A letra de "Minha
Casa", canção de Zeca Baleiro do disco "Líricas" (2000) é de uma
força poética e existencial muito profunda, ao menos para mim. Ela começa com
uma sequência de versos arrebatadora, na qual passado e futuro são confrontados,
estando, no meio deles, o eu poético discursando suas reflexões sobre esses
dois tempos, estando o presente implicitamente representado pelo próprio eu
lírico na canção.
Os verbos mimeografar e imprimir
são usados de forma genial e sutil para representar, respectivamente, passado e
futuro ("É mais fácil mimeografar o
passado/que imprimir o futuro"). A palavra "fácil" aqui não
quer dizer que, de fato, (re)construir lembranças de episódios já vividos por
nós seja algo fluido, com o qual nós sempre lidamos com facilidade. A colocação
dela, é claro, é relativa à palavra futuro, que aqui representa o desconhecido,
o vácuo do nosso próprio tempo de vida, que de fato não existe, como Renato
Russo já colocava em Pais e Filhos.
Para o poeta (ou para seu eu
poético, como queiram; mas nem preciso dizer que eles não são a mesma
pessoa...), a construção do futuro é um desafio maior justamente por ele não
existir. Daí a maior dificuldade em imprimi-lo: o passado já tem uma base de
significado. O futuro, não. O futuro é a construção de lugares, de territórios,
de caminhos, enquanto o passado é um labirinto móvel, dinâmico, de lugares que
viram não lugares, de caminhos que viram descaminhos ou do esquecimento que
vira lembrança. O passado é a lembrança de uma infância. O futuro é uma viagem
para a Sibéria.
O desejo da felicidade aparece
aqui de uma forma serena; realista, mas sem ser fria; crítica, mas sem deixar
de sonhar, sem que a vida perca a beleza e a poesia. Afinal de contas, o poeta
quer "tatear estrelas distraídas". Mais uma referência sutil ao
passado é feita aqui. Se os astrônomos estão certos, o brilho das estrelas é
uma marca do passado, pois elas não existem mais, só seus brilhos. Então, tocar
em "estrelas distraídas" poderia ser, aqui, sentir as lembranças de
forma bela, como se elas fizessem parte da vida humana de um jeito harmônico,
como numa sinfonia. Esse equilíbrio talvez seja o maior dos
"para-raios" aos quais o poeta se refere na penúltima estrofe da
canção. Esses para-raios postos na canção entre as coisas mais simples da vida:
a delícia das frutas num passeio público e os beijos apaixonados em dias de
chuva. As dificuldades e a doçura da vida aparecem aqui lado a lado, estando na
mesma estrofe do poema. Como não na própria vida.
Ao chegarmos à última estrofe nos
defrontamos com o eu lírico na porta de sua casa, a casa de toda a sua vida ("a mesma e única casa/a casa em que eu
sempre morei"). Passado e presente se unem aqui na figura dessa casa,
que é o território do poeta por excelência. A passagem do tempo é mostrada na
imagem de uma escola de samba que atravessa a avenida ("vejo o mundo passar como passa/uma escola de samba que
atravessa"). Se a casa velha
é a díade passado-presente se tornando unidade, a escola de samba é o futuro,
pois ela passa, ela anda para um final que se repete, como Sísifo, no marcante
mito grego. O futuro aqui não é necessariamente inovação. E as marcas de uma pessoa que passou pela vida
do poeta estão aqui postas com a calma de alguém que aprendeu a amar a vida
pelo que ela é ("pergunto onde estão
teus tamborins").
Essa é, talvez, a composição mais
completa e bonita do Zeca Baleiro, esse artista maranhense de voz forte e
delicada ao mesmo tempo e com uma poesia muitíssimo potente, de um humanismo
refinado, nem severo, nem ingênuo. Apenas poético.
