Essa
é a primeira de uma série de cinco partes nas quais foram divididas a entrevista que o escritor Pablo
Borges deu ao jornalista Gerardo di Paula, da Revista Literária da Universidade
Nacional. Avesso às entrevistas, Borges concedeu muito poucas ao longo de sua
vida. Nessa aqui ele esteve particularmente aberto para falar do que pensava e
do que sentia enquanto ser humano. Seu contato com a literatura, sua visão da
arte e da política, seu desencanto com as instituições, sua relação de rancor
com o cristianismo evangélico, a paternidade, a universidade e muitos outros
temas aparecem aqui nesse material inédito elaborado pouco antes da morte do
único prêmio Nobel que a literatura brasileira possui em toda a sua história.
Os
especialistas em sua obra, assim como seus biógrafos, acreditam que essa foi
uma entrevista de despedida de Pablo, já que meses depois ele se mataria num
hotel da cidade de Congonhas, Minas Gerais. A professora Isadora de Barros
Moreira, da Universidade Livre do Ceará, diz que essa entrevista constitui um
material chave para entendermos a ontologia da obra de Borges. O também prêmio
Nobel Vargas Llosa por sua vez comentou que as palavras de Pablo aqui expostas
revelam um homem que estava "convicto de ter visto e vivido de tudo na
vida", fazendo referência ao que o próprio Pablo escreveu em sua carta
suicida.
Gerado
foi recebido na casa de Borges, no bairro de São Francisco, em Duque de Caxias, num singelo
sítio de propriedade do escritor. Barbudo, rodeado por livros e fumando seus
lendários maços de Camel, Gerardo diz ter conversado durante seis horas com um
Borges sereno e enérgico ao mesmo tempo, sempre muito firme nas suas
colocações. "Foram dois dias nos quais fiquei hospedado na casa do
escritor, nos quais respirei arte o tempo inteiro, entre cervejas, vinhos,
cigarros e muita comida. Se de fato essa foi uma entrevista de despedida,
Borges deu um adeus a esse mundo da mesma forma como ele viveu nele: fazendo
arte. Sinto-me privilegiado por ter sido o escolhido para isso", diz
Gerardo, emocionado.
Os
leitores da obra de Pablo Borges terão, pelos próximos cinco meses, a
possibilidade de ler as últimas palavras desse que, desde Lima Barreto e
Machado, foi o maior de todos os nossos escritores, muito embora ele odiasse
essa comparação ("Como diria minha mãe, antes de ela ser crente, comparar
a mim com Machado e Barreto é comparar o cu com as calcinhas. Nada a ver",
disse ele tantas vezes).
Nessa
primeira parte da entrevista, publicamos duas respostas dadas por Borges a
Gerado di Paula. Trata-se quase de uma introdução ao que virá pelos próximos
meses. Esperamos que os leitores gostem do que lerão. Mesmo que Borges tenha
ido, suas palavras, nas poucas entrevistas que deu e nas vozes dissonantes de
seus muitos personagens, continuam vivas. Ainda bem...
RLUN: Você é considerado um dos grandes artistas brasileiros dos últimos 50
anos, tendo sido reverenciado por nomes de peso como Chico Buarque, Antônio Torres
e Arnaldo Antunes. Como é ser você? Como é carregar o peso de ser um gênio?
P.B.: Interessante que por esses
dias eu estava lendo uma matéria do Jornal do Rio sobre mim e a minha obra. Nela,
Heródoto Suarez se referiu a mim como o maior artista da primeira metade do
século XXI e me definiu como um "supra-humano". O mais legal que eu
estava lendo isso enquanto estava no banheiro da rodoviária de Petrópolis,
cagando. E enquanto eu me borrava entre peidos e mais peidos, eu fiquei com a
expressão "supra-humano" na cabeça. Acho que um supra-humano não
deveria cagar, sobretudo no banheiro de uma rodoviária. No entanto, lá estava
eu.
Isso
de as pessoas acharem que os artistas são pessoas geniais, seres humanos
especiais e tudo o mais, isso é bobagem. O artista é um trabalhador. O artista
rumina, pensa, repensa, constrói, reconstrói. Arte é trabalho no sentido
marxiano do termo, ou seja, no sentido de ser uma atividade que modifica o
homem ao mesmo tempo em que modifica algo. O artista modifica a si mesmo
enquanto está modificando a linguagem e o próprio mundo no qual as pessoas
vivem. Isso é trabalho, não é fruto de uma mente brilhante. Não existem mentes
brilhantes. Existem trabalhadores. Eu sou mais brilhante do que o José que
construiu a minha casa? Eu sou mais brilhante do que a Maria que lava as minhas
roupas toda semana? A prostitua que está, nesse momento, pagando um boquete
para um velho bêbado em algum puteiro de Caxias é menos genial do que eu?
Eu
não entendo que haja gênios. Dostoievski não foi um gênio. Nem Tolstói, nem
Balzac, nem Almodóvar, nem Dalí, nem Bolaño, nem Dante, nem Lima Barreto, nem Remedios
Varo, nem Jovelina Pérola Negra, nem Machado de Assis, nem Leminski, nem Mano
Brown, nem J.K. Rowling, nem Jane Austen, nem Coppola, nem Gus van Sant, nem
etc., etc., etc. Não há gênios, só trabalhadores. O que não deve nos fazer
confundir esse fato com a ilusão de que qualquer um é artista. Isso foi uma
confusão criada pela arte contemporânea ou pela forma como a arte contemporânea
foi recebida. A arte contemporânea colocou que qualquer coisa pode ser arte,
não que qualquer coisa é arte. A arte pode vir de qualquer lugar, de qualquer
objeto, de qualquer atitude. Mas isso não quer dizer que se eu grito
"Au" na rua esse grito faz de mim um artista. Pois não haveria nenhum
trabalho nisso. Mas se eu grito "Au" numa reunião de altos
executivos, desafiando a lógica utilitária dessa ocasião, e filmo isso, tudo
intencionalmente e com a reflexão inerente a todo esse ato, uma reflexão que visa
questionar ou problematizar, o que dá no mesmo, a realidade da forma como a
entendemos ou como ela se apresenta pragmaticamente a nós, então, e só então,
sou artista. E se eu não filmo isso, então não sou artista, mas sim um
revolucionário, mas não um artista, pois eu não comuniquei nada a ninguém e a
arte comunica, sempre, comunica, tem que comunicar, não há arte solitária,
senão punheta seria arte, e não é, a não ser que eu toque uma punheta em um
palco ou em uma paisagem urbana nas pernas lisas de uma mulher, esparramando a
minha porra na sua perna lisa, deixando meu leite descer na perna lisa de uma
bela mulher numa paisagem urbana, numa praça, por exemplo.
E
por que raios estou falando de punheta numa entrevista para uma revista de
literatura? Simples, porque estou sendo artista agora, estou fazendo arte
agora, na sua frente, aqui, agora, estou resignificando a forma que as pessoas
têm de dar entrevista, falando de punheta pra você. Isso é trabalho, pois
requer reflexão, coragem, leitura, desapego, filosofia. E isso não faz de mim
melhor do que ninguém. É só trabalho, trabalho artístico, político e apolítico
ao mesmo tempo, pois toda arte é militância, mesmo sendo uma atividade que
possui fim em si mesma.
RLUN: Fale mais um pouco sobre essa relação entre arte e militância.
P.B.: Não há relação entre arte e militância.
A arte é militância. A arte é a ação humana por excelência, é a humanidade no
seu estado mais puro e político e apolítico ao mesmo tempo. Pensa no cosmococa
de Oiticica. Pensa na nona sinfonia de Beethoven. Pensa no Sandman de Gaiman.
Pensa no Aleph de Jorge Luís Borges. Isso é militância pura, todas essas obras
e todas as outras obras já criadas e as que ainda não foram criadas. Pensa:
vivemos num mundo no qual o racionalismo, a lógica impera. Você tem que
trabalhar, pagar contas e trabalhar e pagar contas e trabalhar e pagar contas
para depois, depois de uns, digamos, 50 anos, você descobrir que está com câncer
em algum lugar do corpo, mesmo que você nunca tenha fumado, mas você pode ter
bebido muito kisuco na infância - aqueles corantes amarelo e vermelho são um
veneno, poucos sabem disso - e morrer tendo trabalhado e pagado contas, e as
que você não pagou seus filhos pagarão, caso você os tenha. Olha a merda que é
isso tudo! Aí vem um escritor argentino e escreve um texto sobre um ponto do
universo o qual contém todos os demais pontos do universo! Aí vem Antunes e diz
"Tire a mão da consciência e meta no cabaço da cabeça!" Aí vem Jorge
Mautner e diz "No meu corpo sangue não corre não/Corre fogo e larva de
fulcão"! É como se eles tivessem dizendo, mesmo sem querer, mas dizendo
"Foda-se essa porra toda! Vou fazer arte!" A arte é a antilógica, o
anticapital, a anticivilização, a aberração mais doce e mais humana do mundo. É
política pura isso tudo.
Remedios
Varo, por exemplo, tem um quadro "El paraíso de los gatos" que é a
suprema militância, nada mais militante que aquele quadro, nada foi mais
revolucionário que aquele quadro, nem a Revolução Industrial. Essa obra mostra
uma paisagem campestre com torres e brinquedos, com árvores de um verde lindo -
que só Varo poderia ter pintado - e com um rio ao fundo. Por essa paisagem se
espalham gatos de várias cores, com aquele jeito que só os gatos possuem,
aquela cara de nada, aquele deitar-se despreocupado mesmo que o mundo esteja
acabando, aquela paz que só os vagabundos possuem, que só a vagabundagem felina
constrói. Quando os gatos querem dormir eles dormem. Quando querem seu carinho
eles se enroscam em você. Quando querem comida, miam. E dormem, e dormem, e
dormem. Quando acordam, brincam. Quando veem, caçam. Quando se cansam, bocejam
e se lambem. E contemplam, sobretudo contemplam. Se quisermos ser felizes e
revolucionários, devemos aprender com os gatos. Eles não têm grandes aspirações na vida. Os gatos entendem que a vida é o que ela é, e que devemos aprender a
nadar nesse rio sem nos deixar levar de todo, mas seguindo seu fluxo, aceitando,
como diria o poeta, "a dor e a delícia de ser o que é". Quer coisa
mais militante que isso? Seria o fim das terapias e do dinheiro que se gasta
com elas, assim como das religiões e dos remédios rivotril e dos prozac. O
paraíso dos gatos é uma sociedade revolucionária, a pregação da própria
revolução. Quem diz que arte e militância são coisas opostas, não entende nada,
absolutamente nada de arte, nem de política. Uma idiota desses já nasceu morto.
