sábado, 25 de maio de 2013

Elogio da pornografia







             Uma das coisas mais mal interpretadas da história da humanidade é a pornografia. Popularmente ela é chamada no Brasil de “sacanagem”, a mesma expressão usada para definir uma situação injusta, uma infidelidade entre amigos ou entre amantes. Os americanos simplesmente abreviam a palavra “pornography” para “porn”. Porém, tanto em terras brasileiras quanto nas do Tio Sam, a maioria dos palavrões faz alguma ou toda a referência ao sexo. Foder, fuck, boceta, pussy, pau, cock e por aí ruma a humanidade...

            O que significa todo esse alvoroço sobre o sexo e, mais profundamente, sobre a pornografia? O genial Foucault se espanta com o volume de discursos sobre a sexualidade a partir do século XVIII no Ocidente. Fala-se cada vez mais sobre sexualidade a partir de então, produz-se uma série de identidades em torno desse assunto e cria-se para o sexo uma nova economia de poder, o qual se distribui em redes. Curioso é que o filósofo francês, a despeito de todo o êxtase que o assunto provoca e vem provocando cada vez mais nos ocidentais, considera o sexo um “ponto artificial”, uma criação humana resultante dos discursos sobre sexualidade, e não a causa deles.

            Fala-se sobre sexo, mas esse assunto ainda é tabu. Faz-se muito sexo, mas os palavrões continuam sendo proibidos ou relegados a certas zonas onde predominam e são aceitos como padrões de comportamento, como as letras de funk carioca e os estádios de futebol. Se palavrões são usados em textos literários, é licença poética. A prostituição é ilegal na maioria dos países. E a senhora do sexo, a pornografia, pulula na Internet em vários sites de diferentes tipos e gostos. Mas continua sendo vista por debaixo dos panos, assim como estigmatizada por esposas enciumadas, moralistas inflamados e pelos próprios frequentadores de sites pornôs, muitos dos quais, a despeito de serem assíduos frequentadores da pornografia, sentem como errada a prática que eles mesmos fazem.

            Quanto a mim, eu fico com Saramago quando ele diz que a fome é obscena, não a pornografia. Esta é mais atitude do que arte; é mais expressão do que discurso; é mais um ultrapasse de limites do que sujeira. Não há nada mais humano do que a pornografia com o seu sexo deslavado e sem vergonha, exposto, aberto, direto do submundo da consciência humana para a realidade estampada na cara do próprio homem, que a enxerga de forma anuviada, deturpada, apesar do seu deleite. Mais humano do que um site pornô, só uma partida de futebol.

            Artificial ou não, o sexo é a manifestação mais animal do homem (e da mulher também, que fique claro). Mais do que a guerra. Quando dois seres humanos se tocam, se lambem, se acariciam e se gozam, nada há de mais vitorioso e excitante para eles. O mundo ao redor é desativado de uma realidade que se torna única no universo, a realidade do desejo posto em prática. E a pornografia é toda essa enxurrada de ações colocada em tela, numa intensa comunicação entre espectador e atores, comunicação puramente sexual. Aliás o espectador se comunica menos com os atores do que com o sexo em si; ou com a sua própria sexualidade.

            A pornografia é, talvez, a verdadeira “porta da percepção”, isto é, do auto perceber-se, do conhecimento do sexo, da formatação do desejo, que sai do estado bruto para virar realidade na prática. O que seria dos sexos casuais sem a pornografia? E dos casamentos? E dos solteiros? E, meu Deus, dos casados? E dos enrustidos? E dos encarnados?
            A pornografia é senhora de todos e todas. E não é ciumenta. Você pode ter outros senhores, sem problemas. E se converter a ela é simples: basta ter desejo e digitar alguma palavra de conteúdo sexual no google, e ponto. Ide e gozai, eis o seu único mandamento. E a recompensa pela conversão? A reconciliação entre você e o seu próprio corpo. Se fizerdes isso ao menos uma vez, estás salvo. A sua vida já terá valido a pena...