
"Quero destruir tudo o que
há de vida em mim". Foi o que ele disse logo quando se conheceram, numa tarde de festa perdida há décadas em Botafogo. Ela, na época, era muito mais bela do que hoje. Logo
se encantou pelo rapaz de cabelos encaracolados, olhos castanhos, sorrisos
fáceis, claros. A sensação de estar vivendo um momento especial bateu-lhe forte
no peito. Os 20 anos de uma pessoa trazem sensações que nunca mais se repetem.
Pelo menos foi assim com ela.
Aqueles cabelos logo estariam em
seus ombros ao cair daquele dia. Seus lábios desceriam pelos seus seios, assim
como seu pênis, duro, que entraria pelo vácuo molhado de sua vagina, que ardia
tanto de desejo que parecia ter esperado a vida inteira por aquele momento, com
aquele rapaz.
Casaram-se e foram morar num
apartamento simples, bem no Centro da cidade, por pura opção. (A pobreza e a simplicidade encantam quem tem muito dinheiro.) Inúmeras foram as vezes que pela
janela se deleitaram com a vista de um lugar corrido, feio e belo nas suas
corridas. O deleite era externo e interno, espiritual e sexual, como tudo entre
eles durante seus longos anos de casados.
Mas Caio, desde sempre, nunca
ligou muito para a vida. Não que ele não amasse a vida, ou que não a amasse.
Pelo contrário, ele vivia como se cada dia fosse o último, como se o derradeiro
suspiro fosse iminente a cada segundo de um dia qualquer. Era preciso,
portanto, poetar, beber, fumar, se embriagar, transar, rir, chorar, sem se
importar com o corpo. "Quero destruir tudo o que há de vida em mim".
Isso significava: "quero viver, viver, viver... Como quase ninguém vive
nesse mundo irracional na sua racionalidade extrema."
Por ser de família rica, Caio pôde
virar poeta e viver de poesia. Ela também era da arte, pintando em cores
abstratas o mundo como ele lhe aparecia no peito. Seu amor por Caio virou uma
espécie de devoção surda, muda e cega de tão profundamente íntima que era.
Queria viver ao lado dele por 60, 70, 80 anos, realizando um projeto de família
burguesa o qual ela jamais pensara que fosse seu.
Entre copos e cigarros, noitadas
e devaneios poéticos, Caio, no entanto, poetava, vivia e morria em rápidos
passares de dias, como só morre quem vive uma vida plena. Logo os primeiros
problemas no fígado e em sua respiração apareceram. E Caio continuou vivendo
porque morria, e morrendo porque vivia.
Naquela noite ela olhava para ele
com o coração apertado, apesar do sorriso no rosto e a satisfação do espírito.
Entre amigos e parentes, Caio comemorava a publicação de mais um livro, o que
seria seu último. A bebida descia leve em seu peito. Seu beijo colava repentinamente
nos lábios dela. E contra todas as ordens médicas, Caio vivia como nenhum
médico jamais permitirá que alguém viva. (E quem precisa de permissão médica para viver?)
Uma semana depois ele faleceria,
aos 44 anos. Ela deixaria uma parte de si ser levada com ele, o que era inevitável.
A poesia brasileira ganhara mais um mestre imortal. E ela, mais uma saudade.
