
Eu prometi pra
mim mesmo que não iria assistir ao vídeo do Arnaldo Jabor falando sobre os protestos
em São Paulo e no Rio. Mas depois que vi que tem mais de 40 mil pessoas
curtindo a página dedicada e esse cidadão no facebook, resolvi assistir. Antes
eu tivesse mantido o meu projeto inicial de não assistir... Mas na vida é
preciso dialogar com os idiotas também, né? Então, vamos lá...
Não consigo
entender a admiração que muitas pessoas têm por personagens como Jabor e Bial.
Há quem se derreta em falar sobre eles, dizendo que se tratam de pessoas muito
inteligentes e coisa e tal. Quando eu era moleque eu assistia ao JN com a mesma
opinião dessa galera, apesar de não entender patavinas do que o Jabor dizia nos
discursos que assistia nessa época.
A impressão
que tenho é que todo o mundo que fala meia dúzia de palavras bonitas e de forma
(mais ou menos) bem articulada, usando um terno e gravata ou com um óculos
estilo "você é a doença e eu sou a cura" (e como os pseudo
intelectuais à la Bial gostam desses óculos...) vai ser considerado
inteligente, crítico, interessante ou qualquer desses blablablas que a gente
ouve por aí...
O fato é que
por detrás das palavras enfeitadas de pessoas como Jabor se escondem ideias
fracas e, por vezes, desconexas da realidade. De fato os protestos estão sendo
marcados pela presença de jovens de classe-média. E daí? A juventude de classe
média nesse país é a galera que possui capital cultural e tempo de reflexão e
atitude políticas, coisa que a imensa maioria dos trabalhadores adultos brasileiros,
subempregados e superexplorados, não possui.
Eu não estou
dizendo que esses jovens de classe-média são os únicos capazes de raciocínio
crítico nesse país. Não é nada disso. Em geral o brasileiro é sim um povo
crítico, nem de longe bobo e cego como muitos acham. O problema é que a atitude
política requer um tempo e um capital que o trabalhador brasileiro em geral não
possui. O cara vende o almoço para comprar a janta. E agradece a Deus pelo pão
de cada dia... Mal tem tempo pra si mesmo, quem dirá para a coletividade.
Protesto para ele é luxo...
É por isso que
é a classe média jovem que está indo paras as ruas, puxando os protestos. E
eles estão fazendo isso em nome de toda a cidade e de todo o país. Mas é
preciso dizer uma coisa: eles não estão totalmente sozinhos. No protesto que
fui no Rio na última quinta-feira, eu vi membros de torcidas organizadas de
futebol do Vasco e do Flamengo, e também estudantes de colégios estaduais e
federais, todos muito populares, muito povão, cada um agindo a seu modo. Em São
Paulo a Gaviões da Fiel já está se mobilizando para participar do ato de
segunda-feira. Enfim, o movimento é mais complexo do que um boçal como o Jabor
pode imaginar...
Não sabemos ao
certo o que significa, de fato, essa onda de protestos. O que me parece é que a
juventude brasileira, de forma geral, não aguenta mais ver um país manipulado
ao bel prazer de uma elite porca, que não possui nenhum tipo de compromisso com
o bem comum.
Os cariocas
veem estarrecidos a venda da nossa cidade para Eikes Batistas da vida. E a
imprensa (com raras exceções) assinando embaixo tudo isso, com terno, gravata,
sorriso no rosto e um plim plim nos dentes cínicos de quem constrói e vende a
realidade da forma que bem entende, compactuando com os políticos mais sujos e
perversos desse país.
E há o terror que a pretensa
"fúria" dos manifestantes (ops, vândalos...) causa... Muros pichados,
vidros quebrados, trânsito parado e lixos queimados. Os reaças assistem a isso
com horror. Mas a violência nossa de cada dia dos hospitais sem equipamentos e
médicos suficientes, das escolas sem infraestrutura, do Bope subindo os morros
e matando pobres (e, sobretudo, negros), do trânsito infernal das grandes
cidades e das enchentes de todos os verões, essas e muitas outras violências
não são vistas como tais. No máximo são falhas técnicas, erros institucionais,
"coisas que acontecem", mas nunca, nunca são vistas como violência...
E ainda vem o
Jabor dizer que não pode ser por causa de R$ 0,20; que a causa dos protestos é
a falta de causa; e que os turcos sim têm motivos para reclamar, nós não. Nós
estamos muito bem, obrigado, com muito dinheiro no bolso, uma imprensa
formidável, um governo que luta por nós e longe de qualquer fundamentalismo
religioso (Feliciano e Malafaia são turcos, e não brasileiros...).
Toda essa
droga sendo vomitada em horário nobre, por uma emissora que é a única a atingir
a todos os cantos desse país. Mostram o quebra-quebra, a turbulência dos
protestos, mas não dizem que essa turbulência é a síntese de uma sociedade
saqueada por governos comprometidos com elites, e não com a população. Penso
ser muito legítimo quebrar os vidros de instituições que querem que a gente se
dane, desde que nos mantenhamos vivos para enriquecê-los às nossas custas.
Arnaldo Jabor vale
R$ 0,20. Quem concorda com ele vale menos que isso, bem menos. E quem vai para
as ruas paralisar o trânsito para esfregar na cara da sociedade os problemas dela
mesma vale muito, vale tudo. Vale a vida, vale o país...
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