sábado, 15 de janeiro de 2011

Montevidéu



Tem uma coisa que aprendi na faculdade e que está dentro de mim. Se trata de uma idéia, uma questão que me persegue e, talvez, seja o grande motor da minha vida. Até que ponto existe a realidade? Até que ponto nós mesmos construímos a nossa realidade? Até que ponto uma coisa existe em si mesma ou o que vemos nela é influenciado pelas nossas idéias e pelos sentimentos que nutrimos por ela? Nesse mundo dos fluxos intermináveis de informações, fica difícil construir um conhecimento minimamente duradouro sobre algo, no qual não exista a pergunta lá no fundo do nosso espírito: será que isso que penso é realmente verdade?

Essa é a questão que permeia a minha vida e o Uruguai me fez vivê-la de forma mais intensa. Digo isso porque eu passei por esse país recentemente e fiquei encantado por ele. Mas conheci algumas pessoas que já passaram por lá e que acharam o país sem graça, sem nada pra fazer. Isso meio que criou uma pulga atrás da minha orelha, pois fiquei me perguntando qual era a origem do meu encantamento pelo Uruguai. Por que eu fiquei tão feliz por ter passado por um lugar que é desprezado pela maioria do mundo? Será que eu criei um Uruguai em mim que na verdade não existe? A minha resposta pra isso é um sincero e bem escrito, falado e escarrado foda-se. Conto aqui o que senti e o que vivi no Uruguai do ponto de vista do meu espírito.

Um grande escritor uruguaio chamado Eduardo Galeano certa vez disse (mais ou menos assim) que em 1950 o futebol colocou o Uruguai no mapa mundial. Ele tem razão, pois tirando o futebol uruguaio, que caiu no ostracismo durante décadas até essa última copa do mundo, nada se ouve falar desse país, que me pareceu um lugar lindo. Viajei com cinco amigos nesse "tour" pela sul do nosso querido continente. Mas quando estava em Montevidéu decidi fazer um passeio pela cidade sozinho. Simplesmente saí do albergue no qual estava hospedado e comecei a andar pelas ruas de forma espontânea e indiscriminada, talvez um tanto irresponsável, haja vista que eu estava num lugar que eu não conhecia. Mas fui assim mesmo. E foi a melhor coisa que fiz nesses dezessete dias de viagem pela América Latina. 

Comecei a andar pela praça central de Montevidéu, cujo nome agora não me recordo ao certo, mas acho que era Praça da Independência. Se trata de uma praça linda, grande, cercada de prédios históricos. Eu não tinha consciência, mas eu estava andando pela parte velha da cidade. Montevidéu é dividida em duas partes: a parte velha e a parte moderna. Sem querer querendo eu comecei a adentrar a parte velha da cidade. Comecei andando por uma bela avenida onde quase tudo estava fechado, exceto uma linda livraria e algumas lanchonetes e bares. Era fim de ano, mais precisamente dia vinte e sete de dezembro de 2010, e nesse período os lugares fecham cedo em Montevidéu, segundo me contou um amigo uruguaio funcionário do albergue. Mesmo tudo estando fechado, eu sentia o tempo todo que estava num lugar especial, que respirava história, beleza singela ao mesmo tempo que deslumbrante. Como gosto muito de andar, comecei a não perceber o quanto estava andando. Simplesmente eu me inseria na parte velha da cidade sem ao menos perceber que estava me distanciando muito do albergue e dos meus amigos que estavam lá. Na verdade uma parte deles eu encontrei andando também pelas ruas, por acaso. Um deles virou pra mim e me falou: "Essa cidade é uma merda. Parece o Rio. É suja, não tem nada para fazer aqui." Eu dei um leve sorriso e decidi continuar o meu caminho, pois estava achando Montevidéu uma graça de cidade. Ao longo do caminho passei por inúmeras construções históricas, a maioria delas bem conservadas, outras nem tanto. Vi vários cartazes escritos "aluga-se" ("alquilo" em espanhol), o que me fez perceber que eu estava entrando numa área que talvez não fosse muito valorizada em termos econômicos. Também vi muitas pichações e grafites nos muros cujas mensagens tinham teores políticos, pelo menos até onde o meu péssimo espanhol me permitia compreender. 

Conforme ia andando eu fui percebendo que o modesto luxo e a elegância inicial da rua pela qual comecei a andar estava se transformando em humildade. Comecei a ver que as construções continuavam antigas, respirando história, mas que seus habitantes pertenciam a uma classe social pobre. Via pessoas nas portas das casas tomando chimarrão, olhando para a rua, conversando com alguém ou simplesmente sozinhas, caladas e tomando chimarrão. Vi uns dois meninos jogando futebol, um deles com a camisa do Penharol, clube mais popular do Uruguai. Tavez eu tenha sentido inveja da inocência com a qual eles brincavam, inocência essa que eu perdi já faz um tempo. Mas achei o jogo deles de uma beleza singular. Estava anoitecendo em Montevidéu e enquanto uns tomavam chimarrão e outros estavam voltando do trabalho, eles simplesmente queriam jogar futebol na rua. Senti um pouco de saudades da época na qual eu fazia isso nas ruas de Caxias. Mas o que me marcou mesmo foi a áurea do lugar pelo qual eu estava passando. Eu sabia que se tratava de um lugar onde cada prédio tinha um história por trás, história essa que nem eu e nem aqueles meninos tínhamos consciência, e talvez nem os adultos que estavam parados naquela rua sentindo o anoitecer chegar. Montevidéu respirava algo especial para mim. Eu estava deslumbrado diante daquilo tudo. Quando uso a expressão "aquilo tudo" eu acho estranho, pois muita gente diria que eu não estava vendo nada de demais. Isso pouco me importa. Eu estava vendo muita coisa, estava sentindo muita coisa... Pelo menos pra mim...


Conforme a rua ia acabando, eu comecei a avistar um pouco de longe o Rio da Prata, rio esse que banha a costa de Montevidéu. O sol estava de um amarelado diferente do que costumo ver no céu do Rio.Tudo estava amarelado, como se Deus tivesse resolvido passar um toque de tinta amarela naquela tarde só para deixar o ambienete com um clima especial, como se Montevidéu estivesse sendo pintada por Monet. Naquela rua havia vários becos pelos quais não andentrei, mas que avistei de perto e senti um mistério, uma poesia neles, como se eu tivesse sentindo as inúmeras cenas de casais de amantes que já devem ter sido protagonizadas naqueles becos, naqueles cantinhos que, como diria Machado de Assis, só servem mesmo para protagonizar momentos de amores, sejam eles profundos ou superficiais, se é que existem amores superficiais....


De repente eu cheguei ao cais. E nesse momento me deparei com um céu lindo, de tom amarelado, com nuvens amareladas, e esse amarelo resplandecia nas ruas que beiravam o cais. Vi pessoas passeando por ali, umas fazendo exercícios físicos, outras pescando e outras namorando. E eu... Ali, simplesmente ali, nada mais do que isso... Os prédios que ficavam perto do cais estavam envelhecidos e eles se estendiam ao longo da rua que beirava o rio. Me aproximei do mar e senti no meu íntimo que, definitivamente, eu estava num lugar especial. Parei, sentei, olhei o céu, as ruas, as pessoas... Tinha perto de mim um casal de namorados. A menina tentava se esconder das águas do rio, que naquele dia estavam um pouco agitadas. Mas o rapaz simplesmente parou perto das águas, sem se importar que elas o estavam molhando. Um outro casal de namorados sentou juntos encima de uma pedra enorme que beirava o rio e ficou observando com os corpos colados um no outro o pôr do sol, aquele espetáculo que somente a natureza pode proporcionar e que somente pessoas cujas vidas não se resumem as objetividades do dia a dia conseguem admirar. Fiquei encantado com aquilo tudo e fiquei sem entender o porquê de um país com um rio e um pôr do sol tão bonito é tão menosprezado pelo mundo. 


Vivemos num mundo onde tudo tem que ser espetáculo. Enchentes de verão, uma fofoca sobre uma pessoa famosa, assaltos a bancos, tiroteios em cidades grandes, um filme estrelado por atores superestimados, bandas de "rock" coloridas... Tudo isso vira espetáculo nas sociedades modernas e vazias em suas modernidades. Certamente Montevidéu não se encaixa nesse espetáculo. Não vi boates glamourosas por lá, nem ostentação de dinheiro e fama que pudessem ser valorizadas pela grande mídia mundial, como um slogan de "cidade maravilhosa" sustentado por praias poluídas, uma estátua do cristo redentor, bondinhos e mulheres com bundas enormes pulando carnaval. Até mesmo o próprio futebol uruguaio saiu de cena porque os clubes de futebol desse país não possuem grandes estrelas nem conquistam grandes títulos e nem têm orçamentos milhonários. Mas ouvi dizer que o clássico Nacional e Penharol faz Montevidéu parar. As pessoas se concentram, se emocionam, se dividem em prol de um futebol que o mundo julga não mais ter importância, mas pro qual elas dão importância e muita importância. E se o mundo não dá importância ao Uruguai eu digo: foda-se o mundo. O Uruguai é um país incrível e eu nunca vou permitir que alguém diga o contrário disso...