
Triste e com um sentimento de derrota no peito... O movimento que foi para as ruas da Tijuca hoje não estava pedindo a saída da Dilma, nem a redução da maioridade penal ou o fim da corrupção (alguém é a favor?); não cantou o hino nacional, não estava com tintas verdes e amarelas no rosto cantando o orgulho e o amor de ser brasileiro. Por isso as bombas e tiros que tomamos hoje nas ruas não foram televisionadas. O nosso movimento não interessa mais a quem está no poder. Só os restos hoje foram às ruas, a linha de frente da contestação desse país; a galera que está sempre aí para o que der e vier.
Muitos policiais estavam nas ruas tijucanas. Muitos mesmo... Parecia que eles iriam enfrentar um exército organizado e armado. Do lado de cá tínhamos vinagre, máscaras, gargantas gritando palavras de ordem e a consciência de que o Maraca não é mais nosso. Aliás nem as ruas são mais nossas, pois sequer conseguimos nos aproximar do estádio para além da São Francisco Xavier. A nossa polícia, cumprindo ordens do governo e da prefeitura, fiéis defensores da classe-média e da FIFA (argh!), não nos permitiu passar. E, de resto, o de sempre: bombas, tiros de borracha, corre-corre, pessoas lacrimejando, tossindo, quase desmaiando...
O movimento de hoje foi violentamente dispersado. Tentamos resistir, mas não deu. Quando vi que o pessoal já não tinha mais fôlego, nem possibilidades de luta, guardei meu casaco e o cachecol que estava usando para cobrir meu rosto, e fui andando, sozinho, olhando as pessoas em volta, espalhadas. Alguns carros do BOPE passaram por mim, provavelmente indo matar algumas vidas numa favela qualquer. Ouvi também alguns gritos de gol... Parecia que estávamos ganhando... Só não sei o que...
Andei
em direção ao metrô mais próximo, paguei a passagem cara; saí na Central e
peguei o trem que ia pra Santa Cruz. Indo pra casa olhava, volta e meia, pela
janela do trem. Meu olhar se perdia por uma cidade desigual, que nunca foi
pensada para mim e para os meus, os Zé-Ninguém. Os preços estão ficando mais
caros, a vida mais dura, a educação mais precária, o transporte mais lotado, a
saúde mais privatizada, e o futebol, a nossa única catarse numa cidade dominada
por interesses tão poderosos quanto individuais, já não é mais para a gente...
Eu não tenho dinheiro para pagar o ingresso do Maracanã, muito embora eu tenha
pagado a "reforma" bilionária desse templo do futebol mundial, agora
ex-templo... Me resta os botequins de Campo Grande, com pay-per-view, a nova
geral do Rio de Janeiro... O Maraca agora é da classe-média branca desse
país...
Cada vez que olho pro Rio vejo estampada nessa cidade a mesma miséria que contorna a minha vida, a miséria diária do trabalhador que mata uma selva por dia para conseguir sobreviver. Mas estamos aí, com ideias na cabeça, crítica na visão e com um grito de indignação na garganta, que pode não mudar nada, mas é símbolo de resistência e de humanidade, ao menos... Viver e não pensar a sua própria realidade social é uma contradição humana...
Espero que as ilusões um dia salvem o mundo, porque a realidade tá foda...
Cada vez que olho pro Rio vejo estampada nessa cidade a mesma miséria que contorna a minha vida, a miséria diária do trabalhador que mata uma selva por dia para conseguir sobreviver. Mas estamos aí, com ideias na cabeça, crítica na visão e com um grito de indignação na garganta, que pode não mudar nada, mas é símbolo de resistência e de humanidade, ao menos... Viver e não pensar a sua própria realidade social é uma contradição humana...
Espero que as ilusões um dia salvem o mundo, porque a realidade tá foda...