quinta-feira, 3 de julho de 2014

Água de chuva



Querida Ana,

Estou indo embora para Portugal. Deixei Luiza, arrumei minhas coisas e, antes de partir, estou escrevendo, agora, essa carta patética para você, te deixando de presente esse livro que me marcou muito. Não passei nas escolas nas quais trabalho. Tô tão saturado daquilo tudo que não quero falar com ninguém, só quero ir embora. Tentar a vida, a sorte, o azar, o amor, o ódio. Tentar. Ser ou tentar ser o que sempre quis ou o que sempre fui e não sabia, ou fingia que não sabia. Deixar a arte correr nas minhas veias e cortar essas veias para, delas, ver jorrar criatividade, horror, beleza, dor... Sei lá. Talvez eu busque a mais pura criação artística ou existencial. Talvez eu busque a alegria fácil da infância. Talvez eu queira me sentir vivo de novo. Talvez eu queira mesmo ser surpreendido de alguma forma. O que levaria, pois, um homem na minha idade a fazer a loucura que agora faço? Minha pequena Lu não me verá enquanto ela estiver crescendo. Não sei dizer se fico feliz ou triste com isso. Crescer para mim é caminhar rumo ao matadouro. O caminho até esse matadouro é belo, sem dúvida. Mas é pesado demais, pelos menos o foi para mim até aqui. Já não me importa mais saber quem sou. Já não acredito mais nisso de "eu sou". Como se um eu estivesse dormindo dentro de cada pessoa esperando que ela deixe a sua própria filha para ser descoberto. Eu sou, ora. Na vida se é. Simplesmente se é e, um dia, cedo ou tarde, se deixa de ser. Não é assim? 

Naquelas escolas nas quais lecionei há tanta pobreza. Pobreza de todos os tipos. Os nadas. As ausências. A falta do domínio da nossa língua como uma das principais ausências. Do domínio completo da língua, quero dizer. Saber brincar com a língua de tal forma que se possa ouvir Construção, de Chico Buarque, por exemplo, e poetar junto com o eu-lírico dessa canção. Não que eu ache que isso seja necessário. Só acho que é uma possibilidade, uma habilidade negada aos filhos esquecidos desse país, os novos esquecidos, os subesquecidos, os esquisitos, os "restos de nada", os um monte de coisas. (E quem os esqueceu?) Um monte, quase todas pejorativas. O que dá dó, pois eles são tão doces, tão doces, tão doces... E tão violentos, tão agressivos. Tão cheios de vida, de energia, de alegria, de força, de criatividade. De tantos sonhos não sonhados e abortados antes do ato próprio de sonhar. Tantos sonhos sem sonhar, tantos sonhos sem início, tantos sonhos sem pensar, tantos sonhos, deus, tantos, tantos... Tantos afogados nos caminhos de pedra quente e áspera da morte cristã, a mesma que promete salvação matando o espírito para salvar o espírito. Tantas são as almas perdidas buscando se encontrar na perdição do caminho rumo a uma eternidade inútil na qual se falará hosana nas alturas ao todo poderoso. Tantas dentro das minhas escolas, tantas, tantas...

Já me perco ao escrever. Me perco por falar nisso de tanto que me dói. Volto ao livro. A esse livro. Esse que foi o último que li antes de decidir fazer o que hoje estou fazendo. Trata-se de 2666, de Bolaño. As últimas páginas dessa obra foram escritas praticamente no leito de morte. O autor estava morrendo, mas continuou a escrever. O livro é inacabado, pois o autor morreu antes de acabá-lo. Mas grande foi o impacto que essa obra me causou. Ela começou cansativa, meio sem nexo. Seu grande tema é a banalidade, o fluir da vida humana, as decisões das pessoas, o cotidiano delas, o que há de banal nesse cotidiano, e o extraordinário emergindo do cotidiano. Bolaño é o poeta da vida tosca, que é bela simplesmente por ser tosca, simples, sem sentido último, pleno, futuro, mas tão cheia de sexo, de amigos, de música, de livros, de mais sexo, e mais livros, e histórias, de caminhos e descaminhos. Ele cria aqui um mundo que é uma pintura do mundo real, no qual as pessoas aparecem caminhando em caminhos que desenham riscos sem sentido, rumo a morte, destino de todos nós. No lugar dele eu, talvez, tivesse me matado para agilizar a morte; ou tivesse fumado muito, ou bebido muito, ou transado muito, ou dormido muito, ou reclamado muito. Mas Bolaño passou seus últimos anos escrevendo. Talvez porque ele acreditasse que a arte é o nosso único sentido. Enfim... O fato é que esse livro me tomou, me arrebatou de certa forma. Meu personagem favorito nele é Hans Reiter. Uma criança peculiar, estranha, mágica, que se tornou um adulto mágico depois de ter passado pelo exército nazista e ter casado com uma louca romântica (isso não é redundância?). Enfim... 

Ana, esse livro está manchado embaixo. Trata-se de água de chuva. Fico envergonhado em te dar um livro nesse estado, mas penso que você deva se orgulhar dessa mancha, como eu mesmo me orgulho dela. Eu a ganhei numa manifestação de rua em decorrência da última greve dos professores de nossa cidade (lembra? você ouviu falar?). A chuva começou a cair logo depois do início do ato. A polícia começou a nos empurrar gritando “meia pista, meia pista, porra, meia pista, caralho!”. Fechamos a Presidente Vargas. Éramos tão poucos. E a chuva desabava. Como tão poucos fecham quase todas as pistas de uma enorme avenida de uma cidade enorme? Fechamos e pintamos o chão com palavras de ordem (mas a chuva levou as palavras de ordem, como num ato de deboche ou de advertência) e desafiamos a polícia e gritamos e pulamos e ficamos na frente dos carros. Alguns companheiros meus foram agredidos e detidos; duas amigas minhas tiveram seus cabelos puxados pelos policiais. Eu me perguntava o que estaria fazendo ali. Pra quê? Por quê?A chuva caía com força. Qual era o sentido daquilo tudo? Esse livro estava na minha mochila. A chuva caía com força. Eu acreditei que a mochila fosse forte o suficiente, mas não era. A chuva caía com força. E a chuva manchou meu livro. Lembro de ter chorado nessa manifestação. Eram uns 200 professores contra toda uma cultura política. Ou contra a mais pura indiferença. Ou a mais sensata razão. Uns poucos bárbaros desafiando inutilmente a nossa civilização bárbara. Por isso me orgulho dessa mancha. Foi a mancha certa no livro certo. A chuva caiu com força naquele dia. O desafio pode ter sido inútil. Mas a ação é alguma coisa, ué? A chuva penetrou na minha mochila e manchou o meu livro. Choveu horrores naquele dia. 

Tirei dessa obra o que pude. Tire dela agora o que você puder. Mantenha-na contigo. Sonhei com você lendo esse livro. Você estava nua no nosso. Foi um sonho bonito. Foi quando descobri que esse livro era, na verdade, seu. Dê a quem você quiser depois de lê-lo. Mas leia-o, por favor. Cuide de Luiza por mim como não pude cuidar dela eu mesmo. Como cuidei de você um dia. Lembra que cuidei de você? Estranho não saber eu hoje como pude parar aqui, no início de um caminho inverso da colonização. Na solidão. Na vastidão. Na abertura. Como vou te deixar pra trás? Como posso deixar a minha vida aqui para trás? Como cheguei a esse ponto? O que me trouxe aqui? Algo me trouxe aqui? Duvido. Somos tão diferentes do que esperávamos nos tornar, né? Como é estranha a nossa juventude... Estranha beleza, estranhos sonhos. Estranha... 

Como não sei terminar cartas, nem conversas, nem relacionamentos, nem nada, termino essa por aqui. Espero viver o suficiente para te reencontrar. Espero mais ainda morrer um dia, repentinamente, sem dor.

Até,



P.