Há algum tempo tem uma questão
que me intriga e, por certo, me confunde. Trata-se de uma coisa que todos nós
temos e a qual damos muito valor: a opinião. Quem nunca terminou uma discussão
com a célebre e poderosa frase: "essa é a minha opinião"? O nosso modo
de pensar nos parece, por vezes, uma imensa fortaleza atrás da qual podemos nos
proteger do resto do mundo, uma muralha à la "game of thrones" que
impermeabiliza o nosso eu. É a vulgarização da famosa dualidade cartesiana que
separa o corpo do espírito. Parece-me que queremos afirmar a nossa identidade
com as nossas opiniões, mesmo que esse exercício seja feito de forma
inconsciente. Ao colocarmos a nossa opinião como uma espécie de sagrado
secular, parece-nos que o fato de as ideias expressas serem nossas nos torna
imunes a qualquer reprimenda ou opressão.
Essa
é a tônica dos "neodefensores" da liberdade de expressão no Brasil.
Se antes quem defendia a liberdade de expressar ideias era o pessoal que lutava
contra a cruel ditadura que vigorou por 21 anos por aqui, hoje figuram no grupo
dos "defensores da democracia" "humoristas" agressivos e
sem graça, como Rafinha Bastos, e evangélicos fundamentalistas, como o
(pastor?) Silas Malafaia. Isso sem falar nos jornalistas da grande mídia
brasileira (lê-se, rede plim-plim de televisão), que atacam veementemente o
chavismo venezuelano, classificando esse governo como um atentado a democracia,
ao mesmo tempo em que selecionam os acontecimentos da sociedade brasileira de
um jeito que transforma atrocidades em benefícios para a nação. Penso aqui,
para ficar só com um exemplo, na reforma do Maracanã, noticiada como um grande
negócio para a cidade do Rio, quando, de fato, trata-se do tiro de misericórdia
no futebol carioca e no exemplo mais escroto e típico do patrimonialismo que
vigora na política nacional.
Nem
vou entrar na questão sobre o irritante discurso contra o "politicamente
correto" que está cada vez mais na boca das pessoas. Para mim está claro
que as pessoas que dizem que o Brasil está "ficando chato", que não
se pode mais dizer nada nesse país, pois tá tudo muito politicamente correto,
querem, na verdade, bater em minorias sociais sem serem importunadas. Nem vou
perder tempo com isso. A questão que quero levantar é: como as pessoas
constroem opiniões no Brasil? Como a galera daqui formula seus pensamentos?
Será mesmo que qualquer opinião é válida simplesmente porque é uma opinião (e
não se trata, lembremos, de qualquer opinião, pois é a "minha
opinião")? Como se deve construir uma opinião?
Penso,
antes de tudo, que para formularmos um pensamento precisamos forçosamente
pensar no outro. Esse é um exercício fundamental para a democracia. Se nos
considerarmos ilhas autônomas e com sentido em nós mesmos, correremos o sério
risco de ajudarmos a perpetuar preconceitos e atos discriminatórios há muito
enraizados na história da sociedade brasileira. A opinião é sua, mas a
sociedade e a história de seu país não são. Assim como o bem estar psicológico
e físico do outro não são seus. Não há sentido para a opinião fora da
comunicação. E a comunicação é um ato social, sempre, mesmo quando escrevo um
texto no quarto da minha casa, totalmente absorto e alheio ao resto do mundo. É
pra esse mundo que escrevo, pensando nele, a partir dele e por causa dele.
Sobre
as bases da nossa opinião, eu acho que todo o cidadão deve ler muito, ler de
tudo, inclusive bula de remédio. E ler de forma crítica, questionando
constantemente o autor do texto que está na nossa frente, as coisas que ele
diz, tentando entender as suas motivações e as ideologias que ele defende e que
quer que você também defenda. Será que essa ideologia é boa para a
coletividade? Ela discrimina alguém? Ela interpreta a realidade social de forma
coerente e democrática? Essa ideologia me permite viver de forma pacífica com
as demais pessoas que comigo compõem a sociedade?
Não
que eu ache que todos tem que ser intelectuais. Afinal de contas não saberia
responder o que é ser intelectual. O que quero dizer é que, se a opinião é um
ato comunicativo, é na comunicação que ela deve também se formar. Na
comunicação com livros, sites, blogs, revistas, cinema, teatro etc. E essa
comunicação deve ser complexa no sentido de me permitir entrar em contato com
várias opiniões e refletir sobre essas opiniões. O que diferencia a gente dos
demais seres vivos da natureza é a nossa complexa capacidade de pensar. Por
isso não acho que estou querendo demais dos brasileiros. Quero que eles
exercitem o potencial humano que todos nós temos e que devemos aplicar na nossa
vida. Só assim uma real democracia pode ser alcançada.
Ao
colocar a alienação como um dos elementos mais fundamentais presentes no
sistema capitalista, entendo que Marx colocou uma concha de pessimismo em
relação à democracia. Daí o bom e velho pensador alemão ter vislumbrado na
revolução uma forma de ruptura social que faria o homem encontrar-se consigo
mesmo. Não acredito na revolução. Perdi a fé nessa possibilidade há muito
tempo. Mas concordo que os homens precisam encontra-se consigo mesmos. E
acredito, com Rousseau e Tocqueville, que esse encontro deve ocorrer na
democracia, apesar de todas as imperfeições desse tipo de governo e da
associação, sempre nociva e ressaltada por Tocqueville, desse sistema político
com o capitalismo. Aqui me vejo reforçando um truísmo um tanto quanto imbecil:
a educação ocupa um lugar fundamental numa sociedade democrática. Não que eu
ache que a escola seja o alicerce de todas as mudanças sociais. Só vejo que é
entre os muros dela que algumas reflexões necessárias são - ou devem ser -
feitas com os alunos. Ela é o lugar por excelência dessas reflexões. Daí a
importância de uma educação laica e de qualidade para os brasileiros, coisa que
nós NUNCA tivemos.
E
aqui está o ponto chave desse texto: as pessoas não se preocupam com a
qualidade das suas opiniões. A ausência de uma escola de qualidade se faz notar
não somente na forma como as pessoas aqui no Brasil escrevem, mas no jeito que
elas formulam as suas ideias (quando não simplesmente reproduzem as ideias
alheias). As ideias pobres que circulam por esse país são frutos de mentes
pobres, as quais não enxergam uma realidade complexa, mas sim unidimensional.
Se um jovem foi pego roubando, a solução é fácil: reduz a maioridade penal e
prende o "de menó". Se um bandido foi pego traficando, mata o
"vagabundo". Se o filme não tem uma história com uma mensagem óbvia,
é porque não tem final. Se numa discussão alguém pensa diferente de mim, é
porque não gosta de mim. E nas discussões a ideia nunca é repensar os nossos
posicionamentos, mas reafirmá-los a todo o custo.

Os
anos nos quais esse país não teve um regime de governo democrático se fazem
sentir em todas as partes da sociedade. É possível tocar o autoritarismo no ar.
Basta pegarmos um jovem qualquer e perguntar a opinião dele sobre, por exemplo,
religião, política, sexualidade e justiça. Provavelmente as respostas serão
desanimadoras. Digo isso por experiência própria. E o pior: ninguém questiona a
qualidade da própria opinião. A maioria se limita a dizer: "essa é a minha
opinião". Ninguém questiona as ideologias inerentes a uma piada. "É
só uma piada", dizem os "danilos gentilis" da vida. Ninguém
percebe que as suas ideias podem estar defendendo atrocidades. "É a minha
liberdade de expressão; é a minha fé", dizem os malafaias e felicianos de
plantão. E que o resto se foda. Não, isso eles não dizem. Isso fica
implícito...
Quanto
a mim, eu quero que se foda toda a gente que não pensa com qualidade; que não
questiona o status quo; que não procura ir além do que lhe foi ensinado; que
não lê, que não reflete, que não discute, que não quer que a diversidade caiba
na sua cabeça. Vejam bem, eu não quero que essas pessoas morram, ou que sejam
presas. Eu só quero que elas se fodam, no sentido espiritual do termo. Que elas
vejam gays se casando, se beijando e adotando crianças; que elas vejam o
bolsa-família ser distribuído para mais famílias; que elas não vejam a
maioridade penal ser reduzida; que elas vejam cada vez mais filmes
"cults" sendo produzidos; que elas ouçam o funk da casa do vizinho; e
que os grafites espalhados pela cidade fiquem cada vez mais visíveis a seus
olhos; que elas vejam greves tomarem esse país; que elas vejam índios invadindo
o Congresso Nacional; e que a mídia alternativa cresça e apareça.
Que
a Marcha das Vadias exiba seus seios nus pelas ruas! E que o machismo e todo o
tipo de opinião reacionária ou conservadora se foda!