sábado, 15 de junho de 2013

Riots



Eu prometi pra mim mesmo que não iria assistir ao vídeo do Arnaldo Jabor falando sobre os protestos em São Paulo e no Rio. Mas depois que vi que tem mais de 40 mil pessoas curtindo a página dedicada e esse cidadão no facebook, resolvi assistir. Antes eu tivesse mantido o meu projeto inicial de não assistir... Mas na vida é preciso dialogar com os idiotas também, né? Então, vamos lá...
Não consigo entender a admiração que muitas pessoas têm por personagens como Jabor e Bial. Há quem se derreta em falar sobre eles, dizendo que se tratam de pessoas muito inteligentes e coisa e tal. Quando eu era moleque eu assistia ao JN com a mesma opinião dessa galera, apesar de não entender patavinas do que o Jabor dizia nos discursos que assistia nessa época.
A impressão que tenho é que todo o mundo que fala meia dúzia de palavras bonitas e de forma (mais ou menos) bem articulada, usando um terno e gravata ou com um óculos estilo "você é a doença e eu sou a cura" (e como os pseudo intelectuais à la Bial gostam desses óculos...) vai ser considerado inteligente, crítico, interessante ou qualquer desses blablablas que a gente ouve por aí...
O fato é que por detrás das palavras enfeitadas de pessoas como Jabor se escondem ideias fracas e, por vezes, desconexas da realidade. De fato os protestos estão sendo marcados pela presença de jovens de classe-média. E daí? A juventude de classe média nesse país é a galera que possui capital cultural e tempo de reflexão e atitude políticas, coisa que a imensa maioria dos trabalhadores adultos brasileiros, subempregados e superexplorados, não possui. 
Eu não estou dizendo que esses jovens de classe-média são os únicos capazes de raciocínio crítico nesse país. Não é nada disso. Em geral o brasileiro é sim um povo crítico, nem de longe bobo e cego como muitos acham. O problema é que a atitude política requer um tempo e um capital que o trabalhador brasileiro em geral não possui. O cara vende o almoço para comprar a janta. E agradece a Deus pelo pão de cada dia... Mal tem tempo pra si mesmo, quem dirá para a coletividade. Protesto para ele é luxo...
É por isso que é a classe média jovem que está indo paras as ruas, puxando os protestos. E eles estão fazendo isso em nome de toda a cidade e de todo o país. Mas é preciso dizer uma coisa: eles não estão totalmente sozinhos. No protesto que fui no Rio na última quinta-feira, eu vi membros de torcidas organizadas de futebol do Vasco e do Flamengo, e também estudantes de colégios estaduais e federais, todos muito populares, muito povão, cada um agindo a seu modo. Em São Paulo a Gaviões da Fiel já está se mobilizando para participar do ato de segunda-feira. Enfim, o movimento é mais complexo do que um boçal como o Jabor pode imaginar...
Não sabemos ao certo o que significa, de fato, essa onda de protestos. O que me parece é que a juventude brasileira, de forma geral, não aguenta mais ver um país manipulado ao bel prazer de uma elite porca, que não possui nenhum tipo de compromisso com o bem comum.
Os cariocas veem estarrecidos a venda da nossa cidade para Eikes Batistas da vida. E a imprensa (com raras exceções) assinando embaixo tudo isso, com terno, gravata, sorriso no rosto e um plim plim nos dentes cínicos de quem constrói e vende a realidade da forma que bem entende, compactuando com os políticos mais sujos e perversos desse país.
E há o terror que a pretensa "fúria" dos manifestantes (ops, vândalos...) causa... Muros pichados, vidros quebrados, trânsito parado e lixos queimados. Os reaças assistem a isso com horror. Mas a violência nossa de cada dia dos hospitais sem equipamentos e médicos suficientes, das escolas sem infraestrutura, do Bope subindo os morros e matando pobres (e, sobretudo, negros), do trânsito infernal das grandes cidades e das enchentes de todos os verões, essas e muitas outras violências não são vistas como tais. No máximo são falhas técnicas, erros institucionais, "coisas que acontecem", mas nunca, nunca são vistas como violência...
E ainda vem o Jabor dizer que não pode ser por causa de R$ 0,20; que a causa dos protestos é a falta de causa; e que os turcos sim têm motivos para reclamar, nós não. Nós estamos muito bem, obrigado, com muito dinheiro no bolso, uma imprensa formidável, um governo que luta por nós e longe de qualquer fundamentalismo religioso (Feliciano e Malafaia são turcos, e não brasileiros...).
Toda essa droga sendo vomitada em horário nobre, por uma emissora que é a única a atingir a todos os cantos desse país. Mostram o quebra-quebra, a turbulência dos protestos, mas não dizem que essa turbulência é a síntese de uma sociedade saqueada por governos comprometidos com elites, e não com a população. Penso ser muito legítimo quebrar os vidros de instituições que querem que a gente se dane, desde que nos mantenhamos vivos para enriquecê-los às nossas custas.
Arnaldo Jabor vale R$ 0,20. Quem concorda com ele vale menos que isso, bem menos. E quem vai para as ruas paralisar o trânsito para esfregar na cara da sociedade os problemas dela mesma vale muito, vale tudo. Vale a vida, vale o país...

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