segunda-feira, 16 de julho de 2012

Nem todo ponto é final






Aquelas árvores sempre foram a coisa mais bonita daquele bairro, ao menos para ela. Eram árvores grandes, com folhas vistosas, de um verde romântico, como nos livros e filmes. O entardecer lá era tão bonito, com o seu vento fresco e seu céu aberto... Maria encontrara em Campo Grande um bairro no qual ela queria morar por toda a vida. Foi Pedro quem apresentou esse lugar a ela e quem a convenceu, mesmo que implicitamente, a morar lá com ele. Fora lá que aprendera a ser mulher, a ser adulta, a viver longe dos antigos amigos e, principalmente, da irmã e da mãe, a quem tanto amava. Era estranho visitar aquele bairro, aquela rua e ver aquelas árvores depois da separação. Tudo isso, no início do casamento, logo quando fora morar ali, simbolizava uma nova etapa da vida dela, sua união com o que ela acreditava ser o homem de sua vida. Agora aquelas árvores pareciam que carregavam uma lágrima, cada uma, por ela... O entardecer, limpo e claro, sempre tinha tido um quê de triste naquele lugar. Mas agora era diferente. Tinha uma tonalidade mais melancólica, como um conto gótico ou um poema simbolista...

Via isso tudo pela janela do ônibus agora, e carregava uma dor no peito. Uma dor leve que a surpreendeu. Porque doía? Porque essa tristeza? O casamento terminou como começara: bem. Tinham percebido que já não estava mais a mesma coisa a relação. Tinham ficado impacientes um ao lado do outro. Tinham mudado muito depois de 15 anos juntos. Ela ainda era uma mulher bonita, com seus 38 anos bem expressos em um corpo maduro, onde os seios ainda estavam milagrosamente duros, a barriga bem desenhada numa reta linda, que só as mulheres lindas têm... O rosto... Carregava a mesma beleza de quando ela tinha, sei lá, 14 anos. Só estavam ali acrescidos naquele olhar os anos de estudo, de trabalho, de cinema, de amores, de livros, de amizades... Aquele rosto tinha conquistado um ar que as mulheres fúteis jamais teriam. Ela era inteligente, conversava sobre tudo, era descolada, moderna, ao mesmo tempo em que mantinha dentro de si um tradicionalismo forte de uma mulher que se cuidava para o marido, inovava por ele, enlouquecia-o na cama, mudava os móveis da casa, como uma daquelas mulheres que cuidam da casa como se fosse o seu castelo, defendendo-o das invasões dos visigodos.

Mas nada disso fez diferença. Tinham se afastado um do outro nos últimos anos. Até que perceberam que já não davam mais certo juntos, que já não tinha mais nada a ver. E aí, como um casal do século XXI, resolveram se separar, numa boa, respeitando o momento individual da vida individual e dos sentimentos individuais de cada um. Foi ela quem saiu de casa, e não Pedro. Ele morava naquele bairro antes. E ela nem pensou em continuar morando ali, apesar de ser, de longe, o lugar que ela mais gostava na cidade feia e sem graça que era o Rio de Janeiro... Foi ali que ela fez os maiores planos de sua vida. Foi ali que ela viveu as maiores mudanças. Foi ali que ela tinha se divertido tanto com Pedro. Mas nem pensou em morar ali... Não mais...

Laranjeiras era um bairro também romântico, com um entardecer encantador. Tinha sido uma boa escolha. Ajeitou o apartamento, fez um chá de casa nova, reuniu amigos, bebeu, se divertiu. Foi trabalhar renovada, feliz com o futuro que se descortinava pra ela. Afinal de contas ela era jovem, bonita, uma profissional de sucesso. Assim como Pedro, ela começou a ter novos encontros, reviver as surpresas da vida de solteira. Se encantar novamente. Como uma mulher moderna o faria. Ela assim o fez, sem planejar. Tudo era muito natural nela, muito espontâneo.

Até que naquele dia, depois de algum tempo, pra mais de ano, ela voltou pra aquela casa para pegar algumas coisas que ainda tinham ficado lá. “To chegando, Pedro. Deixa a porta aberta...”. “Ta bom, estou te esperando”. Quando ela abriu a porta, o viu de frente para a escada. Ele estava bonito, como sempre tinha sido. Vestia o suéter que ela tinha dado a ele em 99. Era incrível como aquele suéter ficava bem nele... Beijaram-se no rosto, viram-se, e entraram os dois na sala. A casa estava intacta, bem cuidada, mas tão cheia de... Espaço. Deu numa rápida olhada na estante, e viu o quanto ela, estranhamente, era o lugar onde mais havia espaço naquela casa. Logo percebeu que as fotos dos dois, do casamento, das viagens, dos jantares, das reuniões com os amigos não estavam mais ali. A casa fazia até eco sem a parte dela lá dentro. Enquanto ela percebia isso, num punhado de segundos, riu.

Conversaram um pouco. Riram juntos. Se atualizaram um sobre o outro. Fizeram um lanche com pães e mate. Ele pegou a caixa que continha as coisas dela, uma caixa ornamentada com fotos do Elvis, e a entregou. E a olhou... E sorriu... E a olhou de novo, dessa vez ficando sério...
Foi aí que se deram conta. Ele a olhava, meio perplexo. Uma perplexidade que doía de tão repentina e profunda que era... Ele a olhava enquanto ela olhava pra caixa, pois ela abaixara a cabeça rapidamente, atingida pela mesma perplexidade que ele. O que tinha ocorrido ali, naquele momento, naqueles segundos? Porque aquela caixa despertara aquele momento tão intenso entre ele? Fora realmente aquela caixa que tinha despertado neles aquela perplexidade? Não saberiam responder... Ela o olhou... Seus olhos a fixavam, como quem perguntava como tinham chegado até ali... Não tinham se dado conta do ponto final. Não tinham se dado conta da morte que tinham presenciado, que tinham vivido. A vida correu num fluxo tão rápido, tão moderno, que não tinham percebido que não estavam mais juntos, e o que isso significava. Trabalhavam, voltavam pra casa, viam TV, liam um livro, saíam, voltavam, iam trabalhar de novo, e mais, e de novo... O cotidiano parece que tinha escondido a tragédia que era um casal que planejava estar junto por toda a vida, que se dava tão bem, que passou momentos tão legais juntos que somente dois seres humanos muito amantes um do outro poderiam passar... Que choraram, que riram, que brigaram, que transavam noites a fio num gozo ardente, louco, apaixonado... Que chagaram a criticar casais que desistiam um do outro, se separando. Pedro sentiria novamente por uma mulher o que ele sentiu por Maria? E aquele sentimento todo, para onde foi? O quer houve com ele? Acabou? Certeza que acabou...

Maria desviou os olhos dele. Sem graça disse até logo, e deu as costas. Como sempre naquele lugar o ônibus não tardou a passar... E pela janela dele ela estava contemplando a si mesma através das ruas e das pessoas... E das árvores... “O que está havendo comigo?”, pensou. “Será que ainda o amo?”. “Como foi mesmo que nos separamos?”. “Qual foi mesmo a razão?”. Era estranho viver num mundo onde tanta coisa acontecia ao mesmo tempo. Onde todos caminhavam juntos, se acotovelando porém com um abismo entre si... Era tudo muito demais, ônibus demais, trabalho demais, trânsito demais, informações demais... E por vezes fica-se sem saber quem somos, o que queremos, o que tivemos... Mas ela tinha certeza que estava tudo acabado. O que foi, então, essa troca de olhares, pensou? O que queria dizer essa tristeza em seu peito? Ela não era uma mulher bem resolvida? O que tinha sido perdido entre os dois? Qual foi o fio que ela perdeu nesse tecido louco que se chama sentimentos humanos? Porque estava tão balançada agora? Será que ainda o amava? Será que ainda o queria? Será que algum dia tinha sequer deixado de querer Pedro?

                                                                    ...

De repente o celular tocou... Era uma mensagem... Era o número de Pedro... “Posso ir a sua casa hoje de noite? Quero te ver...”. Com um sorriso de menina que dá seu primeiro beijo ela escreveu na resposta: “Sim”.



sábado, 14 de julho de 2012

O Soldado










Tinha levado um tiro no ombro esquerdo. Estava exausto. Tinha caminhando por dias a fio, fugindo do exército inimigo, que estava incansavelmente no seu encalço. Tinha sede. Sua garganta parecia um caminho de pedras secas, pois doía cada vez que ele engolia sua saliva. Arranhava. Às vezes tinha a impressão que estalava enquanto engolia. Suas pernas pareciam duas bombas que a qualquer momento explodiriam. Latejavam de uma dor profunda de quem anda sem objetivo, de quem anda muito, de quem percorre “léguas tiranas” na tentativa de se afastar e combater tiranos. Tinha marcas por todo o corpo. Marcas de tiros, de socos, de golpes com faca, de sujeira acumulada pela viagem sem fim. O sol batia forte na cabeça. Rachava corpo e alma. Sua roupa já tinha sido reduzida a trapos. Tinha rombos enormes na camisa e na calça. O capacete tinha praticamente sido grudado à cabeça.

Acabara de achar uma pequena árvore, sob a qual podia deitar um pouco e respirar de forma mais tranqüila. Já não agüentava mais andar naquela região de muito sol, pouco verde e nada de água. Uma região seca no sentido estrito do termo. Aquela árvore parecia ter caído do céu, ter surgido das entranhas da terra de forma repentina, ter se materializado como um sopro de um espírito bom que se compadeceu dele, de sua situação, de sua pobreza, de seu estado. Deixou seu corpo magro cair sob a pequena árvore e agradeceu a Deus por ter um pouco de sombra depois de horas sem descanso. Pegou sua garrafa de água, que estava pendurada a uma corda amarrada à sua cintura. Nada havia dentro dela, e ele sabia disso. Porque a pegara? Não sabia responder... Seu raciocínio estava desconexo. As coisas vinham à sua mente assim, sem mais nem por quê, desde que a guerra começara.

A guerra... Lembrar-se dela agora o feria de forma mais profunda do que nunca. Tudo começou com o surgimento do Partido Total. Era um partido estranho, cuja bandeira tinha cores fortes, amarelo e preto, e o número da legenda era 7. Em um mundo onde tudo era recortado, as opiniões eram recortadas, as notícias eram recortadas, as idéias eram recortadas e as doutrinas eram recortadas, o Partido Total oferecia uma interpretação do mundo, um horizonte, uma idéia simples, fechada e conclusiva: “Ao governo, todo o poder. Ao povo, a obediência.” Naquele país a democracia ainda era uma coisa nova, uma ideologia vaga que estava tomando, aos poucos, a mente de um povo cujo passado centenário estava repleto de manda-chuvas, de figurões que concentravam em si todo ou quase todo o poder. Aquele povo tinha se acostumado a obedecer, tinha construído para si a idéia de que o governo é uma coisa que está longe, muito longe de todos, e que só aparece para importunar a vida das pessoas. Até que a democracia surgiu, como um acidente, um acontecimento inesperado e bem vindo, apesar de não se saber muito o porquê ela era bem vinda. Porém, não fazia muito tempo que a democracia havia vencido as relações de poder desse lugar, quando surgiu o Partido Total. De início um partido de aparentemente composto por lunáticos, mas que, aos poucos, virou um partido que alcançava as lacunas psíquicas de um povo cuja alma era autoritária. O slogan de poder e obediência vinha embasado por uma idéia crucial: era tudo pelo bem do povo. O poder existe para o povo, sendo ele exercido por homens valorosos em cujas mãos estava o futuro da sociedade. Um governo forte era preciso para proteger as pessoas delas mesmas...

Daí os acontecimentos foram se sucedendo: popularização do partido, vitória nas eleições e dissolução da Constituição. Tudo isso para nos proteger... Porém um punhado de pessoas, do qual ele fazia parte, começou a se perguntar: proteger do quê? Onde que fica a minha opinião nisso tudo? “Que idéia maldita”, pensou com os olhos lacrimejando, e deixando turva a visão de um horizonte amarelado... No fundo ele sabia que a idéia era boa, e era isso que mais doía. Na sociedade onde vivia, a idéia não poderia ser boa. Deveria estar em conformidade com o rumo das coisas. E esse rumo não era decidido por ele. Ele não queria que as coisas rumassem desse jeito. Azar o dele... Juntou um punhado de terra em sua mão direita e a jogou longe... Foram essas idéias de defesa da democracia que o tinham levado a se juntar àquele grupo rebelde. Eram 10 soldados que acreditavam que a luta armada seria a solução contra aquele governo autoritário. “Um golpe pelo povo e para o povo”, era o resumo da idéia do grupo. “Um povo de dez pessoas”, pensou ele. “Que merda de povo era esse?”. Agora via com clareza que eles não tinham chance contra aquele governo com aquela pequena resistência. Porque não vira isso antes? Não saberia dizer... No calor das idéias, não percebera o óbvio: perderia a luta perdida. O exército dos rebeldes foi massacrado. Só ele tinha sobrevivido, e fora empurrado para aquela região inóspita da cidade. E estava sozinho agora sob aquela pequena árvore.

Sozinho até aquele momento. Ouviu um barulho nas suas costas. Virou-se. Viu ao longe um grupo de dezenas de soldados, cujos uniformes eram bicolores, amarelo e preto. “São eles”, pensou. “Vieram me buscar”. Teve medo. Vira o que ocorreu com os outros soldados quando foram pegos. Foram todos mortos, todos, sem exceção. Só ele tinha conseguido escapar até aquele momento, só Deus sabia como. E estava ali, com medo. Mas não havia mais o que fazer. Não agüentaria mais andar nem meio metro. Seus pés doíam demais. “Deus... eu tinha tantos planos para a minha vida... então... é assim que termina... a minha vida?”. Era trágico, mas era verdade. Olhou de novo para trás e viu os homens de amarelo e preto se aproximarem cada vez mais. De repente a tensão no seu corpo se desfez e ele relaxou. Tinha se entregado... De corpo e espírito... Pensou na irmã que não via há mais de 6 anos, desde que ela casara e fora morar longe dele... Pensou na última vez que fez amor, na sensação, no prazer, no que sentira em seu peito... Pensou na professora de artes, que tinha lhe ensinado dramaturgia.. Pensou no sorriso de sua mãe e nas palavras de cuidado dela... “Cuide-se, filho. Fuja dos homens maus...”. Pensou no seu time de futebol, que tanto o tinha feito chorar e sorrir, concedendo-lhe humanidade... Pensou nos sonhos que nunca, nunca se concretizariam em sua vida... A casa própria... Uma viagem pela Europa... Ver o nascimento de um filho seu... E pensou nos amigos satisfeitos com suas vidas de obediência e alienação... Pensou... Até que os passos pararam do seu lado, um chute beijou sua nuca com toda a violência desnecessária desse mundo desnecessário... Doeu... E caiu... Terra entrou em sua boca, e ele tossiu... Com o rosto grudado na terra e a cabeça latejando de dor, pensou em todas as pessoas que estavam levando suas vidas normalmente, felizes, com suas TVs, seus Xboxs, suas casas, suas camas, seus salários... Tudo certo... Todos protegidos... Todos rindo... Apesar de não saberem por quê riam...  E foi aí que ouviu um disparo.... E depois... Não pensou mais...