Depois de um tempo sem escrever
nesse blog (e meus leitores inexistentes já devem estar acostumados com os meus
intervalos que duram eras), uso essa postagem para falar da minha mais nova
paixão literária. Trata-se da leitura de livros fantásticos, mormente voltados
para o público infanto-juvenil. No ano passado li vorazmente durante 4 meses
todos os livros da série Harry Potter
e simplesmente me encantei pelo universo criado por J.K. Rowling. Também
continuei as minhas leituras de revistas em quadrinhos do Hellblazer Constantine, além de ter lido também o excelente V de Vingança do magistral Allan Moore.
Para quem passou todo o tempo de faculdade lendo autores como Dostoievski,
Tolstoi, Virginia Woolf, Giovanni Verga e Arnaldo Antunes, o caminho para a literatura
fantástica (será esse o nome?) parecia ser improvável. Mas aconteceu. Confesso
que não quero sair tão cedo desse caminho.
Não sei dizer qual seria a origem
desse meu ímpeto pelo mágico na literatura. Talvez seja a chatice da minha vida
profissional cercada de obrigações burocráticas num país que se recusa a
permitir que o professor ensine; ou a rotina de alguém que é obrigado a
trabalhar exaustivamente para fazer uma grana razoável e pagar suas contas. A
monótona sinfonia do cotidiano de um adulto no capitalismo talvez seja a
nascente de um rio de interesses pelo extraordinário, tanto no esporte, como na
TV, no cinema, na religião e na literatura. Queremos ser surpreendidos em
espetáculos o tempo inteiro. Queremos se entretidos em quaisquer lugares que freqüentamos
fora do horário de trabalho. Um filme cujo desenrolar é lento é considerado por
muitos um filme chato e sem graça. Quem tem paciência para assistir a três
horas de Kurosawa ou de Sergio Leone? Quem tem a capacidade de perceber a
beleza da fotografia de uma cena ou o desenrolar de uma música? Quem tem
coragem de pegar um livro de 800 páginas para viajar nele?
É nesse ponto que os meus
questionamentos começam a serem, eles mesmos, questionados. Explico-me: é
válido dizer que hoje não temos paciência para ler um livro longo? Quantos
adolescentes de 12, 13 anos leram e releram as mais de 1000 páginas dos livros sobre
bruxo Harry Potter? Como professor do Ensino Fundamental eu digo, sem medo:
muitos! Não somente as páginas de Potter, mas Jogos Vorazes, Percy Jackson
e outros livros do tipo têm levado uma geração taxada de desinteressada por
professores de várias disciplinas a lerem muitas e muitas páginas de livros. E
não venha me dizer que se trata de uma literatura “menor”, construída para
distrair uma sociedade sem capacidade de atenção para questões mais profundas
sobre a humanidade e a arte. É literatura. Tem uma narrativa, uma história se
desenrolando. E ponto.
É espantoso ver como a realidade
é mais complexa do que imaginamos ser. Beleza, vivemos no mundo do imediato, do
instantâneo, das enxurradas de informações, da falta de tempo, dos pais
offlines, dos viciados em trabalho, dos adolescentes hiperativos e tudo mais.
Mas no meio desse bolo tem uma galera significativa que pega um livro longo (o
popular “calhamaço”) e senta a bunda num canto e lê. Lê, lê, lê... Uma galera
de crianças, jovens e adultos. Isso pra mim é muito significativo. Mais
significativo é saber que As Crônicas de
Gelo e Fogo está entre os livros mais vendidos do Brasil atualmente, essa
que é a série de livros que certamente figura entre as maiores e mais complexas
sagas já criadas, cujo autor é o americano George Martin. Eis aí a minha mais
nova paixão, da qual começarei a falar nesse post.
As Crônicas de Gelo e Fogo reúnem (até agora) 5 belíssimos livros
sobre uma terra chamada Westeros e as
intrigas entre as famílias mais poderosas dela. Trata-se de uma terra fictícia
que George Martin criou baseando-se na cultura da Idade Média. Nela existe uma
riqueza espantosa de detalhes de cada povo que a habita, características
históricas, geográficas, religiosas e físicas que formam cada sociedade,
marcando suas diferenças e norteando a textura dos seus contatos. Além disso,
são muitos personagens que compõem a saga. Eu disse muitos? Então me corrijo:
inúmeros (literalmente). Vários, centenas, muita coisa. E Martin constrói cada
personagem (com destaque nos principais, óbvio) com uma destreza da qual muitos
acadêmicos diriam que não há mais nos dias de hoje. Não se trata de personagens
psicologicamente complexos, os quais me fizeram (e fazem) viajar nas páginas de
Dostoievski e Woolf. O barato no desenvolvimento dos personagens de Martin é
perceber suas características pelas situações que o autor os envolve. Suas
escolhas, seus pensamentos e sentimentos nos fazem entender o homem e a mulher
que se desnuda diante de nós leitores através do seu ponto de vista da
realidade. Isso ocorre também porque cada capítulo é contado do ponto de vista
de um dos personagens, apesar de o narrador ser observador e não participante.
Westeros é uma terra cruel onde
habitam poderosas famílias que jogam um jogo: o jogo dos tronos. Daí o nome do
primeiro livro em inglês ser “Game of
Thrones”. Trata-se de um jogo pelo poder de controlar o reino de Westeros. E
esse jogo é ora violento, ora sutil. Ele divide várias famílias, umas grandes
outras pequenas, mas todas ambiciosas. E nessa trama se desenrolam as ações dos
muitos personagens da série, uns se demonstrando serem muito inteligentes no
jogo, outros mais passionais do que inteligentes, e outros nem um pouco
interessados em jogar, mas envolvidos até o último fio de cabelo na guerra de
Westeros. Nisso cada personagem mostra o seu ponto de vista sobre o mundo que o
cerca, e suas ações vão tendo consequências que eles nem mesmo suspeitavam.
Ned, o senhor de Winterfel, um castelo de região Norte de Westeros, membro da antiga
família Stark, vive pela sua honra, cego pelo cumprimento do seu dever. Um
personagem correto, com um caráter irrepreensível, mas que, justo por essas
características, não enxerga que no jogo dos tronos há algo muito mais do que a
honra envolvido. Deve-se nesse jogo, antes de tudo, antecipar as ações do
adversário, não contando que este vá agir de acordo com os princípios da lei.
Afinal de contas, em Westeros, assim como no mundo real, os poderosos ignoram
constantemente a legalidade em favor da manutenção do seu poder, em detrimento
dos não poderosos.
Robert Baratheon, o rei, ganhou
Westeros pela guerra, mas não se interessa nem um pouco em se manter como líder
maior do reino. Boêmio, alcoólatra e fanfarrão, Robert vive para afogar as mágoas
pela morte de Lyanna, a mulher que seria a sua esposa, a quem ele realmente
devotava todo o seu amor. Porém no mundo louco de Westeros não se tem tempo de
chorar constantemente as dores do passado, pois o presente está sempre repleto
de ameaças. E a ameaça do rei dorme ao seu lado. Cersei, membro da família
Lannister, a mais rica, cruel e temida de Westeros, foi oferecida pelo seu pai,
Tywin, ao rei Robert no final da rebelião que levou este ao poder. O casal se
despreza, mas, ao contrário do marido, Cersei quer o trono para si, deseja o
poder mais do que a tudo no mundo, e nas mãos dela Robert se torna presa fácil.
Contudo Cersei é mais ambiciosa do que inteligente. Ao longo da história ela
vai trocando os pés pelas as mãos até cair num abismo cavado por ela mesma. Mas
esse processo demora mais precisamente 4 livros até acontecer.
Nas mãos de George Martin tudo é lento. Ele constrói uma história complexa numa teia confusa ao mesmo tempo que perfeitamente lógica. Essa teia vai crescendo gradativamente ao longo dos livros, através de intrigas, casamentos, laços feitos e desfeitos, traições, assassinatos, guerras e estratégias. Cada livro não tem menos do que 500 páginas muito bem escritas, páginas que exigem um leitor atento, astuto e, sobretudo, paciente. Mesmo sendo filho da sociedade mais capitalista e consumista do mundo, Martin parece ignorar o seu próprio país e a cultura produtiva dele ao criar uma história medievalista que, ao que parece, não terá final feliz. Nos apegamos aos personagens que Martin cria e, de repente, eles morrem. Nos acostumamos a acreditar que uma determinada coisa ocorrerá quando, de repente, ocorre outra. As Crônicas de Gelo e Fogo nos surpreendem o tempo inteiro. Houve cenas tão fortes que, após lê-las, eu nem consegui dormir direito de tão dramáticas e reais que elas pareceram ser. E são. A arte é um tipo de vida, e a literatura, mais do que todas as artes, expressa a vida como ela é. A irrealidade de Westeros é muito real, assim como a sua irracionalidade é perfeitamente racional. Como na vida, nada faz sentido no jogo dos tronos, ao mesmo tempo em que tudo é dotado do mais completo sentido. Um sentido humanamente criado e destruído, para depois ser recriado. Assim como é a história.
George Martin é o escritor do
nosso tempo. Palmas para ele...
