terça-feira, 3 de março de 2015

O Retrato de Dorian Gray: horror, decadência e fascinação pela juventude



Nessa última segunda-feira, dia 02/03/15, em pleno trem da SuperFria, na belíssima Rio-de- Janeura-dos-transportes-públicos-horrorosos foi-se mais uma das zilhões de lacunas da minha vida literária: li finalmente a obra prima do grande escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900), O Retrato de Dorian Gray. A edição que utilizei para a minha leitura foi a de 2011 da editora Hedra, traduzida por nada mais, nada menos que João do Rio (1881-1921), autor de A Alma Encantadora das Ruas, livro classicão da literatura brasileira, que eu não li (eu avisei que tinha zilhões de lacunas literárias...) e com texto de introdução de um cara mega inteligente chamado Ricardo Lísias (Doutor em Literatura pela toda poderosa USP, universidade da cidade sem água).

A tradução de João do Rio é muito interessante, apesar de um bocado difícil, pois ele usa muitos termos arcaicos (por assim dizer) do português falado no Brasil. A julgar pelo texto de Lísias, João era muito fã de Oscar Wilde e tentou disseminar por aqui o decadentismo na literatura. Dada a importância histórica e literária de uma figura como a de João do Rio, essa tradução é, por si só, uma relíquia.

Como não poderia deixar de ser, o impacto que tive com essa obra foi enorme. Três personagens são centrais nessa trama: Lord Henry Wotton, aristocrata, desocupado, misógino, inteligentíssimo, irônico e egocêntrico; Basil Hallward, artista de razoável talento, amigo e crítico da postura de Henry, homossexual e introspectivo; e Dorian Gray, jovem de extraordinária beleza, cabeça-oca e objeto de estudo (literalmente) nas mãos de Henry Wotton.

Basil pinta um retrato de Dorian. Nesse retrato o artista coloca todo o seu talento e amor pelo jovem Dorian. O resultado é um quadro extraordinariamente belo. Henry, contudo, ao ver o retrato, coloca uma pulga enorme atrás da orelha de Dorian: ele um dia envelhecerá, enquanto o retrato permanecerá intacto, belo, sublime, sinistro, em bom carioquês. Dorian pira com essa constatação de Henry e deseja, do fundo de seu coração, que ele permaneça jovem enquanto o quadro envelheça. A partir daí uma ligação sobrenatural e antinatural se estabelece entre Dorian e seu retrato: os anos passam, Dorian permanece novinho em folha, mas a sua imagem no quadro entra em profunda deterioração (a imagem no quadro, não o quadro, leia-se bem).

Seguindo os conselhos de Henry, Dorian se torna uma pessoa extremamente narcisista e hedonista, tocando o foda-se pra tudo e pra todos e vivendo somente para o seu próprio deleite, seguindo seus próprios impulsos e desejos. Isso gera em Dorian uma decadência moral que passa a ser retratada no quadro, que só ele vê, pois esconde de todas as pessoas logo assim que ele percebe a estranha ligação causada pela sua própria vontade de não envelhecer.

A fascinação que o Ocidente tem pela juventude é, em Wilde, o pano de fundo de um livro que coloca a decadência no seu aspecto físico e moral na vida da personagem que nomeia sua obra-prima. Essa decadência parece ser inevitável, o destino fatal dos seres humanos. Tentando escapar de sua faceta material, Dorian mergulha de cabeça na decadência espiritual para, no fim, ser destruído pelas duas. Trata-se de uma história macabra, que vai se tornando mais sombria ao longo das páginas, com parêntesis de tiradas espirituosas de Lord Henry.

Uma questão que, a meu ver, grita em O Retrato de Dorian Gray é o lugar que a juventude ocupa em nossa cultura ocidental. A beleza por aqui não é só um questão de cor de pele, corpo esbelto e tipo de cabelo. É também e, talvez acima de tudo, uma questão de ser ou não jovem. Para nós, ao que parece, ser belo e estar vivo é, de fato, ser jovem. A vida no Ocidente parece muitas vezes terminar aos quarenta, ao contrário do velho ditado.

De fato somos animais que envelhecemos e morremos. Será que não poderíamos ver isso simplesmente como natureza ao invés de decadência? Ou de fato a juventude é o que há de mais belo mesmo na vida? Nesse caso, cabe a nós aceitarmos isso, para doer menos. É isso mesmo?

Seja como for, Wilde mostrou com esse livro uma leitura forte e pessimista da vida humana. Ele carrega esse livro com várias frases ótimas, que são lançadas como dardos no leitor, nos fazendo pensar sobre o que foi dito. Lord Henry é a personagem que ele mais usa para fazer isso, mas o narrador também é usado pelo autor para esse fim. O filme O Retrato de Dorian Gray (2009) de Oliver Parker muda bastante o enredo, comprometendo um pouco história, mas mantendo seu sentido e sua levada de terror. Recomendo ambos, seja em qualquer ordem, muito embora talvez seja mais interessante ler o livro antes para que o leitor crie as próprias feições físicas das personagens. A nossa imaginação é parte importante da leitura.

P.s.: O site adorocinema.com desceu o sarrafo no filme de Parker. Pra quem quiser dar uma lida na crítica, só conferir o link ao lado:  http://www.adorocinema.com/filmes/filme-136408/criticas-adorocinema/






















quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Música com cheiro de passado



Fazia algum tempo que eu não ouvia uma música que me tocasse tanto quanto Hold me up, da banda estadunidense Live. A primeira vez que ouvi essa canção foi em 2008, no cinema, vendo a excelente comédia Pagando bem que mal tem? (Jack and Miri make a Porno, 2008). A música começou a tocar quando Jack e Miriam, amigos desde os tempos de escola, estavam numa cena de sexo para um filme pornô muito trash que eles estavam fazendo para ganhar dinheiro e se livrarem das muitas dívidas que tinham.

Ao rever esse filme há algumas semanas atrás eu novamente tornei a encontrar essa canção. E o efeito que ela teve sobre mim foi, de novo, muito bom, muito embora o som aqui de casa não seja nem de longe tão maneiro como o do cinema.  Hold me up me soa como um rock muito americano e muito final dos anos 80 e início dos anos 90, com teclado, guitarra e um vocal poderoso, semelhante ao que bandas como Van Halem faziam. E mesmo não sendo um crítico musical de fato, com conhecimento verdadeiro sobre música (aliás não sou crítico de verdade de nenhuma arte), acho que bandas de rock que usam teclado têm um profundo cheiro de Estados Unidos e de anos 80.

E aí mora o que muito provavelmente é a chave para o encantamento que tive com essa música: os anos 80. Nasci em 1986. Completei em 2015, no último de 13, 29 carnavais. Apesar de a minha maior referência de música na minha adolescência ter sido o rock grunge e o metal do Iron Maiden, os teclados dos anos 80 (ou nos anos 80?) sempre formaram uma trilha sonora constante na minha vida, sobretudo na minha infância e adolescência. Teclado em música de rock, pra mim, tem cheiro de passado, daqueles acontecimentos que foram e não são mais; daquilo que um dia fui e que hoje está muito diferente, e que vai ficar ainda mais diferente, até não ser mais de todo.

Em determinados momentos da minha vida (isso só acontece comigo?) eu tomei consciência de que o tempo estava, de fato, passando. Esses momentos são para mim como se uma enchente invadisse a minha casa, ou como se eu tivesse tomado um soco ao passear na rua, sem mais nem por quê. Achava um máximo quando estudava os poetas do arcadismo brasileiro na escola e lia que eles falavam do carpe diem, da efemeridade da vida e tudo o mais. Era tudo poético, lindo nas páginas do livro de literatura. Parecia que a danada da efemeridade nunca sairia dali das páginas do livro. Até que a escola acabou e veio a faculdade; e namoros malogrados; e perenes problemas familiares; e depois o mercado de trabalho; e agora os 29 ou os quase 30. E com isso a sensação de que perdi algo que ficou no caminho, algo que nunca mais vou recuperar. E que não soube usar direito esse algo.

Parece loucura eu me sentir velho com 29 anos de idade. Mas para mim, nesse momento, parece algo muito compreensível. Já não tenho mais a inocência e a energia de antes. Há uns 15 anos atrás eu não precisava de muito para me sentir vivo e esperançoso. Hoje já não é mais assim. E isso caiu na minha cabeça enquanto meu aniversário se aproximava. Não faço ideia do que farei com os meus 29. Só sei que muitos dos que cresci vendo e ouvindo já se foram, muitos em 2014, muitos rostos que eu via na TV e muitos pensamentos que eu lia nos livros. E que eu mesmo, daqui há algumas décadas, “passarinho” (e o grande Mário também já se foi). Isso me apavora.

Hold me up é a lembrança de minhas adolescências, das que vivi e das que não vivi, das esperanças que sentia e dos sucessos que nunca tive; dos amigos e amigas que fiz e da banda de rock que nunca formei; dos amores que vivi em prazer e dor e dos que vivi em sonho; dos carnavais que nunca pulei. Toda vez que ouço essa música sinto um misto de emoções e uma aura enorme de passado. A miséria humana da morte, já cantada muitas vezes por muitos e muitos poetas, têm me sondado constantemente. A passagem do tempo é cruel. Mais cruel é senti-la.

O que, então, faremos com isso? 

O jogo da imitação: uma crítica







O filme O jogo da imitação (2015) é excelente do ponto da vista de seu roteiro. Este trata da história do matemático Alan Turing, que na II Guerra Mundial desenvolveu uma máquina que decodificava as mensagens secretas que as forças armadas alemãs emitiam entre si durante seus ataques nesse conflito bélico. Os trabalhos de Turing e da sua equipe evitaram que milhares de pessoas morressem em decorrência de ataques alemães.

Há, no entanto, alguns problemas no filme. Primeiro de tudo, a personagem principal, que é, evidentemente, o próprio Alan, interpretado pelo muito bom ator Benedict Cumberbatch, acaba caindo na caricatura do gênio que não sabe se socializar. Talvez Alan tenha sido exatamente dessa forma na vida real. Nesse caso, essa falha seria desculpável sob a justificativa de fidelidade histórica. A despeito disso, o filme cai no óbvio ao representar Alan da mesma forma que tantos outros filmes representam os considerados grandes gênios da ciência, ao criar uma espécie de Sheldon Cooper num filme de drama. Se no The Big Bang Theory a caricatura cai como uma luva, num filme de drama ela flerta muito fortemente com o enfadonho. 

Outro problema do filme está nos vários momentos nos quais ele passa a ideia de que Alan teria vencido a guerra sozinho. Sabemos que uma guerra é um processo social que, como sempre, é complexo, nunca sendo decidido só pela ação de uma pessoa. Transmitir, mesmo que involuntariamente, a mensagem de que uma pessoa acabou com a II Guerra Mundial me parece muito injusto com todas as outras pessoas que desempenharam seus papéis nessa guerra e que contribuíram, muitas delas com suas próprias vidas, para o seu fim. Que Alan deu uma contribuição fundamental, a julgar pelo próprio filme, disso não tenho dúvida. Que ele ganhou a guerra sozinho, aí já é viagem.

Por último, já no finalzinho do filme, é relatado que a rainha da Inglaterra concedeu o perdão a Alan. O motivo do perdão? Alan era homossexual, o que era considerado perversão pela lei britânica dos anos 1940 e 1950. O filme mostra de forma muito tocante o drama de ser homossexual nessas condições. Esse foi um dos pontos altos do filme, senão o mais alto. Contudo achei de uma estratosférica irrelevância ser mencionado o perdão da rainha no final do filme. Quem tinha que ter pedido perdão era a rainha e os demais representantes do Estado inglês, sejam estes simbólicos ou não. Soou que a rainha foi super legal em ter concedido o “perdão”.


O filme é muito bom, pois sua história prende, fazendo-nos comover e nos entretermos com as suas personagens e com o bom roteiro do filme. Parece que o famoso bonequinho do jornal O Globo dormiu no filme. Essa parece ser a crítica que, a meu ver, vem de um(a) crítico(a) que só louva os filmes que inovam de alguma forma. Não acho que um filme precisa inovar para ser muito bom. O jogo da imitação é um filme muito bom, sem ser inovador. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Benjamim: a marca de um bom aluno




Hoje terminei a leitura do romance Benjamin (1995), do grande Chico Buarque de Holanda. Como menino nascido e criado na bombástica Duque de Caxias, Baixada Fluminense, resíduo urbano da megalópole "Rio de Janeura", só fui conhecer as composições do Chico quando já estava na faculdade, sob a influência de todo aquele clima burguês de jovens-brancos-de-classe-média-cult-bacaninhas que as universidades brasileiras têm. Ouvir Chico até então era coisa de velho para mim. Pirei quando ouvi Cálice pela primeira vez. Como ainda era evangélico nessa época (todo o mundo tem alguma mácula no passado, então não me julguem, per favore), fui tomado por aquela composição singularmente profana e genial que se apropriava de forma brilhante do episódio bíblico pré-crucificação de Jesus, fazendo uma crítica refinada e imensamente criativa da Ditadura Militar, período no qual o cale-se era a regra (hoje é tão diferente?).

Dali em diante construí um dos pilares do meu modesto conhecimento sobre música, um axioma na minha visão de arte brasileira, que exponho a seguir, logo após os dois pontos: Chico é foda, é gênio, é sinistro, é incrível. (Quatro axiomas em um, minha construção linguística pobre inspirada na ideia da santíssima trindade). Não é qualquer artista que cria o que o Chico criou na música. Mas até aqui falei do Chico compositor. Essa postagem, contudo, é pra falar de um outro Chico, o qual tenho a impressão de que é menos falado: o escritor. Benjamin foi o primeiro livro que li do Chico até agora. E, diferente de quando ouvi Cálice, fiquei com uma baita de uma interrogação sobre essa obra, quase que um mal estar.

O argumento desse romance é o seguinte: Benjamin Zambraia é um ex-modelo fotográfico, outrora bonitão, jovem, cheio de vida, mas hoje um homem em decadência profissional, financeira e física, que passa a projetar na jovem e bela Ariela uma velha fixação sua por uma mulher, Castana Beatriz, seu grande amor de muitos anos atrás. Benjamin acha que Ariela é filha de Castana, pois aquela lhe lembra muito fortemente esta. Daí ele passar a procurá-la com muito afinco nos encontros e desencontros entre os dois ao longo da história do livro, que tem uma outra personagem importante: Alyandro, o ex-puxador de carro, literalmente um filho da puta, e hoje um candidato a um importante cargo político; ele coteja Ariela sempre que a vê.

Chico usa nesse romance a difícil técnica de escrita literária do fluxo de consciência, imortalizada por  nomes de peso da literatura mundial como James Joyce e Virginia Woolf há várias décadas atrás. Ele vai passando pelo cotidiano dessas três personagens (Benjamin-Ariela-Alyandro) ao longo da história, dando uma ênfase um pouco maior à personagem que nomeia o livro. Há partes geniais no romance, como a que ele narra a história da Pedra que fica atrás do edifício no qual Benjamin mora; ou a que ele narra a busca de Benjamin por uma antiga foto sua na qual ele está junto com Castana Beatriz. Percebe-se que cada parte do livro foi cuidadosamente escrita, pensada, lida, relida e reescrita, coisa que só pode ser feita por quem entende de literatura. E só entende de literatura quem lê. Chico lê, e lê muito, sem dúvida alguma.

Por isso fiquei com a impressão de que em Benjamin Chico fez direitinho o dever de casa. O livro é bem escrito para zaralho, redondo, com uma sinuosidade fluida, como numa sinfonia. Mas não acredito que com esse livro Chico tenha dado uma contribuição substancial à literatura brasileira. Fiquei com a impressão de que esse romance é um livro bem escrito, com uma história interessante, razoavelmente criativa, e ponto. Não vi nele algo que me remetesse à genialidade do Chico compositor, muito embora haja partes geniais nesse romance, como as que citei acima. O final da história é menos surpreendente que inverosímel. Ariela coloca Benjamin numa situação que deixa o leitor se perguntando por que cargas d'água ela fez isso. Fica sem sentido até. Mesmo assim, há uma beleza muito grande no desfecho de Benjamin, no qual Chico costura o início com o fim do romance, que não é de todo o fim de Benjamim Zambraia, pois a vida dele já tinha perdido o sentido, o espírito; o recheio.

Talvez seja uma pensarmos os rumos da literatura brasileira hoje; ou, melhor dizendo, os caminhos que ela tem percorrido, o que tem sido feito nela de relevante, quais contribuições tem sido de fato dadas. Quando eu leio Roberto Bolaño, por exemplo, me parece claro que seus livros são algo novo e belo para a literatura chilena, assim como Borges é para a literatura argentina, Llosa é para a literatura peruana e Marques é para a literatura colombiana. E na literatura brasileira, o que temos? Só me vem na cabeça Milton Hatoum, com o seu belíssimo Relatos de um certo Oriente, que é excelente na sua narração, nos fios tênues e delicados que ele vai juntando, um a um, ao contar a história de uma família de origem árabe erradicada em Manaus. Mas em que sentido Hatoum é uma contribuição para a nossa literatura? Ele deu de fato essa contribuição?

Como ainda estou engatinhado nessa de pensar literatura como um todo e a literatura do nosso Brasil varonil em particular, não vou dar nenhum pitaco agora, somente vou lançar as minhas questões para o nada. Mas acho que dá para afirmar que Chico Buarque, pelo menos o Chico de Benjamin, não contribuiu para elevar a nossa literatura a um patamar desconhecido. Parece-me que na música ele continua fazendo isso, a julgar pelo seu Bolero Blues. O que não pode é nós, leitores, projetar no Chico escritor o Chico cantor. Um a gente sabe que é foda. O outro parece que não é, pelo menos ainda não.


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O tempo na pena do Baleiro

A letra de "Minha Casa", canção de Zeca Baleiro do disco "Líricas" (2000) é de uma força poética e existencial muito profunda, ao menos para mim. Ela começa com uma sequência de versos arrebatadora, na qual passado e futuro são confrontados, estando, no meio deles, o eu poético discursando suas reflexões sobre esses dois tempos, estando o presente implicitamente representado pelo próprio eu lírico na canção.



Os verbos mimeografar e imprimir são usados de forma genial e sutil para representar, respectivamente, passado e futuro ("É mais fácil mimeografar o passado/que imprimir o futuro"). A palavra "fácil" aqui não quer dizer que, de fato, (re)construir lembranças de episódios já vividos por nós seja algo fluido, com o qual nós sempre lidamos com facilidade. A colocação dela, é claro, é relativa à palavra futuro, que aqui representa o desconhecido, o vácuo do nosso próprio tempo de vida, que de fato não existe, como Renato Russo já colocava em Pais e Filhos.  

Para o poeta (ou para seu eu poético, como queiram; mas nem preciso dizer que eles não são a mesma pessoa...), a construção do futuro é um desafio maior justamente por ele não existir. Daí a maior dificuldade em imprimi-lo: o passado já tem uma base de significado. O futuro, não. O futuro é a construção de lugares, de territórios, de caminhos, enquanto o passado é um labirinto móvel, dinâmico, de lugares que viram não lugares, de caminhos que viram descaminhos ou do esquecimento que vira lembrança. O passado é a lembrança de uma infância. O futuro é uma viagem para a Sibéria.

O desejo da felicidade aparece aqui de uma forma serena; realista, mas sem ser fria; crítica, mas sem deixar de sonhar, sem que a vida perca a beleza e a poesia. Afinal de contas, o poeta quer "tatear estrelas distraídas". Mais uma referência sutil ao passado é feita aqui. Se os astrônomos estão certos, o brilho das estrelas é uma marca do passado, pois elas não existem mais, só seus brilhos. Então, tocar em "estrelas distraídas" poderia ser, aqui, sentir as lembranças de forma bela, como se elas fizessem parte da vida humana de um jeito harmônico, como numa sinfonia. Esse equilíbrio talvez seja o maior dos "para-raios" aos quais o poeta se refere na penúltima estrofe da canção. Esses para-raios postos na canção entre as coisas mais simples da vida: a delícia das frutas num passeio público e os beijos apaixonados em dias de chuva. As dificuldades e a doçura da vida aparecem aqui lado a lado, estando na mesma estrofe do poema. Como não na própria vida.

Ao chegarmos à última estrofe nos defrontamos com o eu lírico na porta de sua casa, a casa de toda a sua vida ("a mesma e única casa/a casa em que eu sempre morei"). Passado e presente se unem aqui na figura dessa casa, que é o território do poeta por excelência. A passagem do tempo é mostrada na imagem de uma escola de samba que atravessa a avenida ("vejo o mundo passar como passa/uma escola de samba que atravessa"). Se a casa velha é a díade passado-presente se tornando unidade, a escola de samba é o futuro, pois ela passa, ela anda para um final que se repete, como Sísifo, no marcante mito grego. O futuro aqui não é necessariamente inovação.  E as marcas de uma pessoa que passou pela vida do poeta estão aqui postas com a calma de alguém que aprendeu a amar a vida pelo que ela é ("pergunto onde estão teus tamborins").

Essa é, talvez, a composição mais completa e bonita do Zeca Baleiro, esse artista maranhense de voz forte e delicada ao mesmo tempo e com uma poesia muitíssimo potente, de um humanismo refinado, nem severo, nem ingênuo. Apenas poético.  

domingo, 12 de outubro de 2014

Memória

Donna Summer,1989



Quando foi que o sábado se tornou para mim um dia como outro qualquer? Quando foi que deixei de sentir todas as dores e alegrias desse mundão de meu deus? Como fui parar aqui, nesse apartamento velho de uma cidade que nem se pode chamar de esquecida, visto que jamais foi lembrada? Numa rua qualquer de uma cidade qualquer de uma periferia qualquer dessa cidade também qualquer chamada Rio e que insistem por aí em dizer que é maravilhosa...

Antigamente eu costumava sentir o cheiro do resto, daquilo que o nosso ideal excludente e patético de sociedade tenta pôr para debaixo do tapete, tenta fingir que não existe ou, se percebe que existe, o apreende como uma personagem de um mundo distante, de uma história fantástica, como se fosse um vírus que existe no lugar mais distante da África, como se esse fosse o lugar da miséria, que é o oposto do nosso lugar, que é o lugar onde cada coisa está em seu devido lugar, pois é assim que acreditamos ser o nosso lugar. Sentia o cheiro dos viados de glamour fosco e imaginário, das putas baratas, dos travecos sem destino, dos bêbados, dos brigões, dos meninos de rua, das pessoas sem casa... Sentia o cheiro da dor que as ruas do Rio antigo carregam no bairro da Lapa. Sentia o cheiro do sangue derramado pelos esquadrões da morte em Caxias. Sentia o cheiro de comida barata, da lâmpada fluorescente de luz fraca e de música dos anos 80, cheia de teclados e de letras que falavam de um amor fácil. O cheiro das biroscas de nossa cidade, o cheiro dos pontos de encontro dos restos, das legiões de resto que esse país guarda em si e para si, mas sempre debaixo do tapete, dentro do armário, em corredores escuros...

Lembro que quando jovem em passava em frente ao bar da esquina de minha rua e sempre ouvia músicas que me lembravam a minha infância ou que me lembravam uma noite de sábado ou que me faziam viver uma noite de sábado. Billy Idol, Tina Turner, Paul Young, Roxette, Donna Summer, Bee Gees, Elton John, Rod Steward, Brian Adams, Celine Dion... Bagaceiras… Tudo aquilo que a dita alta cultura, a autointitulada fina arte nunca iria aceitar em seus meios. E mesmo quando aceitavam o faziam como uma espécie de concessão. Lembro de uma época, há muitos anos atrás, não sei se trinta ou quarenta anos atrás, na qual Maria Bethânia cantou em seu show a música de uma funkeira carioca... Oh, meus amigos foram à loucura enquanto eu fui às náuseas. "Maria Bethânia... você viu o que ela fez?" "O coral da USP fez o mesmo... você viu?", diziam eles nas antigas redes sociais que existiam na internet. Ora, quem gosta de bagaceira são aqueles que põem música dos anos 80, dos anos 1980 para tocar em juicebox de botequim. Esses são os bagaceiras e até hoje eles existem. E ponto. O resto é concessão à bagaceira. Jamais serão bagaceira... Jamais serão resto... Como eu sou hoje...

Acho que foi aí, foi quando virei resto que perdi a capacidade de sentir o cheiro de um sábado, que é um cheiro parecido em intensidade e profundidade com o cheiro de natal. Quando eu mesmo me tornei um bêbado, um solitário que perscruta a vida alheia pela janela sentindo todo o pesar que subjaz às dores humanas das vidas da Baixada. Um assalariado que não sabe pra que ganha um salário. Lembro-me que costumava amar os sábados. Eram dias que me pareciam guardar sempre uma surpresa para mim. Uma banda de uma cidade próxima à minha terra, da qual não me recordo mais o nome, mas era uma banda de reggae, disso eu sei, fez uma música em homenagem às noites de sábado. Eu faria se pudesse uma música para o dia de sábado inteiro, manhã, tarde e noite, naquela época, tamanha era a alegria que sentia nesses dias, nos dias de sábado.

Talvez eu tenha perdido essa alegria, a minha alegria, quando fui percebendo aos poucos que a vida era grande demais para caber em mim, e que meus sentimentos eram complexos, fortes e intensos demais para caber numa vida. Ou quando vi mamãe pela primeira vez chorar no sofá por causa de papai. Ou quando vi um amor passar, quando fiquei sozinho em um encontro marcado ou quando deixei alguém sozinho em um encontro marcado. Quando comecei a sentir medo pelos entardeceres da primavera ou angústia em dias cinzentos. Quando vi meu irmão num leito de hospital, ou quando vi minha avó parar de fazer roscas de fubá pois ela havia morrido, e mortos não fazem roscas de fubá. Antes disso minha vozinha tinha parado de andar e depois tinha parado de enxergar e depois de lembrar da trajetória que ela tinha construído em sua vida. Perdi a alegria, talvez, quando vi que me enrolar num cobertor e me esquentar num dia frio não me protegia mais das incertezas da vida. Eu estava aqui. Não sei se vim parar aqui, mas estou aqui, na vida, nessa vida. Vivo hoje como vivi ontem e anteontem. Viverei mais um pouco amanhã e cada vez menos no futuro. Até que deixarei de ser. É assim para mim, é assim para todos, e um cobertor num dia frio ou o colo de minha mãe após um pesadelo não mudaria isso. Até porque houve tempos em que a minha própria família foi meu pesadelo. Um abraço, um laço, uma facada. Tanta coisa em um mesmo ato. Tanta vida e morte num mesmo verso.

A mim restou a vida. As ruas, as crianças, as mulheres, as luzes, a noite, a brisa, a arte... As coisas. Ver e viver as coisas. Um dia após o outro. Sem pecado e nem perdão, como disse um poeta. Ou sem deus nem diabo. Encarar o tédio e o vazio. Encarar a saudade e a ternura. Encarar a dor de quem vê um ente amado ir embora. Viver a perda tão intensamente quanto o gozo. Fazer sexo e tomar um café com pão e manteiga na esquina. Ver seu time perder e ganhar. Gritar com isso. Gritar com tudo isso. E tentar passar pro papel o sentimento que guardo sobre todas as coisas. Assim tem sido. Assim foi e será, não sei até quando, pois vou em breve, muito em breve. Minha vista já está cansada. Meu corpo dói. Minha pele está cheia de caminhos que não existiam antes e que não dão em lugar nenhum. Como a vida. O olhar está cheio de marcas. Como minha pele. Meu peito bate cada vez mais fraco. E só sinto essa dor que abraça tudo, tudo, tudo... A dor de quem olha para trás e vê um caminho repleto de ossos, uns saudosos, outros não. E pra que tudo isso? Tanta vida... Tanta dor... Tanta fome... Tanta saudade... E a morte.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Noite no motel

Das curvas do teu corpo
Fazia meus movimentos

A janela aberta
Trazia os fluidos do relento

A música do rádio contribuía
Para o construir do sentimento

E numa sinfonia perfeita
Fazia com você o meu momento

E nessa noite sacra éramos deuses
Elaborando gozo no lugar do lamento




(Denis de Barros, setembro de 2014)