sexta-feira, 26 de julho de 2013

A parede azul




                   


Fazia uns 30 anos que ele olhava para aquela parede mofada, de um azul tacanho. A lâmpada era amarelo fluorescente. Eram lâmpadas sempre velhas, empoeiradas, as que o dono daquele bar colocava ali. Parecia ser a mesma lâmpada de 30 anos atrás. Aliás poucas coisas mudaram no bar do Zeca, a não ser o fato de que o próprio Zeca tinha morrido há cinco anos, de um enfarte fulminante. No lugar dele passou a tocar o bar seu irmão, Seu Pedro. Este não mudara nada ali. Era a mesma mesa de sinuca, os mesmos jogos de cartas, as mesmas marcas de bebidas, o mesmo azul tristonho da parede, o mesmo mofo. Quanto aos frequentadores, eram quase os mesmos também. O mundo mudara tanto, mas aquele bar estava ali, inexpugnável, como um manto sagrado numa guerra perdida.
                José olhava, já tonto, para a rua que ficava em frente daquele bar. Havia acordado às 7 da manhã, como sempre fazia. Tomou um banho, vestiu sua bermuda marrom, sua camisa de botão verde clara, já um tanto desbotada pelo tempo, e partiu para o bar. Sua mulher ainda dormia quando ele saiu. Não raro ele saía enquanto ela dormia e voltava quando ela já estava dormindo. Isso o machucava um bocado. Mas com isso ele fazia a mesma coisa que ele fazia com todo o resto que o machucava: deixava correr, deixava ser. Doía, mas ele não ligava nem para a própria dor. Aliás a dor era algo que o atraía. Ele parecia viver para a dor cotidiana de quem não é querido pela família, nem ouvido. A dor de quem não quer ser feliz porque simplesmente não consegue ser feliz. A dor de quem decide deixar a vida transcorrer no ir e vir de sóis, de carros, de pessoas, de nuvens, de chuvas.
                Naquele dia, como em tantos outros, ele olhava para rua vendo todo esse ir e vir. Seu olhar já estava meio turvo, mas dava para notar quanto carro havia hoje na cidade. No seu tempo de moleque só tinha carro quem era gente fina. Hoje lhe parecia que qualquer bocó poderia comprar um carro, e dos bons. Os prédios também subiram. Muitos prédios. Os brejos da cidade dos seus tempos de garoto, nos quais ele brincou, brigou, namorou, se escondeu já não existiam mais. Era tudo prédio agora, condomínios com piscinas, com grades, com portões eletrônicos, porteiros, carrões, carrinhos. Um do lado do outro. Uma mutunheira de prédios que não acabava mais.
                Essas e outras coisas ele observava de forma muito lenta. Não era do tipo que analisava as coisas. O mundo ia acontecendo em sua volta. De repente ele, como num milagre, percebia uma mudança. E sua vida seguia, como sempre. Nascera na Paraíba, onde, ainda muito criança, começou a trabalhar em roças. Pouco tempo depois disso veio com a família para o Rio. Se tornou um desses homens muito comuns no Brasil, os quais sabem fazer de tudo um pouco. Fora pedreiro a vida toda, trabalhando para uma construtora grande. Por fora fazia biscates para aumentar a renda. Casou com 21 anos, pois lhe pareceu ser uma idade boa para casar. Julieta era menina direita, virgem, bonita. Construiu, muito aos poucos, a sua própria casa lá no Cachamorra, em Campo Grande. A mesma casa na qual criara seus dois filhos. Quando foi tempo de se aposentar, o fez, sem pestanejar, pois era isso que se fazia quando se tinha trabalhado tempo suficiente com carteira assinada. A aposentadoria não era muito, mas pagava as contas. E os biscates continuaram, é claro. Dava metade de tudo o que ganhava para Julieta. A outra ficava para si. Gastava tudo no bar.
                Não se lembrava da primeira vez na qual bebeu uma pinga. Só sabia dizer que todo o santo dia, desde muito jovem, frequentava bares. O do Zeca era, de longe, o seu predileto, mas não sabia porque. No bar fazia de tudo um pouco: conversava, jogava, ria, se calava. A única coisa que ele não fazia pouco no bar era beber. Sempre saía dos botecos cambaleando. Nunca foi desses que, quando bêbado, dizia impropérios aos outros. Era homem de poucas palavras em qualquer situação. Não sabia ao certo o que lhe atraía nos bares. Depois do trabalho a sua vida sempre entrara numa espécie de parêntesis, no qual ele não sabia como agir, nem sentia haver um motivo para agir. Ir ao bar era uma forma de ver as coisas passarem, de dar conteúdo a um tempo que se recusava a passar rápido.
                Sentia um vazio enorme em si, o qual nada preenchia, nem a mulher, nem os filhos, nem o trabalho. Até a igreja, refúgio predileto dos miseráveis de bens e de alma do Brasil, não lhe deu um sentido para as coisas. No seu íntimo sentia que, no princípio, era o ir e vir, o qual fundou o mundo, compôs o mundo e no qual o mundo sempre vai viver. Aquele papo de Jesus, amor, salvação lhe pareceu esquisito. E, o pior, um homem de Deus não podia beber. Tinha sempre que buscar ser santo. Aquilo não era para ele...
                Julieta chorou boa parte do seu casamento por ver José bêbado, capengando pelo quintal até alcançar a porta de casa. Seus filhos aprenderam a manter a distância dele. O mais velho o via como a causa dos sofrimentos de sua mãe. O mais novo simplesmente o ignorava. José reagia a isso indo tomar banho e dormir, sempre. Nunca fora de discutir. Não via motivo para isso. Não estava nem aí, nem aqui. Não via porque se importar com as lágrimas de Julieta. Não porque não gostasse dela. Era uma mulher boa, criara bem seus filhos. O que mais poderia querer de uma mulher? Seus filhos tomaram seus rumos na vida. Um conseguiu ser doutor. O outro não, mas se mantinha com seu próprio dinheiro. Isso lhe parecia bom. Nunca aprendeu a esperar mais nada da vida, a não ser o que lhe parecia razoável...
                A tristeza cotidiana de José era pagar a conta do bar. Tinha medo de sair daquele ambiente, o único que parecia lhe aceitar do jeito que era. Nunca entendeu o porquê daquilo tudo. Dos carros indo e vindo, de Julieta chorando, dos prédios sendo erguidos, das pessoas se apressando, da formatura do seu filho doutor, da sua aposentadoria, dos seus biscates, das ruas, da sua infância na Paraíba. Desde que se entendia por gente, sempre houve um céu e gente trabalhando duro embaixo dele. As coisas passavam, envelheciam, morriam. Aquela parede azul, toda mofada, parecia lhe dizer algo, mas não sabia bem o quê. Talvez fosse o seu sentido. Mas não se lembrava de sentir prazer em estar ali. Ia para o bar, bebia e ia embora. O tempo passava assim, muito embora a visão sempre ficasse turva no final do dia, e as pernas teimavam em não lhe obedecer. Estava bem assim. Na verdade não estava propriamente bem. Mas estava. No final das contas, nunca tinha visto sentido no estar. Desde que se entendia por gente José sempre estivera. Em algum lugar, de alguma forma, fazendo alguma coisa. E ponto.
                Pagou a conta naquele dia, como sempre fazia. Despediu-se de quem estava presente no bar. E foi embora. Mais uma vez cambaleando. Mais uma vez vendo as coisas passarem. Mais uma vez vendo tudo borrado em sua frente. Mais uma vez. Amanhã teria mais. Mais bebida, mais cartas, mais conversas. Mais bar do Zeca. Mais parede mofada. Mais azul tristonho. Mais do mesmo. No princípio era a parede azul. A parede azul estava com deus. A parede azul era deus. E ela se movia sobre a face das águas... A questão que parece percorrer a vida de José e dos seus é saber o que existia antes do mistério da criação. O que havia antes de deus? O que era o mundo antes de ele não ser? Qual é o princípio da eternidade? E qual é o seu fim? Ele jamais formulara essas questões claramente na sua cabeça, mas não houve um dia no qual ele não as sentisse em si. Eram elas, no fundo, o cimento dos seus dias inúteis. E, suspeitava, eram também a estrutura de todo o mundo humano...

                José franziu a testa e, pela primeira vez em anos, pôs-se a chorar...

terça-feira, 23 de julho de 2013

Pobre razão...

                           


Humberto Gessinger, vocalista e baixista da banda Engenheiros do Hawaii, tem várias frases certeiras em suas críticas, apesar de serem obscuras na sua forma. Uma dessas frases tem vindo à minha cabeça constantemente nos últimos dias. Trata-se de dois versos da letra de "Cidade em chamas", uma das faixas do melhor disco da banda gaúcha, "Ouça o que eu digo, não ouça ninguém". A referida frase é composta pelos versos seguintes: "Eu sei que eles têm razão/Mas a razão é só o que eles têm".
                Minha mente gira em torno dessas palavras ultimamente, pois esses protestos que estão deixando a sua marca no cotidiano da cidade do Rio de Janeiro, assim como em sua história, divide as opiniões sobre eles lançadas em basicamente dois lados: os que defendem o ideal de democracia moderna, o qual podemos denominar de democracia liberal; e os que defendem uma mudança na ordem social, numa luta contra o sistema capitalista. Esses últimos são chamados genericamente de esquerda, para alguns radical, para outros revolucionária e delirante na visão de uma outra galera. Nela se misturam anarquistas, socialistas das mais variadas correntes e movimentos sociais diversos, todos questionando a ordem social vigente, cada um a seu modo.
                Olhando essa dicotomia de longe, parece que ela divide lúcidos (a direita) dos sonhadores (a esquerda). Essa é a impressão que a própria estética dessa dicotomia passa. O discurso liberal é convincente, bem amarrado, difícil de desconstruir. O discurso da esquerda é muito mais fragmentado, de difícil elaboração, recebendo como tempero os cassetetes da polícia quando esse mesmo discurso resolve tomar as ruas. De um lado direitistas cheios de razão, sentados em suas poltronas, sem um pingo de spray de pimenta nos olhos. Do outro um bando de jovens gritando, roucos, palavras de ordem, muitas das quais difusas. A partir desse cenário, fica fácil deduzir que a razão está com o primeiro grupo. Mas ironicamente há uma razão para isso.
                A filosofia liberal, de acordo com Merquior, surge no momento no qual o capitalismo está se estabelecendo como sistema social predominante na Europa, isto é, durante a Revolução Francesa e as revoluções industriais, as quais, como sabemos, alteraram profundamente a sociedade europeia dos séculos XVIII e XIX. O liberalismo é uma interpretação da realidade a partir dos princípios lançados pela própria realidade a qual eles pensam. Para ficarmos somente com um exemplo, enquanto o mercado estava se impondo como poder máximo da nova ordem social, Adam Smith estava tentando nos covencer de que a "mão invisível" do mercado controlava suficientemente bem a sociedade, cabendo, portanto, ao Estado a mínima intervenção possível nela.
                Já a esquerda se levanta desde sempre na tentativa de questionar a própria essência da sociedade capitalista. Uns fazem isso de forma profundamente bisonha, acreditando que uma revolução se fará através de uma vanguarda de revolucionários, a qual consiste num punhado de crentes de alguma ideologia esquerdista. Outros o fazem elaborando críticas e ações mais consistentes, inclusive tentando usar elementos da própria ordem política para subvertê-la, formando partidos políticos, por exemplo. De qualquer forma, ser esquerda representa questionar a estrutura de uma sociedade organizada em torno do dinheiro, da produtividade e do "progresso", em nome dos quais a riqueza mundial é produzida e a natureza e a vida humana são devastadas. Pois é essa a ordem na qual vivemos. Nasça, cresça, estude, trabalhe feito louco, não se informe o suficiente, não saia da linha, se alimente mal, respire um ar poluído e morra de câncer, ganhando uma aposentadoria ínfima, caso você a consiga.
                O pior é que os liberais têm razão em muitas de suas afirmações. De fato, o que adianta irmos às ruas se a ordem que questionamos é fruto de um processo de formação cultural que levou décadas para se estabelecer, e que não irá acabar com alguns milhares de pessoas se manifestando contra ela? Essa é a hora que eles dão um riso irônico para nós e dizem que já foram iludidos como nós, e que hoje são lúcidos, enquanto nós somos "imbecis coletivos". Contudo a razão liberal é fruto do limite intelectual do próprio liberalismo, que é, como disse, pensar a sociedade dentro das cadeias que ela nos impõe. Diante desse tipo de pensamento, é fácil cair no ridículo se você defende o fim do consumismo, do desperdício, do controle internacional por grandes bancos e empresas, da relação nefasta entre governos e grandes empresários e banqueiros, da exploração intensa e desumana da mão de obra nas fábricas, indústrias e lojas e das desigualdades sociais em seus múltiplos aspectos, a começar pelo econômico.
                Quanto a mim, eu penso que vivemos numa ordem podre, na qual ser humano implica perder a sua própria humanidade, como bem falou Marx. A nossa civilização é baseada em princípios violentos, e mesmo quem se enquadra nela parece não se satisfazer com ela. Se assim não fosse, os livros de autoajuda não seriam tão vendidos e os analistas não teriam tantos clientes. De qualquer forma eu prefiro ir às ruas e ser rebelde, mesmo que isso, no fim das contas, seja inútil (o que eu não acho que seja) a simplesmente ser dócil nesse sistema, ou, pior, ser neutro e optar, assim, pelo mais forte. Acabo por virar um alvo fácil de ironias de pessoas que, estando do lado de lá, olham passivamente para nós tomando bombas e tiros de borracha na cara, enquanto eles, os racionais, dizem de forma taxativa que não adianta insistirmos, pois no final a ordem prevalecerá.

                E vai prevalecer. Mas não com a minha obediência. Quem pensa com a ordem tem razão. "Mas razão é só o que eles têm"... Continuemos na luta. Desobedecer é preciso... E fundamental para viver... 

terça-feira, 16 de julho de 2013

Deus e o boteco




Há algum tempo eu venho tendo conflito com a ideia de Deus. Aliás esse conflito já dura há bastante tempo na minha vida. A única fase da minha existência na qual eu tive uma relação pacífica com Deus foi na minha infância. Até os meus 10 anos, mais ou menos, Deus era um ser com o qual eu conversava antes de dormir, pedindo proteção e agradecendo pelo dia. E ponto. Nessa época a minha família já era evangélica, mas esse costume eu havia adquirido ainda nos tempos nos quais a minha família era católica.
                  A partir daí a coisa foi ficando mais tensa. Deus foi se tornando, gradativamente, um ser austero, altivo, arrogante, egoísta e, sobretudo, exigente. Na igreja a qual eu frequentava, as pregações sempre giravam em torno da necessidade de termos que nos adequar a um modelo de ser humano para podermos entrar pelas portas estreitas dos céus. O trecho da Bíblia que mais me dava medo era o que dizia que "todo joelho se dobrará, e toda a língua confessará que Jesus é o senhor". Esse Deus me dava arrepios e um ódio escondido, camuflado. Como assim eu terei de me ajoelhar? Pra que isso?
                É claro que essas perguntas eram respondidas ao longo das inúmeras pregações as quais eu assistia pelo menos duas vezes por semana. Era preciso dobrar o joelho porque Jesus, o ressurreto, havia dado a sua vida por mim. Nada mais justo que eu me ajoelhasse, então, mesmo que não quisesse. O problema era que eu estava imiscuído numa cosmologia da qual, em última instância, eu não havia pedido pra fazer parte.  Aquilo não me parecia justo, da mesma forma que não me parece justo até hoje.
                Isso foi me dando uma raiva, um desejo de quebrar padrões, regras, de me libertar e ser o que quer que eu fosse, de fato. Era muito duro para mim ter que justificar o tempo inteiro pra mim mesmo que eu devia continuar obedecendo as regras prescritas para mim, desde a fundação do mundo, ou, quem sabe, antes dela. Aos dezenove anos, por fim, resolvi tocar o foda-se e meter o pé da Igreja. Acho que essa foi a decisão mais acertada que tomei na minha vida.
                Mas a coisa ficou feia, feia demais depois disso. Eu era livre agora. Porém, como diria o bom e velho Sartre, eu era igualmente escravo da minha própria liberdade. Sem um deus paternalista para poder chorar nos ombros dele. Sem diabo e demônios para poder culpar pelos males da minha vida. Agora era eu, meu corpo e uma estrada pela frente. Deus estava morto em minha vida. Não havia mais Deus, nem mais fé, muito menos chão. O chão, agora, deveria ser construído por mim mesmo. Era Sísifo empurrando a pedra até o cume da montanha para vê-la cair de lá, para depois poder buscá-la e vê-la caindo novamente. Isso é poético, mas não era nada bonito de se viver.
                O medo e a raiva enrustida deu lugar a um ódio declarado por Deus e pelo cristianismo. Foi, sem dúvida, o período mais sombrio da minha vida, e o mais catártico também. Eu era pura raiva travestida em humano. Ódio pelo meu passado no qual eu tentava, de forma hipócrita, seguir padrões impostos por pessoas moralistas e sem moral, na defesa direta ou indireta de um Deus que pouco se importava com a minha opinião.
                Vim voltar a acreditar em Deus e a me reconciliar com ele quando, vivendo tempos de agruras amorosas, me vi numa casa espírita, lá pelos idos de 2009. Logo comecei a ler os livros, me empolgar e tudo o mais. Deus voltou a ser o princípio criador do universo. O velho argumento de que o mundo não poderia ter vindo do nada me convenceu novamente. Porém, o espiritismo sofre de um grave problema: se trata de uma religião que acredita que é ciência; uma filosofia que herdou o que de pior surgiu no século XIX: a ideia de progresso, de evolução humana, a mesma filosofia que serviu de base para as teorias eugênicas, que desembocaram - vejam que lindo - no nazismo. Aliás antes do nazismo a eugenia já tinha matado muitos milhões na África e na Ásia, e todas as mortes foram justificadas pela ideia de que esses povos não eram "evoluídos", civilizados. Então poderiam morrer.
                Sem ser violento fisicamente, o espiritismo, assim como todas as religiões, nos colocam como pessoas doentes. Estamos nesse mundo de passagem, pois não somos evoluídos o bastante. Um dia seremos perfeitos, seja lá o que isso signifique. Somos imperfeitos agora  porque somos humanos. Somos culpados, e devemos expiar a nossa culpa. Por detrás de uma filosofia mansamente formulada e pregada, com ares de saber superior, de religão-ciência, mora a péssima e velha culpabilização do homem pelos seus males, que remonta ao casal mais badalado do mundo ocidental: Adão e Eva.
                Nem preciso dizer da tristeza que me causou quando descobri essas coisas sobre o espiritismo. E, no estilo Chaves, "volta o cão arrependido...": meu conflito com Deus retorna, mais poderoso que o exterminador do futuro. Acho que esse conflito é eterno em minha vida. Digo eterno porque, hoje, sinto que a ideia de que somos frutos de um acidente natural me parece um tanto quanto absurda. A vida é uma realidade tão forte que penso ser surreal o fato de ela acabar aqui, depois de eu dar meu belo último suspiro. Acredito que eu esteja reconciliado com a ideia de Deus, mas que nunca me reconciliarei com "Deus" propriamente dito, seja lá quem ele seja.
                O ponto central da pobreza de todas as religiões é que elas nos colocam como centros de uma escatologia a qual nós não escolhemos, nem teria como escolhermos. Ir para o céu ou para o inferno, para um mundo feliz ou para a erraticidade é passado como sendo uma escolha nossa, quando na verdade não é, nem teologicamente falando. Assim como, quando um bandido aponta uma arma para a minha cabeça e diz "passa a mochila, ou morre", eu não tenho opção alguma pela vida. Por instinto corro atrás dela, entregando a mochila.
                Toda religião é uma tentativa humana de entender um mistério legítimo: o que será de nós depois da matéria? Por isso todas elas possuem incongruências. Isso não tem nada a ver com o amor. Deus não ama ninguém, ao menos não esse Deus que leio na Bíblia. Por isso acredito que a melhor saída para tudo isso é manter a fé e a criticidade, a fim de não virarmos Malafaias ou Felicianos da vida que, fazendo o que acreditam ser o certo, destroem, de fato, almas promissoras num mundo que parece carecer disso. Deus não está morto, nem precisamos matá-lo. Levemo-nos, então, a um bar e troquemos com ele uma ideia. E jamais deixemos de sermos humanos. Esse é o caminho da salvação.

domingo, 14 de julho de 2013

Sobre o amor e a ciência

Einstein sexy



Jamais me esquecerei do Lima, um cientista amigo meu. Era um daqueles profissionais que respiram a sua profissão, vivendo-a, exalando-a em cada segundo da sua humilde existência. Na época em que o conheci ele estava pesquisando as teses de Girard, na tentativa de criar a sua própria tese sobre a essência do homem, que visava associar a antropologia à biologia. Seus livros viviam rabiscados, de tal forma que parecia que ele já os tinha comprado assim. Era engraçado que, por vezes, eu observava que ele riscava parágrafos inteiros desses livros, como se ele estivesse querendo corrigir o autor da obra que tinha em mãos. E de fato era o que ele queria. E, ao que me parece, fazia com propriedade.

Mais rabiscada do que seus livros era a sua aparência. Lima era a encarnação do estereótipo do cientista, o mais clichê que se possa imaginar, como se tivesse saído de um filme qualquer de sessão da tarde, digamos, um De volta para ao futuro. De calças jeans desbotadas, camisas sociais velhas, canetas nos bolsos e livros sempre a mão, Lima parecia um personagem. E de fato o era. Fazia de tudo para ser reconhecido como nerd. Falava como uma pessoa que jamais perdia o foco do seu estudo, olhando sempre fixo nos olhos do seu interlocutor, coçando de vez em quando a cabeça e ajeitando quase sempre os óculos.
Era impossível falar com o Lima sobre futebol ou qualquer coisa que estivesse fora de suas preocupações antropo-filosóficas. Quando da derrota do Vasco para o Flamengo na final da Copa do Brasil de 2006 - a qual me doeu como se eu tivesse perdido uma perna - Lima foi incapaz de ouvir as minhas lamentações de bêbado. Como Jeremias, eu quase procurei um muro para poder expressar a dor que sentia pela derrota de uma guerra, na qual do outro lado o inimigo, de uniforme preto e vermelho, parecia vencedor antes mesmo do jogo acontecer. Tempos difíceis aqueles. Tempos que o Lima não compreendeu.

Certa vez tive a péssima ideia de chamar o Lima para tomar uma cerveja comigo, o Vieira, o Saulo e o André. Entre idas e vindas de copos cheios do líquido mágico que se vende nos botequins do Rio, eis que nos aparece uma menina cujo corpo foi, de certo, um dos mais bonitos que eu já vi na vida. Com uma minissaia apertada, barriga de fora, umbigo redondinho, como um pequeno abismo no meio de um corpo perfeito, e, por debaixo da blusinha, uns seios desprovidos do cárcere do sutiã, cujos mamilos estavam arrepiados, nos fazendo a todos no bar aplaudir aquela linda moça de pé - a despeito de todos nós continuarmos sentados. Lembro-me de todos a nossa mesa termos ficado desconcertados, como que hipnotizados. No meio desse êxtase coletivo e silencioso, íntimo, surdo e assustadoramente expresso, eis que o Lima solta a seguinte pérola:

- Incrível a força da estética social impressa na mentalidade humana, não é? Daí o fato de Elias dizer que a estrutura psíquica do homem seja moldada pelo processo civilizatório. Essa menina é bela, belíssima. Mas devemos pensar que essa beleza não está nela, mas sim em nós. Se as formas dela, que nos fazem nos excitar como agora estamos, foram formadas, antes, na nossa mente pela educação, então poderíamos dizer que a realidade de sua beleza é socialmente construída, concordando, assim, com Berger.

É impressionante a capacidade que as palavras possuem de amolecer o pau de um homem. Todos na mesa olharam para o Lima como um condenado olha para o seu carrasco no momento final da sentença. Que porra de comentário foi aquele diante de uma beleza quase supra-humana que era a daquela menina? Não vimos outro jeito senão o de pedirmos a conta e irmos embora. A ciência, travestida de Lima, havia acabado com toda e qualquer paixão nossa naquela noite.

Tinha meu amigo como um caso perdido para a humanidade, uma máquina de pensar dentro um corpo mais desalmado do que um muro, quando liguei para ele um dia e não obtive resposta. Estranho. Lima poderia ser um amigo inútil no sentido humano do termo, mas sempre respondia as minhas ligações. Procurei no laboratório de Ciências Sociais da universidade, e nada. Isso era mais estranho ainda. Quando Lima não estava comendo ou cagando, ele estava no laboratório lendo ou resenhando. Mas não naquele dia. Fui, quase correndo e com um pressentimento não muito bom, para o quarto de Lima no dormitório da universidade. A porta - que sempre estava trancada quando ele não estava no quarto - estava dessa vez aberta, e sem uma viva alma dentro. Os livros de Lima estavam jogados sobre sua cama, e uma toalha estava no chão de seu banheiro, parecendo estar ainda úmida. Ao lado dela havia o objeto mais estranho que poderia haver dentro do quarto do Lima: uma calcinha.

Uma calcinha? Teria o Lima aderido ao cross-dressing? Seria uma tara à la David Beckham? Teria ele descoberto o cheiro especial de feminilidade que uma calcinha possui? Será que ele queria me dizer num grito surdo o tempo inteiro que ele era gay? Ah! Minha cabeça girava de tanto pensar nessas loucuras. Não conseguia imaginar o Lima dando um estalinho nem na sua mãe, que dirás dando a bunda, meu Deus, A BUNDA! Não que eu seja homofóbico malafaísta, desses que citam versículos do Levítico para justificar todo o seu ódio (e esconder seus desejos homoeróticos?) contra pessoas que amam e dormem com outras do mesmo gênero. Mas é que eu tinha o Lima como uma espécie de santo que, em defesa da pureza da alma e da ciência, mantinha a castidade do corpo para libertar a mente do cárcere dos limites cerebrais humanos.

No auge da minha desolação, sentado na cama do quarto do Lima e com a calcinha - aquela calcinha - na mão, eis que eu vejo pela porta aberta, lá do outro lado, um casal que andava mais abraçado do que amantes em episódios finais de novelas mexicanas. Limpei meus óculos para ver melhor, e sintonizei minha mente na imagem que tinha no horizonte: era o Lima abraçado a uma negra com corpo de passista da Mangueira, dando bitoquinhas em seus lábios, apalpadelas na busanfa dela (e que busanfa...), andando pelo pátio da universidade, feliz da vida, rei do pátio e da juventude. Ele chegou ao ponto de estar usando bermuda. Bermuda, minha gente! Lima, o santo, de bermuda, mostrando toda a graça de suas canelas brancas com punhados de pelo esparsos ao longo das pernas. Que visão do inferno, Deus. Que visão...

Enquanto aquele casal que unia a imagem mítica de uma deusa negra ao titã mais feio e inútil da mitologia grega se aproximava de mim, inebriando o quarto com toda a sua espiritualidade, eu só fiz ficar parado e perplexo. Ao entrar no quarto, pela primeira vez em (talvez) 20 ou 30 horas, Lima desgrudou os olhos da linda mulher que tinha nos braços e, surpreso, me viu em sua cama. - HÁ, Tiago, é você, filhote! Deixa eu te apresentar a Silvia, minha mulher. Ah, casei, antes que você me pergunte. Nos conhecemos ontem no pagode ali da esquina. Não, não, eu não tinha ido ao pagode. Estava indo comprar um miojo quando passei em frente ao boteco da esquina e essa linda sorriu pra mim, e o resto se deu naturalmente... Casamos! Conta pra ele, Silvinha...

A Silvinha, dona de um belo corpo e de um sorriso encantador, falava pra mim como que em slow motion tudo o que tinha acontecido desde o encontro dos dois até aquele momento. Confesso que não conseguia prestar a atenção em nada... Era tudo muito irreal pra mim. Lima, falando gíria, usando bermuda e casado com uma criatura celeste daquelas...


Ao sairmos do quarto, depois que Lima reuniu as suas coisas e colocou nas malas, ele virou pra mim e disse, em voz baixa: - Tiago, a beleza existe! Ela é real. E a boceta dela é mais leve e fluida do que veludo... - Dando um tapinha nas minhas costas, Lima me deixou com essa reflexão na cabeça: o que uma mulher é capaz de fazer com a mente e o comportamento de um homem! O que é o amor, a paixão, o sexo! O que não faz um roçar de corpos com o espírito do ser humano... Hoje Lima e Silvia fazem 10 anos de casados. Lima largou a ciência pela praxis da vida...

A sociedade dos átomos




Todas as sociedades possuem problemas coletivos. Saúde, educação, estrutura urbana, corrupção e muitos outros elementos de ordem geral, que tocam a vida das pessoas como um todo, não são exclusivos do Brasil, nem dos brasileiros. Mas talvez não haja uma sociedade onde impere uma lógica tão individualista quanto a nossa. Passamos de uma sociedade aristocrática para uma sociedade liberal como num passe de mágicas. De repente estava abolida a escravidão e o Império estava acabado. Começou a democracia que, apesar de falsa e incompleta, era a nova ordem da nação. A partir daí, ao que me parece, o indivíduo passou a ser a medida de todas as coisas no Brasil. O país da desigualdade institucional passou a ser o país cujo horizonte era, agora, a igualdade, mesmo que posta num discurso vazio de nossos governantes e das instituições daqui. Igualdade no discurso e desigualdade na prática. Assim começamos a caminhar nos tempos modernos brasileiros...

Hoje temos uma sociedade onde o ideal de indivíduo e de mérito vigora muito fortemente em nós. Acreditamos que o aluno que passa no vestibular é um herói solitário, que não precisou de nada nem de ninguém para conseguir seu feito. O mesmo serve para jogadores de futebol como Romário, o qual acreditamos que não treinava, pois se tratava de um gênio que driblou a pobreza para se tornar ídolo, apesar de ele mesmo já ter falado em entrevista que as pessoas confundiram o fato de ele não gostar de treinar com a ilusão de que ele não treinava. Os livros de autoajuda pululam nas estantes das lojas brasileiras, todos eles nos ensinando a nos superarmos, como se somente de nós dependesse todo o nosso destino. O facebook, por sua vez, reflete isso na quantidade de posts nos quais as pessoas tiram fotos de si mesmas, do cachorro, do gato, contam intimidades, fazem comentários fúteis, por vezes agressivos, mas que se recusam a discutir questões mais gerais, achando-as enfadonhas e chamando de enfadonhos quem levanta essa peteca.

Vivemos numa sociedade de átomos no Brasil, ao que tudo indica. As pessoas vivem como átomos, cagando para a coletividade, se cultuando e cultuando pessoas que se cultuam, as famosas celebridades brasileiras, que são tão célebres quanto idiotas (Luciano Huck, Angélica, Regina Casé e afins...). Os problemas coletivos daqui estão cada vez mais graves, mas a crítica a esses problemas surgem de átomos, nunca de indivíduos com alguma mentalidade coletiva. A percepção das pessoas aqui é individual, assim como a ação na vida também o é. Quem nada contra essa corrente por aqui ou vira um chato, ou um formador de opiniões; ou, o que é pior, um chato formador de opiniões. Compram-se opiniões prontas, mas ninguém quer se dar o esforço de construir uma opinião própria e com qualidade. Deve ser por isso que Jabor faz tanto sucesso por aqui...

As discussões também são realizadas no nível dos átomos. Pessoas se ofendem quando se sentem encaixadas em alguma colocação com a qual não concordam. Eu mesmo já fui muito criticado por postagens que tinham um teor crítico contra determinados grupos sociais, como evangélicos, professores (grupo do qual faço parte), policiais, classe-média etc. Vários amigos aparecem para dizer "sacanagem você dizer isso, pois você está generalizando". Se a gente critica a bancada evangélica do Congresso Nacional, os evangélicos do face aparecem, ofendidos. O mesmo ocorre com os professores e com os outros grupos aqui citados. Vivendo como átomos e fazendo parte da coletividade de forma atomizada, nunca a crítica é percebida como uma argumentação que atinge a essência de um grupo, mas sim como uma questão pessoal, um ataque ao próprio caráter da pessoa. Ninguém pensa que precisa rever seus conceitos ou os conceitos dos grupos dos quais faz parte. São as nossas escolhas, o nosso grupo, a nossa vida, e ninguém tem o direito de falar nada, pois se o fizer, ofenderá.

Hoje mesmo entrei numa discussão feroz com amigos médicos, os quais estimo de verdade. O motivo foi uma postagem que criticava a postura de parte da classe médica, que se opôs a vinda de médicos cubanos ao Brasil, por razões superficiais, as quais ninguém entende direito, talvez nem eles. A essa parte me referi com a expressão "bando de otários". Acabei por acender um barril de pólvoras, pois muitos colegas entenderam que eu estava chamando a todos os médicos desse país de otários e de playboys. Mais uma vez me senti mal por iniciar uma discussão que não tomou os rumos que eu queria...

Sabemos que médicos não têm vida fácil no Brasil, ao menos não no exercício de sua profissão. Contudo, sabemos também que o padrão de vida dos médicos daqui é bem mais razoável do que a da média do trabalhador brasileiro. A própria faculdade de medicina no Brasil é, em si mesma, uma espécie de "limpeza social", pois as universidades particulares são caríssimas, e as públicas exigem anos de estudos pro vestibular, o que elimina aí em muito a possibilidade de pobres cursarem medicina, apesar de alguns vitoriosos conseguirem. Percebo no Brasil uma classe de médicos que é muito pouco popular e tem uma vida acima do nível popular, apesar de trabalhar muito e em condições precárias. Médicos por aqui reclamam muito, e com razão. Mas se mobilizam muito pouco politicamente. Parecem com os professores daqui, que reclamam de Deus e do mundo, mas na hora de pensar uma prática coletiva que vise à mudança, paralisam na lógica do átomo. Em suma, os médicos no Brasil possuem o mesmo problema dos demais grupos de trabalhadores brasileiros: dificuldade de ultrapassar o individualismo da sociedade no geral e da sua atuação profissional em particular. Por isso não entendo a manifestação de parte da classe médica brasileira, me parecendo ser uma postura individual e míope de pessoas que acordaram junto com "o gigante", mas danando a falar bobagens.


Acho que é importante a discussão, sempre. Sempre vale a pena discutir. E discutir implica estar aberto a mudar de opinião, assim como a não se ofender enquanto pessoa quando ouvirmos uma crítica a um grupo do qual fazemos parte. Sou professor e critico muito os professores daqui. Quem é meu aluno ou quem acompanha as minhas postagens no face, sabe disso. Ou a gente ultrapassa a lógica atômica da nossa sociedade, ou viveremos como átomos, trabalharemos como átomos, discutiremos como átomos... E o país inteiro vai implodir, devido à inércia coletiva dos átomos... Não se trata do discurso medíocre de autoajuda que nos enche o saco dizendo-nos que temos que nos amar, olharmos pro próximo e outros blablabla... Trata-se, acima de tudo, de uma necessidade humana o comunicar-se e a construção de uma vida mais coletiva e menos atomizada...

terça-feira, 2 de julho de 2013

Notas sobre uma noite triste

                                      

Triste e com um sentimento de derrota no peito... O movimento que foi para as ruas da Tijuca hoje não estava pedindo a saída da Dilma, nem a redução da maioridade penal ou o fim da corrupção (alguém é a favor?); não cantou o hino nacional, não estava com tintas verdes e amarelas no rosto cantando o orgulho e o amor de ser brasileiro. Por isso as bombas e tiros que tomamos hoje nas ruas não foram televisionadas. O nosso movimento não interessa mais a quem está no poder. Só os restos hoje foram às ruas, a linha de frente da contestação desse país; a galera que está sempre aí para o que der e vier.              

                Muitos policiais estavam nas ruas tijucanas. Muitos mesmo... Parecia que eles iriam enfrentar um exército organizado e armado. Do lado de cá tínhamos vinagre, máscaras, gargantas gritando palavras de ordem e a consciência de que o Maraca não é mais nosso. Aliás nem as ruas são mais nossas, pois sequer conseguimos nos aproximar do estádio para além da São Francisco Xavier. A nossa polícia, cumprindo ordens do governo e da prefeitura, fiéis defensores da classe-média e da FIFA (argh!), não nos permitiu passar. E, de resto, o de sempre: bombas, tiros de borracha, corre-corre, pessoas lacrimejando, tossindo, quase desmaiando...

               O movimento de hoje foi violentamente dispersado. Tentamos resistir, mas não deu. Quando vi que o pessoal já não tinha mais fôlego, nem possibilidades de luta, guardei meu casaco e o cachecol que estava usando para cobrir meu rosto, e fui andando, sozinho, olhando as pessoas em volta, espalhadas. Alguns carros do BOPE passaram por mim, provavelmente indo matar algumas vidas numa favela qualquer. Ouvi também alguns gritos de gol... Parecia que estávamos ganhando... Só não sei o que... 

                
                Andei em direção ao metrô mais próximo, paguei a passagem cara; saí na Central e peguei o trem que ia pra Santa Cruz. Indo pra casa olhava, volta e meia, pela janela do trem. Meu olhar se perdia por uma cidade desigual, que nunca foi pensada para mim e para os meus, os Zé-Ninguém. Os preços estão ficando mais caros, a vida mais dura, a educação mais precária, o transporte mais lotado, a saúde mais privatizada, e o futebol, a nossa única catarse numa cidade dominada por interesses tão poderosos quanto individuais, já não é mais para a gente... Eu não tenho dinheiro para pagar o ingresso do Maracanã, muito embora eu tenha pagado a "reforma" bilionária desse templo do futebol mundial, agora ex-templo... Me resta os botequins de Campo Grande, com pay-per-view, a nova geral do Rio de Janeiro... O Maraca agora é da classe-média branca desse país...          

                Cada vez que olho pro Rio vejo estampada nessa cidade a mesma miséria que contorna a minha vida, a miséria diária do trabalhador que mata uma selva por dia para conseguir sobreviver. Mas estamos aí, com ideias na cabeça, crítica na visão e com um grito de indignação na garganta, que pode não mudar nada, mas é símbolo de resistência e de humanidade, ao menos... Viver e não pensar a sua própria realidade social é uma contradição humana...

                Espero que as ilusões um dia salvem o mundo, porque a realidade tá foda...