terça-feira, 16 de julho de 2013

Deus e o boteco




Há algum tempo eu venho tendo conflito com a ideia de Deus. Aliás esse conflito já dura há bastante tempo na minha vida. A única fase da minha existência na qual eu tive uma relação pacífica com Deus foi na minha infância. Até os meus 10 anos, mais ou menos, Deus era um ser com o qual eu conversava antes de dormir, pedindo proteção e agradecendo pelo dia. E ponto. Nessa época a minha família já era evangélica, mas esse costume eu havia adquirido ainda nos tempos nos quais a minha família era católica.
                  A partir daí a coisa foi ficando mais tensa. Deus foi se tornando, gradativamente, um ser austero, altivo, arrogante, egoísta e, sobretudo, exigente. Na igreja a qual eu frequentava, as pregações sempre giravam em torno da necessidade de termos que nos adequar a um modelo de ser humano para podermos entrar pelas portas estreitas dos céus. O trecho da Bíblia que mais me dava medo era o que dizia que "todo joelho se dobrará, e toda a língua confessará que Jesus é o senhor". Esse Deus me dava arrepios e um ódio escondido, camuflado. Como assim eu terei de me ajoelhar? Pra que isso?
                É claro que essas perguntas eram respondidas ao longo das inúmeras pregações as quais eu assistia pelo menos duas vezes por semana. Era preciso dobrar o joelho porque Jesus, o ressurreto, havia dado a sua vida por mim. Nada mais justo que eu me ajoelhasse, então, mesmo que não quisesse. O problema era que eu estava imiscuído numa cosmologia da qual, em última instância, eu não havia pedido pra fazer parte.  Aquilo não me parecia justo, da mesma forma que não me parece justo até hoje.
                Isso foi me dando uma raiva, um desejo de quebrar padrões, regras, de me libertar e ser o que quer que eu fosse, de fato. Era muito duro para mim ter que justificar o tempo inteiro pra mim mesmo que eu devia continuar obedecendo as regras prescritas para mim, desde a fundação do mundo, ou, quem sabe, antes dela. Aos dezenove anos, por fim, resolvi tocar o foda-se e meter o pé da Igreja. Acho que essa foi a decisão mais acertada que tomei na minha vida.
                Mas a coisa ficou feia, feia demais depois disso. Eu era livre agora. Porém, como diria o bom e velho Sartre, eu era igualmente escravo da minha própria liberdade. Sem um deus paternalista para poder chorar nos ombros dele. Sem diabo e demônios para poder culpar pelos males da minha vida. Agora era eu, meu corpo e uma estrada pela frente. Deus estava morto em minha vida. Não havia mais Deus, nem mais fé, muito menos chão. O chão, agora, deveria ser construído por mim mesmo. Era Sísifo empurrando a pedra até o cume da montanha para vê-la cair de lá, para depois poder buscá-la e vê-la caindo novamente. Isso é poético, mas não era nada bonito de se viver.
                O medo e a raiva enrustida deu lugar a um ódio declarado por Deus e pelo cristianismo. Foi, sem dúvida, o período mais sombrio da minha vida, e o mais catártico também. Eu era pura raiva travestida em humano. Ódio pelo meu passado no qual eu tentava, de forma hipócrita, seguir padrões impostos por pessoas moralistas e sem moral, na defesa direta ou indireta de um Deus que pouco se importava com a minha opinião.
                Vim voltar a acreditar em Deus e a me reconciliar com ele quando, vivendo tempos de agruras amorosas, me vi numa casa espírita, lá pelos idos de 2009. Logo comecei a ler os livros, me empolgar e tudo o mais. Deus voltou a ser o princípio criador do universo. O velho argumento de que o mundo não poderia ter vindo do nada me convenceu novamente. Porém, o espiritismo sofre de um grave problema: se trata de uma religião que acredita que é ciência; uma filosofia que herdou o que de pior surgiu no século XIX: a ideia de progresso, de evolução humana, a mesma filosofia que serviu de base para as teorias eugênicas, que desembocaram - vejam que lindo - no nazismo. Aliás antes do nazismo a eugenia já tinha matado muitos milhões na África e na Ásia, e todas as mortes foram justificadas pela ideia de que esses povos não eram "evoluídos", civilizados. Então poderiam morrer.
                Sem ser violento fisicamente, o espiritismo, assim como todas as religiões, nos colocam como pessoas doentes. Estamos nesse mundo de passagem, pois não somos evoluídos o bastante. Um dia seremos perfeitos, seja lá o que isso signifique. Somos imperfeitos agora  porque somos humanos. Somos culpados, e devemos expiar a nossa culpa. Por detrás de uma filosofia mansamente formulada e pregada, com ares de saber superior, de religão-ciência, mora a péssima e velha culpabilização do homem pelos seus males, que remonta ao casal mais badalado do mundo ocidental: Adão e Eva.
                Nem preciso dizer da tristeza que me causou quando descobri essas coisas sobre o espiritismo. E, no estilo Chaves, "volta o cão arrependido...": meu conflito com Deus retorna, mais poderoso que o exterminador do futuro. Acho que esse conflito é eterno em minha vida. Digo eterno porque, hoje, sinto que a ideia de que somos frutos de um acidente natural me parece um tanto quanto absurda. A vida é uma realidade tão forte que penso ser surreal o fato de ela acabar aqui, depois de eu dar meu belo último suspiro. Acredito que eu esteja reconciliado com a ideia de Deus, mas que nunca me reconciliarei com "Deus" propriamente dito, seja lá quem ele seja.
                O ponto central da pobreza de todas as religiões é que elas nos colocam como centros de uma escatologia a qual nós não escolhemos, nem teria como escolhermos. Ir para o céu ou para o inferno, para um mundo feliz ou para a erraticidade é passado como sendo uma escolha nossa, quando na verdade não é, nem teologicamente falando. Assim como, quando um bandido aponta uma arma para a minha cabeça e diz "passa a mochila, ou morre", eu não tenho opção alguma pela vida. Por instinto corro atrás dela, entregando a mochila.
                Toda religião é uma tentativa humana de entender um mistério legítimo: o que será de nós depois da matéria? Por isso todas elas possuem incongruências. Isso não tem nada a ver com o amor. Deus não ama ninguém, ao menos não esse Deus que leio na Bíblia. Por isso acredito que a melhor saída para tudo isso é manter a fé e a criticidade, a fim de não virarmos Malafaias ou Felicianos da vida que, fazendo o que acreditam ser o certo, destroem, de fato, almas promissoras num mundo que parece carecer disso. Deus não está morto, nem precisamos matá-lo. Levemo-nos, então, a um bar e troquemos com ele uma ideia. E jamais deixemos de sermos humanos. Esse é o caminho da salvação.

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