Pela janela vejo uma manhã
chuvosa de uma segunda-feira meio cinza. Estou com o meu gato, Tom, no colo, o
qual resiste em me deixar escrever, pois ele adora morder os meus dedos. Está
tudo tranqüilo. Mas não sei se meu dia terminará assim, pois ele também não
começou tranquilo. Acordei com o barulho de bombas na minha cabeça e com a
sensação de estar sendo perseguido... Acordei com uma raiva e com uma tristeza
que não cabiam em mim... Carrego no peito o ódio de quem não tem o direito de
dar a sua opinião, de expressar aquilo que sente e que pensa... Ideias no
Brasil são motivos para levar balas de borracha pelo corpo... E no protesto de
ontem, no Rio, não foram só balas de borracha que foram usadas...
O
medo de estar diante de uma polícia que não tem senso nenhum de cidadania e
humanidade é devastador. Só quem viveu isso é quem sabe. Os fardados no nosso
país não nos defendem, nos humilham, nos batem, nos expulsam do exercício da
cidadania. É na rua que se faz política. Mas no Brasil a rua é um lugar
perigoso para quem não anda na linha... E andar na linha aqui é fazer parte de
uma ordem que nos fere, nos machuca, nos rouba de forma descarada, ao mesmo
tempo que muda, surda, cega... Mas não inconsciente... Pois todos sabem que
esse país é sistematicamente saqueado... Uns sabem mais, outros menos, mas
todos sabem... O problema é que o saque e a consciência dele fazem parte da
ordem brasileira... Lima Barreto já denunciou isso há cem anos... E de lá pra cá
a ordem permanece...
Há
quem pregue a ida às ruas com coquetéis molotov. Eu não sei até que ponto eles
estão errados, se é que estão. A estética da violência é bela, mas sua beleza é
mortal. É bonito para quem está na frente da TV, mas feio para quem respira um
gás que te faz chorar, tossir e respirar mal... As pichações e os lixos pegando
fogo, os ônibus depredados e os vidros de bancos quebrados são horríveis aos
olhos de quem caminha nas ruas, mas belo para quem entende que essas instituições
são as que nos destroem de forma imperceptível, pois nós queremos a destruição
de nós mesmos. Nascemos num mundo que nos ensina a gostar e a querer sermos
explorados... Nós somos feridos e não sentimos a dor... E quando um de nós
quebra as amarras, esse um grita, esperneia, mas ninguém ouve... “You shout but
no one seems to hear...” As palavras de Waters nunca fizeram tanto sentido pra
mim...
E
quem dirá que a violência suja de uma manifestação não é justa? Se ser pacífico
não adiantou de nada até agora, porque não destruir os vidros de uma cidade que
nos destrói por dentro de nossos espíritos? Ontem, na manifestação do Maracanã,
estávamos de joelhos diante da polícia, quando eles começaram a dar tiros e a
jogar bombas de gás lacrimogêneo em cima
de nós... Éramos os bonequinhos de fazer rir policiais que, de todo, não têm
muito o que fazer... Os fardados do Brasil possuem um senso de ordem sem igual,
mas não têm alma, tampouco inteligência... Acham que veem, mas não veem. Acham
que ouvem, mas não ouvem... São espantalhos feitos da palha mais suja que há
entre as palhas usadas para construir a nossa democracia... A democracia de uma
constituição ambígua, confusa e constantemente manipulada a favor do mais
forte...
Hoje
é dia de luta, de rua, de cidadania exercitada. Aos moralistas eu dou o meu “foda-se”.
Aos estáticos eu sugiro a leitura de Marcuse, Foucault, Adorno, Barreto, Torres,
Leminski e companhia... E aos manifestantes eu desejo sorte e, sobretudo, força...
Que possamos voltar pra casa com a sensação de dever cumprido, de cidadania
exercida, e sem marcas pelo corpo... E aos policiais... Bem, de vocês... Eu
tenho pena...
