domingo, 12 de agosto de 2012

Um filme cheio de humanidade





Hoje assisti com a minha mulher um filme argentino cujo título é O segredo dos seus olhos. O nome sugere um daqueles filmes românticos, profundamente dramáticos, mais parecido com novela mexicana ou com os livros de amor de banca de jornal. Mas não se trata de nada disso. A história do filme começa com um caso de estupro de uma bela jovem que tinha casado há pouco tempo antes do trágico acontecimento que a levou a morte. A partir daí o filme perpassa  vários temas que são essenciais para qualquer ser humano, ao menos para aqueles que, como eu, se encantam pela humanidade. 

Não que eu seja um otimista, ou um revolucionário que, como tal, acredita na mudança profunda de um mundo carente (e podem pôr a musiquinha do USA for Africa para dar um tchan nessa parte do texto). O que me encanta é a visão de seres humanos que têm diante de si somente a vida da forma como ela se lhes apresenta: misteriosa, cruel e carregada de paixão. É exatamente esse o caso dos personagens desse filme tão bonito e comovente. Benjamin Espósito é um ex-funcionário público da justiça argentina que, depois de velho, resolve escrever um romance sobre o caso de estupro ao qual me referi acima. Espósito nunca conseguiu se desvencilhar desse acontecimento que ele acompanhou nos tempos de trabalho, se envolvendo mais do que um simples funcionário público faria. Procura Hastings, sua antiga companheira de trabalho e uma mulher por quem tem, há 25 anos, um sentimento profundo e mal resolvido. A partir daí o filme, indo do presente ao passado, perpassa pelos temas mais caros à comédia humana, como diria Balzac: amor, amizade, paixão, falta de coragem, crueldade, castigo, dúvida e humor.

O filme possui algumas frases marcantes, como a que Espósito diz a Hastings quando, refletindo sobre a sua vida e tudo o que fizera nela ele pergunta: "Como se faz para viver uma vida vazia? Como se faz para viver uma vida cheia de nada"  É uma daquelas frases de arrepiar, de fazer a gente parar e pensar sobre o que estamos fazendo com a nossa existência. Tipo, será que quando eu for um homem de meia-idade eu me perguntarei isso, como é uma vida cheia de nada? Espósito faz um balanço de sua vida diante de Hastings, com quem no passado teve a chance de se casar, mas que foi desperdiçada pelo próprio Espósito. Parece para ele que sua vida deveria ter sido ao lado dela, dormindo e acordando com ela, gozando em suas pernas, beijando sua boca, brigando com ela, se reconciliando com ela... Parece que Hastings foi a única mulher quem fez de Espósito um homem que queria uma única mulher em sua vida, pois foi ela a única que ficou, que marcou seu espírito... E a vida dele girou 25 anos em volta de um nada... 

Uma outra frase marcante no filme é a de Morales, marido da menina morta da história, um homem que jamais conseguiu se curar da perda de sua bela esposa. Quando é procurado por Espósito pouco tempo depois da morte de sua mulher - Liliana - Morales diz a ele que se esforçava todos os dias para lembrar-se dela, pois ele não tinha facilidade em lembrar claramente dos momentos que vivera com Liliana. Ele a amava profundamente. Mas não conseguia se lembrar dela, não com nitidez... Irônico, não? Os sensacionalistas de plantão diriam que o amor verdadeiro jamais se esquece. Mas isso não é verdade... Pode-se esquecer de coisas muito caras a nós. A memória sempre foi para mim uma grande inimiga. Me parece que ela nunca guarda pra mim as coisas que eu amo de verdade, ou pelas quais sinto uma paixão forte. Muitas coisas importantes para o meu coração me escaparam da memória por várias vezes. Assim como aconteceu com Morales... E quando perdemos a memória, o que nos resta? Os sentimentos dependem da memória? Se nos esquecemos dos fatos, perdemos o sentimento por eles? 

Penso que não. Morales nunca deixou de amar Liliana, assim como nunca deixou de lutar por justiça por ela. Mas ele não se lembrava dela. Estranho, não? Eu diria humano. Enquanto muitos procuram razões extra vida para a própria vida, seja em Alá, ou em Jesus, ou nos espíritos, ou em Exu ou em qualquer outro "deus" ou divindade, eu me encanto com a mísera comédia humana, nua, crua, sem sentido, mas cheia de paixão. Não que eu não tenha religião. Sou espírita. Mas uma coisa que me enoja nas religiões como um todo, inclusive na minha, é o constante olhar para o além do que se vê o tempo todo para explicar de forma minimamente lógica o que se está vendo, ou o que se viu. Daí chama-se as encarnações passadas, os versículos bíblicos que "explicam" uma determinada situação, ou as influências do além vida. 

Ao contrário O segredo dos seus olhos é carregado de vida, com personagens envolventes, míseros, apaixonados, bem humorados e tristes. Até o Racing, famoso clube argentino, é homenageado no filme. Aliás há coisa mais humana que o futebol? Creio que não. O ser humano é capaz de criar sentido em tudo, construindo um caminho pra sua vida em coisas que podem parecer banais para um pessoa, mas que é vital para outra. Espósito tem um grande amigo, Sandoval, que tem uma paixão muito mal vista: o bar, o alcoolismo. E é no bar que Sandoval encontra um apaixonado pelo Racing, um conhecedor da história desse que é o maior de todos os clubes da Argentina. O futebol é ilógico visto de fora: ninguém ganha nada em perder a sua paz para torcer e se retorcer pelo seu time do coração. Ora, mas esse time pertence ao coração do indivíduo, e não à lógica dele. Então ri-se, chora-se, briga-se, entusiasma-se por um coisa que, em última instância, não nos é biologicamente vital, mas é espiritualmente essencial. E o filme trata o futebol da forma como ele é: um templo de paixão.

Os desmandos políticos latino-americanos são contemplados no filme quando o assassino de Liliana é preso, solto e transformado em capanga do governo por um agente judiciário, desafeto de Espósito. A justiça, contudo, aparece de uma forma calma, surda, resignada e dolorida no surpreendente final do filme...

O segredo dos seus olhos é um filme cheio de humanidade, como o título desse post sugere. A impressão que dá é que o homem, em sua imagem nua, aparece o tempo todo nesse filme, desprovido de qualquer cultura, pura carne e psiqué. E paixão, é claro. 

domingo, 5 de agosto de 2012

Lars von Trier?



Há algum tempo atrás conheci o trabalho deste que parece ser um dos diretores mais controversos do cinema atual. Estou falando, como o título desse post já deixa claro, do dinamarquês Lars von Trier. E a razão de escrever um texto sobre essa figura não é a de uma admiração profunda pelo trabalho alternativo desse cineasta. Tampouco se trata de uma repulsa pelos filmes dele. E tá aí o motivo desse texto: von Trier é um daqueles poucos profissionais os quais conheço e dos quais não nutro nem simpatia, nem antipatia. E isso me incomoda, pois não gosto de ser neutro. Uma vez um professor meu de geografia disse para a minha turma de 2º ano do Ensino Médio que, em uma guerra, os neutros eram os primeiros a morrerem. Portanto nunca deveríamos ser neutros, e sim tomar uma posição, fosse qual fosse. Nessa lógica, se eu estivesse numa imaginária guerra cinematográfica que estivesse realmente ameaçando a minha vida, eu morreria, e tudo por causa desse sujeito dinamarquês, desse tal de Lars não sei das quantas...

Se não sou fã do cinema de Lars, tampouco consigo ficar indiferente aos filmes dele. Não que eu tenha vontade irresistível de assistir aos filmes dele quando são lançados, tipo quando ocorre com um novo filme do Almodóvar. Não é esse o caso. Mas quando eu assisto a um filme de Lars von Trier eu não consigo me desprender da história. Primeiro foi Dogville, um filme totalmente diferente de tudo o que vi no cinema. Depois foi o Anticristo, um filme de terror que fez O Exorcista virar o segundo filme mais assustador que eu já vi. O segundo, pois o primeiro virou o Anticristo. E por último vi o filme Melancolia, obra que me prendeu do início ao fim com seu enredo enigmático, suas cenas carregadas de depressão e angústia e seu desenrolar curioso. 

Essa é a primeira qualidade do Lars: os filmes dele dialogam com quem está do outro lado da tela. Não é um daqueles filmes tipo Godard que dialogam com um grupinho de (pseudos) filósofos ou (pseudos) universitários que se acham fodas porque (pensam que) entendem um filme que quase ninguém (com certeza não) entende. Lars não é assim. Os filmes dele mexem com a gente. Intrigam. Sufocam. Arrepiam. Angustiam. Fazem acontecer, e fazem isso dentro de nós, na nossa mente. Modificam alguma coisa na gente, ao menos enquanto o filme tá rolando. Tá aqui a primeira e mais importante função da arte para mim: ser inteligível, comunicável, intercambiável. Não me venha com aqueles quadros cheios de riscos, cheios de cores, cheios de alguma coisa que ninguém sabe o que é; tampouco me venha com aquele filme cheio de cenas soltas, sem sentido. Eu direi em alto e bom som: isso pra mim não é arte. A arte comunica, força, modifica. Lars von Trier faz isso. Para o bem ou para o mal, mas faz. 

Outra coisa que vejo nas cenas dele, principalmente em Melancolia é uma espécie de materialização da angústia, da tristeza. Não que isso me faça bem ou que seja realmente legal ver um filme down o tempo todo, como se fosse a biografia do Joy Division. Mas não é qualquer um que torna real aquilo que é imaginário. O artista tem um mundo em sua cabeça e em seu coração. Colocá-lo em sua obra é uma verdadeira guerra, pois existe um abismo entre a cabeça do artista e sua obra. Isso não parece ocorrer com o Lars. Ele é um maluco deprimido e angustiado. A obra dele é exatamente assim. Existe loucura e angústia em cada cena, e nesta, em cada detalhe. Em Melancolia Kirsten Dunst, uma atriz que até então eu achava mediana, se torna a própria melancolia. Ela tira de si mesma uma expressão profunda do que seja uma pessoa em estado de depressão. Em volta dela o cenário bucólico vira uma espécie de parêntesis num mundo onde tudo parece andar, menos ali, naquele lugar onde a história do filme se passa. 

Aliás, se Dunst em outros filmes é tão fraquinha, como ela se torna essa baita atriz no filme de Lars von Trier? Foi ela quem tirou aquele peso todo no olhar que a gente vê no filme ou foi o diretor? As cenas em câmera lenta com música clássica tocando no fundo viraram marca registrada do diretor. Isso ocorre em Melancolia, apesar de eu achá-las meio forçadas, meio sem lugar no filme. Lars tenta ser diferente o tempo todo. Às vezes lembra um adolescente querendo dizer para os adultos "Olha, sou foda, sou diferente, sou esquisito, escuto rock pesado, faço culto ao diabo...". Isso irrita um pouco nele. Digo, na obra dele. Ele é demasiadamente pessimista. Em Dogville ele mata toda uma cidade. Em Melancolia ele acaba com o planeta todo.  Isso tudo porque o ser humano parece não valer a pena para Trier. 

Às vezes também não vale para mim. Eu tenho meus momentos Trier no qual rola a maior vontade de mandar um foda-se pra todo o mundo, principalmente para aquele pessoal que adora frases de auto-ajuda. Tipo aquela "tudo depende de você! Basta lutar, você vai conseguir!" Na boa, vai tomar no cu e não enche o saco. Mas prefiro os personagens criativos, loucos e cheios de miséria do Almodóvar; os chatos questionadores e apaixonados do Woody Allen; os sábios de Kurosawa ( maior de todos!), do que a melancolia de Trier. Ele parece ser o cineasta do ponto final. O cara que fala "a vida é uma merda" o tempo todo. Já os outros que citei parecem que são os cineastas da névoa. Tipo, aqueles caras que falam assim: "a vida é estranha, tem gente esquisita, e precisamos de coisas malucas. Mas, quer saber? 'Bora trilhar alguma coisa nesse deserto aí. Deve ser divertido..."

Não sou fã do Trier. Não odeio Trier. Eu assisto o Trier.