segunda-feira, 17 de junho de 2013

Imagens de uma segunda-feira cinza





Pela janela vejo uma manhã chuvosa de uma segunda-feira meio cinza. Estou com o meu gato, Tom, no colo, o qual resiste em me deixar escrever, pois ele adora morder os meus dedos. Está tudo tranqüilo. Mas não sei se meu dia terminará assim, pois ele também não começou tranquilo. Acordei com o barulho de bombas na minha cabeça e com a sensação de estar sendo perseguido... Acordei com uma raiva e com uma tristeza que não cabiam em mim... Carrego no peito o ódio de quem não tem o direito de dar a sua opinião, de expressar aquilo que sente e que pensa... Ideias no Brasil são motivos para levar balas de borracha pelo corpo... E no protesto de ontem, no Rio, não foram só balas de borracha que foram usadas...

            O medo de estar diante de uma polícia que não tem senso nenhum de cidadania e humanidade é devastador. Só quem viveu isso é quem sabe. Os fardados no nosso país não nos defendem, nos humilham, nos batem, nos expulsam do exercício da cidadania. É na rua que se faz política. Mas no Brasil a rua é um lugar perigoso para quem não anda na linha... E andar na linha aqui é fazer parte de uma ordem que nos fere, nos machuca, nos rouba de forma descarada, ao mesmo tempo que muda, surda, cega... Mas não inconsciente... Pois todos sabem que esse país é sistematicamente saqueado... Uns sabem mais, outros menos, mas todos sabem... O problema é que o saque e a consciência dele fazem parte da ordem brasileira... Lima Barreto já denunciou isso há cem anos... E de lá pra cá a ordem permanece...

            Há quem pregue a ida às ruas com coquetéis molotov. Eu não sei até que ponto eles estão errados, se é que estão. A estética da violência é bela, mas sua beleza é mortal. É bonito para quem está na frente da TV, mas feio para quem respira um gás que te faz chorar, tossir e respirar mal... As pichações e os lixos pegando fogo, os ônibus depredados e os vidros de bancos quebrados são horríveis aos olhos de quem caminha nas ruas, mas belo para quem entende que essas instituições são as que nos destroem de forma imperceptível, pois nós queremos a destruição de nós mesmos. Nascemos num mundo que nos ensina a gostar e a querer sermos explorados... Nós somos feridos e não sentimos a dor... E quando um de nós quebra as amarras, esse um grita, esperneia, mas ninguém ouve... “You shout but no one seems to hear...” As palavras de Waters nunca fizeram tanto sentido pra mim...

            E quem dirá que a violência suja de uma manifestação não é justa? Se ser pacífico não adiantou de nada até agora, porque não destruir os vidros de uma cidade que nos destrói por dentro de nossos espíritos? Ontem, na manifestação do Maracanã, estávamos de joelhos diante da polícia, quando eles começaram a dar tiros e a jogar bombas de gás lacrimogêneo em  cima de nós... Éramos os bonequinhos de fazer rir policiais que, de todo, não têm muito o que fazer... Os fardados do Brasil possuem um senso de ordem sem igual, mas não têm alma, tampouco inteligência... Acham que veem, mas não veem. Acham que ouvem, mas não ouvem... São espantalhos feitos da palha mais suja que há entre as palhas usadas para construir a nossa democracia... A democracia de uma constituição ambígua, confusa e constantemente manipulada a favor do mais forte...

            Hoje é dia de luta, de rua, de cidadania exercitada. Aos moralistas eu dou o meu “foda-se”. Aos estáticos eu sugiro a leitura de Marcuse, Foucault, Adorno, Barreto, Torres, Leminski e companhia... E aos manifestantes eu desejo sorte e, sobretudo, força... Que possamos voltar pra casa com a sensação de dever cumprido, de cidadania exercida, e sem marcas pelo corpo... E aos policiais... Bem, de vocês... Eu tenho pena...