sábado, 7 de agosto de 2010

O último cigarro

Cena do filme "A espera de um milagre"

Havia sido condenado à morte. Estava numa parte do mundo onde havia pena de morte. Tinha um corpo, era uma pessoa. E é isso o que importa. Estava num bar quando fumava um cigarro e bebia uma bebida alcoólica qualquer quando, de repente, um homem nele esbarrou. Este ficou nervoso instantaneamente. Talvez já estivesse bêbado. Isso não importa. O que importa é que ele estava cansado de ceder, cansado de encontrar gente violenta nas ruas, as quais sempre estavam dispostas a mostrar que eram fortes e espertas o suficiente para não ceder nada a ninguém, a não ser simpático com ninguém, a não ser para com os que julgavam serem por elas amados. Estava cansado, muito cansado disso tudo. Seria isso desumanidade? Ou seria a essência da humanidade? Foda-se. Isso não importa. O que importa é que ele estava cansado... O homem que nele esbarrou o empurrou, puxando uma briga. Então ele pôs todo o seu cansaço nas suas mãos que, cerradas, beijaram um soco forte e cruel, revoltado e estúpido na cara do outro. Este, desacordado, caiu no chão, batendo com a cabeça de um modo que veio a falecer a caminho do hospital. Momentos depois do ocorrido apareceu um policial, que chamou uma viatura que o levou para a delegacia.  E a sentença estava pronta pouco tempo depois.
Tinha uma certa idade, idade esta que não era mais parte da juventude, tampouco o seria da velhice. O fato é que ele já havia vivido muitas coisas, seu coração estava cheio de marcas, umas boas e muitas ruins... Mas todas as marcas compunham o seu cansaço como numa sinfonia sinistra, bela e selvagem. Andava sempre com os olhos pensativos, refletindo sobre coisas as quais lhe escapavam muitas vezes ao sentido. Lembranças o feriam, o divertiam, o revoltavam. Tudo o deixava nesse momento da vida cansado, de forma que a pena de morte não lhe caiu nem tão mal assim. Morava sozinho numa rua qualquer, num bairro pobre qualquer desse mundão de meu Deus. Estava só na vida, muitas vezes preso num quarto apertado, em volta do qual um eterno barulho de gente sempre fazia entrar vida pela janela. Vida, a mesma que o deixava cansado. Esta entrava sempre pela janela, depois do seu trabalho, quando ele se trancava no seu quarto. Lia seus livros, ouvia suas músicas, fumava seus maços de cigarro. A prisão acabou com essa rotina, da qual ele já tinha cansado também. Nem os livros dos seus autores favoritos ele levara para prisão. Já tinha lido o suficiente na vida.  Chega.
Dois anos se passaram na prisão, nos quais ele não fizera nenhuma reflexão profunda do seu passado, nem do presente. Do futuro ele nunca pensou nada, pois este nunca existira para ele, nem como planos, nem como porra nenhuma. Deixara o futuro para trás na fase da infância, na qual esperava pelo aniversário, ou pelo Natal, ou pelo réveillon. Depois que virou adolescente jamais voltou a pensar no futuro. Foda-se o futuro. Contudo, às nove horas da manhã do dia seguinte ele iria deixar esse mundo e todo esse cansaço que ele sentia havia muito tempo no peito. Agora uma angústia se depositava nele. Angústia difusa, incerta, esmagadora. Ela estava nele depois de muito tempo estar longe dele. Nos últimos anos ele convivera com o vazio dentro de si. Com a náusea e a dor de nada sentir por ninguém. Como ele havia se tornado isso, ele não o sabia. Não importa isso também. O que importa é que ele estava assim, era assim havia muito tempo. Mas o sentimento o trancou em si no último dia de sua vida. Tal experiência fora uma grande aventura, a maior que já enfrentara na sua vida.
De repente lembrou-se de uma tarde de sábado na qual entrara numa loja de discos usados enquanto caminhava pelas ruas da cidade. Em meio aos muitos artistas que estavam diante dele, encontrou um disco que lhe era muito especial. Era um disco de David Bowie, cantor que aprendera a gostar com o seu pai ainda quando era bem criança e antes mesmo de saber que as músicas que escutava eram dele. Lembrou das muitas noites nas quais seu pai ouvia “Letter to Hermione” enquanto ficava sentado na sua poltrona, com a luz da sala apagada, fumando seu charuto cubano que tão caro sempre lhe custava. A influência que seu pai exerceu na sua vida nem ele mesmo podia alcançar com o espírito. Aprendeu a gostar de quase tudo que gostava com o seu pai: música, literatura, mulheres, cigarros, bebidas... As tardes no parque em meio às poesias de Sylvia Plath, as noites na sala atravessadas pelas músicas de Pink Floyd, Bowie, Zeppelin... Os momentos na praia aonde seu pai sempre lhe apontava uma bela mulher que andava soberana sobre a areia numa roupa de banho que deixava transparecer todo o seu corpo cuja beleza, sutil e sem igual, grudava em seus olhos... E a estética do fumo, o ir e vir das mãos de seu pai que seguravam um charuto ou um Camel... O álcool num copo de vidro fino... Tudo isso via seu pai fazendo e aprendia a se reconhecer no mundo que seu pai lhe apresentava. Poderia ter tomado um caminho distinto do de seu pai, mas não. Sempre encontrou a razão da sua vida da mesma forma que seu pai o fazia, em pequenos momentos, tornados grandes na vida de um homem cujos atos são tudo que ele tem.
Seu pai saiu de sua vida muito antes de este morrer. De repente ele estava chegando em casa cada vez mais tarde. Sua mãe ficava até muito tarde acordada, e quando a porta da sala batia as brigas começavam. Pouco tempo depois seu pai saiu de casa, sua mãe entrou em depressão, e ele teria de conviver com a solidão desde muito antes de se tornar um homem. Sua mãe estava muito ocupada com a sua dor e com os seus traumas para conseguir enxergar que o filho precisava de uma amiga. Seu pai se perdeu nos prazeres de uma mulher bem mais jovem que a sua mãe, e jamais se reencontraria novamente, tampouco o filho. Passou a ouvir a voz de seu pai ao telefone sempre falando de saudade de uma forma rápida e objetiva, perguntando coisas banais e por vezes sem sentido. Quanto mais distante seu pai se tornava, mais viva ficava na memória dele as imagens de seu pai e o som de “Letter to Hermione”. Era como se a voz de Bowie sempre tivesse existido, numa eternidade suave e profunda, numa beleza que o mundo jamais veria, somente ele. Seu pai morreria e, no velório, ele não escutaria mais nada, somente essa música. Seu pai... Seu pai... Pai...
E essa música iria perpassar toda a sua vida, como se fosse a trilha sonora de uma existência harmonicamente cinematográfica. Em todos os momentos da vida dele “Letter to Hermione” apareceria em seu coração, seja na saudade do pai, seja na tristeza da perda, seja na rotina do trabalho, seja na lembrança dos seus poucos mas intensos amores. O que é o pouco? O que é ter poucas mulheres? Não importa. O que importava é que ele sentia que tinha amado poucas mulheres. Sabia a conta exata de quantas mulheres tinha ficado na vida. Maria tinha sido a primeira que ele levara para cama e a única com quem ele tinha sentido uma ligação forte, duradoura, que agora lhe era resgatada depois de estar muitos anos suspensa em seu espírito. De vez em quando sonhava com Maria, mas, ao acordar, procurava expulsar a imagem dela da cabeça através de alguma atividade qualquer. Tinha sido a sua primeira mulher na cama, o primeiro corpo nu de mulher que ele viu na sua frente, o primeiro par de seios fartos e brancos, com mamilos rosados, arrepiados, convidando ele para repousar ali os seus lábios de homem transformado em menino. E por muitas vezes beijou aqueles seios de forma suave ao mesmo tempo em que voraz. E se perdia naquela sensação de ser o rei do mundo ao longo dos eternos instantes nos quais ele gozava do prazer de ser o escolhido para ver aquele belo corpo de Maria... Corpo de beleza singela e suave... Beleza que jamais deixou o espírito dele ao longo de toda a sua vida... Já não se lembrava mais o porquê que Maria tinha ido embora de sua vida... Ah, sim, claro... Houve outra mulher entre eles durante um tempo... Uma mulher que apareceu, o encantou e que foi embora, levando dele Maria que, triste pela traição, jamais voltou a se entregar a ele... Engraçado que essa mulher não estava mais na mente dele, ao menos não de forma clara. Lembrava que ela tinha um rosto moreno, mas as feições de rosto pelo qual ele um dia jurou estar apaixonado haviam sido apagadas de sua mente, como um nome escrito na areia se apaga com o tempo e o vento...  Enquanto o rosto de Maria permaneceria vivo na sua memória pelo resto da sua vida, as origens do seu sorriso, o fechar sonolento de seus olhos, os cabelos lisos a balançar no vento praieiro de terras distantes... Enquanto Maria vivia como uma entidade dentro do corpo dele, o possuindo, o embebendo, enquanto ele tentava se afastar da imagem dela, a imagem da outra tinha-lhe fugido da cabeça como num piscar de olhos. Era estranho que ele tivesse ficado com essa outra se ela não tinha criado nele raízes... Por que deu nela aquele beijo? Por que se envolveu? Por que sonhou? Por quê?
Isso não importa... O fato é que a mágoa havia tirado Maria de sua vida e a dor do leite derramado se instalou no seu peito. Seria obrigado a ver Maria casando com outro, tendo filhos com outro, o esquecendo, o destruindo, o humilhando na frente de todos os deuses do amor e da cólera, o ignorando diante da sua nova vida vivida nos braços e no gozo de outro rapaz... E quantas vezes ele iria pensar nisso ouvindo no rádio ou no coração “Letter to Hermione”...  E quantos maços de cigarro iriam ser consumidos, e quantas vezes a música se repetiria em sua mente, e quantas vezes o sorriso de Maria iria aparecer desenhado na sua mente como um raio eterno e brilhante... E suave... E belo... Quantas vezes iria ele se consumir, quantas vezes, meu Deus...  E na cela agora ele se perguntava, com a música tocando no seu peito e as lágrimas lhe banhando os olhos, se ela ainda pensava nele, se o amor que ela sentira por ele tinha virado ruínas de um tempo maravilhoso, apesar de tudo... Será que haveria espaço para ele ainda no coração de Maria?
                                                               
                                                            ...
Isso não importa... O que importa é que Maria sempre viveria no coração dele, sempre ocuparia o espaço maior do coração dele, sempre apareceria nos seus sonhos, na sua insônia e na sua saudade... O traidor sentiu mais dor que o traído... A vida tem dessas coisas, ao menos às vezes... E em pensar que muitos dos seus amigos em comum com Maria o julgaram de forma tão severa, como se a presa abatida tivesse sido Maria... Não... Ele traiu a quem ele amava... Ele era a eterna presa de si mesmo...
A madrugada fria e chuvosa havia se rompido sem que ele percebesse... A hora havia chegado... Já era de manhã, já era a hora de sua morte... Ao lado dos policiais ele estava acorrentado e andava desse jeito... A música não lhe saía da cabeça... O sorriso de Maria não lhe saía da cabeça... O caixão de seu pai não lhe saía da cabeça... E de repente tudo lhe veio junto, como numa multidão de lembranças a lhe doer o peito, a lhe perturbar a cabeça... Estádios de futebol, seu pai reclamando do time, ele sozinho em estádios de futebol, o sorriso de Maria, o beijo da outra, o casamento de Maria, “Letter to Hermione”, seu pai na sala ouvindo música, sua mãe chorando, seu pai ao telefone, seu primeiro emprego, o sorriso de Maria, o sorriso de Maria, o sorriso de Maria, aonde está ela agora? Sylvia Plath, Sylvia Plath, mulheres semi-nuas... Tudo o que ele havia realmente amado ou odiado na vida estava presente na sua memória ao longo do corredor... Tudo e nada ao mesmo tempo... Ao sentar na cadeira elétrica o carrasco lhe perguntou qual seria o seu último pedido. Não pensou duas vezes. Um cigarro Hollywood, do maço vermelho...
Logo o cigarro apareceu... E toda a sua vida lhe saiu do corpo antes mesmo que ele tivesse sido executado. Enquanto ele fumava, as dores de sua alma iam-lhe saindo pela fumaça, e dessa vez nunca mais voltariam. Era como se ele tivesse se visto diante de si mesmo, com a sua alma nua dentro de seu passado, fundida no seu passado, aberta no seu passado. E fumando o cigarro, pensou bem alto FODA-SE... Ele se perdoou... Se perdoou por ter sido feliz, por ter sido triste, por ter sido traidor, por ter sido ruim, por ter sido bom... Ele se perdoou por ter vivido...


O cigarro acabou... E as lágrimas de seu rosto se secaram...


Denis de Barros

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Beijos da memória


Pra que relembrar
Se no tempo
Não posso voltar?
Pra que entender
Se o bonde já passou?
Pra que olhar
A jarra de vinho
Que se quebrou?
Pra que chorar
Se você não está mais
Aqui?

Vou pegar um livro para ler
Vou conversar com um amigo
Vou ligar a tv
A vida é inútil
Mas ela está viva
E é preciso viver...

Denis de Barros

De tanto viver


Olho
E de tanto olhar
Vejo...
Procuro
E de tanto procurar
Não encontro
Algo que me faça
Sorrir em paz
Beber em paz
Dormir em paz...

Ando...
E de tanto andar
Me canso
Choro
E de tanto chorar
Durmo...

Leio
E de tanto ler
Me perco
Amo
E por te amar
Minha alma com nada mais
Se satisfaz...

Por causa do amor
A alegria não me pertence mais...

Denis de Barros

Longe demais de ti...


Eu vim aqui por um motivo
Inútil e límpido
Cheguei aqui cansado
De sofrer sozinho
E trago a minha dor
Materializada no meu olhar
Perdido...

Vim aqui dizer que te amo
Sei que isso não mudará nada
Pois você virou, para mim,
Uma rocha
E tudo que eu digo
Chega em ti
E bate e volta...

Mas ainda assim
Preciso dizer
Que te amo
Pois meu amor por ti
É um filho que pari redescobrindo-o
E que renasceu
Tarde demais
Longe demais de ti...

Denis de Barros

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Cigarro: o melhor amigo do homem

Cena do filme "Boa noite, e boa sorte" de Geroge Clooney


Eu poderia começar esse post com um texto que falasse sobre qualquer outro assunto: política, literatura, cinema, teatro... Mas começo o meu querido post escrevendo sobre um outro elemento também querido e já há muito estimado por mim: o cigarro!
Todo o mundo reclama de fumantes. Todos, é claro, menos os próprios fumantes. “Você vai morrer!” “Para com isso, pelo amor de Deus.” “Você está se matando...” As frases de indignação são infinitas, e uma é mais chata do que a outra.  Mas não foram essas frases que me fizeram escrever esse post, pois a maioria das pessoas que me diz isso me ama e se preocupa comigo de verdade. Então, não escreveria nada para ironizar ou criticar esse tipo de colocação. O que me fez escrever esse post é a febre de anti-tabagismo que vem assolando o Brasil (e, me parece, grande parte do mundo ocidental).
Já perdi as contas de quantas vezes vi programas de Tv se dedicando  somente a elucidar os males causados pelo cigarro à saúde humana.  Se você digitar no google a frase “males causados a saúde”, você verá inúmeros sites que são dedicados especificamente ao cigarro e aos problemas que ele traz à saúde. Isso sem contar as propagandas da televisão. Mas o pior são os avisos do Ministério da Saúde brasileiro nas caixinhas de cigarro que nós, pobres fumantes, compramos semanalmente. Esses avisos são acompanhados de imagens de fumantes no hospital à beira da morte, de bebês espontaneamente abortados por causa do vício da mãe, um homem jovem olhando desesperado para o seu impotente órgão genital, que o deixou na mão justo na hora “H”, dentre outras bizarrices, que constituem um verdadeiro terrorismo psicológico para os fumantes.
É um prazer comprar um maço de cigarros, abri-lo, dar aquela cheiradinha neles antes de tirar um para, finalmente, depois desse pequeno ritual, fumar um cigarrinho ao ar livre, pensando na vida, ou não pensando em absolutamente nada, simplesmente existindo, entre uma baforada e outra. Mas esse prazer se transforma, momentaneamente, em um verdadeiro suplício para os fumantes. Eu fico horrorizado com aquelas propagandas anti-tabagistas. Me faz mal, me deixa muito preocupado. Mas rapidamente eu as ignoro e começo a fumar.
Mas a questão é: porque isso tudo contra o cigarro? Não estamos numa sociedade livre, onde a comercialização das coisas deve ser feita sem sentimento nenhum de culpa, nem por parte do vendedor, muito menos por parte do comprador? Mas o pior é a seguinte questão: numa sociedade ultra-capitalista e industrial, como é a sociedade contemporânea, não temos a menor idéia sobre os processos produtivos que estão por trás dos elementos alimentícios que compramos. Isso porque, diante de tantos avanços tecnológicos e do surgimento de grandes cidades, características marcantes e únicas das sociedades capitalistas pós-Século XIX, o conhecimento passou a ser algo muito específico e penoso para ser adquirido. Alguém aqui saca alguma coisa de química? Quem é que tem consciência da composição química do miojo, do refresco de laranja da Tang, da Coca-Cola, do arroz, do feijão, do tomate? Numa sociedade industrial, quase tudo que compramos para nos alimentarmos passa pela indústria para receber uma série de elementos químicos que surtem uma outra série de efeitos para variados fins, principalmente para a conservação dos alimentos para os mesmos não estragarem antes de serem vendidos. Então, numa sociedade materialista como a nossa, onde “tempo é dinheiro”, quase tudo é artificial. E vai pra nossa barriga.
Aí fica a pergunta: porque nas garrafas de Coca-Cola não vêm uma imagem de alguém morrendo acompanhada de um texto enumerando todos os elementos químicos que fazem parte desse refrigerante e que fazem mal à saúde humana? Porque a mesma coisa não é feita na caixinha de leite, no todynho, no ki-suco, no saco de arroz, de feijão e por aí vai? Só o cigarro causa males à saúde?
Diante dessa verdadeira demagogia e palhaçada, eu resolvi falar sobre o que o cigarro representa para mim. Cigarro não resolve os problemas de ninguém. Nunca fumei pensando que isso resolveria os problemas que tenho de enfrentar enquanto adulto. Falo isso porque esse constitui o pior argumento dos guerreiros anti-tabagistas que me cercam. “Porque você fuma? Isso resolve os seus problemas?” Não, sua anta estúpida, eu não fumo para resolver problemas. Antes de o cigarro virar um prazer para mim ele era pura estética. Comecei a fumar por ver os outros fumando e achar bonito. E ponto. Depois sim o cigarro virou um prazer para mim. E, a partir daí, o cigarro virou o que ele é para mim até hoje e será até o dia do meu enfisema pulmonar: o meu melhor amigo.
A qualquer momento, em qualquer hora e por um preço tão caro quanto as passagens de ônibus desse país patético em que vivemos, o cigarro está aqui, no meu bolso, pronto para ouvir o meu silêncio. Amigos se cansam de ouvir sobre as nossas ideias e problemas. Meus parentes vivem um cristianismo medieval onde tudo é explicado e resolvido se obedecermos e orarmos a Deus. Para eles não há espaço para criatividade e idiossincrasias: cala a boca, peça perdão e obedeça. Heil Jesus! Terapeutas, em sua maioria, são pagos para fazer a gente se sentir bem com a gente mesmo, independente do que o ser humano que está por trás do terapeuta acha realmente do que nós somos. Os livros de auto-ajuda são a mesma coisa, mas com um colorido bem diferente: neles sempre somos fortes, felizes, guerreiros, saudáveis. Só nós não percebemos isso antes. Daí vem um escritor e diz isso tudo para a gente, publica, põe no shopping para vender e todo mundo sai feliz ao ser convencido de que é feliz e forte, apesar de ser velho, brocha, divorciado, doente, sozinho e com uma aposentadoria pífia.
O meu cigarro nunca tentou me convencer de que sou o que não sou, de que não cometi os erros que cometi, de que não perdi as coisas que perdi na vida, de que sou foda quando não passo de um rapaz de 24 anos, professor de sociologia da rede pública e privada, ganho pouco e mal tenho dinheiro para realizar planos que considero essenciais na minha vida, como comprar um carro e uma casa. Toda vez que eu abro meu maço de cigarros eles, os cigarros, não me dizem nada. Enquanto a fumaça entre pela minha boca, passa pela minha garganta, chega nos meus pulmões para depois fazer o caminho inverso, eu sinto o gosto do cigarro e, paralelo ao prazer que isso em si mesmo me dá, eu vou pensando e repensando a vida e tudo que nela há. Aos poucos eu vou tomando consciência de mim mesmo, lembrando e relembrando o tempo presente e o tempo passado, e descobrindo que eles, na verdade, são um só. Nesses momentos eu me reconstruo e, às vezes, depois que termino o cigarro, vou dormir triste comigo mesmo e com a vida. Outras vezes durmo, não feliz, mas conformado. Em outras ainda durmo indiferente, convencido de que a vida é um mistério e a sabedoria, muitas vezes, só nos chega quando não precisamos mais dela, como dizia o prolixo Gabriel Garcia Marques.
O cigarro é, enfim, um amigão. Um amigo silencioso e que me mata aos poucos, sem que eu perceba. Assim como as pessoas... Assim como a vida...

Denis de Barros

O céu está triste

Chove a chuva
O céu está triste
Chove muito
Enquanto
Estou eu aqui
No ônibus
Sentado no meu canto...

Chove a chuva
Sobre a terra as tristezas dos homens
Despejando...
Chove a chuva
E eu, aqui, triste
Digo a ela
Chuva...
Chove...
E enxuga o meu pranto...

Denis de Barros

As lágrimas




Minhas lágrimas caem
Do abismo do meu
Coração

E param
No meu olhar distraído...


Denis de Barros