
Desde junho ando lendo e pensando
política todos os dias. Uma enxurrada de manifestações levou o nosso país
às ruas. Das que aconteceram no Rio eu fui a muitas, muitas mesmo. Vi o
movimento crescer, tomar corpo, forma, proporções gigantescas, as quais ninguém
previu. E agora o vejo minguar, ser reduzido ao que estava antes, a um punhado
de pessoas que participam e praticam política em movimentos sociais, partidos
políticos ou de forma solitária, ao mesmo tempo que coletiva.
Pus
todas as minhas energias nessas lutas. Reinventei a minha agenda,
reconfigurando a minha vida profissional e pessoal para colocar passeatas e
mais passeatas nela, além de leituras de textos sobre as mesmas. Talvez eu
nunca tenha me sentido tão vivo quanto nesses últimos meses. E talvez esse
sentimento de vida tenha sido a causa do vazio que esteja sentindo agora.
Ando
sentindo aquela sensação de sem mais nem por que que me atingiu a vida inteira
em tempos determinados, específicos. Alguns desses momentos foram ligeiros,
como um sussurro, um lampejo. Outros duraram meses, até anos. Trata-se das
famosas trevas que se escondem por detrás da vida e dos afazeres humanos,
penetrando pelos poros de cada atitude e crença nossa. Trata-se da falta de
sentido. Viemos a esse mundo sem saber o porquê. O máximo que temos hoje são
doutrinas e teorias científicas e filosóficas sobre a origem de nós mesmos e do
universo que nos cerca. O que de fato temos, contudo, são fluxos de
sentimentos, os quais, em geral, perdem gradativamente o sentido conforme
envelhecemos e vamos percebendo, consciente ou inconscientemente, que o passar
da vida leva um pouco de nós a cada momento. A morte é a gradativa perda da
vida em vida. Estamos morrendo enquanto estamos respirando e deixando de
acreditar nas coisas. A morte não é só física, mas sobretudo espiritual. Vive
eternamente aquele que, até o último suspiro, acredita que a sua mísera
existência tenha servido a um sentido maior do que a própria miséria.
O
volume das manifestações foi intenso. E está intenso até agora. Enquanto a
civilização segue o seu processo de compra e venda, de trabalho e salário, de
contas e consumos inúteis, uma porção de jovens está indo às ruas hoje para
tentar derrubar o governador e o prefeito do Rio. Uns acreditam que estão num
processo revolucionário. Outros que estão exercendo a democracia pura e
simples. O que vejo é um movimento perdendo a força e, por vezes, a orientação.
Isso vem causando em mim um cansaço físico e mental enorme e um sentimento de
que a minha vida não vale de todo a pena. De que não há sentido para isso tudo
que vemos em frente aos nossos olhos.
Vendo
o belíssimo filme "Histórias cruzadas" nessa última tarde de domingo,
me deparei mais uma vez com a insanidade que foi (e é) o racismo americano, que
perdurou até às lutas pelos direitos civis nos anos 1950 e 60. A coragem das
empregadas negras e da jornalista Skeeter para escrever o livro que desafiou a
cidade de Jackson. A tristeza e a dor daquelas empregadas em encarar a dureza
da vida dia a dia, dentro e fora de casa. Uma pequena cidade do Mississipi é,
nessa obra, palco de uma história na qual cabem todos os sentimentos do mundo.
Mas é história, um momento na (suposta) eternidade do nosso universo. Skeeter
vai pra Nova York no final do filme, a grande cidade dos Estados Unidos. E
deixa pra trás uma cidade de mulheres incríveis, tão incríveis quanto ela, para
ganhar um mundo que, no final das contas, nenhum de nós pode ganhar, porque ele
não nos pertence. Somos mais dele do que ele nosso. E nossa vida não passa de
uma seta sem rumo, a qual irá parar em algum lugar, que talvez não cogitávamos
a possibilidade de ser o nosso destino. Assim é a vida...


