Uma das coisas mais mal
interpretadas da história da humanidade é a pornografia. Popularmente ela é
chamada no Brasil de “sacanagem”, a mesma expressão usada para definir uma
situação injusta, uma infidelidade entre amigos ou entre amantes. Os americanos
simplesmente abreviam a palavra “pornography” para “porn”. Porém, tanto em
terras brasileiras quanto nas do Tio Sam, a maioria dos palavrões faz alguma ou
toda a referência ao sexo. Foder, fuck, boceta, pussy, pau, cock e por aí ruma
a humanidade...
O
que significa todo esse alvoroço sobre o sexo e, mais profundamente, sobre a
pornografia? O genial Foucault se espanta com o volume de discursos sobre a
sexualidade a partir do século XVIII no Ocidente. Fala-se cada vez mais sobre
sexualidade a partir de então, produz-se uma série de identidades em torno
desse assunto e cria-se para o sexo uma nova economia de poder, o qual se
distribui em redes. Curioso é que o filósofo francês, a despeito de todo o
êxtase que o assunto provoca e vem provocando cada vez mais nos ocidentais,
considera o sexo um “ponto artificial”, uma criação humana resultante dos
discursos sobre sexualidade, e não a causa deles.
Fala-se
sobre sexo, mas esse assunto ainda é tabu. Faz-se muito sexo, mas os palavrões
continuam sendo proibidos ou relegados a certas zonas onde predominam e são
aceitos como padrões de comportamento, como as letras de funk carioca e os
estádios de futebol. Se palavrões são usados em textos literários, é licença
poética. A prostituição é ilegal na maioria dos países. E a senhora do sexo, a
pornografia, pulula na Internet em vários sites de diferentes tipos e gostos. Mas
continua sendo vista por debaixo dos panos, assim como estigmatizada por
esposas enciumadas, moralistas inflamados e pelos próprios frequentadores de
sites pornôs, muitos dos quais, a despeito de serem assíduos frequentadores da
pornografia, sentem como errada a prática que eles mesmos fazem.
Quanto
a mim, eu fico com Saramago quando ele diz que a fome é obscena, não a
pornografia. Esta é mais atitude do que arte; é mais expressão do que discurso;
é mais um ultrapasse de limites do que sujeira. Não há nada mais humano do que
a pornografia com o seu sexo deslavado e sem vergonha, exposto, aberto, direto
do submundo da consciência humana para a realidade estampada na cara do próprio
homem, que a enxerga de forma anuviada, deturpada, apesar do seu deleite. Mais
humano do que um site pornô, só uma partida de futebol.
Artificial
ou não, o sexo é a manifestação mais animal do homem (e da mulher também, que
fique claro). Mais do que a guerra. Quando dois seres humanos se tocam, se
lambem, se acariciam e se gozam, nada há de mais vitorioso e excitante para
eles. O mundo ao redor é desativado de uma realidade que se torna única no
universo, a realidade do desejo posto em prática. E a pornografia é toda essa
enxurrada de ações colocada em tela, numa intensa comunicação entre espectador
e atores, comunicação puramente sexual. Aliás o espectador se comunica menos
com os atores do que com o sexo em si; ou com a sua própria sexualidade.
A
pornografia é, talvez, a verdadeira “porta da percepção”, isto é, do auto
perceber-se, do conhecimento do sexo, da formatação do desejo, que sai do
estado bruto para virar realidade na prática. O que seria dos sexos casuais sem
a pornografia? E dos casamentos? E dos solteiros? E, meu Deus, dos casados? E
dos enrustidos? E dos encarnados?
A
pornografia é senhora de todos e todas. E não é ciumenta. Você pode ter outros
senhores, sem problemas. E se converter a ela é simples: basta ter desejo e
digitar alguma palavra de conteúdo sexual no google, e ponto. Ide e gozai, eis
o seu único mandamento. E a recompensa pela conversão? A reconciliação entre
você e o seu próprio corpo. Se fizerdes isso ao menos uma vez, estás salvo. A
sua vida já terá valido a pena...
