domingo, 9 de outubro de 2011

Memória das cenas





Certa vez eu tive uma conversa com um amigo numa mesa de bar (e como eu gosto de conversar em mesas de bar...), na qual estávamos falando sobre a morte. Lembro-me perfeitamente de termos dito um para o outro a seguinte frase: poxa, se um de nós morrermos levaremos tantas coisas um do outro, tantas confidências, tantos bate-papos, tantas coisas... Estou me recordando disso hoje porque me sinto impactado com uma coisa óbvia, típica e inevitável da vida, mas o que na vida é tão óbvio que nunca mais poderá voltar a nos surpreender? Estou pensando em mudanças... Naquelas cenas que estão congeladas na nossa cabeça e que são constantemente reinterpretadas por nós na medida em que nos afastamos delas... Aquele beijo, aquele cheiro de mulher, aquela rua, aquele vento, aquela conversa, aquele amigo, aquela cerveja, aquele bar, aquele jogo, aquele gol, aquele barulho da torcida, aquela roda de amigos, aquela mão, aquele aperto... E que aperto no peito me dá em ter a plena certeza de que essas coisas estão no passado, que morarão eternamente no passado, e que a única coisa que ficou delas foi a sensação que tenho delas quando as lembranças vêm... Será que elas são verdades? Será que não são? O que as lembranças realmente guardam e escondem do passado? 

Não tenho respostas para tais perguntas. O que tenho é angústia. Angústia de olhar para trás e ver esse rolo comprido de filme, com cada fotografia congelada uma ao lado da outra, mas não necessariamente conectada uma com a outra. As cenas da minha vida, das minhas escolhas, da minha ignorância... da minha paixão. Tenho a sensação de que percorri o meu caminho até aqui como cego na estrada, e que, como cego, continuarei a perseguir o meu caminho até quando a morte me abraçar. A morte... A mesma sobre a qual estava falando com o meu amigo. A morte que dá sentido à vida, a morte que, por ser ponto final, põe graça nas coisas, põe tempero, põe vida... Vida na existência... E as lembranças... Só possuem sentido porque eu as vivi... E só me lembro delas porque elas se foram... É a engrenagem... É  a vida...

Só queria registrar que me é muito difícil  conviver com as lembranças, principalmente com as boas lembranças... Pois elas estão tão longe de mim, tão intocáveis, tão turvas... "Assim é a perda", diz Arnaldo Antunes. A perda é como uma pedra que atravessa a superfície da água e bate no fundo do rio, deixando a água em ondulações. As pedras não estão no meio do caminho. Elas passam pela superfície, isto é, pela vida, e vão para o fundo... Vão para esse estranho bairro chamado passado... Morar na casa dessa senhora tão circunspecta, tão introspectiva e tão séria chamada lembrança, moradora do número do infinito na rua dos caminhos...

Que Deus me ajude a lidar bem com as minhas lembranças... Algumas me doem tanto...



terça-feira, 28 de junho de 2011

Fanstástico cotidiano





Fazia uma noite fria. Estava cansada. Tinha trabalhado um dia inteiro e andava agora rumo ao ponto de ônibus, de volta pra casa. Enquanto caminhava sentia a cidade dentro de si, como sempre fazia desde pequena. Gostava de andar e ver as ruas, as esquinas, os prédios e casas que a rondavam. E gostava principalmente de ver as pessoas ao seu redor. Como fora criada no Rio, estava acostumada a ver muita gente ao mesmo tempo, andando, trabalhando, namorando, parando, rindo, chorando, brigando... O ser humano era para ela uma eterna novidade, mesmo que esta se repetisse nas mesmas circusntâncias da vida, nos mesmos retratos que formam a existência humana nessa terra, nesse mistério... Por vezes isso a fazia pensar em si mesma e na sua própria vida, se interpretando, reinterpretando e se redescobrindo a cada pensamento. Que nada na vida é exato disso ela sabia. Mas será que isso significava que que não existe uma verdade em nós mesmos? Será que, se vendo nua em si mesma, ela não encontraria algumas respostas sobre ela, sobre a Clarice? Sobre essa história, esse ser dentro desse corpo com um nome tão fantástico e comum ao mesmo tempo?

Enquanto andava vira um rapaz sentado próximo a uma estátua que ficava em frente ao Paço Imperial. Ele tinha um olhar perdido, cujo expressar parecia querer gritar "socorro", como quem procura por algo que se perdeu... Essa imagem a assutou um pouco, de forma que seus olhos se arregalaram, deixando escapar um pouco de lágrima espontânea. Mas logo ela desviou o olhar para frente, apressando os passos rumo ao seu destino cotidiano, quando avistou um casal de namorados que pareciam os seres mais perdidos na felicidade do mundo. Eles se olhavam como se tivessem caído numa obra de Monet depois de estarem muito tempo presos num porão, trancafiados numa escuridão sem sentido. O carinho dos dedos dele deslizando pelo rosto dela quase fez Clarice estremecer por fora tanto quanto ela estava estremecendo por dentro. Ela quase parou de andar, ficando seus passos tão lentos como os de uma bailarina no auge de sua apresentação... E quando ela o beijou, abraçando-o firme em seu peito, Clarice quase aplaudiu, quase se ajoelhou em plena praça, em pleno cotidiano, na plena rotina...

Mas ela continuou seu caminho pensando se a felicidade deles duraria para sempre como ela achou um dia que as dela iriam durar. Se eles estavam tão apaixonados um pelo outro, porque esse sentimento deveria acabar? Será que tudo passa realmente? O amor é um sentimento tão misterioso para ela que, por vezes , chegava a pensar que esse sentimento só tinha uma coisa de consistente: o nome.  Dizemos as mesmas coisas para pessoas tão diferentes ao longo de nossas vidas, fazendo as mesmas declarações amorosas.. Sentimos as mesmas coisas por pessoas de mundos tão contraditórios... De forma mais clara, crua, visceral, Clarice pensava que o amor é um sentimento encarado como único, especial, mas que se manifesta da mesma forma e por várias vezes na vida de uma pessoa que ela chegava a ter certeza de que esse famoso e cobiçado sentimento não existia a não ser na mente humana...  Mas nesse momento parecia que uma outra Clarice surgia nela, de um canto de seu espírito  o qual ela nunca conseguia controlar, apesar de seus pensamentos lhe parecerem tão corretos e embasados em experiências muito concretas... Perguntas surgiam nessas horas, perguntas essas que não lhe permitam ter a paz de uma pessoa de fé e convicção... Será que nada fica até final, que nada permanece no meio desse tudo que é o espetáculo da vida humana? Ela apressava os passos enquanto lembrava de seus amores passados... Estava certa de que não havia vilões e mocinhos nas suas histórias de amor, salvo algumas exceções. Será que em algum canto de seu passado estaria a fixação de seu espírito, o fim desse eterno vagar que ela sentia dentro de seu ser? Tinha idade suficiente para marcar seu rosto e seu olhar com histórias intensas de amores passageiros. Será que esses amores foram passagerios porque ela não se permitiu vivê-los de forma mais  real, se entregando a eles? Já fora casada, mas nunca teve um filho. Não sabia responder se um filho a fazia falta, nem se era penoso para ela dormir sozinha em sua cama de casal, como fazia há quase 10 anos.

Ela já tinha entrado no ônibus em direção à sua casa. Enquanto o transporte dava partida,  seus olhos miravam a cidade e as pessoas que davam vida a ela... Era tanta gente, tantas histórias, tanto tudo que chegava a ficar tonta. Sentia que aquelas pessoas tinham tudo a ver com ela, ao mesmo tempo em que um abismo as separava. Todos pareciam caminhar rumo a destinos tão certos e tão pouco conhecidos... Ela via o cotidiano como uma vassoura que varria as pessaos e as levavam para muito longe, às vezes longe até delas mesmas... O fantástico é mascarado pelo cotidiano, assim como o absurdo é superficialmente desfeito pela razão... E naquela viagem diária de volta pra casa, Clarice parecia se ver através das janelas do ônibus, tendo a certeza dentro de si de que a vida daquelas pessoas era tão incerta e misteriosa quanto a dela, e que não poderia ser diferente, pois somos humanos, não? Somos bombas sem claros objetivos, num é? Somos diferentes, tão diferentes... mas, ao mesmo tempo... tão iguais...


sexta-feira, 13 de maio de 2011

A morte de Cristo



Se tem uma coisa a qual eu sei há tempos mas que sempre me espanta e me emociona todas as vezes que eu a sinto em minha vida é a incerteza que é o coração humano. Homens e mulheres são bombas de sentimentos e mistérios, bombas que explodem continuamente sem muito sentido. Bombas de sensações e pensamentos em eternos conflitos. Bombas que irradiam algo a que chamamos de vida.

O mais perturbador disso tudo é que qualquer tentativa do homem de interpretar quem ele mesmo é, de entender o sentir e o fluir de si próprio é fadada ao fracasso, pois as palavras são símbolos, são tentativas de tocar o intocável, de definir o indefinível, de delimitar o que jamais terá fim. O caminho ou os caminhos da vida são, em última instância, estradas criadas por nós mesmos, de acordo com conceitos nos quais acreditamos estar corretos, mas que no fundo jamais saberemos se realmente é assim.

Isso tudo me angustia. O passado é mistério, o presente é mentira e o futuro é o nada. Sinto falta da época em que Jesus estava vivo em mim, época na qual eu tinha um caminho, uma verdade e uma vida. Agora que sou meu próprio deus tudo virou saudade e meu chão virou nuvem. A liberdade de cair dos céus é incrível e apaixonante. Contudo, a incerteza de não saber aonde se vai parar e de saber também que qualquer paradeiro será incompleto para o homem-deus é algo que me dilacera, ao mesmo tempo em que me apaixona. Às vezes mais me apaixona do que me dilacera. Mas só às vezes...

Estamos todos em queda livre...


terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Uma vida sem mágica

Como tinha gente na estação de metro da Pavuna, pensava Marcos. Todos os dias ele chegava àquela estação do metrô pontualmente, às 7 horas da manhã. Precisava estar na repartição às 8:30. Saltaria na Central e iria andando até lá. Todos os dias da semana fazia tudo sempre igual, às vezes repetindo a mesma roupa dois dias seguidos, pois não era dado a vaidades. E todos os dias ficava espantado com a quantidade de gente que se apertava no vagão do metrô para poder chegar, cada um, no seu destino cotidiano. Quanta gente essa cidade tem, pensava ele. São Paulo é muito pior. Deus me livre...

Na sua bolsa, e ele usava a mesma bolsa havia 3 anos, uma pequena mochila preta com uma alça somente, ele levava sempre alguns livros, para a viagem passar mais rápido. Estava lendo um livro espírita, um outro livro de poemas e relendo pela quarta vez na sua vida “Crime e Castigo”, de Dostoievski, seu autor favorito. Não se podia dizer que Marcos era um intelectual, posto que sua mente funciona lenta demais, e sem ideias muito bem elaboradas, por serem sempre muito caóticas. Mas adorava ler. Gostava de ler novas ideias, relatos dramáticos, poesias de vida e de amor... Era a inspiração necessária à vida de um homem no meio de uma multidão cotidiana e mecânica.

Sentia um leve desprezo pelo mundo que o cercava. Dava graças a Deus por ser concursado e receber todo mês os seus R$ 2.500, que não somavam uma grande fortuna num país cheio de contas a serem pagas, como o Brasil. Mas eram mais do que o suficiente para ele se sustentar e comprar os seus livros. Morava em um apartamento próprio em Duque de Caxias. Seria mais fácil pegar um ônibus direto para a Central. Mas no metrô ele iria lendo e evitava engarrafamentos. Como a rotina era algo detestável para ele. Mas não tinha opção. O mundo não é dos sonhadores. O mundo é dos objetivos. Deveria trabalhar, ganhar dinheiro, pagar contas e envelhecer. E pronto.

No olhar de Marcos havia algo como uma marca, como se ele houvesse perdido um filho em sua vida. Mas nunca perdera um filho, pois nunca nos seus 30 anos de vida fizera um filho em alguma mulher. Morava sozinho e há alguns anos o amor se reduzia a pequenas e freqüentes aventuras que começavam na mesa de um bar e terminavam na cama, dentro do seu quarto. Não mentia: para todas as mulheres que com ele se envolviam não prometia nada, somente momentos. E cumpria a sua palavra. E depois que elas adormeciam em seu peito, pois ele era romântico e sempre levava as cabeças das mulheres para o seu peito liso de jovem, ele demorava a pegar no sono ao mesmo tempo em que olhava para o teto e via crescer dentro de si o seu olhar cada vez mais perdido e consciente. Marcos nunca perdera um filho, mas tinha perdido a mágica no olhar de uma pessoa.

Se tratava de um olhar profundo e aéreo ao mesmo tempo, e a profundidade desse olhar estava justamente nesse tom aéreo e nos segredos que ele escondia atrás de si. Às vezes achava que o mundo era composto por pessoas fúteis, que não conseguiam pensar para além do materialismo que cerca as coisas desse lindo mundo moderno. Outras vezes achava que esse pensamento era preconceito seu, pois todos deviam ter os seus problemas e dores íntimas, mas a luta diária pela vida uniformizava a todos numa máscara de segurança e postura de adulto. Talvez todos tivessem um olhar semelhante ao de Marcos. Não importa. O certo é que o olhar de Marcos não mais tem a mágica da pureza inocente de quem nunca perdeu. E, imprensado contra a parede do vagão, com as costas doendo e sentindo o cheiro de um perfume de mulher, Marcos estava, agora, tentando pegar o seu livro de poesias para ler um pouco. E lera, até chegar a Central.

E depois tudo se repetiu, como num filme: Marcos chegou na Central, comeu seus dez pãezinhos de queijo com mate natural e foi para o trabalho. Mas seu olhar continuava sem mágica. Às 17 horas Marcos saiu do trabalho e pegou o metrô novamente, de volta para casa. Chegava sempre por volta das 19 horas em casa, faminto e demasiadamente cansado. E sem aquela mágica no olhar. Tomou banho, preparou a sua janta, viu o telejornal, reclamou do país. Depois pegou o seu maço de cigarros e pôs-se à janela para ver a rua. Fazia uma noite fria e estrelada. Pessoas passavam pelas ruas o tempo todo. Cada pessoa tinha a sua história, a sua vida, o seu destino. E isso o oprimia, pois era gente demais, destinos demais que passavam por ele, ali na frente da sua janela. Queria abraçar as pessoas de uma só vez, não elas propriamente ditas, mas o fluxo de vida que elas representavam. Era muita coisa, era vida demais. Ele se sentia velho diante de tanto peso que lhe caía na alma. Já estava no seu nono cigarro e o relógio marcava meia noite. Mas não tinha sono, só estava cansado. Cansado da rotina, cansado de ler, cansado da vida. Tinha somente 30 anos, mas estava cansado como um velho de 80. E sem mágica no olhar.

Até que ele resolveu fazer uma coisa que há 4 anos não fazia. Foi a uma gaveta fechada à chave que ficava de frente para a mesinha de centro da sala, numa pequena estante. Pegou aquela caixa de papelão com desenhos do Elvis Presley. Tinha lágrimas nos olhos. Abrindo a caixa, lá estava a sua mágica: cartas de amor. Eram cartas de um amor antigo, que há muito se perdera nas vielas da sua vida. Eram cartas de um amor mágico, imaturo e sem máculas. Cartas longas, sinceras, vindas de um coração o qual ele nunca mereceu, mas obteve durante um ano e meio de sua vida. Mas não tinham somente cartas. Tinha fotos, bilhetes de entradas de cinemas, teatro, museus. Todas datadas do ano de 1999.  Havia uma história dentro daquela caixa. E as lágrimas, cheias de mágica, brotavam de seu rosto e manchavam aqueles elementos todos, guardados como relíquias, como provas de uma civilização perdida. Eram marcas de sorrisos sinceros, de noites eternas de um amor singelo. De planos e fantasias que não se realizaram enão se realizariam nunca...

Até que Marcos não mais agüentou: fechou a caixa de papelão, pôs tudo dentro da gaveta e a trancou. Cansado e já sem mágica, se jogou na cama dentro do quarto já escuro, iluminado vagamente pela luz da sala. Naquela noite, como em muitas outras do seu passado e do seu futuro, Marcos pegaria no sono enquanto chorava. Seu choro era pura dor nesses momentos, não mágica. E nos dias seguintes tudo aconteceria de forma sempre igual na vida de Marcos: mecânica, poética e sem mágica...

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Pai e filha





Estava de frente para a janela no quinto andar olhando o amanhacer cinzento daquele sábado. Era um daqueles dias que não prometia nada num coração humano, nem alegria, nem tristeza. Somente vida tranquila. Ele olhava os poucos carros que passavam na rua de frente ao prédio em que morava, sentindo o vazio desse edifício dentro de si, pois se tratava de um estabelecimento comercial, sendo seu apartamento um dos poucos residenciais que ali havia. Era um homem vivido dentro de seus 32 anos, de estatura mediana, moreno e com cabelos levemente crespos. Não se podia dizer que era bonito, mas seu rosto tinha uma beleza singela, discreta, porém profunda. Seu olhar já tinha deixado muitas mulheres afim, e seu sorriso marcara a vida de outras tantas. Mas hoje morava sozinho e guardava muitos dos seus amores passados na lata do lixo e poucos no coração.

Pensava nisso quando aquele pequeno ser vivo apareceu em sua frente. Seus cabelos loirinhos e sua barriguinha levemente proeminente avançavam em direção ao pai que, na janela, viajava em seus pensamentos, sem perceber a presença cada vez mais próxima da filha. Sua boneca pendia na sua mãozinha esquerda e seu lençolzinho ficara pelo caminho enquanto ela caminhava. Um álbum de Caetano tocava na sala enquanto essa cena se desenrolava. De repente, ela abraçou uma das pernas de seu pai, que a acompanhava com o seu olhar de pai, aquele olhar carregado de sentimento, como quem viu uma coisa linda e nunca antes vista... Viu o rostinho daquela menininha linda olhando para cima com um olhar de sono, um pouco tristonho. Era difícil descrever o amor que ele sentia por ela. Certamente era a mulher de sua vida, a única pela qual ele morreria ou pela qual viveria.

Ele a pegou no colo e colocou-a na mesa da cozinha que, apesar de apertada, era o cômodo do apartamento onde, curiosamente, os dois passavam a maior parte do tempo juntos, vendo TV, conversando, lendo livros infantis, brincando... Clarice gostava de tomar seu achocolatado assim que acordava. Seu pai, sempre zeloso por ela, preparava-o assim que ela vinha para ele depois do sono. Naquela manhã ele pegou o copo maior, que era o que eles chamavam de "o copo do sábado". Encheu-o de leite e depois colocou duas colheres de chocolate em pó e uma de açúcar. Enquanto ele mexia o copo do achocolatado  e o líquido girava dentro do copo, pôs o canudinho com desenhos do ursinho pooh  no achocolatado, que passou a girar juntamente com o líquido. Isso sempre arrancava doces gargalhadas de Clarice. E não foi diferente naquela manhã...

Mas uma coisa houve naquela manhã que marcaria a vida daqueles dois para sempre. Logo após tomar  seu achocolatado, Clarice pôs sua mãozinha direita na testa, com o cotovelo escorado na mesa, como se tivesse uma questão em sua cabecinha de criança. Notando isso, seu pai deu um leve carinho em seu rosto e lhe perguntou:

- Tá tudo bem com você, filha?
- Tá sim, pai. 
- Dormiu bem?
- Um-hum. Só tive um sonho ruim essa noite...
- Sonhou com o monstro de novo?
- Não. Sonhei que eu morria.
- Sério? E como isso aconteceu no sonho?
- Num sei. Eu caía de um lugar alto e morria...

...


- Pai...
- Oi, amor.
- Eu não quero morrer.
- Por que você não quer morrer, linda? Todo mundo tem que morrer um dia...
- Porque morrer é ruim, papai.
- Como você sabe que morrer é ruim? Você já morreu alguma vez?
- Não...
- Então?
- Hum...
- Lembra que semana passada você não queria comer ovo cozido por que achou que era ruim?
- Am-ham.
- E você acabou gostando no final das contas, né?
- Am-ham.
- Então, talvez morrendo você vai descobrir que morrer é uma grande aventura. Nunca se sabe...
- Mas quando eu morrer eu não vou poder mais brincar. E eu gosto muito de brincar, de correr, de... De tudo... Eu não quero morrer...

Nesse momento Roberto olhou pra Clarice... Seu olhar ganhou um quê de sabedoria e tristeza... Não podia mais controlar as suas palavras... Algo havia cortado o seu espírito, como um raio... E queimava como larva de vulcão em atividade clandestina... As palavras ganharam vida própria e saíram de sua boca de forma quase sem querer...

-Filha... Vai chegar um dia, daqui a muito, muito, muito tempo, que você não vai querer mais brincar, pois já vai ter brincado muito, bem muitão. Você vai acordar e vai ver que brincar não tem mais a mesma graça que antes... Será nesse momento que a morte vai chegar, e você vai partir bem. Confia no papai, é isso o que vai acontecer... Brincar cansa... Chega uma hora que a gente perde a graça de brincar... Aí outras pessoas nos substituem, pois o mundo, filha... O mundo não pode parar...

De olhos fixos em Roberto, Clarice não entendeu as palavras dele com a cabeça, mas sim com o seu coraçãozinho de criança... Jamais esqueceria disso em seu espírito... Viveria com aquelas palavras gravadas em seu interior pelo resto de sua vida, na qual ela brincaria muito... Muito... E se cansaria depois de ter brincado muito...




Dedico esse texto ao diretor italiano Mário Monicelli, que percebeu que não queria mais brincar e se matou em novembro do ano passado num hospital de Roma, se jogando da janela do quinto andar, aos 95 anos de idade.



quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Pedro



Pedro caminhava pelas ruas de Botafogo sem muito mais nem por quê. Acabara de sair de um cinema de rua e se pôs a andar depois de uma sessão sofrida para ele, na qual ele chorou o filme inteiro. O filme era bom, excelente na verdade. Contava os dramas da adolescência de um astro do rock. Mas Pedro não chorara muito pelo filme, apesar deste ter sido lindo. Chorara por ela...

Há dias ele esperava por uma mensagem no seu celular. O primeiro e último encontro com ela tinha sido maravilhoso para ele. A conversa, a cerveja, o rosto dela... Os risos, os rios entre os dois, as piadas, as ironias, as brincadeiras... O beijo dela... Pedro achava que nunca mais teria uma química  tão espontânea e pura novamente com ninguém, até conhecê-la... Ela parecia ser um parêntesis na sua solidão, solidão esta repleta de mulheres e amigos, mas nada comparado a ela... E solidão é solidão, mesmo em meio a um Maracanã lotado. Naquele bar daquela esquina daquele bairro, Pedro voltou a ser feliz de forma genuína. Entre risos, goles e beijos, Pedro se reencontrava em si mesmo e, quem sabe, no amor. Será que aquilo foi amor? Ele não podia saber, nem nunca saberia. O que podia dizer e dizia com paixão é que aquela menina em pouco tempo criara raízes fortes nele, deixara marcas como rastros de bombas. Eles pareciam belos juntos, pareciam peças de quebra-cabeças que se encaixaram perfeitamente numa única noite. Para ela estava tudo bem, mas para Pedro... Não, não estava bem...

Queria mais que uma noite, queria duas, três... Ele sentia que seu coração queria mais... Mas a mensagem dela em seu celular nunca chegava e jamais chegaria. Mas disso ele ainda não sabia. Mas sentia. Por isso caminhava pelas ruas de Botafogo, meio aceso, meio apagado. Caminhava olhando as ruas e sentindo o vento bater em seu rosto. O mesmo vento que já tinha trazido e levado muitas mulheres de sua vida. Dessa vez o vento levou ela... Mas foi tão especial, senti tanta coisa boa, tanto conforto espiritual. Por que você a levou de mim, vento? Não ia adiantar nem gritar, nem chorar, nem correr, tampouco dormir... Às vezes ser humano significa ser prisioneiro das circunstâncias da vida. O vento a trouxe, o vento a levou. Era preciso continuar. Louvado seja o vento...

A pior coisa que existe para um homem é quando uma mulher vai embora de sua vida, mas o beijo dela fica...

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Benigno.



Almodóvar é um dos artistas mais brilhantes que eu conheço. Seus filmes são refinados, complexos, sofisticados, delicados... São de uma inteligência e perspicácia que somente os grandes possuem. Poucos nascem para serem grandes nesse mundo de muitos. Almodóvar é um grande, sem sombra de dúvidas. Gostaria de escrever meus textos como ele faz filmes. Mas sem chance de isso acontecer. Fica pra próxima encarnação. Mas hoje estou aqui para falar de um dos filmes mais incríveis dele: "Fale com ela". Filmaço no sentido mais estrito que esse termo pode ter... Vamos a ele.

Os personagens de Almodóvar são a primeira coisa que me chama a atenção em seus filmes. Eles desafiam as regras sociais, todas as conveções que aprendemos a ter como certas desde pequenos. Ele dá voz a pessoas que têm voz em nossa sociedade somente de noite e em locais específicos. Aqui no Rio, por exemplo, o bairro da Lapa ao cair da noite é o reduto de homossexuais, travestis, drogados, bêbados... Em Caxias, também ao cair da noite, começam a aparecer bêbados por todas as ruas. Já os travestis e homossexuais sequer têm um bairro. Eles têm uma rua, atrás de um supermercado, depois de altas horas da noite. Já os viciados em craques ocupam a frente de um outro supermercado ao longo das madrugadas, logo na entrada de Duque de Caxias. Todos esses personagens aparecem a nós nos telejornais como seres marginais, fora da concepção que nós temos de humanidade. Mas nos filmes de Almodóvar não. Neles, todas as pessoas que nos acostumamos a ver como "undergrournds"  são os protagonistas de uma visão de mundo totalmente distinta do convencional, e que desafia essa mesma convenção o tempo todo. Em "Fale com ela" o personagem que nos deixa bestializado diante da tela é Benigno. 



Benigno é aquele tipo de pessoa que no colégio é chamado de "lerdo", de "autista", de "mongol" e por aí vai. Ele passou toda a sua juventude cuidando de sua mãe, que era doente. E depois, como ele era enfermeiro, ele passa a cuidar exclusivamente de uma menina no hospital em que trabalha, menina essa cujo nome é Alicia. Alicia entrou em coma depois de um acidente de carro e nesse estado ela já estava  há quatro anos, quando o filme começa. Mas Alicia não é uma menina comum para Benigno. Ele já a conhecia antes de ela entrar em coma. Ele a observava da janela de seu apartamento enquanto ela tinha aulas de ballet. E nessas observações Benigno criou uma Alicia dentro de si que talvez jamais existira, mas que ele amava com toda a sua força. Ele era louco por ela, mas nunca conseguiu se aproximar de Alicia de forma concreta ou convencional, exceto por uma vez que ele viu a carteira de Alicia cair no chão enquanto ela saía de sua aula de ballet. Ele, desesperado, pega a carteira dela e começa a segui-la. Transtornada, Alicia pergunta o porquê de ele estar seguindo-a. Ele entrega a carteira a ela e ganha sua simpatia por um curto período, período esse suficiente para ele descobrir aonde ela morava. 


Alicia morava com seu pai, que era psiquiatra. Na verdade ela morava atrás do consultório dele. Benigno, em sua "loucura" marca um consulta com o pai de Alicia, somente para se aproximar dela. Chegando lá, quando a consulta acaba, ele consegue adentrar pelo apartamento de Alícia, descobrindo um pouco de seu mundo. De repente ele a vê saindo do banho, semi-nua. Ela se assusta. Benigno responde: "Não se assuste. Sou inofensivo", e se vai. Essa frase quase corta meu coração quando lembro dela e da cena. Ela é pura e simples, como todas as frases deveriam ser. O problema é que esse mundo dos milhões no qual vivemos tem uma metralhadora de convenções, de pequenos rituais para nos aproximarmos de alguém. Todos parecem temer quem está em sua volta, pois nunca se sabe quem é quem. Benigno pode ser encarado como louco por muitos que veem o filme, mas para mim ele é somente um filho da modernidade e de todas as suas angústias, complexidades, caminhos... Ele é o filho que se voltou contra o próprio pai, pois ele não obedece a nenhuma das regras da modernidade. Ele vive dentro de seus próprios conceitos de certo e errado, sem ligar muito pro que os outros pensam. Uma cena do filme me fascina e mostra bem isso. Vamos a ela.

Benigno trava um diálogo com Marcos, homem de meia idade, machucado pela vida, tristonho e introspectivo. Marcos estava no hospital por causa de sua mulher, que estava  também em coma. Quando ele conhece Benigno logo ele percebe que se tratava de uma pessoa especial, diferente de tudo o que ele já tinha visto na vida. Chega uma hora que Marcos pergunta pra Benigno o que ele sabia sobre mulheres, qual tinha sido a experiência dele com elas. Benigno dá uma resposta magistral: "Sei muito. Cuidei de uma por mais de vinte anos e cuido de outra há quatro...".Muitos diriam que Benigno não sabia nada sobre mulheres, pois ele ainda era virgem mesmo depois de adulto e nunca havia tido uma namorada na vida.  As pessoas costumam pensar que ter muitas experiências de vida é fazer muitas loucuras, principalmente ao longo da juventude. É fazer muito sexo com pessoas diferentes, é usar muitas drogas, sejam elas convencionais ou não, é andar de trem ou de ônibus no teto, é ir pra inúmeras baladas e encher a cara... Acontece que Benigno nunca havia feito nada disso, mas, do jeito dele, ele havia vivido, havia tido as suas experiências de vida do seu jeito, através das suas percepções e com a sua história. Eu concordo com Benigno sobre as mulheres. Hoje eu não acho que seja preciso conhecer muitas para se criar uma percepção geral sobre elas. Basta olharmos para as mulheres de nossas famílias, para nossas amigas, colegas de trabalho e pras mulheres que tivemos na vida para criarmos a nossa interpretação sobre elas. E essa interpretação será válida, tão válida quanto a do Chico Buarque ou a de Pablo Neruda. A vida não tem muito mistério...

"Fale com ela" é uma obra prima do cinema contemporâneo, um filme de tirar o fôlego literalmente. De fazer chorar... Todos os personagens do filme estão "à flor da pele", estão nos seus limites espirituais... Vi esse filme pela última vez na manhã de um dia desses que se passou... E tive uma experiência linda comigo mesmo, com o meu presente e meu passado... Recomendo o filme a todos...



sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Homem-bomba




                  Às vezes sermos nós mesmos significa sermos suicidas...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Noite uruguaia


Tratava-se de seis jovens em um país estrangeiro. Era noite e toda noite trás esperança aos corações juvenis. Parece que na cabeça de um rapaz, sempre que anoitece algo está por vir, algo de bom, de surpreendente. Um jovem nunca se cansa de procurar aventura, nunca se cansa de se divertir com bobagens, com pequenos momentos de gargalhadas gratuitas jogadas no vento. E há momentos na vida de um coração jovem que é somente isso que ele procura: momentos de diversão.

A noite estava fresca em Montevidéu. O céu estava sem estrelas e sem nuvens. Estava num tom negro profundamente forte, talvez como todos os céus ficam em certas noites de verão. Com os seis jovens caminhava mais um que, diferente daqueles, era natural de Montevidéu e conhecia essa cidade como a palma de sua mão. Era fim de ano e grande parte da população local estava de férias se divertindo em outras praias uruguaias. Por isso, mesmo de dia, a cidade parecia um pouco vazia, monótona. Montevidéu tem o seu lado de cidade grande, capitalista, mas não perde nunca o seu lado pacato. No fim da tarde é possível ver nas praças dessa cidade inúmeras pessoas sentadas conversando em grupos de amigos, ou tomando chimarrão, ou olhando para o nada e sem pensar em nada... Parece que o povo de Montevidéu sabe que, no fundo, a vida não tem grande mistério. Basta acharmos um lugar para fixarmos o nosso espírito de forma  espontânea e distraída que sempre se pode ser feliz. E essa descoberta é uma descoberta sem procura. Basta deixar o espírito fluir que logo ele encontra um cantinho para reclinar a cabeça. Essa é uma filosofia simples que o dia a dia das grandes cidades não nos permite pegar no ar. Mas Montevidéu tem ela inserida em seus ventos...

Aquela noite estava tão tranquila quanto os dias da cidade. As ruas vazias não levavam medo aos corações dos nossos seis jovens; sete na verdade. Estavam eles em busca de um bar, de uma cerveja, de uma roda, de meninas bonitas e jovens como eles... Estavam em busca de vida, de diversão. Somente isso. Pararam numa mesa de bar,  reuniram cadeiras, pediram as bebidas e começaram a conversar. Sobravam risos, abraços, gozações, memórias, descobertas, palavras inúteis, comoções. Cada um daqueles jovens vivia e sentia aquela noite uruguaia do seu jeito. Cada um enxergava a felicidade da maneira que esta lhes vinha aos olhos e ao coração. E no meio desse fluido distraído de vida, apareceu entre eles uma criatura da noite, dessas que andam bêbadas pelos centros das cidades vindo sabe-se lá Deus de onde, sem mais nem por quê, "sem lenço, sem documento". Era um homem negro como aquela noite, alto e barrigudo. Deu um beijo no rosto de cada um dos jovens sentados à mesa, o que eles acharam estranho, pois de onde eles vinham homens não se beijavam no rosto. Mas vai lá, era uma noite uruguaia. De repente o homem, que se denominava "super negro", se pôs a cantar. Eram canções estranhas as que saíam da boca dele. Quase todas começavam com um "tch-tcha-tchá, tch-tcha-tchá", som esse que ele fazia com sua mão esquerda tapando a sua orelha esquerda. Finda uma canção, ele recebia os aplausos dos rapazes, pegava um copo de cerveja da garrafa deles e começava a cantar mais uma outra canção. Algum tempo depois disso ele foi embora, sumindo na noite, na mesma noite que o pariu e que provavelmente iria velá-loao final do espetáculo de sua vida.

Ah, a noite... Ah, a juventude... Noite e juventude combinam tanto que parecem irmãos gêmeos. Quando se é jovem nada parece estranho na noite. Mas como a noite tem criaturas estranhas... Um dos nossos jovens resolveu ir ao banheiro do bar. Como estava cheio o banheiro, ele esperava do lado de fora, olhando para o interior do bar, distraído como a juventude sempre é. De repente aparece uma bela mulher na frente dele, bêbada, muito bêbada, mas bela em sua loucura. Quase caindo, essa bela mulher pergunta a ele: "És corto o largo?" O nosso jovem, que não falava nada de espanhol, ficou sem entender nada do que ela dizia. Ela repetiu rindo: "És corto o largo?" Ele achou que ela estava perguntando a ele se ele estava esperando para ir ao banheiro. Ela ria de sua cara. "Yo se que quieres ir al baño, pero quiero saber: és corto o largo?" Como o nosso jovem continuava sem entender o que ela dizia, a mulher desistiu dele e entrou no banheiro. Ele aproveitou para voltar à mesa e comunicar ao amigo uruguaio o que a mulher lhe disse. "O que ela quis dizer com isso?", perguntou o nosso jovem com cara de bobo. O uruguaio, espantado com a lerdeza do nosso jovem, disse em bom português: "Ela queria saber qual é o tamanho do seu pau! Fala que é largo! Diga que bate no joelho... Beija ela agora..." Nisso a mesa já não se aguentava de tanto ir. Todos riam da situação, inclusive o jovem que tinha acabado de deixar passar a oportunidade mais fácil em toda a sua vida de ir pra cama  com uma mulher linda... Ele voltou desesperado para o interior do bar e esperou ela sair do banheiro. Quando ela saiu ele disse a ela em alto e bom som: e com muita esperança no coração "Soy largo!". Ela, já sem tesão, talvez, respondeu: "Bien...", e se foi... Nosso jovem voltou à mesa desolado, mas rindo de si mesmo e da situação. Os outros jovens riam tanto que alguns chegaram a chorar de tanto rir. E eles ririam pelo resto de suas vidas, contando essa história para filhos, netos, para outros amigos... Ririam devido ao resquício de juventude que sempre estaria com eles pelo resto de suas vidas... Ririam porque jamais deixariam de ser jovens dentro de si mesmos... Ririam porque a vida é bela, mesmo em seus pequenos desastres...

Deus salve a noite, suas criaturas e os jovens...


P.S.: Quando uma mulher uruguaia perguntar a você se "és corto o largo", responda "largo, muy largo" e seja muito feliz...


sábado, 15 de janeiro de 2011

Montevidéu



Tem uma coisa que aprendi na faculdade e que está dentro de mim. Se trata de uma idéia, uma questão que me persegue e, talvez, seja o grande motor da minha vida. Até que ponto existe a realidade? Até que ponto nós mesmos construímos a nossa realidade? Até que ponto uma coisa existe em si mesma ou o que vemos nela é influenciado pelas nossas idéias e pelos sentimentos que nutrimos por ela? Nesse mundo dos fluxos intermináveis de informações, fica difícil construir um conhecimento minimamente duradouro sobre algo, no qual não exista a pergunta lá no fundo do nosso espírito: será que isso que penso é realmente verdade?

Essa é a questão que permeia a minha vida e o Uruguai me fez vivê-la de forma mais intensa. Digo isso porque eu passei por esse país recentemente e fiquei encantado por ele. Mas conheci algumas pessoas que já passaram por lá e que acharam o país sem graça, sem nada pra fazer. Isso meio que criou uma pulga atrás da minha orelha, pois fiquei me perguntando qual era a origem do meu encantamento pelo Uruguai. Por que eu fiquei tão feliz por ter passado por um lugar que é desprezado pela maioria do mundo? Será que eu criei um Uruguai em mim que na verdade não existe? A minha resposta pra isso é um sincero e bem escrito, falado e escarrado foda-se. Conto aqui o que senti e o que vivi no Uruguai do ponto de vista do meu espírito.

Um grande escritor uruguaio chamado Eduardo Galeano certa vez disse (mais ou menos assim) que em 1950 o futebol colocou o Uruguai no mapa mundial. Ele tem razão, pois tirando o futebol uruguaio, que caiu no ostracismo durante décadas até essa última copa do mundo, nada se ouve falar desse país, que me pareceu um lugar lindo. Viajei com cinco amigos nesse "tour" pela sul do nosso querido continente. Mas quando estava em Montevidéu decidi fazer um passeio pela cidade sozinho. Simplesmente saí do albergue no qual estava hospedado e comecei a andar pelas ruas de forma espontânea e indiscriminada, talvez um tanto irresponsável, haja vista que eu estava num lugar que eu não conhecia. Mas fui assim mesmo. E foi a melhor coisa que fiz nesses dezessete dias de viagem pela América Latina. 

Comecei a andar pela praça central de Montevidéu, cujo nome agora não me recordo ao certo, mas acho que era Praça da Independência. Se trata de uma praça linda, grande, cercada de prédios históricos. Eu não tinha consciência, mas eu estava andando pela parte velha da cidade. Montevidéu é dividida em duas partes: a parte velha e a parte moderna. Sem querer querendo eu comecei a adentrar a parte velha da cidade. Comecei andando por uma bela avenida onde quase tudo estava fechado, exceto uma linda livraria e algumas lanchonetes e bares. Era fim de ano, mais precisamente dia vinte e sete de dezembro de 2010, e nesse período os lugares fecham cedo em Montevidéu, segundo me contou um amigo uruguaio funcionário do albergue. Mesmo tudo estando fechado, eu sentia o tempo todo que estava num lugar especial, que respirava história, beleza singela ao mesmo tempo que deslumbrante. Como gosto muito de andar, comecei a não perceber o quanto estava andando. Simplesmente eu me inseria na parte velha da cidade sem ao menos perceber que estava me distanciando muito do albergue e dos meus amigos que estavam lá. Na verdade uma parte deles eu encontrei andando também pelas ruas, por acaso. Um deles virou pra mim e me falou: "Essa cidade é uma merda. Parece o Rio. É suja, não tem nada para fazer aqui." Eu dei um leve sorriso e decidi continuar o meu caminho, pois estava achando Montevidéu uma graça de cidade. Ao longo do caminho passei por inúmeras construções históricas, a maioria delas bem conservadas, outras nem tanto. Vi vários cartazes escritos "aluga-se" ("alquilo" em espanhol), o que me fez perceber que eu estava entrando numa área que talvez não fosse muito valorizada em termos econômicos. Também vi muitas pichações e grafites nos muros cujas mensagens tinham teores políticos, pelo menos até onde o meu péssimo espanhol me permitia compreender. 

Conforme ia andando eu fui percebendo que o modesto luxo e a elegância inicial da rua pela qual comecei a andar estava se transformando em humildade. Comecei a ver que as construções continuavam antigas, respirando história, mas que seus habitantes pertenciam a uma classe social pobre. Via pessoas nas portas das casas tomando chimarrão, olhando para a rua, conversando com alguém ou simplesmente sozinhas, caladas e tomando chimarrão. Vi uns dois meninos jogando futebol, um deles com a camisa do Penharol, clube mais popular do Uruguai. Tavez eu tenha sentido inveja da inocência com a qual eles brincavam, inocência essa que eu perdi já faz um tempo. Mas achei o jogo deles de uma beleza singular. Estava anoitecendo em Montevidéu e enquanto uns tomavam chimarrão e outros estavam voltando do trabalho, eles simplesmente queriam jogar futebol na rua. Senti um pouco de saudades da época na qual eu fazia isso nas ruas de Caxias. Mas o que me marcou mesmo foi a áurea do lugar pelo qual eu estava passando. Eu sabia que se tratava de um lugar onde cada prédio tinha um história por trás, história essa que nem eu e nem aqueles meninos tínhamos consciência, e talvez nem os adultos que estavam parados naquela rua sentindo o anoitecer chegar. Montevidéu respirava algo especial para mim. Eu estava deslumbrado diante daquilo tudo. Quando uso a expressão "aquilo tudo" eu acho estranho, pois muita gente diria que eu não estava vendo nada de demais. Isso pouco me importa. Eu estava vendo muita coisa, estava sentindo muita coisa... Pelo menos pra mim...


Conforme a rua ia acabando, eu comecei a avistar um pouco de longe o Rio da Prata, rio esse que banha a costa de Montevidéu. O sol estava de um amarelado diferente do que costumo ver no céu do Rio.Tudo estava amarelado, como se Deus tivesse resolvido passar um toque de tinta amarela naquela tarde só para deixar o ambienete com um clima especial, como se Montevidéu estivesse sendo pintada por Monet. Naquela rua havia vários becos pelos quais não andentrei, mas que avistei de perto e senti um mistério, uma poesia neles, como se eu tivesse sentindo as inúmeras cenas de casais de amantes que já devem ter sido protagonizadas naqueles becos, naqueles cantinhos que, como diria Machado de Assis, só servem mesmo para protagonizar momentos de amores, sejam eles profundos ou superficiais, se é que existem amores superficiais....


De repente eu cheguei ao cais. E nesse momento me deparei com um céu lindo, de tom amarelado, com nuvens amareladas, e esse amarelo resplandecia nas ruas que beiravam o cais. Vi pessoas passeando por ali, umas fazendo exercícios físicos, outras pescando e outras namorando. E eu... Ali, simplesmente ali, nada mais do que isso... Os prédios que ficavam perto do cais estavam envelhecidos e eles se estendiam ao longo da rua que beirava o rio. Me aproximei do mar e senti no meu íntimo que, definitivamente, eu estava num lugar especial. Parei, sentei, olhei o céu, as ruas, as pessoas... Tinha perto de mim um casal de namorados. A menina tentava se esconder das águas do rio, que naquele dia estavam um pouco agitadas. Mas o rapaz simplesmente parou perto das águas, sem se importar que elas o estavam molhando. Um outro casal de namorados sentou juntos encima de uma pedra enorme que beirava o rio e ficou observando com os corpos colados um no outro o pôr do sol, aquele espetáculo que somente a natureza pode proporcionar e que somente pessoas cujas vidas não se resumem as objetividades do dia a dia conseguem admirar. Fiquei encantado com aquilo tudo e fiquei sem entender o porquê de um país com um rio e um pôr do sol tão bonito é tão menosprezado pelo mundo. 


Vivemos num mundo onde tudo tem que ser espetáculo. Enchentes de verão, uma fofoca sobre uma pessoa famosa, assaltos a bancos, tiroteios em cidades grandes, um filme estrelado por atores superestimados, bandas de "rock" coloridas... Tudo isso vira espetáculo nas sociedades modernas e vazias em suas modernidades. Certamente Montevidéu não se encaixa nesse espetáculo. Não vi boates glamourosas por lá, nem ostentação de dinheiro e fama que pudessem ser valorizadas pela grande mídia mundial, como um slogan de "cidade maravilhosa" sustentado por praias poluídas, uma estátua do cristo redentor, bondinhos e mulheres com bundas enormes pulando carnaval. Até mesmo o próprio futebol uruguaio saiu de cena porque os clubes de futebol desse país não possuem grandes estrelas nem conquistam grandes títulos e nem têm orçamentos milhonários. Mas ouvi dizer que o clássico Nacional e Penharol faz Montevidéu parar. As pessoas se concentram, se emocionam, se dividem em prol de um futebol que o mundo julga não mais ter importância, mas pro qual elas dão importância e muita importância. E se o mundo não dá importância ao Uruguai eu digo: foda-se o mundo. O Uruguai é um país incrível e eu nunca vou permitir que alguém diga o contrário disso...





sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Prefiro gritar







[Ola, pessoal. Inicio esse texto dizendo que o portugues escrito aqui sera demasiadamente incorreto, pois estou no Chile e os teclados de computadores aqui sao diferentes dos do Brasil, principalmente quando o assunto e acentuacao, como voces podes ver na ausencia do "c" cedilha  na palavra "acentuacao"e do acento circunflexo na palavra "ausencia". Peco desculpas e prometo corrigir esses erros quando chegar no Brasil. A despeito disso, preciso escrever algo sobre essa longa viagem que estou fazendo pela America do Sul.]   E  o Chile, país no qual estou pela segunda noite, me pareceu ser o lugar ideal por possuir uma capital enorme, cujas pessoas são bem diferentes umas das outras, com direito a grupos de punks andando pelas ruas, lojas vendendo canecas com a imagem do ditador Pinochet com um "Gracias, mi general" escrito ao lado, grupos de homossexuais dando cantadas nos brasileiros atarvés de frases do tipo "complexo do alemao" (sic), infinitos bares e boates vendendo diversão e de bandas tocando no meio das ruas de um bairro boêmio de Santiago, o Bella Vista, justamente o bairro no qual me encontro.

Santiago foi a primeira cidade que me fez parar e pensar sobre o mundo, sobre as coisas e sobre mim mesmo. Apesar de ter frequentado a Lapa algumas vezes, bairro carioca no qual se concentram os (pretensos) "undergrounds" do Rio de Janeiro, acho que nunca vi algo tão diferente em minha vida do que a cidade capital do Chile. Ela não é uma cidade igual às outras, por maior que ela seja. Tem algo em Santiago que respira diferença, dessemelhança de tudo que eu já vi na vida. Na verdade isso tudo pode ser devido ao fato de eu ser estrangeiro e estar num lugar com cultura e lingua totalmente diferentes das minhas. Mas foi Santiago que fez eu me sentir o que realmente sou e o que todos nós somos: uma ponta num meio de um universo infinito. Esse amontoado de gente, de cores, de rostos, de andares, de prédios, de ruas... Tudo isso dando pra algum caminho ou dando pra lugar nenhum. Depende do que se procura, do que se deseja, do que se considera caminho... Enfim, tudo nesse mundo vasto depende do ponto de vista, do lugar do qual se está olhando algo. Acabei de conversar com uma mulher com quem tive uma conversa franca e produtiva  e que me disse simpatizar mais com governos ditatoriais do que com os governos democráticos.  Essa é a verdade dela, apesar de eu quase ter escarrado nessa "verdade". Mas é isso que me incomoda nesse mundo: essa diversidade que não acaba, essa eterna torre de babel dos espíritos encarnados. Eu fico me perguntando qual é o meu lugar em tudo isso, o porquê de eu estar aqui, fazendo o que, indo para onde... Às vezes essa diversidade me fascina, mas em outras vezes ela me irrita, me sufoca... É demais pra mim e creio que para muita gente, haja vista as igrejas abarrotadas de pessoas implorando por uma direção e os livros de auto-ajuda sendo vorazmente consumidos por pessoas frequentadoras de terapia. 

Enfim, Santiago é uma bela cidade e o Chile é um país tão belo quanto Santiago. Mas eu tenho um mundo dentro de mim que muitas vezes grita para sair como uma entidade com vida própria. E foi por isso que escrevi esse texto. Não por estar deprimido ou por estar num momento emo da minha vida. Santiago somente me angustiou, me fez parar e pensar sobre as coisas,  e acabei escrevendo isso aqui que vocês, meus poucos leitores, estão vendo e, espero eu, sentindo. Prefiro fazer isso a fazer terapia, a comprar livros de auto-ajuda e a frequentar igrejas vendedoras de salvação. Foda-sa o mundo moderno e as suas válvulas de escape. Prefiro gritar...