E de repente tudo se fez
estranheza. O mundo, que até ali tinha sentido, agora parecia ser um labirinto
de becos sem razões e sem destinos. Tinha sido um menino que caminhara num
mundo no qual deus era o arquiteto e satanás o contra-arquiteto. O que não
viesse do planejamento divino viria, forçosamente, do anti planejamento do
maior de todos os anjos decaídos. Na verdade, o mundo tinha tanto sentido para
ele que as forças satânicas estavam inscritas na vontade de deus. Tudo no
final acabaria bem para os justos. A única e inabalável questão nesses tempos
era se, no fim dos dias, ele seria ou não um justo, pois isso dependeria do julgamento
de deus. De resto, era viver esperando a volta do dito ressurreto.
Mas as águas de Março batiam
agora na janela do ônibus que rumava para a faculdade. E ele já não tinha mais
certeza de nada. Não estava mais fugindo dos seus demônios, tampouco estava
convencido de que eram demônios. A opressão da certeza dava lugar agora ao medo
da profunda abertura do futuro. Tudo agora era arte, e ele era, em última instância,
um artista, como todos eram.
Havia descoberto recentemente a
música de seu país. Como era emotiva a música brasileira, não? Como eram
introspectivas as palavras dos compositores brasileiros... Voltava da faculdade
à noite olhando fragmentos da cidade em luzes amarelas, espantado com o encanto de bairros decadentes como São Cristóvão, o antigo lar do Império. Havia uma beleza mórbida no seu
estado de confusão. Enfim havia sentido em poetar sobre a vida e a morte de
pessoas comuns, os sentimentos mesquinhos das pessoas, o sorriso belo da mulher
bela, o sexo de um casal qualquer, o apagar das luzes de um quarto do subúrbio, os meninos jogando bola na rua, as colegiais rindo e correndo até o ônibus, o mendigo dormindo e vivendo assim a sua vida trágica, uma pessoa descobrindo pelo seu corpo o seu próprio desejo, as árvores de ipês, o entardecer de um dia de outono, um gol no último minuto da partida, um dia de carnaval, com as suas fantasias e seu cansaço, o mar, o céu, uma cena, um desenho com pincel, um conto, um ponto, um tonto. Finalmente entendera o porquê eram belos os sambas produzidos
nos morros cariocas, nos quais corriam o sangue e a poesia dos povos da senzala
e dos deuses da mitologia negra.
Tudo o que era contraposição à vida
passou a ser, a partir de então, objeto de seu desprezo. Quando chegasse em
casa rasgaria a bíblia sagrada, pois o Sagrado estava agora nos seus orgasmos
solitários debaixo dos seus lençóis de solteiro, na recém descoberta música brasileira,
no rock inglês, nas páginas de Virginia Woolf, no cinema que retratava o
desespero humano e nos gritos vascaínos da arquibancada do velho Mário Filho.
As madrugadas insones e os sonos das manhãs de sábado eram, agora, tudo que ele
tinha e tudo que ele poderia querer ter. A morte era o ponto final das obras de
artistas inconscientes. Estava condenado a ser humano. Nesse novo gênesis, tudo
era dor e alegria. Tudo era poesia. E cada lágrima levaria um pouco de si para,
paralelamente, reconstruir esse si como uma nota musical de uma composição lapidada
e destinada à eterna imperfeição.