sábado, 5 de fevereiro de 2011

Pai e filha





Estava de frente para a janela no quinto andar olhando o amanhacer cinzento daquele sábado. Era um daqueles dias que não prometia nada num coração humano, nem alegria, nem tristeza. Somente vida tranquila. Ele olhava os poucos carros que passavam na rua de frente ao prédio em que morava, sentindo o vazio desse edifício dentro de si, pois se tratava de um estabelecimento comercial, sendo seu apartamento um dos poucos residenciais que ali havia. Era um homem vivido dentro de seus 32 anos, de estatura mediana, moreno e com cabelos levemente crespos. Não se podia dizer que era bonito, mas seu rosto tinha uma beleza singela, discreta, porém profunda. Seu olhar já tinha deixado muitas mulheres afim, e seu sorriso marcara a vida de outras tantas. Mas hoje morava sozinho e guardava muitos dos seus amores passados na lata do lixo e poucos no coração.

Pensava nisso quando aquele pequeno ser vivo apareceu em sua frente. Seus cabelos loirinhos e sua barriguinha levemente proeminente avançavam em direção ao pai que, na janela, viajava em seus pensamentos, sem perceber a presença cada vez mais próxima da filha. Sua boneca pendia na sua mãozinha esquerda e seu lençolzinho ficara pelo caminho enquanto ela caminhava. Um álbum de Caetano tocava na sala enquanto essa cena se desenrolava. De repente, ela abraçou uma das pernas de seu pai, que a acompanhava com o seu olhar de pai, aquele olhar carregado de sentimento, como quem viu uma coisa linda e nunca antes vista... Viu o rostinho daquela menininha linda olhando para cima com um olhar de sono, um pouco tristonho. Era difícil descrever o amor que ele sentia por ela. Certamente era a mulher de sua vida, a única pela qual ele morreria ou pela qual viveria.

Ele a pegou no colo e colocou-a na mesa da cozinha que, apesar de apertada, era o cômodo do apartamento onde, curiosamente, os dois passavam a maior parte do tempo juntos, vendo TV, conversando, lendo livros infantis, brincando... Clarice gostava de tomar seu achocolatado assim que acordava. Seu pai, sempre zeloso por ela, preparava-o assim que ela vinha para ele depois do sono. Naquela manhã ele pegou o copo maior, que era o que eles chamavam de "o copo do sábado". Encheu-o de leite e depois colocou duas colheres de chocolate em pó e uma de açúcar. Enquanto ele mexia o copo do achocolatado  e o líquido girava dentro do copo, pôs o canudinho com desenhos do ursinho pooh  no achocolatado, que passou a girar juntamente com o líquido. Isso sempre arrancava doces gargalhadas de Clarice. E não foi diferente naquela manhã...

Mas uma coisa houve naquela manhã que marcaria a vida daqueles dois para sempre. Logo após tomar  seu achocolatado, Clarice pôs sua mãozinha direita na testa, com o cotovelo escorado na mesa, como se tivesse uma questão em sua cabecinha de criança. Notando isso, seu pai deu um leve carinho em seu rosto e lhe perguntou:

- Tá tudo bem com você, filha?
- Tá sim, pai. 
- Dormiu bem?
- Um-hum. Só tive um sonho ruim essa noite...
- Sonhou com o monstro de novo?
- Não. Sonhei que eu morria.
- Sério? E como isso aconteceu no sonho?
- Num sei. Eu caía de um lugar alto e morria...

...


- Pai...
- Oi, amor.
- Eu não quero morrer.
- Por que você não quer morrer, linda? Todo mundo tem que morrer um dia...
- Porque morrer é ruim, papai.
- Como você sabe que morrer é ruim? Você já morreu alguma vez?
- Não...
- Então?
- Hum...
- Lembra que semana passada você não queria comer ovo cozido por que achou que era ruim?
- Am-ham.
- E você acabou gostando no final das contas, né?
- Am-ham.
- Então, talvez morrendo você vai descobrir que morrer é uma grande aventura. Nunca se sabe...
- Mas quando eu morrer eu não vou poder mais brincar. E eu gosto muito de brincar, de correr, de... De tudo... Eu não quero morrer...

Nesse momento Roberto olhou pra Clarice... Seu olhar ganhou um quê de sabedoria e tristeza... Não podia mais controlar as suas palavras... Algo havia cortado o seu espírito, como um raio... E queimava como larva de vulcão em atividade clandestina... As palavras ganharam vida própria e saíram de sua boca de forma quase sem querer...

-Filha... Vai chegar um dia, daqui a muito, muito, muito tempo, que você não vai querer mais brincar, pois já vai ter brincado muito, bem muitão. Você vai acordar e vai ver que brincar não tem mais a mesma graça que antes... Será nesse momento que a morte vai chegar, e você vai partir bem. Confia no papai, é isso o que vai acontecer... Brincar cansa... Chega uma hora que a gente perde a graça de brincar... Aí outras pessoas nos substituem, pois o mundo, filha... O mundo não pode parar...

De olhos fixos em Roberto, Clarice não entendeu as palavras dele com a cabeça, mas sim com o seu coraçãozinho de criança... Jamais esqueceria disso em seu espírito... Viveria com aquelas palavras gravadas em seu interior pelo resto de sua vida, na qual ela brincaria muito... Muito... E se cansaria depois de ter brincado muito...




Dedico esse texto ao diretor italiano Mário Monicelli, que percebeu que não queria mais brincar e se matou em novembro do ano passado num hospital de Roma, se jogando da janela do quinto andar, aos 95 anos de idade.