sexta-feira, 26 de julho de 2013

A parede azul




                   


Fazia uns 30 anos que ele olhava para aquela parede mofada, de um azul tacanho. A lâmpada era amarelo fluorescente. Eram lâmpadas sempre velhas, empoeiradas, as que o dono daquele bar colocava ali. Parecia ser a mesma lâmpada de 30 anos atrás. Aliás poucas coisas mudaram no bar do Zeca, a não ser o fato de que o próprio Zeca tinha morrido há cinco anos, de um enfarte fulminante. No lugar dele passou a tocar o bar seu irmão, Seu Pedro. Este não mudara nada ali. Era a mesma mesa de sinuca, os mesmos jogos de cartas, as mesmas marcas de bebidas, o mesmo azul tristonho da parede, o mesmo mofo. Quanto aos frequentadores, eram quase os mesmos também. O mundo mudara tanto, mas aquele bar estava ali, inexpugnável, como um manto sagrado numa guerra perdida.
                José olhava, já tonto, para a rua que ficava em frente daquele bar. Havia acordado às 7 da manhã, como sempre fazia. Tomou um banho, vestiu sua bermuda marrom, sua camisa de botão verde clara, já um tanto desbotada pelo tempo, e partiu para o bar. Sua mulher ainda dormia quando ele saiu. Não raro ele saía enquanto ela dormia e voltava quando ela já estava dormindo. Isso o machucava um bocado. Mas com isso ele fazia a mesma coisa que ele fazia com todo o resto que o machucava: deixava correr, deixava ser. Doía, mas ele não ligava nem para a própria dor. Aliás a dor era algo que o atraía. Ele parecia viver para a dor cotidiana de quem não é querido pela família, nem ouvido. A dor de quem não quer ser feliz porque simplesmente não consegue ser feliz. A dor de quem decide deixar a vida transcorrer no ir e vir de sóis, de carros, de pessoas, de nuvens, de chuvas.
                Naquele dia, como em tantos outros, ele olhava para rua vendo todo esse ir e vir. Seu olhar já estava meio turvo, mas dava para notar quanto carro havia hoje na cidade. No seu tempo de moleque só tinha carro quem era gente fina. Hoje lhe parecia que qualquer bocó poderia comprar um carro, e dos bons. Os prédios também subiram. Muitos prédios. Os brejos da cidade dos seus tempos de garoto, nos quais ele brincou, brigou, namorou, se escondeu já não existiam mais. Era tudo prédio agora, condomínios com piscinas, com grades, com portões eletrônicos, porteiros, carrões, carrinhos. Um do lado do outro. Uma mutunheira de prédios que não acabava mais.
                Essas e outras coisas ele observava de forma muito lenta. Não era do tipo que analisava as coisas. O mundo ia acontecendo em sua volta. De repente ele, como num milagre, percebia uma mudança. E sua vida seguia, como sempre. Nascera na Paraíba, onde, ainda muito criança, começou a trabalhar em roças. Pouco tempo depois disso veio com a família para o Rio. Se tornou um desses homens muito comuns no Brasil, os quais sabem fazer de tudo um pouco. Fora pedreiro a vida toda, trabalhando para uma construtora grande. Por fora fazia biscates para aumentar a renda. Casou com 21 anos, pois lhe pareceu ser uma idade boa para casar. Julieta era menina direita, virgem, bonita. Construiu, muito aos poucos, a sua própria casa lá no Cachamorra, em Campo Grande. A mesma casa na qual criara seus dois filhos. Quando foi tempo de se aposentar, o fez, sem pestanejar, pois era isso que se fazia quando se tinha trabalhado tempo suficiente com carteira assinada. A aposentadoria não era muito, mas pagava as contas. E os biscates continuaram, é claro. Dava metade de tudo o que ganhava para Julieta. A outra ficava para si. Gastava tudo no bar.
                Não se lembrava da primeira vez na qual bebeu uma pinga. Só sabia dizer que todo o santo dia, desde muito jovem, frequentava bares. O do Zeca era, de longe, o seu predileto, mas não sabia porque. No bar fazia de tudo um pouco: conversava, jogava, ria, se calava. A única coisa que ele não fazia pouco no bar era beber. Sempre saía dos botecos cambaleando. Nunca foi desses que, quando bêbado, dizia impropérios aos outros. Era homem de poucas palavras em qualquer situação. Não sabia ao certo o que lhe atraía nos bares. Depois do trabalho a sua vida sempre entrara numa espécie de parêntesis, no qual ele não sabia como agir, nem sentia haver um motivo para agir. Ir ao bar era uma forma de ver as coisas passarem, de dar conteúdo a um tempo que se recusava a passar rápido.
                Sentia um vazio enorme em si, o qual nada preenchia, nem a mulher, nem os filhos, nem o trabalho. Até a igreja, refúgio predileto dos miseráveis de bens e de alma do Brasil, não lhe deu um sentido para as coisas. No seu íntimo sentia que, no princípio, era o ir e vir, o qual fundou o mundo, compôs o mundo e no qual o mundo sempre vai viver. Aquele papo de Jesus, amor, salvação lhe pareceu esquisito. E, o pior, um homem de Deus não podia beber. Tinha sempre que buscar ser santo. Aquilo não era para ele...
                Julieta chorou boa parte do seu casamento por ver José bêbado, capengando pelo quintal até alcançar a porta de casa. Seus filhos aprenderam a manter a distância dele. O mais velho o via como a causa dos sofrimentos de sua mãe. O mais novo simplesmente o ignorava. José reagia a isso indo tomar banho e dormir, sempre. Nunca fora de discutir. Não via motivo para isso. Não estava nem aí, nem aqui. Não via porque se importar com as lágrimas de Julieta. Não porque não gostasse dela. Era uma mulher boa, criara bem seus filhos. O que mais poderia querer de uma mulher? Seus filhos tomaram seus rumos na vida. Um conseguiu ser doutor. O outro não, mas se mantinha com seu próprio dinheiro. Isso lhe parecia bom. Nunca aprendeu a esperar mais nada da vida, a não ser o que lhe parecia razoável...
                A tristeza cotidiana de José era pagar a conta do bar. Tinha medo de sair daquele ambiente, o único que parecia lhe aceitar do jeito que era. Nunca entendeu o porquê daquilo tudo. Dos carros indo e vindo, de Julieta chorando, dos prédios sendo erguidos, das pessoas se apressando, da formatura do seu filho doutor, da sua aposentadoria, dos seus biscates, das ruas, da sua infância na Paraíba. Desde que se entendia por gente, sempre houve um céu e gente trabalhando duro embaixo dele. As coisas passavam, envelheciam, morriam. Aquela parede azul, toda mofada, parecia lhe dizer algo, mas não sabia bem o quê. Talvez fosse o seu sentido. Mas não se lembrava de sentir prazer em estar ali. Ia para o bar, bebia e ia embora. O tempo passava assim, muito embora a visão sempre ficasse turva no final do dia, e as pernas teimavam em não lhe obedecer. Estava bem assim. Na verdade não estava propriamente bem. Mas estava. No final das contas, nunca tinha visto sentido no estar. Desde que se entendia por gente José sempre estivera. Em algum lugar, de alguma forma, fazendo alguma coisa. E ponto.
                Pagou a conta naquele dia, como sempre fazia. Despediu-se de quem estava presente no bar. E foi embora. Mais uma vez cambaleando. Mais uma vez vendo as coisas passarem. Mais uma vez vendo tudo borrado em sua frente. Mais uma vez. Amanhã teria mais. Mais bebida, mais cartas, mais conversas. Mais bar do Zeca. Mais parede mofada. Mais azul tristonho. Mais do mesmo. No princípio era a parede azul. A parede azul estava com deus. A parede azul era deus. E ela se movia sobre a face das águas... A questão que parece percorrer a vida de José e dos seus é saber o que existia antes do mistério da criação. O que havia antes de deus? O que era o mundo antes de ele não ser? Qual é o princípio da eternidade? E qual é o seu fim? Ele jamais formulara essas questões claramente na sua cabeça, mas não houve um dia no qual ele não as sentisse em si. Eram elas, no fundo, o cimento dos seus dias inúteis. E, suspeitava, eram também a estrutura de todo o mundo humano...

                José franziu a testa e, pela primeira vez em anos, pôs-se a chorar...

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