quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Volta ao mundo





Sábado partirei para uma viagem pela América do Sul. Na verdade será uma viagem na qual eu passarei pelo Uruguai, Argentina, Chile e Paraguai, nessa ordem. Estou animado, pois essa será a primeira vez que eu faço um mochilão por outros países. Será minha primeira viagem ao exterior, minha primeira viagem de avião e minha primeira saída do estado do Rio de Janeiro. A minha vida toda passei dentro da região metropolitana do Rio, mas precisamente em Duque de Caxias, minha terra natal. Conhecer outros países, sair do lugar no qual vivi minha vida toda é algo que me excita, ao mesmo tempo em que me deixa meio que com medo. Esse mundo é muito vasto, como diria Drumond, e toda essa vastidão me assusta. Tenho a impressão que o homem moderno, se é que ele realmente existe, vive fragmentado em várias opções de caminhos a serem seguidos. O problema, ou a solução do problema, é que nenhum desses caminhos devem ser obrigatorimanete seguidos. Para vivermos basta darmos o primeiro passo que poderá nos levar a um lugar foda, ou ao inferno, ou a lugar algum ou ao ponto do qual partimos. E tudo isso fica muito nítido quando andamos pela cidade e vemos a diversidade de pessoas e de linguagens que pode existir num mesmo espaço. Nem acho que o Rio de Janeiro seja uma cidade cosmopolita. Caxias certamente não é, mas o Rio é a mistura do podre com o belo espalhado numa sopa confusa e fedorenta e com uma embalagem escrita "cidade maravilhosa". E dentro disso tudo é fortemente sentido um cheiro de tradicionalismo muito profundo no modo de pensar das pessoas. Resumindo: carioca não é um tipo de pessoa doido, malucão, porra louca. É um conservador travestido disso tudo. O Rio me dá náuseas. E é por isso que eu estou muito empolgado com essa minha viagem por esses países latino-americanos, pois penso que agora finalmente eu verei coisas diferentes, sentirei o gozo e o medo da modernidade e da multiplicidade de coisas que ela traz. 

Mas é nessa hora que me lembro das palavras de um amigo meu autor de um blog já extinto. Ele disse em certa ocasião que quando viajamos levamos conosco os problemas e os dilemas que estão instalados em nós. Viajar pode mudar a nossa sorte e o nosso estado de espírito, mas não apagará marcas que o passado nos deixou. E o passado tem deixado marcas cruéis em mim. Fico impressionado como existem pessoas que passam pelas nossas vidas com a habilidade de deixar rastros de perversidade e mágoas. E é incrível como que os papéis se invertem. Às vezes nós somos as vítimas, enquanto noutras somos os assassinos. Digo isso porque eu já deixei marcas, rastros ruins em pessoas as quais amei e amo muito. E hoje sou eu quem está nessa posição de soldado em fim de guerra, marcado por memórias tristes e pelo cansaço de batalhas perdidas. Estou de saco cheio de tudo. De tudo, mas não de todos. Tenho amigos queridos, tenho uma família que, apesar de ser bem diferente de mim, é a minha família que sempre esteve ao meu lado, muito embora não da forma que eu gostaria. E tenho o carinho dos meus alunos, os quais com o afeto  que lhes são particular me fazem continuar a querer ser professor, pois são eles quem me fazem professor. Enfim, as últimas batalhas que enfrentei me deixaram meio que sem graça. Mas há pessoas que me cercam  e que me inundam de um amor meio raro nos tempos de hoje. O amor que tenho recebido de pessoas queridas por mim tem funcionado como um curativo das granadas que recebi em 2010. E essas granadas não foram poucas, e desde a minha infância não têm sido poucas. Já que a vida é assim, que venham, então, as granadas. Mas que venham também na mesma proporção o amor com o qual pessoas queridas me cercaram nesse ano. 

Parto em breve e retorno bem, se Deus quiser. Tentarei mandar notícias inúteis de uma viagem fantástica. Sinto que a América do Sul ficará pequena. Que fique então...

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Existir



Os poucos leitores do meu blog sabem que eu adoro fumar. O fumo é pra mim um prazer indescritível e incontrolável. Acho que têm mais textos falando sobre cigarro nesse blog do que sobre amor ou qualquer outra coisa. A senhorita Lispector certa vez disse, após ouvir as recomendações de um médico para que parasse de fumar, a seguinte frase: "Mas como posso deixar de fumar? O calor humano é tão parco... eu fumo então." O meu cigarro é o meu melhor amigo, como penso que ele também o era para Clarice Lispector. Mas o que me levou a fumar inicialmente foi a estética. Os movimentos inerentes ao cigarro, o ir e vir das mãos de um fumante, o leve inclinar da cabeça no momento em que a fumaça do cigarro sai da boca... Sempre achei toda essa vida que só os movimentos de um fumante têm genial, única, belíssima. Certa vez vi uma menina numa lanchonete fumando um Camel enquanto lia um livro. Ela era magra, cabelos lisos e castanhos, pele alva, olhos sérios, indefinidos, puros mistérios. Quase enlouqueci... Há coisa mais atraente numa mulher do que vê-la assim, dessa forma em que vi essa menina nessa lanchonete? Sou dos que acham que uma mulher deve se dar ao respeito. E pra se ter respeito, as mulheres devem, antes de qualquer coisa, ter atitude, postura, pois há momentos na vida, e eles não são poucos, que o que nos restam são as nossas atitudes, puras e simples. E para se ter atitude com o fim do respeito, é indispensável a uma mulher acender um cigarro. 

A despeito disso, ando muito triste com a seriedade com a qual meus amigos têm insistido para eu parar de fumar. Não estou triste com eles, lógico que não. Estou triste com a razão deles. Quando um amigo meu diz que eu vou me fuder se continuar fumando eu fico triste porque ele tem razão. E, pra piorar a minha desgraça, uma conhecida minha morreu ontém, dia 6 de dezembro de 2010, vítima do cigarro. Tá certo que ela já era idosa, mas ouvi dizer que o câncer dela foi provocado pelo cigarro, começou no pulmão e se espalhou pelo corpo todo, chegando até o cérebro. Minha mãe me contou com detalhes isso que lhes conto agora, meus leitores. E confesso que fiquei apavorado. 

O que me apavora não é o cigarro nem os males que ele causa. O que me apavora é a vida. É impressionante como a vida é absurda, como a gente tem de se prevenir contra inúmeros males físicos possíveis de abater o corpo humano. Transar sem camisinha pode levar a AIDS, dentre outras doenças ( e como é ruim transar com camisinha...). Beber pode levar a cirrose. Ouvir música no último volume com o fone do celular pode levar a perda gradativa da audição. Ser professor pode desencadear problemas psicológicos ligados ao absurdo que nós professores estamos condenados a lidar somente por sermos quem queremos e gostamos de ser. Comer determinados tipos de alimentos pode causar problemas de estômago. Beber coisas com corante amarelo e vermelho causa câncer. Coca-Cola causa problema nos ossos. Enfim, viver mata. Ser feliz mata. Ser você mata.

É por isso que me sinto obrigado a concordar com o horrível Cazuza. Digo horrível porque vejo os intelectuais brasileiros encherem a bola dele chamando-o de "o poeta". Porra nenhuma. Cazuaza foi mais um insuportável burguês carioca a participar dessa coisa fétida e idiota que convenciou-se chamar de MPB. Foi mais um playboy da Zona Sul com um violãozinho no colo e que se pôs a cantar o céu, o amor, as ondas do mar... Enfim, merda. Mas uma coisa ele disse que não só é verdade como me obrigou a bater palmas para ele: "O meu prazer virou risco de vida..." E é exatemente assim que me sinto quando abro o meu maço diário de cigarros para fumar e me perder na fumaça dele. Me sinto com prazer e medo de viver. Me sinto corajoso e acuado ao mesmo tempo. Me sinto livre e escravo, senhor e servo, patrício e plebeu...

Viver é foda. Eu só queria viver sem medo, morrer velhinho fazendo tudo aquilo que eu mais gostei de fazer ao longo de toda a vida. Eu só queria viver com prazer nas coisas que faço, pura e simplesmente. Não quero morrer aos 40 alojado numa sala qualquer do Hospital do Câncer. Só queria e quero e sempre vou querer viver...

domingo, 5 de dezembro de 2010

O cigarro





Parecia que ia ser um dia comum, com sensações e sentimentos corriqueiros, típicos da vida comum que se leva nas cidades por esse mundo afora. Tinha acabado de sair do trabalho quando resolvi passar na loja de uns amigos para bater um papo, matar um pouco a saudade das pessoas que as obrigações da vida adulta afastam de nós.

Logo que toquei a campainha, percebi que lá dentro tocava uma música de Etta James. Logo abri um sorriso de satisfação. Como é bom escutar uma música de jazz depois de um dia cansativo e chato. É como se fosse um parêntese, uma licença dentro do inferno, um gole de cerveja debaixo de um sol escaldante. Zeca e Théo sempre faziam as coisas desse jeito: final de expediente, música, cerveja e cigarro. Era bom revê-los nesse dia. Era uma terça-feira de novembro em Duque de Caxias. Caxias ficava apocalíptica em novembro de tanta gente na rua, de tanto caos e calor.

De repente a porta abre e aparece Théo. - Grande Cezão. Esqueceu dos amigos pobres? - Porra, tô rico pra caralho dando aulas de filosofia pra adolescentes, respondi. Com um sorriso aberto e um abraço apertado, Théo me cumprimentou e, logo em seguida, virou pro interior da loja e gritou: - Olha aqui quem chegou, Zeca.

Zeca tinha um corpo de ogro. Gordo, meio careca e com os dentes amarelados, ele abriu aquele sorriso típico dele, quase paterno. Me abraçou com força e disse que estava com saudades. Lembro que ele lacrimejou quando me olhou pela segunda vez. É incrível como no meio de 6 bilhões de seres humanos tão poucos se importam realmente com a gente. Théo e Zeca eram parceiros meus e um dos poucos que realmente se importavam comigo.

Assim que eu entrei na loja a música mudou. Começou a tocar "Pra te lembrar", de Caetano Veloso. Essa música me fazia lembrar de Maria, um antigo amor da minha vida, meu único amor pra falar a verdade. Zeca e Théo sabiam disso. Foram eles que ficaram do meu lado no momento da separação. Logo quando a guitarrinha da música começou a tocar, Zecão olhou pra mim com um sorriso amigo, como quem queria dizer "Calma, cara. A vida é assim mesmo..."  Passado esse momento inicial de dor, a música começou a soar no meu espírito como arte, como uma massagem na alma. O clima ficou bom...

Entrei na última sala da loja. Sentamos e começamos a conversar sobre a vida. Todas as vezes em que faço isso, fico impressionado com o quanto que a vida às vezes parece um script, algo já pré-definido, pois ela se repete em suas múltiplas facetas  nas vidas de todos nós: corações partidos, amores perdidos, traições, amizades, copos de cerveja, arrependimentos, uma música que traz recordações, momentos eternos... Quem não tem parte disso ou isso tudo dentro de si, que atire a primeira pedra. Ou, melhor dizendo, quem não tem nada disso para contar, eu realmente sinto pena dessa pessoa, pois ela nada viveu na vida. Pensava nisso enquanto o Zeca me contava a última decepção que ele havia tido com pessoas as quais ele considerava amigas. Théo me falou depois da dificuldade que ele tava tendo pra sustentar a sua filha, que o monento na loja não era dos melhores para ele o pr'o Zeca... E eu falei sobre o que era ser professor num país que cospe na educação diariamente. Falei da saudade que sentia de Maria, da dor que era não ter mais notícias dela, do último amor casual que tive nos últimos tempos... Entre risos e olhares preocupados, íamos conversando eu, Théo e Zeca. E como era bom tê-los comigo para dividir a minha vida...

De repente Zeca pegou um cigarro. Era um cigarro pra nós três. A conversa continuava e dessa vez falávamos sobre mulheres. Esse assunto já estava me dando nos nervos nos últimos tempos, pois só tinha passado por experiências nessa área que mais pareciam um soco na minha cara do que com qualquer outra coisa. Zeca deu uma tragada no cigarro e passou pr'o Théo. Enquanto isso Zeca começou a falar de sua ex-mulher, que tinha feito uma escrotice enorme com ele na semana anterior. Théo passou o cigarro pra mim depois de três tragos que ele tinha dado. Enquanto eu sentia a fumaça do cigarro penetrar nos meus pulmões, puxei um papo sobre futebol. O fluminense tinha acabado de ser campeão brasileiro. Que lixo, um time de playboy, de patricinhas, com uma história medíocre campeão do Brasil. Ainda tinham a petulância de dizer que eram tri-campeões. Aonde, se o título de 1970 não era campeonato brasileiro? Foi aí que dei a minha terceira tragada no cigarro e o passei novamente para o Zeca.

O tempo foi passando e os assuntos iam variando, até que chegou um momento em que eu não sabia mais do que tínhamos falado ou não tínhamos falado. Sentia minha cabeça suspensa no ar. Na verdade não era a minha cabeça que estava suspensa, mas os meus pensamentos. Do centro do meu cérebro comecei a sentir que havia algo como um feixe de energia que irradiava luz dentro do meu corpo, e parecia que cada raio de luz era uma estrela com o poder de me suspender da realidade. Zeca tentou falar algo comigo. Eu tentei prestar a atenção, me esforcei, mas não consegui. Théo teve que repetir o que Zeca já tinha falado duas vezes. Houve um momento em que achei que Théo estava falando coisas nada a ver. Na verdade eu já não sabia mais o que tinha a ver e o que não tinha a ver com a conversa. Não estava mais na loja do Zeca e do Théo, nem estava mais em lugar algum. Estava numa realidade na qual a realidade em que eu vivia não existia, nada existia, nem mesmo Maria. Estava num mundo a parte. Não sabia dizer se isso era ruim ou bom, mas estava gostando daquilo. Nunca havia sentido isso antes. E não queria parar de sentir. Estava de saco cheio de tudo na minha vida e achei que aquela era a hora de desaparecer. Comecei a ficar meio constrangido, pois sou o tipo de pessoa que sente uma obrigação absurda em corresponder a presença de alguém que se encontra no mesmo recinto que eu. Eu não estava mais falando com Théo nem com Zeca fazia uns vinte minutos. Foi aí que virei pr'o Zeca e disse que ele deveria virar um doutor da alegria e trabalhar com criancinhas com câncer. Ele havia me dito uma vez que ele queria trabalhar com crianças um dia, então achei que seria legal dizer isso a ele. Ele me disse, porra, mas eu não sou médico. Fiquei meio sem saber o que falar. - Mas não precisa ser médico. Precisa não. Sei lá, acho que não. Não sei... Precisa não. Me calei de novo. Tentava voltar a mim mas não conseguia. Tentava pelo Zeca e pelo Théo, não por mim. Nem sei se o Zeca e o Théo estavam nas realidades deles. Acho que teve uma hora em que ouvi o Zeca falar sobre pinicos. Pensei, "Deus, o que leva um ser humano a falar sobre pinicos? Acho que o Zeca não está bem."

Peguei a minha pasta, me despedi deles e fui embora. Peguei o ônibus para ir pra minha casa. O ônibus era desconfortável que só a porra, mas eu dormi nele o sono dos justos. Nem senti o caminho até o Centro do Rio. Só me lembro que tinha momentos nos quais eu achava que as pessoas estavam constrangidas em sentar ao meu lado no ônibus. Acho que algumas chegaram a sentar e depois mudaram de lugar. Acho que eu estava fazendo caretas enquanto dormia, pois me lembro vagamente de ter feito caretas enquanto dormia.  Quando menos vi, já estava na rodoviária, super cansado e feliz por ter chegado em casa. Da rodoviária pra minha casa eram dez minutos, que me pareceram dez dias nesse momento. Quando cheguei em casa, preparei rapidamente sanduíches de alguma coisa, acho que de presunto. Devorei uns três. Depois fui dormir. Deixei a janela do quarto aberta, pois estava fora da realidade, estava em outra realidade, que não a do Rio. O vento da rua batia no meu peito e no meu rosto enquanto eu dormia. Não sei se tirei a roupa pra dormir. Só sei dizer que dormi bem, nem feliz nem triste. Somente bem...

domingo, 28 de novembro de 2010

O eterno calvário





As minhas emoções estão sempre suspensas. Elas correm de mim o tempo todo. Parece que sou um homem sem sentimento. Acho que se alguém tivesse a bizarra experiência de olhar para dentro de mim seria isso que pensaria: que eu não sinto nada.

No entanto eu carrego em mim todas as mágoas e alegrias do mundo. Ando em meu peito por vielas sujas onde trabalham prostitutas, travestis e onde dormem crianças abandonadas. Mas gosto muito da minha casa, do meu cachorro e meu colchão quente. Da minha janela olho o mundo e sinto todos os espíritos que nele habitam andarem pelas ruas do meu espírito. Mas a vida anda, sempre anda e eu pareço suspenso no ar, uma bolha sempre insatisfeita, sempre fuzilando a própria vida com a metralhadora do cérebro.

Eu sinto muito, sinto tudo o que está em minha volta. Tudo que vejo pela janela dos ônibus nos quais ando e nas ruas pelas quais passo fica em meu ser, está carimbado no meu coração. Mas confesso que não queria ter nascido com esse dom. Sentir a vida como um todo, a sua e a dos outros, é sentir uma constante dor que vem do peso que é a grandiosidade da vida. Viemos sabe-se lá de onde (se é que viemos de algum lugar). Vamos sabe-se lá para onde (se é que vamos para algum lugar). Não sabemos se quer se existe uma origem pras coisas da vida. A despeito disso, vivemos. Vivemos, sofremos, bebemos, comemos, nos alegramos, fazemos sexo, nos decepcionamos, rimos, choramos, caminhamos, paramos, doamos, recebemos, somos egoístas, somos altruístas... Mas sempre vivemos. Continuamos. Entramos sempre nos universos alheios e permitimos que os outros entrem nos nossos universos. Por mais que queiramos ficar sozinhos, nunca o estamos. Nunca... A solidão consiste na completa suspensão do ser, e isso não existe. O nosso ser só é em contato com a vida. E a vida só há nos outros, nunca somente em nós. A vida é bela, meus caros. E é triste porque é grande: porque é alegre, porque é irônica, porque é trágica, porque é imoral... A vida é triste porque ela é grande e ela não cabe no nosso frágil coração...

Odeio Jesus Cristo. Mas devo dar o braço a torcer: Jesus, ao menos a lenda da qual ouço falar desde pequeno, foi o maior dos poetas. Não aquele babaca que nasceu para salvar a humanidade de si mesma. Não se pode salvar os homens de si mesmos (a vida é grande, Jesus Cristo, e é por isso que ela é triste...). Mas reconheço uma coisa: Jesus, a lenda chamada Jesus, o mito chamado o Cristo era um verdadeiro poeta, pois ele sentia a humanidade, a vida em suas veias vinte e quatro horas por dia. E foi isso que o levou a cruz: a tentativa (vã, inocente, idiota...) de salvar a vida dela própria. Engraçado Deus ter criado a vida e depois ter se arrependido. Mas essas coisas acontecem: nós, homens, nos arrependemos o tempo todo. Somos a “imagem e semelhança” de Deus... Somos Deus... Mas Jesus era um poeta e deu o seu dom para alguns infelizes mortais, e eu sou um deles...

Ando pelas ruelas escuras, triste e preocupado em saber se esse é mesmo o meu lugar. Sinto a paz da família e a tristeza da mulher ferida, ao mesmo tempo, tudo aqui dentro do meu coração. Sou o “underground” de terno e gravata que precisa se sustentar (e por isso trabalha) para sustentar a sua poesia. Ando bem vestido e na contramão das ilusões humanas. Mas sou um iludido. Acredito na dor dos corações partidos, acredito nos amigos, acredito que exista alguém nesse mundo que queria dividir a sua vida comigo no exato momento em que meu espírito estiver pronto.

Sou um iludido... Sou um criador de ilusões...

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Cena do filme "Crash: no limite"
Deixa doer
Deixa sofrer
Deixa machucar...

Deixa chorar
Deixa sangrar
Deixa passar...

Olhe o fim
Porque em todo fim
Há um novo início...

A lágrima foi feita pra chorar
O riso para sorrir
A dor para doer
A vida para se viver...


Deixa passar...
Deixa correr...


Denis de Barros

Ser Deus

Amar as coisas
Como elas estão
Amar as pessoas
Como elas realmente são

Amar a vida
E seus becos sem saída
A noite
Com suas prostitutas
E os tavestis da esquina
Cena do filme "Má educação", de Almodóvar.
Os traficantes
E a corrupação da polícia

A hipocrisia do padre
E as más intenções do pastor
As más companhias
O sexo sem sentimento
A ausência na presença
Paixão sem amor

Toda essa merda
A imagem e semelhança
Do nosso Senhor

Porque o amar
Ao que te faz bem
É fácil
E nisso
Não há valor...


Denis de Barros

Dulcineia

Não quero te amar
Mais do que a mim mesmo
Nem quero me perder
Dentro do seu ser
Mas isso é mera consequência
Do meu doce querer

Quando te vejo andar
Por entre os becos
Nas ruas do Rio, na escuridão
Descubro que você é a minha vida
A minha doce paixão

Oh, minha linda
Nada é perfeito
A vida já me fez saber
Que o amor tem origem obscura
Risos e lágrimas
Dores sem cura
E razão sem razão

Oh, beleza
Ao menos eu posso te ver
Gostar de você
Sem te ter
Já que nunca se tem
Realmente
Alguém...

Denis de Barros

sábado, 7 de agosto de 2010

O último cigarro

Cena do filme "A espera de um milagre"

Havia sido condenado à morte. Estava numa parte do mundo onde havia pena de morte. Tinha um corpo, era uma pessoa. E é isso o que importa. Estava num bar quando fumava um cigarro e bebia uma bebida alcoólica qualquer quando, de repente, um homem nele esbarrou. Este ficou nervoso instantaneamente. Talvez já estivesse bêbado. Isso não importa. O que importa é que ele estava cansado de ceder, cansado de encontrar gente violenta nas ruas, as quais sempre estavam dispostas a mostrar que eram fortes e espertas o suficiente para não ceder nada a ninguém, a não ser simpático com ninguém, a não ser para com os que julgavam serem por elas amados. Estava cansado, muito cansado disso tudo. Seria isso desumanidade? Ou seria a essência da humanidade? Foda-se. Isso não importa. O que importa é que ele estava cansado... O homem que nele esbarrou o empurrou, puxando uma briga. Então ele pôs todo o seu cansaço nas suas mãos que, cerradas, beijaram um soco forte e cruel, revoltado e estúpido na cara do outro. Este, desacordado, caiu no chão, batendo com a cabeça de um modo que veio a falecer a caminho do hospital. Momentos depois do ocorrido apareceu um policial, que chamou uma viatura que o levou para a delegacia.  E a sentença estava pronta pouco tempo depois.
Tinha uma certa idade, idade esta que não era mais parte da juventude, tampouco o seria da velhice. O fato é que ele já havia vivido muitas coisas, seu coração estava cheio de marcas, umas boas e muitas ruins... Mas todas as marcas compunham o seu cansaço como numa sinfonia sinistra, bela e selvagem. Andava sempre com os olhos pensativos, refletindo sobre coisas as quais lhe escapavam muitas vezes ao sentido. Lembranças o feriam, o divertiam, o revoltavam. Tudo o deixava nesse momento da vida cansado, de forma que a pena de morte não lhe caiu nem tão mal assim. Morava sozinho numa rua qualquer, num bairro pobre qualquer desse mundão de meu Deus. Estava só na vida, muitas vezes preso num quarto apertado, em volta do qual um eterno barulho de gente sempre fazia entrar vida pela janela. Vida, a mesma que o deixava cansado. Esta entrava sempre pela janela, depois do seu trabalho, quando ele se trancava no seu quarto. Lia seus livros, ouvia suas músicas, fumava seus maços de cigarro. A prisão acabou com essa rotina, da qual ele já tinha cansado também. Nem os livros dos seus autores favoritos ele levara para prisão. Já tinha lido o suficiente na vida.  Chega.
Dois anos se passaram na prisão, nos quais ele não fizera nenhuma reflexão profunda do seu passado, nem do presente. Do futuro ele nunca pensou nada, pois este nunca existira para ele, nem como planos, nem como porra nenhuma. Deixara o futuro para trás na fase da infância, na qual esperava pelo aniversário, ou pelo Natal, ou pelo réveillon. Depois que virou adolescente jamais voltou a pensar no futuro. Foda-se o futuro. Contudo, às nove horas da manhã do dia seguinte ele iria deixar esse mundo e todo esse cansaço que ele sentia havia muito tempo no peito. Agora uma angústia se depositava nele. Angústia difusa, incerta, esmagadora. Ela estava nele depois de muito tempo estar longe dele. Nos últimos anos ele convivera com o vazio dentro de si. Com a náusea e a dor de nada sentir por ninguém. Como ele havia se tornado isso, ele não o sabia. Não importa isso também. O que importa é que ele estava assim, era assim havia muito tempo. Mas o sentimento o trancou em si no último dia de sua vida. Tal experiência fora uma grande aventura, a maior que já enfrentara na sua vida.
De repente lembrou-se de uma tarde de sábado na qual entrara numa loja de discos usados enquanto caminhava pelas ruas da cidade. Em meio aos muitos artistas que estavam diante dele, encontrou um disco que lhe era muito especial. Era um disco de David Bowie, cantor que aprendera a gostar com o seu pai ainda quando era bem criança e antes mesmo de saber que as músicas que escutava eram dele. Lembrou das muitas noites nas quais seu pai ouvia “Letter to Hermione” enquanto ficava sentado na sua poltrona, com a luz da sala apagada, fumando seu charuto cubano que tão caro sempre lhe custava. A influência que seu pai exerceu na sua vida nem ele mesmo podia alcançar com o espírito. Aprendeu a gostar de quase tudo que gostava com o seu pai: música, literatura, mulheres, cigarros, bebidas... As tardes no parque em meio às poesias de Sylvia Plath, as noites na sala atravessadas pelas músicas de Pink Floyd, Bowie, Zeppelin... Os momentos na praia aonde seu pai sempre lhe apontava uma bela mulher que andava soberana sobre a areia numa roupa de banho que deixava transparecer todo o seu corpo cuja beleza, sutil e sem igual, grudava em seus olhos... E a estética do fumo, o ir e vir das mãos de seu pai que seguravam um charuto ou um Camel... O álcool num copo de vidro fino... Tudo isso via seu pai fazendo e aprendia a se reconhecer no mundo que seu pai lhe apresentava. Poderia ter tomado um caminho distinto do de seu pai, mas não. Sempre encontrou a razão da sua vida da mesma forma que seu pai o fazia, em pequenos momentos, tornados grandes na vida de um homem cujos atos são tudo que ele tem.
Seu pai saiu de sua vida muito antes de este morrer. De repente ele estava chegando em casa cada vez mais tarde. Sua mãe ficava até muito tarde acordada, e quando a porta da sala batia as brigas começavam. Pouco tempo depois seu pai saiu de casa, sua mãe entrou em depressão, e ele teria de conviver com a solidão desde muito antes de se tornar um homem. Sua mãe estava muito ocupada com a sua dor e com os seus traumas para conseguir enxergar que o filho precisava de uma amiga. Seu pai se perdeu nos prazeres de uma mulher bem mais jovem que a sua mãe, e jamais se reencontraria novamente, tampouco o filho. Passou a ouvir a voz de seu pai ao telefone sempre falando de saudade de uma forma rápida e objetiva, perguntando coisas banais e por vezes sem sentido. Quanto mais distante seu pai se tornava, mais viva ficava na memória dele as imagens de seu pai e o som de “Letter to Hermione”. Era como se a voz de Bowie sempre tivesse existido, numa eternidade suave e profunda, numa beleza que o mundo jamais veria, somente ele. Seu pai morreria e, no velório, ele não escutaria mais nada, somente essa música. Seu pai... Seu pai... Pai...
E essa música iria perpassar toda a sua vida, como se fosse a trilha sonora de uma existência harmonicamente cinematográfica. Em todos os momentos da vida dele “Letter to Hermione” apareceria em seu coração, seja na saudade do pai, seja na tristeza da perda, seja na rotina do trabalho, seja na lembrança dos seus poucos mas intensos amores. O que é o pouco? O que é ter poucas mulheres? Não importa. O que importava é que ele sentia que tinha amado poucas mulheres. Sabia a conta exata de quantas mulheres tinha ficado na vida. Maria tinha sido a primeira que ele levara para cama e a única com quem ele tinha sentido uma ligação forte, duradoura, que agora lhe era resgatada depois de estar muitos anos suspensa em seu espírito. De vez em quando sonhava com Maria, mas, ao acordar, procurava expulsar a imagem dela da cabeça através de alguma atividade qualquer. Tinha sido a sua primeira mulher na cama, o primeiro corpo nu de mulher que ele viu na sua frente, o primeiro par de seios fartos e brancos, com mamilos rosados, arrepiados, convidando ele para repousar ali os seus lábios de homem transformado em menino. E por muitas vezes beijou aqueles seios de forma suave ao mesmo tempo em que voraz. E se perdia naquela sensação de ser o rei do mundo ao longo dos eternos instantes nos quais ele gozava do prazer de ser o escolhido para ver aquele belo corpo de Maria... Corpo de beleza singela e suave... Beleza que jamais deixou o espírito dele ao longo de toda a sua vida... Já não se lembrava mais o porquê que Maria tinha ido embora de sua vida... Ah, sim, claro... Houve outra mulher entre eles durante um tempo... Uma mulher que apareceu, o encantou e que foi embora, levando dele Maria que, triste pela traição, jamais voltou a se entregar a ele... Engraçado que essa mulher não estava mais na mente dele, ao menos não de forma clara. Lembrava que ela tinha um rosto moreno, mas as feições de rosto pelo qual ele um dia jurou estar apaixonado haviam sido apagadas de sua mente, como um nome escrito na areia se apaga com o tempo e o vento...  Enquanto o rosto de Maria permaneceria vivo na sua memória pelo resto da sua vida, as origens do seu sorriso, o fechar sonolento de seus olhos, os cabelos lisos a balançar no vento praieiro de terras distantes... Enquanto Maria vivia como uma entidade dentro do corpo dele, o possuindo, o embebendo, enquanto ele tentava se afastar da imagem dela, a imagem da outra tinha-lhe fugido da cabeça como num piscar de olhos. Era estranho que ele tivesse ficado com essa outra se ela não tinha criado nele raízes... Por que deu nela aquele beijo? Por que se envolveu? Por que sonhou? Por quê?
Isso não importa... O fato é que a mágoa havia tirado Maria de sua vida e a dor do leite derramado se instalou no seu peito. Seria obrigado a ver Maria casando com outro, tendo filhos com outro, o esquecendo, o destruindo, o humilhando na frente de todos os deuses do amor e da cólera, o ignorando diante da sua nova vida vivida nos braços e no gozo de outro rapaz... E quantas vezes ele iria pensar nisso ouvindo no rádio ou no coração “Letter to Hermione”...  E quantos maços de cigarro iriam ser consumidos, e quantas vezes a música se repetiria em sua mente, e quantas vezes o sorriso de Maria iria aparecer desenhado na sua mente como um raio eterno e brilhante... E suave... E belo... Quantas vezes iria ele se consumir, quantas vezes, meu Deus...  E na cela agora ele se perguntava, com a música tocando no seu peito e as lágrimas lhe banhando os olhos, se ela ainda pensava nele, se o amor que ela sentira por ele tinha virado ruínas de um tempo maravilhoso, apesar de tudo... Será que haveria espaço para ele ainda no coração de Maria?
                                                               
                                                            ...
Isso não importa... O que importa é que Maria sempre viveria no coração dele, sempre ocuparia o espaço maior do coração dele, sempre apareceria nos seus sonhos, na sua insônia e na sua saudade... O traidor sentiu mais dor que o traído... A vida tem dessas coisas, ao menos às vezes... E em pensar que muitos dos seus amigos em comum com Maria o julgaram de forma tão severa, como se a presa abatida tivesse sido Maria... Não... Ele traiu a quem ele amava... Ele era a eterna presa de si mesmo...
A madrugada fria e chuvosa havia se rompido sem que ele percebesse... A hora havia chegado... Já era de manhã, já era a hora de sua morte... Ao lado dos policiais ele estava acorrentado e andava desse jeito... A música não lhe saía da cabeça... O sorriso de Maria não lhe saía da cabeça... O caixão de seu pai não lhe saía da cabeça... E de repente tudo lhe veio junto, como numa multidão de lembranças a lhe doer o peito, a lhe perturbar a cabeça... Estádios de futebol, seu pai reclamando do time, ele sozinho em estádios de futebol, o sorriso de Maria, o beijo da outra, o casamento de Maria, “Letter to Hermione”, seu pai na sala ouvindo música, sua mãe chorando, seu pai ao telefone, seu primeiro emprego, o sorriso de Maria, o sorriso de Maria, o sorriso de Maria, aonde está ela agora? Sylvia Plath, Sylvia Plath, mulheres semi-nuas... Tudo o que ele havia realmente amado ou odiado na vida estava presente na sua memória ao longo do corredor... Tudo e nada ao mesmo tempo... Ao sentar na cadeira elétrica o carrasco lhe perguntou qual seria o seu último pedido. Não pensou duas vezes. Um cigarro Hollywood, do maço vermelho...
Logo o cigarro apareceu... E toda a sua vida lhe saiu do corpo antes mesmo que ele tivesse sido executado. Enquanto ele fumava, as dores de sua alma iam-lhe saindo pela fumaça, e dessa vez nunca mais voltariam. Era como se ele tivesse se visto diante de si mesmo, com a sua alma nua dentro de seu passado, fundida no seu passado, aberta no seu passado. E fumando o cigarro, pensou bem alto FODA-SE... Ele se perdoou... Se perdoou por ter sido feliz, por ter sido triste, por ter sido traidor, por ter sido ruim, por ter sido bom... Ele se perdoou por ter vivido...


O cigarro acabou... E as lágrimas de seu rosto se secaram...


Denis de Barros

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Beijos da memória


Pra que relembrar
Se no tempo
Não posso voltar?
Pra que entender
Se o bonde já passou?
Pra que olhar
A jarra de vinho
Que se quebrou?
Pra que chorar
Se você não está mais
Aqui?

Vou pegar um livro para ler
Vou conversar com um amigo
Vou ligar a tv
A vida é inútil
Mas ela está viva
E é preciso viver...

Denis de Barros

De tanto viver


Olho
E de tanto olhar
Vejo...
Procuro
E de tanto procurar
Não encontro
Algo que me faça
Sorrir em paz
Beber em paz
Dormir em paz...

Ando...
E de tanto andar
Me canso
Choro
E de tanto chorar
Durmo...

Leio
E de tanto ler
Me perco
Amo
E por te amar
Minha alma com nada mais
Se satisfaz...

Por causa do amor
A alegria não me pertence mais...

Denis de Barros

Longe demais de ti...


Eu vim aqui por um motivo
Inútil e límpido
Cheguei aqui cansado
De sofrer sozinho
E trago a minha dor
Materializada no meu olhar
Perdido...

Vim aqui dizer que te amo
Sei que isso não mudará nada
Pois você virou, para mim,
Uma rocha
E tudo que eu digo
Chega em ti
E bate e volta...

Mas ainda assim
Preciso dizer
Que te amo
Pois meu amor por ti
É um filho que pari redescobrindo-o
E que renasceu
Tarde demais
Longe demais de ti...

Denis de Barros

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Cigarro: o melhor amigo do homem

Cena do filme "Boa noite, e boa sorte" de Geroge Clooney


Eu poderia começar esse post com um texto que falasse sobre qualquer outro assunto: política, literatura, cinema, teatro... Mas começo o meu querido post escrevendo sobre um outro elemento também querido e já há muito estimado por mim: o cigarro!
Todo o mundo reclama de fumantes. Todos, é claro, menos os próprios fumantes. “Você vai morrer!” “Para com isso, pelo amor de Deus.” “Você está se matando...” As frases de indignação são infinitas, e uma é mais chata do que a outra.  Mas não foram essas frases que me fizeram escrever esse post, pois a maioria das pessoas que me diz isso me ama e se preocupa comigo de verdade. Então, não escreveria nada para ironizar ou criticar esse tipo de colocação. O que me fez escrever esse post é a febre de anti-tabagismo que vem assolando o Brasil (e, me parece, grande parte do mundo ocidental).
Já perdi as contas de quantas vezes vi programas de Tv se dedicando  somente a elucidar os males causados pelo cigarro à saúde humana.  Se você digitar no google a frase “males causados a saúde”, você verá inúmeros sites que são dedicados especificamente ao cigarro e aos problemas que ele traz à saúde. Isso sem contar as propagandas da televisão. Mas o pior são os avisos do Ministério da Saúde brasileiro nas caixinhas de cigarro que nós, pobres fumantes, compramos semanalmente. Esses avisos são acompanhados de imagens de fumantes no hospital à beira da morte, de bebês espontaneamente abortados por causa do vício da mãe, um homem jovem olhando desesperado para o seu impotente órgão genital, que o deixou na mão justo na hora “H”, dentre outras bizarrices, que constituem um verdadeiro terrorismo psicológico para os fumantes.
É um prazer comprar um maço de cigarros, abri-lo, dar aquela cheiradinha neles antes de tirar um para, finalmente, depois desse pequeno ritual, fumar um cigarrinho ao ar livre, pensando na vida, ou não pensando em absolutamente nada, simplesmente existindo, entre uma baforada e outra. Mas esse prazer se transforma, momentaneamente, em um verdadeiro suplício para os fumantes. Eu fico horrorizado com aquelas propagandas anti-tabagistas. Me faz mal, me deixa muito preocupado. Mas rapidamente eu as ignoro e começo a fumar.
Mas a questão é: porque isso tudo contra o cigarro? Não estamos numa sociedade livre, onde a comercialização das coisas deve ser feita sem sentimento nenhum de culpa, nem por parte do vendedor, muito menos por parte do comprador? Mas o pior é a seguinte questão: numa sociedade ultra-capitalista e industrial, como é a sociedade contemporânea, não temos a menor idéia sobre os processos produtivos que estão por trás dos elementos alimentícios que compramos. Isso porque, diante de tantos avanços tecnológicos e do surgimento de grandes cidades, características marcantes e únicas das sociedades capitalistas pós-Século XIX, o conhecimento passou a ser algo muito específico e penoso para ser adquirido. Alguém aqui saca alguma coisa de química? Quem é que tem consciência da composição química do miojo, do refresco de laranja da Tang, da Coca-Cola, do arroz, do feijão, do tomate? Numa sociedade industrial, quase tudo que compramos para nos alimentarmos passa pela indústria para receber uma série de elementos químicos que surtem uma outra série de efeitos para variados fins, principalmente para a conservação dos alimentos para os mesmos não estragarem antes de serem vendidos. Então, numa sociedade materialista como a nossa, onde “tempo é dinheiro”, quase tudo é artificial. E vai pra nossa barriga.
Aí fica a pergunta: porque nas garrafas de Coca-Cola não vêm uma imagem de alguém morrendo acompanhada de um texto enumerando todos os elementos químicos que fazem parte desse refrigerante e que fazem mal à saúde humana? Porque a mesma coisa não é feita na caixinha de leite, no todynho, no ki-suco, no saco de arroz, de feijão e por aí vai? Só o cigarro causa males à saúde?
Diante dessa verdadeira demagogia e palhaçada, eu resolvi falar sobre o que o cigarro representa para mim. Cigarro não resolve os problemas de ninguém. Nunca fumei pensando que isso resolveria os problemas que tenho de enfrentar enquanto adulto. Falo isso porque esse constitui o pior argumento dos guerreiros anti-tabagistas que me cercam. “Porque você fuma? Isso resolve os seus problemas?” Não, sua anta estúpida, eu não fumo para resolver problemas. Antes de o cigarro virar um prazer para mim ele era pura estética. Comecei a fumar por ver os outros fumando e achar bonito. E ponto. Depois sim o cigarro virou um prazer para mim. E, a partir daí, o cigarro virou o que ele é para mim até hoje e será até o dia do meu enfisema pulmonar: o meu melhor amigo.
A qualquer momento, em qualquer hora e por um preço tão caro quanto as passagens de ônibus desse país patético em que vivemos, o cigarro está aqui, no meu bolso, pronto para ouvir o meu silêncio. Amigos se cansam de ouvir sobre as nossas ideias e problemas. Meus parentes vivem um cristianismo medieval onde tudo é explicado e resolvido se obedecermos e orarmos a Deus. Para eles não há espaço para criatividade e idiossincrasias: cala a boca, peça perdão e obedeça. Heil Jesus! Terapeutas, em sua maioria, são pagos para fazer a gente se sentir bem com a gente mesmo, independente do que o ser humano que está por trás do terapeuta acha realmente do que nós somos. Os livros de auto-ajuda são a mesma coisa, mas com um colorido bem diferente: neles sempre somos fortes, felizes, guerreiros, saudáveis. Só nós não percebemos isso antes. Daí vem um escritor e diz isso tudo para a gente, publica, põe no shopping para vender e todo mundo sai feliz ao ser convencido de que é feliz e forte, apesar de ser velho, brocha, divorciado, doente, sozinho e com uma aposentadoria pífia.
O meu cigarro nunca tentou me convencer de que sou o que não sou, de que não cometi os erros que cometi, de que não perdi as coisas que perdi na vida, de que sou foda quando não passo de um rapaz de 24 anos, professor de sociologia da rede pública e privada, ganho pouco e mal tenho dinheiro para realizar planos que considero essenciais na minha vida, como comprar um carro e uma casa. Toda vez que eu abro meu maço de cigarros eles, os cigarros, não me dizem nada. Enquanto a fumaça entre pela minha boca, passa pela minha garganta, chega nos meus pulmões para depois fazer o caminho inverso, eu sinto o gosto do cigarro e, paralelo ao prazer que isso em si mesmo me dá, eu vou pensando e repensando a vida e tudo que nela há. Aos poucos eu vou tomando consciência de mim mesmo, lembrando e relembrando o tempo presente e o tempo passado, e descobrindo que eles, na verdade, são um só. Nesses momentos eu me reconstruo e, às vezes, depois que termino o cigarro, vou dormir triste comigo mesmo e com a vida. Outras vezes durmo, não feliz, mas conformado. Em outras ainda durmo indiferente, convencido de que a vida é um mistério e a sabedoria, muitas vezes, só nos chega quando não precisamos mais dela, como dizia o prolixo Gabriel Garcia Marques.
O cigarro é, enfim, um amigão. Um amigo silencioso e que me mata aos poucos, sem que eu perceba. Assim como as pessoas... Assim como a vida...

Denis de Barros

O céu está triste

Chove a chuva
O céu está triste
Chove muito
Enquanto
Estou eu aqui
No ônibus
Sentado no meu canto...

Chove a chuva
Sobre a terra as tristezas dos homens
Despejando...
Chove a chuva
E eu, aqui, triste
Digo a ela
Chuva...
Chove...
E enxuga o meu pranto...

Denis de Barros

As lágrimas




Minhas lágrimas caem
Do abismo do meu
Coração

E param
No meu olhar distraído...


Denis de Barros