Pensadores como Foucault e
Bourdieu afirmam que a verdade é algo construído, inventado pelo empreendimento
humano, sobretudo através do discurso, segundo Foucault. Concordo com essa
afirmação. Porém, se por um lado a verdade é uma construção, por outro é
preciso notar que há umas construções que são melhores do que outras.
A
questão da verdade veio até mim quando estava assistindo ao programa
"Provocações", do Antônio Abujamra. Esse senhor sempre inicia seu
programa dizendo que ele, há não sei quantos anos, "exalta a dúvida".
É legal termos dúvida, pois assim temos menos chances de sermos escrotos
intolerantes. Contudo a dúvida só é positiva quando ela é base para um
pensamento crítico e construtivo. A dúvida pela dúvida me parece algo tão
idiota quanto o relativismo pelo relativismo. O sujeito eternamente em dúvida é
a inércia travestida de pessoa. Uma nulidade, trocando em miúdos. A dúvida é um
momento que precisa ser superado para virar uma ação lúcida, crítica e
objetiva.
Tenho
para mim que esse país está cheio de imbecis porque os imbecis daqui falam.
Eles não têm dúvidas (e muito em função disso são imbecis), são empreendedores
e danam a falar cretinices da forma mais convincente possível. Os seres
pensantes do Brasil, por outro lado, geralmente não ultrapassam a dúvida. Nadam
nela, mergulham nela, a exaltam e assistem ao cretinismo crescer nesse país em
cima do muro, comendo pipoca, de camarote, e com alguma revolta.
Eu
tenho um amigo que se define hoje como um cara em cima do muro. Ele é genial,
inteligentíssimo, um intelectual de primeira. Uma das coisas que ele coloca
para mim é a questão da inexistência da divisão entre direita e esquerda na
política atual. Ao mesmo tempo ele afirma que não há sociedade sem divisão de
classes, dizendo que "tem que haver pobre e tem que haver rico". Nisso
eu percebo duas coisas. A primeira é a de que há direta e esquerda sim na
política atual, isso se pensarmos política para além da esfera do Estado. A
segunda é que o meu amigo em questão está caindo para o lado da direita.
Explico-me.
Existem
dois tipos de verdades: a subjetiva e a objetiva. Ambas se formam através da
comunicação entre homem e realidade, como todas as verdades humanas se formam.
Porém a verdade subjetiva é desconexa da realidade, apesar de ter nela a sua
base. Penso aqui nos meus amigos leninistas, que acreditam na revolução guiada
pela "vanguarda do proletariado" num mundo onde não cabe esse tipo de
sonho (na verdade nunca coube). A verdade objetiva, por outro lado, é aquela
que reproduz, nua e cruamente, a realidade do que jeito que ela é, sem
criticá-la, numa resignação (ou prazer) quase cristão. Penso aqui nos meus
amigos liberais, que afirmam, triunfantes, ser impensável uma sociedade sem
capitalismo, pois este é real, é o que há, o que vemos, o que as pessoas e os
países reproduzem.
A
verdade objetiva do liberalismo, contudo, se faz vitoriosa nas suas
argumentações porque ela é medíocre. Se limita a afirmar o que existe,
justificando a essência do sistema capitalista, a saber, a competitividade, o
individualismo e a aguda desigualdade social. Os discursos do liberalismo, no
entanto, não deixam de ser subjetivos e ilusórios, tão infantis quanto os discursos
dos marxistas toscos. Isso porque eles se esquecem de um fato sociológico
básico: o de que os homens são construtores de sua própria realidade. São
limitados, pois expressam a objetividade da realidade social em seus discursos
subjetivos, mesmo que o façam de forma rebuscada.
A
minha definição de direita e esquerda parte desse fato. O pensamento de direita
(lúcido ou tosco) é a expressão da realidade objetiva. A esquerda (lúcida ou
tosca) é a vontade de transformação da realidade, uma visão crítica do que se
vê e uma proposta de mudança. Tanto um quanto o outro são pensamentos iludidos,
verdades construídas. Mas a ilusão melhor construída, a arquitetura intelectual
mais bela é a esquerda. Entre um gole de uísque a base de risadas cortesãs e um
coquetel molotov, eu fico com o segundo. Se é para ser iludido, que sejamos
iludidos com estilo e caráter.
É
do lado do uísque que o meu amigo está quando ele fala que tem que ter pobre e
rico, mesmo que ele não queira. Eu respeito a posição dele. Mas gostaria que os
liberais tivessem coerência com as suas próprias ideias. Se eles acreditam na
permanência da desigualdade, que ela se mantenha pelo mérito pessoal do
empreendedor capitalista; que a riqueza venha através da inovação, do
empreendedorismo, do "espírito animal" do capitalismo, e não da
exploração desumana da mão de obra alheia. Digo isso porque o argumento liberal
na sua ilusão objetiva acaba por legitimar de forma sofisticada as atrocidades
que o capitalismo faz com a natureza e com as pessoas.
Não
que eu acredite num sistema social perfeito, na revolução. Já disse aqui em
outro texto que essa não é, nem de longe, a minha praia. Só penso que ficar em
cima do muro nesse debate é se posicionar a favor do mais forte. Enquanto
houver capitalismo, haverá direita. E enquanto houver quem queira acabar com
ele, mesmo que de forma bisonha, haverá esquerda, dentro ou fora do Estado.

Nenhum comentário:
Postar um comentário