nunca iria aceitar em seus meios. E mesmo quando aceitavam o faziam como uma espécie de concessão. Lembro de uma época, há muitos anos atrás, não sei se trinta ou quarenta anos atrás, na qual Maria Bethânia cantou em seu show a música de uma funkeira carioca... Oh, meus amigos foram à loucura enquanto eu fui às náuseas. "Maria Bethânia... você viu o que ela fez?" "O coral da USP fez o mesmo... você viu?", diziam eles nas antigas redes sociais que existiam na internet. Ora, quem gosta de bagaceira são aqueles que põem música dos anos 80, dos anos 1980 para tocar em juicebox de botequim. Esses são os bagaceiras e até hoje eles existem. E ponto. O resto é concessão à bagaceira. Jamais serão bagaceira... Jamais serão resto... Como eu sou hoje...

Acho que foi aí, foi quando virei resto que perdi a capacidade de sentir o cheiro de um sábado, que é um cheiro parecido em intensidade e profundidade com o cheiro de natal. Quando eu mesmo me tornei um bêbado, um solitário que perscruta a vida alheia pela janela sentindo todo o pesar que subjaz às dores humanas das vidas da Baixada. Um assalariado que não sabe pra que ganha um salário. Lembro-me que costumava amar os sábados. Eram dias que me pareciam guardar sempre uma surpresa para mim. Uma banda de uma cidade próxima à minha terra, da qual não me recordo mais o nome, mas era uma banda de reggae, disso eu sei, fez uma música em homenagem às noites de sábado. Eu faria se pudesse uma música para o dia de sábado inteiro, manhã, tarde e noite, naquela época, tamanha era a alegria que sentia nesses dias, nos dias de sábado.

Talvez eu tenha perdido essa alegria, a minha alegria, quando fui percebendo aos poucos que a vida era grande demais para caber em mim, e que meus sentimentos eram complexos, fortes e intensos demais para caber numa vida. Ou quando vi mamãe pela primeira vez chorar no sofá por causa de papai. Ou quando vi um amor passar, quando fiquei sozinho em um encontro marcado ou quando deixei alguém sozinho em um encontro marcado. Quando comecei a sentir medo pelos entardeceres da primavera ou angústia em dias cinzentos. Quando vi meu irmão num leito de hospital, ou quando vi minha avó parar de fazer roscas de fubá pois ela havia morrido, e mortos não fazem roscas de fubá. Antes disso minha vozinha tinha parado de andar e depois tinha parado de enxergar e depois de lembrar da trajetória que ela tinha construído em sua vida. Perdi a alegria, talvez, quando vi que me enrolar num cobertor e me esquentar num dia frio não me protegia mais das incertezas da vida. Eu estava aqui. Não sei se vim parar aqui, mas estou aqui, na vida, nessa vida. Vivo hoje como vivi ontem e anteontem. Viverei mais um pouco amanhã e cada vez menos no futuro. Até que deixarei de ser. É assim para mim, é assim para todos, e um cobertor num dia frio ou o colo de minha mãe após um pesadelo não mudaria isso. Até porque houve tempos em que a minha própria família foi meu pesadelo. Um abraço, um laço, uma facada. Tanta coisa em um mesmo ato. Tanta vida e morte num mesmo verso.

A mim restou a vida. As ruas, as crianças, as mulheres, as luzes, a noite, a brisa, a arte... As coisas. Ver e viver as coisas. Um dia após o outro. Sem pecado e nem perdão, como disse um poeta. Ou sem deus nem diabo. Encarar o tédio e o vazio. Encarar a saudade e a ternura. Encarar a dor de quem vê um ente amado ir embora. Viver a perda tão intensamente quanto o gozo. Fazer sexo e tomar um café com pão e manteiga na esquina. Ver seu time perder e ganhar. Gritar com isso. Gritar com tudo isso. E tentar passar pro papel o sentimento que guardo sobre todas as coisas. Assim tem sido. Assim foi e será, não sei até quando, pois vou em breve, muito em breve. Minha vista já está cansada. Meu corpo dói. Minha pele está cheia de caminhos que não existiam antes e que não dão em lugar nenhum. Como a vida. O olhar está cheio de marcas. Como minha pele. Meu peito bate cada vez mais fraco. E só sinto essa dor que abraça tudo, tudo, tudo... A dor de quem olha para trás e vê um caminho repleto de ossos, uns saudosos, outros não. E pra que tudo isso? Tanta vida... Tanta dor... Tanta fome... Tanta saudade... E a morte.