domingo, 14 de julho de 2013

A sociedade dos átomos




Todas as sociedades possuem problemas coletivos. Saúde, educação, estrutura urbana, corrupção e muitos outros elementos de ordem geral, que tocam a vida das pessoas como um todo, não são exclusivos do Brasil, nem dos brasileiros. Mas talvez não haja uma sociedade onde impere uma lógica tão individualista quanto a nossa. Passamos de uma sociedade aristocrática para uma sociedade liberal como num passe de mágicas. De repente estava abolida a escravidão e o Império estava acabado. Começou a democracia que, apesar de falsa e incompleta, era a nova ordem da nação. A partir daí, ao que me parece, o indivíduo passou a ser a medida de todas as coisas no Brasil. O país da desigualdade institucional passou a ser o país cujo horizonte era, agora, a igualdade, mesmo que posta num discurso vazio de nossos governantes e das instituições daqui. Igualdade no discurso e desigualdade na prática. Assim começamos a caminhar nos tempos modernos brasileiros...

Hoje temos uma sociedade onde o ideal de indivíduo e de mérito vigora muito fortemente em nós. Acreditamos que o aluno que passa no vestibular é um herói solitário, que não precisou de nada nem de ninguém para conseguir seu feito. O mesmo serve para jogadores de futebol como Romário, o qual acreditamos que não treinava, pois se tratava de um gênio que driblou a pobreza para se tornar ídolo, apesar de ele mesmo já ter falado em entrevista que as pessoas confundiram o fato de ele não gostar de treinar com a ilusão de que ele não treinava. Os livros de autoajuda pululam nas estantes das lojas brasileiras, todos eles nos ensinando a nos superarmos, como se somente de nós dependesse todo o nosso destino. O facebook, por sua vez, reflete isso na quantidade de posts nos quais as pessoas tiram fotos de si mesmas, do cachorro, do gato, contam intimidades, fazem comentários fúteis, por vezes agressivos, mas que se recusam a discutir questões mais gerais, achando-as enfadonhas e chamando de enfadonhos quem levanta essa peteca.

Vivemos numa sociedade de átomos no Brasil, ao que tudo indica. As pessoas vivem como átomos, cagando para a coletividade, se cultuando e cultuando pessoas que se cultuam, as famosas celebridades brasileiras, que são tão célebres quanto idiotas (Luciano Huck, Angélica, Regina Casé e afins...). Os problemas coletivos daqui estão cada vez mais graves, mas a crítica a esses problemas surgem de átomos, nunca de indivíduos com alguma mentalidade coletiva. A percepção das pessoas aqui é individual, assim como a ação na vida também o é. Quem nada contra essa corrente por aqui ou vira um chato, ou um formador de opiniões; ou, o que é pior, um chato formador de opiniões. Compram-se opiniões prontas, mas ninguém quer se dar o esforço de construir uma opinião própria e com qualidade. Deve ser por isso que Jabor faz tanto sucesso por aqui...

As discussões também são realizadas no nível dos átomos. Pessoas se ofendem quando se sentem encaixadas em alguma colocação com a qual não concordam. Eu mesmo já fui muito criticado por postagens que tinham um teor crítico contra determinados grupos sociais, como evangélicos, professores (grupo do qual faço parte), policiais, classe-média etc. Vários amigos aparecem para dizer "sacanagem você dizer isso, pois você está generalizando". Se a gente critica a bancada evangélica do Congresso Nacional, os evangélicos do face aparecem, ofendidos. O mesmo ocorre com os professores e com os outros grupos aqui citados. Vivendo como átomos e fazendo parte da coletividade de forma atomizada, nunca a crítica é percebida como uma argumentação que atinge a essência de um grupo, mas sim como uma questão pessoal, um ataque ao próprio caráter da pessoa. Ninguém pensa que precisa rever seus conceitos ou os conceitos dos grupos dos quais faz parte. São as nossas escolhas, o nosso grupo, a nossa vida, e ninguém tem o direito de falar nada, pois se o fizer, ofenderá.

Hoje mesmo entrei numa discussão feroz com amigos médicos, os quais estimo de verdade. O motivo foi uma postagem que criticava a postura de parte da classe médica, que se opôs a vinda de médicos cubanos ao Brasil, por razões superficiais, as quais ninguém entende direito, talvez nem eles. A essa parte me referi com a expressão "bando de otários". Acabei por acender um barril de pólvoras, pois muitos colegas entenderam que eu estava chamando a todos os médicos desse país de otários e de playboys. Mais uma vez me senti mal por iniciar uma discussão que não tomou os rumos que eu queria...

Sabemos que médicos não têm vida fácil no Brasil, ao menos não no exercício de sua profissão. Contudo, sabemos também que o padrão de vida dos médicos daqui é bem mais razoável do que a da média do trabalhador brasileiro. A própria faculdade de medicina no Brasil é, em si mesma, uma espécie de "limpeza social", pois as universidades particulares são caríssimas, e as públicas exigem anos de estudos pro vestibular, o que elimina aí em muito a possibilidade de pobres cursarem medicina, apesar de alguns vitoriosos conseguirem. Percebo no Brasil uma classe de médicos que é muito pouco popular e tem uma vida acima do nível popular, apesar de trabalhar muito e em condições precárias. Médicos por aqui reclamam muito, e com razão. Mas se mobilizam muito pouco politicamente. Parecem com os professores daqui, que reclamam de Deus e do mundo, mas na hora de pensar uma prática coletiva que vise à mudança, paralisam na lógica do átomo. Em suma, os médicos no Brasil possuem o mesmo problema dos demais grupos de trabalhadores brasileiros: dificuldade de ultrapassar o individualismo da sociedade no geral e da sua atuação profissional em particular. Por isso não entendo a manifestação de parte da classe médica brasileira, me parecendo ser uma postura individual e míope de pessoas que acordaram junto com "o gigante", mas danando a falar bobagens.


Acho que é importante a discussão, sempre. Sempre vale a pena discutir. E discutir implica estar aberto a mudar de opinião, assim como a não se ofender enquanto pessoa quando ouvirmos uma crítica a um grupo do qual fazemos parte. Sou professor e critico muito os professores daqui. Quem é meu aluno ou quem acompanha as minhas postagens no face, sabe disso. Ou a gente ultrapassa a lógica atômica da nossa sociedade, ou viveremos como átomos, trabalharemos como átomos, discutiremos como átomos... E o país inteiro vai implodir, devido à inércia coletiva dos átomos... Não se trata do discurso medíocre de autoajuda que nos enche o saco dizendo-nos que temos que nos amar, olharmos pro próximo e outros blablabla... Trata-se, acima de tudo, de uma necessidade humana o comunicar-se e a construção de uma vida mais coletiva e menos atomizada...

Nenhum comentário:

Postar um comentário