sábado, 29 de junho de 2013

Notas sobre uma esperança...


                           



Nas últimas semanas, acredito que não tenha havido ninguém que não tenha ficado perplexo diante do que estava acontecendo no Brasil. Multidões nas ruas aos berros reivindicando inúmeras coisas, Congresso Nacional invadido, Movimento Passe Livre resistindo às ações policiais em São Paulo, mais de 300 mil pessoas nas ruas do Rio, protestos em tornos dos estádios de futebol que estão sendo palco dos jogos da Copa das Confederações. Diante de tudo isso, a velha e tosca ideologia do “gigante adormecido” virou a igualmente tosca, mas nova, ideologia do “gigante que acordou”.

            É preciso dizer que toda ideologia tem a sua base real de ser, como nos lembra Clifford Geertz. A ideia de que o Brasil havia acordado mora no número reduzido de militantes que temos no nosso país. Eu mesmo sou professor da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro, e já fui a muitas passeatas com 100, 200 pessoas; já fiz paralisações solitárias nas escolas nas quais trabalhei; já fui minoria em greves... Enquanto a maior parte dos meus colegas reclamam de Deus e do mundo na sala dos professores, sem a mínima capacidade de transformar em prática política a sua pretensa criticidade. Os professores da rede estadual de ensino são a metáfora do Brasil, democracia que não é, e do Rio, a cidade maravilha que nunca foi. São professores que não são, são projetos de pseudo-intelectuais (pois até para ser pseudo-intelectual tem que ter lido, ao menos, orelhas de livros importantes...); são míopes que se sentem pilotos de avião...

        Para além do “gigante desperto e feroz”, o que vimos nas ruas (e ainda estamos vendo e continuaremos a ver, tomara!) foi a história acontecendo. E como é difícil entender a história. Ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo nas ruas, o porquê dessa mudança abrupta do comportamento da massa brasileira, nem o que estava sendo, de fato, reivindicado. Oportunistas de plantão, como a senhora Rede Globo, não tardaram em colocar as suas próprias pautas nas reivindicações difusas das ruas. De baderneiros viramos, em uma semana, pessoas lutando contra a corrupção (quem é a favor?), contra a PEC 37 (quem leu?) e contra “tudo o que está aí” (aí aonde?) E ficou difícil entender como tudo começou. Hoje mais do que nunca compreendo como é difícil o trabalho dos amigos historiadores. Se é quase impossível traçar a história de um movimento de semanas ou meses, o que dizer sobre a história de séculos ou milênios?

            Quanto a mim, eu penso que esse movimento começou com os jovens de Porto Alegre, os quais lutaram e conquistaram, há pouquíssimos meses, a redução das passagens de ônibus de sua cidade. As imagens da estética do movimento gaúcho circularam a Internet. Pouco tempo depois, o Passe Livre foi às ruas de São Paulo para ser pisoteado pelo Estado diante das câmeras de TV, que diziam que a culpa dos quebra-quebras era dos vândalos, não do governo. As imagens das atrocidades de São Paulo circularam as redes de TV e os sites de relacionamentos. A raiva foi aumentando em quem lê com criticidade tudo o que vê. E, de repente, o movimento tomou as ruas das principais cidades brasileiras. Os jovens deixaram de ser dóceis. O Rio, a cidade pseudo-maravilha da alegria sem sentido e sem noção, se tornou a capital dos protestos, onde mais pessoas foram às ruas.

            A raiva que tive e tenho da atuação da polícia me fez mudar por completo a minha opinião sobre protestos. Eu comecei “paz e amor” e me tornei, rapidamente, um vândalo convicto, que se sente representado ao ver prédios pixados, bancos quebrados, lixos queimando nas ruas, barricadas montadas e policiais correndo dos manifestantes. A minha subjetividade política foi (re)construída na rua e nos posts de facebook, os quais mostravam as atrocidades de uma governo corrupto e de uma polícia acéfala e militarizada. Eu queria ter a coragem de usar coquetéis molotov. Confesso que não tenho. Mas quem tem, me representa. A violência do quebra-quebra é uma linguagem necessária para se comunicar com um governo que nos oprime diariamente, rindo da nossa cara pelas nossas costas. O Maracanã não é mais do povo, assim como o Rio não é mais dos cariocas (será que um dia foi?). A Alerj, com exceção de Freixo, “a voz que clama no deserto”, não nos representa. Que se foda a Alerj então...

              O que fica em mim de todo esse movimento ocorrido no Brasil das últimas semanas é a esperança que dele saia uma reviravolta na cultura política do brasileiro. Da apatia materializada nos programas dos domingos na TV ou dos gestos mecânicos de apertar as teclas das urnas eletrônicas de dois em dois anos, espero que as pessoas passem a ir às ruas, sem gritos cretinos de “eu sou brasileiro, com muito orgulho e muito amor”, mas com raiva, com disposição de botar o caveirão pra correr. Além disso, eu nunca me senti tão vivo quanto nas últimas duas semanas. Também nunca me senti tão puto, com tanta vontade de gritar a plenos pulmões que esse país me envergonha, não com sua cultura, mas com a sua representatividade tosca, que nunca representou ninguém, exceto as elites que dominam esse país. “Onde há poder, há resistência”, diz Foucault. Resistamos, então. Resistamos no dia-a-dia, no face, nas ruas, nos almoços de família, nas escolas... Desejo que a resistência se torne cultura nesse país...

            E quanto a você, que assina em baixo a truculência da polícia e as desigualdades desse país... Eu tenho pena de você... Foda-se você...