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| Cena do filme "A espera de um milagre" |
Havia sido condenado à morte. Estava numa parte do mundo onde havia pena de morte. Tinha um corpo, era uma pessoa. E é isso o que importa. Estava num bar quando fumava um cigarro e bebia uma bebida alcoólica qualquer quando, de repente, um homem nele esbarrou. Este ficou nervoso instantaneamente. Talvez já estivesse bêbado. Isso não importa. O que importa é que ele estava cansado de ceder, cansado de encontrar gente violenta nas ruas, as quais sempre estavam dispostas a mostrar que eram fortes e espertas o suficiente para não ceder nada a ninguém, a não ser simpático com ninguém, a não ser para com os que julgavam serem por elas amados. Estava cansado, muito cansado disso tudo. Seria isso desumanidade? Ou seria a essência da humanidade? Foda-se. Isso não importa. O que importa é que ele estava cansado... O homem que nele esbarrou o empurrou, puxando uma briga. Então ele pôs todo o seu cansaço nas suas mãos que, cerradas, beijaram um soco forte e cruel, revoltado e estúpido na cara do outro. Este, desacordado, caiu no chão, batendo com a cabeça de um modo que veio a falecer a caminho do hospital. Momentos depois do ocorrido apareceu um policial, que chamou uma viatura que o levou para a delegacia. E a sentença estava pronta pouco tempo depois.
Tinha uma certa idade, idade esta que não era mais parte da juventude, tampouco o seria da velhice. O fato é que ele já havia vivido muitas coisas, seu coração estava cheio de marcas, umas boas e muitas ruins... Mas todas as marcas compunham o seu cansaço como numa sinfonia sinistra, bela e selvagem. Andava sempre com os olhos pensativos, refletindo sobre coisas as quais lhe escapavam muitas vezes ao sentido. Lembranças o feriam, o divertiam, o revoltavam. Tudo o deixava nesse momento da vida cansado, de forma que a pena de morte não lhe caiu nem tão mal assim. Morava sozinho numa rua qualquer, num bairro pobre qualquer desse mundão de meu Deus. Estava só na vida, muitas vezes preso num quarto apertado, em volta do qual um eterno barulho de gente sempre fazia entrar vida pela janela. Vida, a mesma que o deixava cansado. Esta entrava sempre pela janela, depois do seu trabalho, quando ele se trancava no seu quarto. Lia seus livros, ouvia suas músicas, fumava seus maços de cigarro. A prisão acabou com essa rotina, da qual ele já tinha cansado também. Nem os livros dos seus autores favoritos ele levara para prisão. Já tinha lido o suficiente na vida. Chega.
Dois anos se passaram na prisão, nos quais ele não fizera nenhuma reflexão profunda do seu passado, nem do presente. Do futuro ele nunca pensou nada, pois este nunca existira para ele, nem como planos, nem como porra nenhuma. Deixara o futuro para trás na fase da infância, na qual esperava pelo aniversário, ou pelo Natal, ou pelo réveillon. Depois que virou adolescente jamais voltou a pensar no futuro. Foda-se o futuro. Contudo, às nove horas da manhã do dia seguinte ele iria deixar esse mundo e todo esse cansaço que ele sentia havia muito tempo no peito. Agora uma angústia se depositava nele. Angústia difusa, incerta, esmagadora. Ela estava nele depois de muito tempo estar longe dele. Nos últimos anos ele convivera com o vazio dentro de si. Com a náusea e a dor de nada sentir por ninguém. Como ele havia se tornado isso, ele não o sabia. Não importa isso também. O que importa é que ele estava assim, era assim havia muito tempo. Mas o sentimento o trancou em si no último dia de sua vida. Tal experiência fora uma grande aventura, a maior que já enfrentara na sua vida.
De repente lembrou-se de uma tarde de sábado na qual entrara numa loja de discos usados enquanto caminhava pelas ruas da cidade. Em meio aos muitos artistas que estavam diante dele, encontrou um disco que lhe era muito especial. Era um disco de David Bowie, cantor que aprendera a gostar com o seu pai ainda quando era bem criança e antes mesmo de saber que as músicas que escutava eram dele. Lembrou das muitas noites nas quais seu pai ouvia “Letter to Hermione” enquanto ficava sentado na sua poltrona, com a luz da sala apagada, fumando seu charuto cubano que tão caro sempre lhe custava. A influência que seu pai exerceu na sua vida nem ele mesmo podia alcançar com o espírito. Aprendeu a gostar de quase tudo que gostava com o seu pai: música, literatura, mulheres, cigarros, bebidas... As tardes no parque em meio às poesias de Sylvia Plath, as noites na sala atravessadas pelas músicas de Pink Floyd, Bowie, Zeppelin... Os momentos na praia aonde seu pai sempre lhe apontava uma bela mulher que andava soberana sobre a areia numa roupa de banho que deixava transparecer todo o seu corpo cuja beleza, sutil e sem igual, grudava em seus olhos... E a estética do fumo, o ir e vir das mãos de seu pai que seguravam um charuto ou um Camel... O álcool num copo de vidro fino... Tudo isso via seu pai fazendo e aprendia a se reconhecer no mundo que seu pai lhe apresentava. Poderia ter tomado um caminho distinto do de seu pai, mas não. Sempre encontrou a razão da sua vida da mesma forma que seu pai o fazia, em pequenos momentos, tornados grandes na vida de um homem cujos atos são tudo que ele tem.
Seu pai saiu de sua vida muito antes de este morrer. De repente ele estava chegando em casa cada vez mais tarde. Sua mãe ficava até muito tarde acordada, e quando a porta da sala batia as brigas começavam. Pouco tempo depois seu pai saiu de casa, sua mãe entrou em depressão, e ele teria de conviver com a solidão desde muito antes de se tornar um homem. Sua mãe estava muito ocupada com a sua dor e com os seus traumas para conseguir enxergar que o filho precisava de uma amiga. Seu pai se perdeu nos prazeres de uma mulher bem mais jovem que a sua mãe, e jamais se reencontraria novamente, tampouco o filho. Passou a ouvir a voz de seu pai ao telefone sempre falando de saudade de uma forma rápida e objetiva, perguntando coisas banais e por vezes sem sentido. Quanto mais distante seu pai se tornava, mais viva ficava na memória dele as imagens de seu pai e o som de “Letter to Hermione”. Era como se a voz de Bowie sempre tivesse existido, numa eternidade suave e profunda, numa beleza que o mundo jamais veria, somente ele. Seu pai morreria e, no velório, ele não escutaria mais nada, somente essa música. Seu pai... Seu pai... Pai...
E essa música iria perpassar toda a sua vida, como se fosse a trilha sonora de uma existência harmonicamente cinematográfica. Em todos os momentos da vida dele “Letter to Hermione” apareceria em seu coração, seja na saudade do pai, seja na tristeza da perda, seja na rotina do trabalho, seja na lembrança dos seus poucos mas intensos amores. O que é o pouco? O que é ter poucas mulheres? Não importa. O que importava é que ele sentia que tinha amado poucas mulheres. Sabia a conta exata de quantas mulheres tinha ficado na vida. Maria tinha sido a primeira que ele levara para cama e a única com quem ele tinha sentido uma ligação forte, duradoura, que agora lhe era resgatada depois de estar muitos anos suspensa em seu espírito. De vez em quando sonhava com Maria, mas, ao acordar, procurava expulsar a imagem dela da cabeça através de alguma atividade qualquer. Tinha sido a sua primeira mulher na cama, o primeiro corpo nu de mulher que ele viu na sua frente, o primeiro par de seios fartos e brancos, com mamilos rosados, arrepiados, convidando ele para repousar ali os seus lábios de homem transformado em menino. E por muitas vezes beijou aqueles seios de forma suave ao mesmo tempo em que voraz. E se perdia naquela sensação de ser o rei do mundo ao longo dos eternos instantes nos quais ele gozava do prazer de ser o escolhido para ver aquele belo corpo de Maria... Corpo de beleza singela e suave... Beleza que jamais deixou o espírito dele ao longo de toda a sua vida... Já não se lembrava mais o porquê que Maria tinha ido embora de sua vida... Ah, sim, claro... Houve outra mulher entre eles durante um tempo... Uma mulher que apareceu, o encantou e que foi embora, levando dele Maria que, triste pela traição, jamais voltou a se entregar a ele... Engraçado que essa mulher não estava mais na mente dele, ao menos não de forma clara. Lembrava que ela tinha um rosto moreno, mas as feições de rosto pelo qual ele um dia jurou estar apaixonado haviam sido apagadas de sua mente, como um nome escrito na areia se apaga com o tempo e o vento... Enquanto o rosto de Maria permaneceria vivo na sua memória pelo resto da sua vida, as origens do seu sorriso, o fechar sonolento de seus olhos, os cabelos lisos a balançar no vento praieiro de terras distantes... Enquanto Maria vivia como uma entidade dentro do corpo dele, o possuindo, o embebendo, enquanto ele tentava se afastar da imagem dela, a imagem da outra tinha-lhe fugido da cabeça como num piscar de olhos. Era estranho que ele tivesse ficado com essa outra se ela não tinha criado nele raízes... Por que deu nela aquele beijo? Por que se envolveu? Por que sonhou? Por quê?
Isso não importa... O fato é que a mágoa havia tirado Maria de sua vida e a dor do leite derramado se instalou no seu peito. Seria obrigado a ver Maria casando com outro, tendo filhos com outro, o esquecendo, o destruindo, o humilhando na frente de todos os deuses do amor e da cólera, o ignorando diante da sua nova vida vivida nos braços e no gozo de outro rapaz... E quantas vezes ele iria pensar nisso ouvindo no rádio ou no coração “Letter to Hermione”... E quantos maços de cigarro iriam ser consumidos, e quantas vezes a música se repetiria em sua mente, e quantas vezes o sorriso de Maria iria aparecer desenhado na sua mente como um raio eterno e brilhante... E suave... E belo... Quantas vezes iria ele se consumir, quantas vezes, meu Deus... E na cela agora ele se perguntava, com a música tocando no seu peito e as lágrimas lhe banhando os olhos, se ela ainda pensava nele, se o amor que ela sentira por ele tinha virado ruínas de um tempo maravilhoso, apesar de tudo... Será que haveria espaço para ele ainda no coração de Maria?
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Isso não importa... O que importa é que Maria sempre viveria no coração dele, sempre ocuparia o espaço maior do coração dele, sempre apareceria nos seus sonhos, na sua insônia e na sua saudade... O traidor sentiu mais dor que o traído... A vida tem dessas coisas, ao menos às vezes... E em pensar que muitos dos seus amigos em comum com Maria o julgaram de forma tão severa, como se a presa abatida tivesse sido Maria... Não... Ele traiu a quem ele amava... Ele era a eterna presa de si mesmo...
A madrugada fria e chuvosa havia se rompido sem que ele percebesse... A hora havia chegado... Já era de manhã, já era a hora de sua morte... Ao lado dos policiais ele estava acorrentado e andava desse jeito... A música não lhe saía da cabeça... O sorriso de Maria não lhe saía da cabeça... O caixão de seu pai não lhe saía da cabeça... E de repente tudo lhe veio junto, como numa multidão de lembranças a lhe doer o peito, a lhe perturbar a cabeça... Estádios de futebol, seu pai reclamando do time, ele sozinho em estádios de futebol, o sorriso de Maria, o beijo da outra, o casamento de Maria, “Letter to Hermione”, seu pai na sala ouvindo música, sua mãe chorando, seu pai ao telefone, seu primeiro emprego, o sorriso de Maria, o sorriso de Maria, o sorriso de Maria, aonde está ela agora? Sylvia Plath, Sylvia Plath, mulheres semi-nuas... Tudo o que ele havia realmente amado ou odiado na vida estava presente na sua memória ao longo do corredor... Tudo e nada ao mesmo tempo... Ao sentar na cadeira elétrica o carrasco lhe perguntou qual seria o seu último pedido. Não pensou duas vezes. Um cigarro Hollywood, do maço vermelho...
Logo o cigarro apareceu... E toda a sua vida lhe saiu do corpo antes mesmo que ele tivesse sido executado. Enquanto ele fumava, as dores de sua alma iam-lhe saindo pela fumaça, e dessa vez nunca mais voltariam. Era como se ele tivesse se visto diante de si mesmo, com a sua alma nua dentro de seu passado, fundida no seu passado, aberta no seu passado. E fumando o cigarro, pensou bem alto FODA-SE... Ele se perdoou... Se perdoou por ter sido feliz, por ter sido triste, por ter sido traidor, por ter sido ruim, por ter sido bom... Ele se perdoou por ter vivido...
O cigarro acabou... E as lágrimas de seu rosto se secaram...
Denis de Barros