Todas as sociedades possuem
problemas coletivos. Saúde, educação, estrutura urbana, corrupção e muitos
outros elementos de ordem geral, que tocam a vida das pessoas como um todo, não
são exclusivos do Brasil, nem dos brasileiros. Mas talvez não haja uma
sociedade onde impere uma lógica tão individualista quanto a nossa. Passamos de
uma sociedade aristocrática para uma sociedade liberal como num passe de
mágicas. De repente estava abolida a escravidão e o Império estava acabado.
Começou a democracia que, apesar de falsa e incompleta, era a nova ordem da
nação. A partir daí, ao que me parece, o indivíduo passou a ser a medida de
todas as coisas no Brasil. O país da desigualdade institucional passou a ser o
país cujo horizonte era, agora, a igualdade, mesmo que posta num discurso vazio
de nossos governantes e das instituições daqui. Igualdade no discurso e
desigualdade na prática. Assim começamos a caminhar nos tempos modernos
brasileiros...
Hoje temos uma sociedade onde o
ideal de indivíduo e de mérito vigora muito fortemente em nós. Acreditamos que
o aluno que passa no vestibular é um herói solitário, que não precisou de nada
nem de ninguém para conseguir seu feito. O mesmo serve para jogadores de futebol
como Romário, o qual acreditamos que não treinava, pois se tratava de um gênio
que driblou a pobreza para se tornar ídolo, apesar de ele mesmo já ter falado em
entrevista que as pessoas confundiram o fato de ele não gostar de treinar com a
ilusão de que ele não treinava. Os livros de autoajuda pululam nas estantes das
lojas brasileiras, todos eles nos ensinando a nos superarmos, como se somente
de nós dependesse todo o nosso destino. O facebook, por sua vez, reflete isso
na quantidade de posts nos quais as pessoas tiram fotos de si mesmas, do
cachorro, do gato, contam intimidades, fazem comentários fúteis, por vezes
agressivos, mas que se recusam a discutir questões mais gerais, achando-as
enfadonhas e chamando de enfadonhos quem levanta essa peteca.
Vivemos numa sociedade de átomos
no Brasil, ao que tudo indica. As pessoas vivem como átomos, cagando para a
coletividade, se cultuando e cultuando pessoas que se cultuam, as famosas
celebridades brasileiras, que são tão célebres quanto idiotas (Luciano Huck, Angélica,
Regina Casé e afins...). Os problemas coletivos daqui estão cada vez mais
graves, mas a crítica a esses problemas surgem de átomos, nunca de indivíduos
com alguma mentalidade coletiva. A percepção das pessoas aqui é individual,
assim como a ação na vida também o é. Quem nada contra essa corrente por aqui
ou vira um chato, ou um formador de opiniões; ou, o que é pior, um chato
formador de opiniões. Compram-se opiniões prontas, mas ninguém quer se dar o
esforço de construir uma opinião própria e com qualidade. Deve ser por isso que
Jabor faz tanto sucesso por aqui...
As discussões também são
realizadas no nível dos átomos. Pessoas se ofendem quando se sentem encaixadas
em alguma colocação com a qual não concordam. Eu mesmo já fui muito criticado
por postagens que tinham um teor crítico contra determinados grupos sociais,
como evangélicos, professores (grupo do qual faço parte), policiais,
classe-média etc. Vários amigos aparecem para dizer "sacanagem você dizer
isso, pois você está generalizando". Se a gente critica a bancada
evangélica do Congresso Nacional, os evangélicos do face aparecem, ofendidos. O
mesmo ocorre com os professores e com os outros grupos aqui citados. Vivendo
como átomos e fazendo parte da coletividade de forma atomizada, nunca a crítica
é percebida como uma argumentação que atinge a essência de um grupo, mas sim
como uma questão pessoal, um ataque ao próprio caráter da pessoa. Ninguém pensa
que precisa rever seus conceitos ou os conceitos dos grupos dos quais faz
parte. São as nossas escolhas, o nosso grupo, a nossa vida, e ninguém tem o
direito de falar nada, pois se o fizer, ofenderá.
Hoje mesmo entrei numa discussão
feroz com amigos médicos, os quais estimo de verdade. O motivo foi uma postagem
que criticava a postura de parte da classe médica, que se opôs a vinda de
médicos cubanos ao Brasil, por razões superficiais, as quais ninguém entende
direito, talvez nem eles. A essa parte me referi com a expressão "bando de
otários". Acabei por acender um barril de pólvoras, pois muitos colegas
entenderam que eu estava chamando a todos os médicos desse país de otários e de
playboys. Mais uma vez me senti mal por iniciar uma discussão que não tomou os
rumos que eu queria...
Sabemos que médicos não têm vida
fácil no Brasil, ao menos não no exercício de sua profissão. Contudo, sabemos
também que o padrão de vida dos médicos daqui é bem mais razoável do que a da
média do trabalhador brasileiro. A própria faculdade de medicina no Brasil é,
em si mesma, uma espécie de "limpeza social", pois as universidades
particulares são caríssimas, e as públicas exigem anos de estudos pro
vestibular, o que elimina aí em muito a possibilidade de pobres cursarem
medicina, apesar de alguns vitoriosos conseguirem. Percebo no Brasil uma classe
de médicos que é muito pouco popular e tem uma vida acima do nível popular,
apesar de trabalhar muito e em condições precárias. Médicos por aqui reclamam
muito, e com razão. Mas se mobilizam muito pouco politicamente. Parecem com os
professores daqui, que reclamam de Deus e do mundo, mas na hora de pensar uma
prática coletiva que vise à mudança, paralisam na lógica do átomo. Em suma, os
médicos no Brasil possuem o mesmo problema dos demais grupos de trabalhadores
brasileiros: dificuldade de ultrapassar o individualismo da sociedade no geral
e da sua atuação profissional em particular. Por isso não entendo a
manifestação de parte da classe médica brasileira, me parecendo ser uma postura
individual e míope de pessoas que acordaram junto com "o gigante",
mas danando a falar bobagens.
Acho que é importante a
discussão, sempre. Sempre vale a pena discutir. E discutir implica estar aberto
a mudar de opinião, assim como a não se ofender enquanto pessoa quando ouvirmos
uma crítica a um grupo do qual fazemos parte. Sou professor e critico muito os
professores daqui. Quem é meu aluno ou quem acompanha as minhas postagens no
face, sabe disso. Ou a gente ultrapassa a lógica atômica da nossa sociedade, ou
viveremos como átomos, trabalharemos como átomos, discutiremos como átomos... E
o país inteiro vai implodir, devido à inércia coletiva dos átomos... Não se trata do discurso medíocre de autoajuda que nos enche o saco dizendo-nos que temos que nos amar, olharmos pro próximo e outros blablabla... Trata-se, acima de tudo, de uma necessidade humana o comunicar-se e a construção de uma vida mais coletiva e menos atomizada...

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