domingo, 25 de agosto de 2013

Setas




     



Desde junho ando lendo e pensando política todos os dias. Uma enxurrada de manifestações levou o nosso país às ruas. Das que aconteceram no Rio eu fui a muitas, muitas mesmo. Vi o movimento crescer, tomar corpo, forma, proporções gigantescas, as quais ninguém previu. E agora o vejo minguar, ser reduzido ao que estava antes, a um punhado de pessoas que participam e praticam política em movimentos sociais, partidos políticos ou de forma solitária, ao mesmo tempo que coletiva.
                Pus todas as minhas energias nessas lutas. Reinventei a minha agenda, reconfigurando a minha vida profissional e pessoal para colocar passeatas e mais passeatas nela, além de leituras de textos sobre as mesmas. Talvez eu nunca tenha me sentido tão vivo quanto nesses últimos meses. E talvez esse sentimento de vida tenha sido a causa do vazio que esteja sentindo agora.
                Ando sentindo aquela sensação de sem mais nem por que que me atingiu a vida inteira em tempos determinados, específicos. Alguns desses momentos foram ligeiros, como um sussurro, um lampejo. Outros duraram meses, até anos. Trata-se das famosas trevas que se escondem por detrás da vida e dos afazeres humanos, penetrando pelos poros de cada atitude e crença nossa. Trata-se da falta de sentido. Viemos a esse mundo sem saber o porquê. O máximo que temos hoje são doutrinas e teorias científicas e filosóficas sobre a origem de nós mesmos e do universo que nos cerca. O que de fato temos, contudo, são fluxos de sentimentos, os quais, em geral, perdem gradativamente o sentido conforme envelhecemos e vamos percebendo, consciente ou inconscientemente, que o passar da vida leva um pouco de nós a cada momento. A morte é a gradativa perda da vida em vida. Estamos morrendo enquanto estamos respirando e deixando de acreditar nas coisas. A morte não é só física, mas sobretudo espiritual. Vive eternamente aquele que, até o último suspiro, acredita que a sua mísera existência tenha servido a um sentido maior do que a própria miséria.
                O volume das manifestações foi intenso. E está intenso até agora. Enquanto a civilização segue o seu processo de compra e venda, de trabalho e salário, de contas e consumos inúteis, uma porção de jovens está indo às ruas hoje para tentar derrubar o governador e o prefeito do Rio. Uns acreditam que estão num processo revolucionário. Outros que estão exercendo a democracia pura e simples. O que vejo é um movimento perdendo a força e, por vezes, a orientação. Isso vem causando em mim um cansaço físico e mental enorme e um sentimento de que a minha vida não vale de todo a pena. De que não há sentido para isso tudo que vemos em frente aos nossos olhos.
                Vendo o belíssimo filme "Histórias cruzadas" nessa última tarde de domingo, me deparei mais uma vez com a insanidade que foi (e é) o racismo americano, que perdurou até às lutas pelos direitos civis nos anos 1950 e 60. A coragem das empregadas negras e da jornalista Skeeter para escrever o livro que desafiou a cidade de Jackson. A tristeza e a dor daquelas empregadas em encarar a dureza da vida dia a dia, dentro e fora de casa. Uma pequena cidade do Mississipi é, nessa obra, palco de uma história na qual cabem todos os sentimentos do mundo. Mas é história, um momento na (suposta) eternidade do nosso universo. Skeeter vai pra Nova York no final do filme, a grande cidade dos Estados Unidos. E deixa pra trás uma cidade de mulheres incríveis, tão incríveis quanto ela, para ganhar um mundo que, no final das contas, nenhum de nós pode ganhar, porque ele não nos pertence. Somos mais dele do que ele nosso. E nossa vida não passa de uma seta sem rumo, a qual irá parar em algum lugar, que talvez não cogitávamos a possibilidade de ser o nosso destino. Assim é a vida...

                

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