domingo, 22 de dezembro de 2013

Vida e morte despedida

                           




"Quero destruir tudo o que há de vida em mim". Foi o que ele disse logo quando se conheceram, numa tarde de festa perdida há décadas em Botafogo. Ela, na época, era muito mais bela do que hoje. Logo se encantou pelo rapaz de cabelos encaracolados, olhos castanhos, sorrisos fáceis, claros. A sensação de estar vivendo um momento especial bateu-lhe forte no peito. Os 20 anos de uma pessoa trazem sensações que nunca mais se repetem. Pelo menos foi assim com ela.

Aqueles cabelos logo estariam em seus ombros ao cair daquele dia. Seus lábios desceriam pelos seus seios, assim como seu pênis, duro, que entraria pelo vácuo molhado de sua vagina, que ardia tanto de desejo que parecia ter esperado a vida inteira por aquele momento, com aquele rapaz.

Casaram-se e foram morar num apartamento simples, bem no Centro da cidade, por pura opção. (A pobreza e a simplicidade encantam quem tem muito dinheiro.) Inúmeras foram as vezes que pela janela se deleitaram com a vista de um lugar corrido, feio e belo nas suas corridas. O deleite era externo e interno, espiritual e sexual, como tudo entre eles durante seus longos anos de casados.

Mas Caio, desde sempre, nunca ligou muito para a vida. Não que ele não amasse a vida, ou que não a amasse. Pelo contrário, ele vivia como se cada dia fosse o último, como se o derradeiro suspiro fosse iminente a cada segundo de um dia qualquer. Era preciso, portanto, poetar, beber, fumar, se embriagar, transar, rir, chorar, sem se importar com o corpo. "Quero destruir tudo o que há de vida em mim". Isso significava: "quero viver, viver, viver... Como quase ninguém vive nesse mundo irracional na sua racionalidade extrema."

Por ser de família rica, Caio pôde virar poeta e viver de poesia. Ela também era da arte, pintando em cores abstratas o mundo como ele lhe aparecia no peito. Seu amor por Caio virou uma espécie de devoção surda, muda e cega de tão profundamente íntima que era. Queria viver ao lado dele por 60, 70, 80 anos, realizando um projeto de família burguesa o qual ela jamais pensara que fosse seu.

Entre copos e cigarros, noitadas e devaneios poéticos, Caio, no entanto, poetava, vivia e morria em rápidos passares de dias, como só morre quem vive uma vida plena. Logo os primeiros problemas no fígado e em sua respiração apareceram. E Caio continuou vivendo porque morria, e morrendo porque vivia.

Naquela noite ela olhava para ele com o coração apertado, apesar do sorriso no rosto e a satisfação do espírito. Entre amigos e parentes, Caio comemorava a publicação de mais um livro, o que seria seu último. A bebida descia leve em seu peito. Seu beijo colava repentinamente nos lábios dela. E contra todas as ordens médicas, Caio vivia como nenhum médico jamais permitirá que alguém viva. (E quem precisa de permissão médica para viver?)

Uma semana depois ele faleceria, aos 44 anos. Ela deixaria uma parte de si ser levada com ele, o que era inevitável. A poesia brasileira ganhara mais um mestre imortal. E ela, mais uma saudade.


O perder-se




Perder-se é se encontrar pelos caminhos do sentimento. É estar onde pede o corpo, o momento. É flutuar pelo instante do ser até desembocar no nada, para depois ser novamente. É remar contra a civilização objetiva que está ao nosso redor. É ousar viver o sentir, e expressar a vida que se carrega dentro de si. É encarar de frente e de forma criativa o sofrimento. É se emaranhar na teia das convenções que nos classificam disso, daquilo e daquilo outro. É perceber, depois de ter caminhado diversos caminhos, que a vida sempre tem, em algum lugar de nós, um vazio. Quem nunca se perdeu, esse, sem dúvida, é o mais perdido...