domingo, 9 de outubro de 2011

Memória das cenas





Certa vez eu tive uma conversa com um amigo numa mesa de bar (e como eu gosto de conversar em mesas de bar...), na qual estávamos falando sobre a morte. Lembro-me perfeitamente de termos dito um para o outro a seguinte frase: poxa, se um de nós morrermos levaremos tantas coisas um do outro, tantas confidências, tantos bate-papos, tantas coisas... Estou me recordando disso hoje porque me sinto impactado com uma coisa óbvia, típica e inevitável da vida, mas o que na vida é tão óbvio que nunca mais poderá voltar a nos surpreender? Estou pensando em mudanças... Naquelas cenas que estão congeladas na nossa cabeça e que são constantemente reinterpretadas por nós na medida em que nos afastamos delas... Aquele beijo, aquele cheiro de mulher, aquela rua, aquele vento, aquela conversa, aquele amigo, aquela cerveja, aquele bar, aquele jogo, aquele gol, aquele barulho da torcida, aquela roda de amigos, aquela mão, aquele aperto... E que aperto no peito me dá em ter a plena certeza de que essas coisas estão no passado, que morarão eternamente no passado, e que a única coisa que ficou delas foi a sensação que tenho delas quando as lembranças vêm... Será que elas são verdades? Será que não são? O que as lembranças realmente guardam e escondem do passado? 

Não tenho respostas para tais perguntas. O que tenho é angústia. Angústia de olhar para trás e ver esse rolo comprido de filme, com cada fotografia congelada uma ao lado da outra, mas não necessariamente conectada uma com a outra. As cenas da minha vida, das minhas escolhas, da minha ignorância... da minha paixão. Tenho a sensação de que percorri o meu caminho até aqui como cego na estrada, e que, como cego, continuarei a perseguir o meu caminho até quando a morte me abraçar. A morte... A mesma sobre a qual estava falando com o meu amigo. A morte que dá sentido à vida, a morte que, por ser ponto final, põe graça nas coisas, põe tempero, põe vida... Vida na existência... E as lembranças... Só possuem sentido porque eu as vivi... E só me lembro delas porque elas se foram... É a engrenagem... É  a vida...

Só queria registrar que me é muito difícil  conviver com as lembranças, principalmente com as boas lembranças... Pois elas estão tão longe de mim, tão intocáveis, tão turvas... "Assim é a perda", diz Arnaldo Antunes. A perda é como uma pedra que atravessa a superfície da água e bate no fundo do rio, deixando a água em ondulações. As pedras não estão no meio do caminho. Elas passam pela superfície, isto é, pela vida, e vão para o fundo... Vão para esse estranho bairro chamado passado... Morar na casa dessa senhora tão circunspecta, tão introspectiva e tão séria chamada lembrança, moradora do número do infinito na rua dos caminhos...

Que Deus me ajude a lidar bem com as minhas lembranças... Algumas me doem tanto...