domingo, 9 de setembro de 2012

Notas sobre a educação: sala de aula

Me preocupo em refletir sobre as coisas que aprendi e vivi nos meus quatro anos de magistério. Refletir sobre as minhas atitudes, tanto as que foram acertadas quanto as que foram trágicas; sobre as escolas pelas quais passei, suas condições de trabalho, seu corpo docente e discente; refletir, acima de tudo, sobre a essência da educação, da formação do aluno, do trabalho de um professor, da organização de uma escola. Nesse texto aqui falarei sobre uma parte muito dramática desse assunto: a sala de aula, ou, melhor dizendo, a aula...

Penso que a principal tarefa de um professor numa sala de aula é a de traduzir o objeto da sua matéria para o seu aluno. Traduzir, esse é o verbo que, pra mim, é o princípio de tudo no entendimento de qualquer coisa em sala de aula... Como profissional das ciências sociais, que são constituídas por disciplinas cujo nível de abstração é bastante profundo, penso que o papel da tradução numa aula é particularmente difícil. Como falar do conceito de solidariedade em Durkheim para adolescentes de 15 anos? Como explicar a estrutura do capitalismo em Marx, o conceito de ação social em Weber, a relação entre sociedade e indivíduo em Simmel, ou o consumo em Bauman? Como fazer o meu aluno entender que o que lhe é familiar se trata, na verdade, de uma construção social? 

Para quem, assim como eu, ensina sociologia para adolescentes e adultos na escola sabe sentir o drama dessas perguntas. Traduzir a matéria é fazer o aluno entender o que está sendo dito, numa comunicação entre o seu mundo de professor e o do seu aluno. Entendo que professores e alunos vivam mundos diferentes em vários aspectos. Pra citar um desses aspectos, basta pensar que o professor é um profissional especialista numa matéria, enquanto os alunos são estudantes de várias matérias, as quais não possuem, em essência, relação uma com as outras. Isso sem falar em outras diferenças entre professores e alunos, como as de geração, de classe social, de cultura, de personalidade... Como encarar uma turma com 50 alunos totalmente desconhecidos por você, professor? Como tratar de temas como a homossexualidade para alunos fundamentalistas cristãos? Como falar de racismo num país que nega o seu racismo, como o Brasil? Como falar de sociologia para uma turma que não vê sentido na escola?




Na minha opinião, atingir o aluno, conseguindo passar as ideias de sua matéria para ele, é a chave para uma relação professor-aluno minimamente harmônica, com sentido educacional e humanista. Isso não significa dizer (pelo amor de Deus) que o professor é o maior responsável pelo sucesso ou pelo fracasso da escola. NÃO! Muitas outras coisas contam num processo de sucesso ou de fracasso escolar, como infra-estrutura das escolas, salários dignos para os profissionais do meio escolar, alunos que se interessam pela escola, escolas que se interessem por seus alunos, apoio familiar ao aluno, etc. O professor é, enfim, um dos vários participantes do que chamo de cultura escolar, não o herói que salva a vida dos seus alunos em atitudes de sacrifício e martírio, como alguns filmes americanos gostam de retratar. Professor não é herói, ele é um profissional. Porém, se o professor não consegue colocar o aluno no clima do que ele está querendo dizer, sua aula certamente será um fiasco.

Digo isso porque muitas aulas que eu dei deram certo porque eu consegui fazer a ligação entre o que estava sendo dito por mim e alguma coisa que interessava ao aluno, algum assunto próprio do mundo dele. Falar da relatividade  da concepção de infância usando Harry Potter como exemplo para alunos fãs do livro e/ou dos filmes é um sucesso, assim como falar das características da modernidade mostrando ao aluno a dificuldade que os adolescentes do sexo masculino (inclusive o professor deles) tinham no passado de assistirem a filmes pornôs, por dependerem da televisão, e como isso é fácil hoje com a internet e as muitas possibilidades de comunicação de uma mundo cada vez mais veloz e multiplicado. Todas as vezes que eu falo das minhas sagas assistindo a filmes eróticos franceses (escondido da minha mãe) que passavam na rede Bandeirantes na minha adolescência, e como seria mais fácil pra mim se naquela época computador não fosse coisa pra rico, meus alunos morrem de rir, ao mesmo tempo em que entendem um aspecto importante da modernidade: a circulação ampla e relativamente irrestrita de informação. Há então a comunicação. Há aula...

Claro que vocês podem pensar que as minhas aulas possuem uma descontração quase anti-ética. E eu vou dizer que sim sem titubear. Se o professor for aquele cara puramente formal, secamente profissional, ele não vai conseguir transpor o abismo que, a princípio, existe entre ele e sua turma. No profissionalismo do docente deve haver uma boa dose de irreverência e coragem, caso contrário o professor será derrotado. Por fim penso que o professor deve também entender que está lidando com pessoas numa faixa etária diferente da dele (com exceção dos Ejas) e com pessoas cujas histórias de vida são muito diferentes entre si, com perspectivas diferentes, atitudes diferentes... Repetindo, são mundos diferentes os de professores e alunos. Não cabe, então, reduzir os problemas da educação ao desinteresse e "burrice" dos alunos e aos erros governamentais na educação. Cabe uma auto-avalização do professor sobre a sua própria aula, assim como sobre o que ele está fazendo para mudar as suas condições de trabalho.  Muitos professores que conheço fazem das salas dos professores verdadeiros purgatórios das bestas, transformando-as em espaços de expressão de desprezo pelo corpo discente e por políticos "que não fazem nada". Geralmente são esses os mesmos professores que nem se interessam em dar uma boa aula, nem fazem greve, nem votam direito. Ou seja, são menos que nada...

domingo, 12 de agosto de 2012

Um filme cheio de humanidade





Hoje assisti com a minha mulher um filme argentino cujo título é O segredo dos seus olhos. O nome sugere um daqueles filmes românticos, profundamente dramáticos, mais parecido com novela mexicana ou com os livros de amor de banca de jornal. Mas não se trata de nada disso. A história do filme começa com um caso de estupro de uma bela jovem que tinha casado há pouco tempo antes do trágico acontecimento que a levou a morte. A partir daí o filme perpassa  vários temas que são essenciais para qualquer ser humano, ao menos para aqueles que, como eu, se encantam pela humanidade. 

Não que eu seja um otimista, ou um revolucionário que, como tal, acredita na mudança profunda de um mundo carente (e podem pôr a musiquinha do USA for Africa para dar um tchan nessa parte do texto). O que me encanta é a visão de seres humanos que têm diante de si somente a vida da forma como ela se lhes apresenta: misteriosa, cruel e carregada de paixão. É exatamente esse o caso dos personagens desse filme tão bonito e comovente. Benjamin Espósito é um ex-funcionário público da justiça argentina que, depois de velho, resolve escrever um romance sobre o caso de estupro ao qual me referi acima. Espósito nunca conseguiu se desvencilhar desse acontecimento que ele acompanhou nos tempos de trabalho, se envolvendo mais do que um simples funcionário público faria. Procura Hastings, sua antiga companheira de trabalho e uma mulher por quem tem, há 25 anos, um sentimento profundo e mal resolvido. A partir daí o filme, indo do presente ao passado, perpassa pelos temas mais caros à comédia humana, como diria Balzac: amor, amizade, paixão, falta de coragem, crueldade, castigo, dúvida e humor.

O filme possui algumas frases marcantes, como a que Espósito diz a Hastings quando, refletindo sobre a sua vida e tudo o que fizera nela ele pergunta: "Como se faz para viver uma vida vazia? Como se faz para viver uma vida cheia de nada"  É uma daquelas frases de arrepiar, de fazer a gente parar e pensar sobre o que estamos fazendo com a nossa existência. Tipo, será que quando eu for um homem de meia-idade eu me perguntarei isso, como é uma vida cheia de nada? Espósito faz um balanço de sua vida diante de Hastings, com quem no passado teve a chance de se casar, mas que foi desperdiçada pelo próprio Espósito. Parece para ele que sua vida deveria ter sido ao lado dela, dormindo e acordando com ela, gozando em suas pernas, beijando sua boca, brigando com ela, se reconciliando com ela... Parece que Hastings foi a única mulher quem fez de Espósito um homem que queria uma única mulher em sua vida, pois foi ela a única que ficou, que marcou seu espírito... E a vida dele girou 25 anos em volta de um nada... 

Uma outra frase marcante no filme é a de Morales, marido da menina morta da história, um homem que jamais conseguiu se curar da perda de sua bela esposa. Quando é procurado por Espósito pouco tempo depois da morte de sua mulher - Liliana - Morales diz a ele que se esforçava todos os dias para lembrar-se dela, pois ele não tinha facilidade em lembrar claramente dos momentos que vivera com Liliana. Ele a amava profundamente. Mas não conseguia se lembrar dela, não com nitidez... Irônico, não? Os sensacionalistas de plantão diriam que o amor verdadeiro jamais se esquece. Mas isso não é verdade... Pode-se esquecer de coisas muito caras a nós. A memória sempre foi para mim uma grande inimiga. Me parece que ela nunca guarda pra mim as coisas que eu amo de verdade, ou pelas quais sinto uma paixão forte. Muitas coisas importantes para o meu coração me escaparam da memória por várias vezes. Assim como aconteceu com Morales... E quando perdemos a memória, o que nos resta? Os sentimentos dependem da memória? Se nos esquecemos dos fatos, perdemos o sentimento por eles? 

Penso que não. Morales nunca deixou de amar Liliana, assim como nunca deixou de lutar por justiça por ela. Mas ele não se lembrava dela. Estranho, não? Eu diria humano. Enquanto muitos procuram razões extra vida para a própria vida, seja em Alá, ou em Jesus, ou nos espíritos, ou em Exu ou em qualquer outro "deus" ou divindade, eu me encanto com a mísera comédia humana, nua, crua, sem sentido, mas cheia de paixão. Não que eu não tenha religião. Sou espírita. Mas uma coisa que me enoja nas religiões como um todo, inclusive na minha, é o constante olhar para o além do que se vê o tempo todo para explicar de forma minimamente lógica o que se está vendo, ou o que se viu. Daí chama-se as encarnações passadas, os versículos bíblicos que "explicam" uma determinada situação, ou as influências do além vida. 

Ao contrário O segredo dos seus olhos é carregado de vida, com personagens envolventes, míseros, apaixonados, bem humorados e tristes. Até o Racing, famoso clube argentino, é homenageado no filme. Aliás há coisa mais humana que o futebol? Creio que não. O ser humano é capaz de criar sentido em tudo, construindo um caminho pra sua vida em coisas que podem parecer banais para um pessoa, mas que é vital para outra. Espósito tem um grande amigo, Sandoval, que tem uma paixão muito mal vista: o bar, o alcoolismo. E é no bar que Sandoval encontra um apaixonado pelo Racing, um conhecedor da história desse que é o maior de todos os clubes da Argentina. O futebol é ilógico visto de fora: ninguém ganha nada em perder a sua paz para torcer e se retorcer pelo seu time do coração. Ora, mas esse time pertence ao coração do indivíduo, e não à lógica dele. Então ri-se, chora-se, briga-se, entusiasma-se por um coisa que, em última instância, não nos é biologicamente vital, mas é espiritualmente essencial. E o filme trata o futebol da forma como ele é: um templo de paixão.

Os desmandos políticos latino-americanos são contemplados no filme quando o assassino de Liliana é preso, solto e transformado em capanga do governo por um agente judiciário, desafeto de Espósito. A justiça, contudo, aparece de uma forma calma, surda, resignada e dolorida no surpreendente final do filme...

O segredo dos seus olhos é um filme cheio de humanidade, como o título desse post sugere. A impressão que dá é que o homem, em sua imagem nua, aparece o tempo todo nesse filme, desprovido de qualquer cultura, pura carne e psiqué. E paixão, é claro. 

domingo, 5 de agosto de 2012

Lars von Trier?



Há algum tempo atrás conheci o trabalho deste que parece ser um dos diretores mais controversos do cinema atual. Estou falando, como o título desse post já deixa claro, do dinamarquês Lars von Trier. E a razão de escrever um texto sobre essa figura não é a de uma admiração profunda pelo trabalho alternativo desse cineasta. Tampouco se trata de uma repulsa pelos filmes dele. E tá aí o motivo desse texto: von Trier é um daqueles poucos profissionais os quais conheço e dos quais não nutro nem simpatia, nem antipatia. E isso me incomoda, pois não gosto de ser neutro. Uma vez um professor meu de geografia disse para a minha turma de 2º ano do Ensino Médio que, em uma guerra, os neutros eram os primeiros a morrerem. Portanto nunca deveríamos ser neutros, e sim tomar uma posição, fosse qual fosse. Nessa lógica, se eu estivesse numa imaginária guerra cinematográfica que estivesse realmente ameaçando a minha vida, eu morreria, e tudo por causa desse sujeito dinamarquês, desse tal de Lars não sei das quantas...

Se não sou fã do cinema de Lars, tampouco consigo ficar indiferente aos filmes dele. Não que eu tenha vontade irresistível de assistir aos filmes dele quando são lançados, tipo quando ocorre com um novo filme do Almodóvar. Não é esse o caso. Mas quando eu assisto a um filme de Lars von Trier eu não consigo me desprender da história. Primeiro foi Dogville, um filme totalmente diferente de tudo o que vi no cinema. Depois foi o Anticristo, um filme de terror que fez O Exorcista virar o segundo filme mais assustador que eu já vi. O segundo, pois o primeiro virou o Anticristo. E por último vi o filme Melancolia, obra que me prendeu do início ao fim com seu enredo enigmático, suas cenas carregadas de depressão e angústia e seu desenrolar curioso. 

Essa é a primeira qualidade do Lars: os filmes dele dialogam com quem está do outro lado da tela. Não é um daqueles filmes tipo Godard que dialogam com um grupinho de (pseudos) filósofos ou (pseudos) universitários que se acham fodas porque (pensam que) entendem um filme que quase ninguém (com certeza não) entende. Lars não é assim. Os filmes dele mexem com a gente. Intrigam. Sufocam. Arrepiam. Angustiam. Fazem acontecer, e fazem isso dentro de nós, na nossa mente. Modificam alguma coisa na gente, ao menos enquanto o filme tá rolando. Tá aqui a primeira e mais importante função da arte para mim: ser inteligível, comunicável, intercambiável. Não me venha com aqueles quadros cheios de riscos, cheios de cores, cheios de alguma coisa que ninguém sabe o que é; tampouco me venha com aquele filme cheio de cenas soltas, sem sentido. Eu direi em alto e bom som: isso pra mim não é arte. A arte comunica, força, modifica. Lars von Trier faz isso. Para o bem ou para o mal, mas faz. 

Outra coisa que vejo nas cenas dele, principalmente em Melancolia é uma espécie de materialização da angústia, da tristeza. Não que isso me faça bem ou que seja realmente legal ver um filme down o tempo todo, como se fosse a biografia do Joy Division. Mas não é qualquer um que torna real aquilo que é imaginário. O artista tem um mundo em sua cabeça e em seu coração. Colocá-lo em sua obra é uma verdadeira guerra, pois existe um abismo entre a cabeça do artista e sua obra. Isso não parece ocorrer com o Lars. Ele é um maluco deprimido e angustiado. A obra dele é exatamente assim. Existe loucura e angústia em cada cena, e nesta, em cada detalhe. Em Melancolia Kirsten Dunst, uma atriz que até então eu achava mediana, se torna a própria melancolia. Ela tira de si mesma uma expressão profunda do que seja uma pessoa em estado de depressão. Em volta dela o cenário bucólico vira uma espécie de parêntesis num mundo onde tudo parece andar, menos ali, naquele lugar onde a história do filme se passa. 

Aliás, se Dunst em outros filmes é tão fraquinha, como ela se torna essa baita atriz no filme de Lars von Trier? Foi ela quem tirou aquele peso todo no olhar que a gente vê no filme ou foi o diretor? As cenas em câmera lenta com música clássica tocando no fundo viraram marca registrada do diretor. Isso ocorre em Melancolia, apesar de eu achá-las meio forçadas, meio sem lugar no filme. Lars tenta ser diferente o tempo todo. Às vezes lembra um adolescente querendo dizer para os adultos "Olha, sou foda, sou diferente, sou esquisito, escuto rock pesado, faço culto ao diabo...". Isso irrita um pouco nele. Digo, na obra dele. Ele é demasiadamente pessimista. Em Dogville ele mata toda uma cidade. Em Melancolia ele acaba com o planeta todo.  Isso tudo porque o ser humano parece não valer a pena para Trier. 

Às vezes também não vale para mim. Eu tenho meus momentos Trier no qual rola a maior vontade de mandar um foda-se pra todo o mundo, principalmente para aquele pessoal que adora frases de auto-ajuda. Tipo aquela "tudo depende de você! Basta lutar, você vai conseguir!" Na boa, vai tomar no cu e não enche o saco. Mas prefiro os personagens criativos, loucos e cheios de miséria do Almodóvar; os chatos questionadores e apaixonados do Woody Allen; os sábios de Kurosawa ( maior de todos!), do que a melancolia de Trier. Ele parece ser o cineasta do ponto final. O cara que fala "a vida é uma merda" o tempo todo. Já os outros que citei parecem que são os cineastas da névoa. Tipo, aqueles caras que falam assim: "a vida é estranha, tem gente esquisita, e precisamos de coisas malucas. Mas, quer saber? 'Bora trilhar alguma coisa nesse deserto aí. Deve ser divertido..."

Não sou fã do Trier. Não odeio Trier. Eu assisto o Trier.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Nem todo ponto é final






Aquelas árvores sempre foram a coisa mais bonita daquele bairro, ao menos para ela. Eram árvores grandes, com folhas vistosas, de um verde romântico, como nos livros e filmes. O entardecer lá era tão bonito, com o seu vento fresco e seu céu aberto... Maria encontrara em Campo Grande um bairro no qual ela queria morar por toda a vida. Foi Pedro quem apresentou esse lugar a ela e quem a convenceu, mesmo que implicitamente, a morar lá com ele. Fora lá que aprendera a ser mulher, a ser adulta, a viver longe dos antigos amigos e, principalmente, da irmã e da mãe, a quem tanto amava. Era estranho visitar aquele bairro, aquela rua e ver aquelas árvores depois da separação. Tudo isso, no início do casamento, logo quando fora morar ali, simbolizava uma nova etapa da vida dela, sua união com o que ela acreditava ser o homem de sua vida. Agora aquelas árvores pareciam que carregavam uma lágrima, cada uma, por ela... O entardecer, limpo e claro, sempre tinha tido um quê de triste naquele lugar. Mas agora era diferente. Tinha uma tonalidade mais melancólica, como um conto gótico ou um poema simbolista...

Via isso tudo pela janela do ônibus agora, e carregava uma dor no peito. Uma dor leve que a surpreendeu. Porque doía? Porque essa tristeza? O casamento terminou como começara: bem. Tinham percebido que já não estava mais a mesma coisa a relação. Tinham ficado impacientes um ao lado do outro. Tinham mudado muito depois de 15 anos juntos. Ela ainda era uma mulher bonita, com seus 38 anos bem expressos em um corpo maduro, onde os seios ainda estavam milagrosamente duros, a barriga bem desenhada numa reta linda, que só as mulheres lindas têm... O rosto... Carregava a mesma beleza de quando ela tinha, sei lá, 14 anos. Só estavam ali acrescidos naquele olhar os anos de estudo, de trabalho, de cinema, de amores, de livros, de amizades... Aquele rosto tinha conquistado um ar que as mulheres fúteis jamais teriam. Ela era inteligente, conversava sobre tudo, era descolada, moderna, ao mesmo tempo em que mantinha dentro de si um tradicionalismo forte de uma mulher que se cuidava para o marido, inovava por ele, enlouquecia-o na cama, mudava os móveis da casa, como uma daquelas mulheres que cuidam da casa como se fosse o seu castelo, defendendo-o das invasões dos visigodos.

Mas nada disso fez diferença. Tinham se afastado um do outro nos últimos anos. Até que perceberam que já não davam mais certo juntos, que já não tinha mais nada a ver. E aí, como um casal do século XXI, resolveram se separar, numa boa, respeitando o momento individual da vida individual e dos sentimentos individuais de cada um. Foi ela quem saiu de casa, e não Pedro. Ele morava naquele bairro antes. E ela nem pensou em continuar morando ali, apesar de ser, de longe, o lugar que ela mais gostava na cidade feia e sem graça que era o Rio de Janeiro... Foi ali que ela fez os maiores planos de sua vida. Foi ali que ela viveu as maiores mudanças. Foi ali que ela tinha se divertido tanto com Pedro. Mas nem pensou em morar ali... Não mais...

Laranjeiras era um bairro também romântico, com um entardecer encantador. Tinha sido uma boa escolha. Ajeitou o apartamento, fez um chá de casa nova, reuniu amigos, bebeu, se divertiu. Foi trabalhar renovada, feliz com o futuro que se descortinava pra ela. Afinal de contas ela era jovem, bonita, uma profissional de sucesso. Assim como Pedro, ela começou a ter novos encontros, reviver as surpresas da vida de solteira. Se encantar novamente. Como uma mulher moderna o faria. Ela assim o fez, sem planejar. Tudo era muito natural nela, muito espontâneo.

Até que naquele dia, depois de algum tempo, pra mais de ano, ela voltou pra aquela casa para pegar algumas coisas que ainda tinham ficado lá. “To chegando, Pedro. Deixa a porta aberta...”. “Ta bom, estou te esperando”. Quando ela abriu a porta, o viu de frente para a escada. Ele estava bonito, como sempre tinha sido. Vestia o suéter que ela tinha dado a ele em 99. Era incrível como aquele suéter ficava bem nele... Beijaram-se no rosto, viram-se, e entraram os dois na sala. A casa estava intacta, bem cuidada, mas tão cheia de... Espaço. Deu numa rápida olhada na estante, e viu o quanto ela, estranhamente, era o lugar onde mais havia espaço naquela casa. Logo percebeu que as fotos dos dois, do casamento, das viagens, dos jantares, das reuniões com os amigos não estavam mais ali. A casa fazia até eco sem a parte dela lá dentro. Enquanto ela percebia isso, num punhado de segundos, riu.

Conversaram um pouco. Riram juntos. Se atualizaram um sobre o outro. Fizeram um lanche com pães e mate. Ele pegou a caixa que continha as coisas dela, uma caixa ornamentada com fotos do Elvis, e a entregou. E a olhou... E sorriu... E a olhou de novo, dessa vez ficando sério...
Foi aí que se deram conta. Ele a olhava, meio perplexo. Uma perplexidade que doía de tão repentina e profunda que era... Ele a olhava enquanto ela olhava pra caixa, pois ela abaixara a cabeça rapidamente, atingida pela mesma perplexidade que ele. O que tinha ocorrido ali, naquele momento, naqueles segundos? Porque aquela caixa despertara aquele momento tão intenso entre ele? Fora realmente aquela caixa que tinha despertado neles aquela perplexidade? Não saberiam responder... Ela o olhou... Seus olhos a fixavam, como quem perguntava como tinham chegado até ali... Não tinham se dado conta do ponto final. Não tinham se dado conta da morte que tinham presenciado, que tinham vivido. A vida correu num fluxo tão rápido, tão moderno, que não tinham percebido que não estavam mais juntos, e o que isso significava. Trabalhavam, voltavam pra casa, viam TV, liam um livro, saíam, voltavam, iam trabalhar de novo, e mais, e de novo... O cotidiano parece que tinha escondido a tragédia que era um casal que planejava estar junto por toda a vida, que se dava tão bem, que passou momentos tão legais juntos que somente dois seres humanos muito amantes um do outro poderiam passar... Que choraram, que riram, que brigaram, que transavam noites a fio num gozo ardente, louco, apaixonado... Que chagaram a criticar casais que desistiam um do outro, se separando. Pedro sentiria novamente por uma mulher o que ele sentiu por Maria? E aquele sentimento todo, para onde foi? O quer houve com ele? Acabou? Certeza que acabou...

Maria desviou os olhos dele. Sem graça disse até logo, e deu as costas. Como sempre naquele lugar o ônibus não tardou a passar... E pela janela dele ela estava contemplando a si mesma através das ruas e das pessoas... E das árvores... “O que está havendo comigo?”, pensou. “Será que ainda o amo?”. “Como foi mesmo que nos separamos?”. “Qual foi mesmo a razão?”. Era estranho viver num mundo onde tanta coisa acontecia ao mesmo tempo. Onde todos caminhavam juntos, se acotovelando porém com um abismo entre si... Era tudo muito demais, ônibus demais, trabalho demais, trânsito demais, informações demais... E por vezes fica-se sem saber quem somos, o que queremos, o que tivemos... Mas ela tinha certeza que estava tudo acabado. O que foi, então, essa troca de olhares, pensou? O que queria dizer essa tristeza em seu peito? Ela não era uma mulher bem resolvida? O que tinha sido perdido entre os dois? Qual foi o fio que ela perdeu nesse tecido louco que se chama sentimentos humanos? Porque estava tão balançada agora? Será que ainda o amava? Será que ainda o queria? Será que algum dia tinha sequer deixado de querer Pedro?

                                                                    ...

De repente o celular tocou... Era uma mensagem... Era o número de Pedro... “Posso ir a sua casa hoje de noite? Quero te ver...”. Com um sorriso de menina que dá seu primeiro beijo ela escreveu na resposta: “Sim”.



sábado, 14 de julho de 2012

O Soldado










Tinha levado um tiro no ombro esquerdo. Estava exausto. Tinha caminhando por dias a fio, fugindo do exército inimigo, que estava incansavelmente no seu encalço. Tinha sede. Sua garganta parecia um caminho de pedras secas, pois doía cada vez que ele engolia sua saliva. Arranhava. Às vezes tinha a impressão que estalava enquanto engolia. Suas pernas pareciam duas bombas que a qualquer momento explodiriam. Latejavam de uma dor profunda de quem anda sem objetivo, de quem anda muito, de quem percorre “léguas tiranas” na tentativa de se afastar e combater tiranos. Tinha marcas por todo o corpo. Marcas de tiros, de socos, de golpes com faca, de sujeira acumulada pela viagem sem fim. O sol batia forte na cabeça. Rachava corpo e alma. Sua roupa já tinha sido reduzida a trapos. Tinha rombos enormes na camisa e na calça. O capacete tinha praticamente sido grudado à cabeça.

Acabara de achar uma pequena árvore, sob a qual podia deitar um pouco e respirar de forma mais tranqüila. Já não agüentava mais andar naquela região de muito sol, pouco verde e nada de água. Uma região seca no sentido estrito do termo. Aquela árvore parecia ter caído do céu, ter surgido das entranhas da terra de forma repentina, ter se materializado como um sopro de um espírito bom que se compadeceu dele, de sua situação, de sua pobreza, de seu estado. Deixou seu corpo magro cair sob a pequena árvore e agradeceu a Deus por ter um pouco de sombra depois de horas sem descanso. Pegou sua garrafa de água, que estava pendurada a uma corda amarrada à sua cintura. Nada havia dentro dela, e ele sabia disso. Porque a pegara? Não sabia responder... Seu raciocínio estava desconexo. As coisas vinham à sua mente assim, sem mais nem por quê, desde que a guerra começara.

A guerra... Lembrar-se dela agora o feria de forma mais profunda do que nunca. Tudo começou com o surgimento do Partido Total. Era um partido estranho, cuja bandeira tinha cores fortes, amarelo e preto, e o número da legenda era 7. Em um mundo onde tudo era recortado, as opiniões eram recortadas, as notícias eram recortadas, as idéias eram recortadas e as doutrinas eram recortadas, o Partido Total oferecia uma interpretação do mundo, um horizonte, uma idéia simples, fechada e conclusiva: “Ao governo, todo o poder. Ao povo, a obediência.” Naquele país a democracia ainda era uma coisa nova, uma ideologia vaga que estava tomando, aos poucos, a mente de um povo cujo passado centenário estava repleto de manda-chuvas, de figurões que concentravam em si todo ou quase todo o poder. Aquele povo tinha se acostumado a obedecer, tinha construído para si a idéia de que o governo é uma coisa que está longe, muito longe de todos, e que só aparece para importunar a vida das pessoas. Até que a democracia surgiu, como um acidente, um acontecimento inesperado e bem vindo, apesar de não se saber muito o porquê ela era bem vinda. Porém, não fazia muito tempo que a democracia havia vencido as relações de poder desse lugar, quando surgiu o Partido Total. De início um partido de aparentemente composto por lunáticos, mas que, aos poucos, virou um partido que alcançava as lacunas psíquicas de um povo cuja alma era autoritária. O slogan de poder e obediência vinha embasado por uma idéia crucial: era tudo pelo bem do povo. O poder existe para o povo, sendo ele exercido por homens valorosos em cujas mãos estava o futuro da sociedade. Um governo forte era preciso para proteger as pessoas delas mesmas...

Daí os acontecimentos foram se sucedendo: popularização do partido, vitória nas eleições e dissolução da Constituição. Tudo isso para nos proteger... Porém um punhado de pessoas, do qual ele fazia parte, começou a se perguntar: proteger do quê? Onde que fica a minha opinião nisso tudo? “Que idéia maldita”, pensou com os olhos lacrimejando, e deixando turva a visão de um horizonte amarelado... No fundo ele sabia que a idéia era boa, e era isso que mais doía. Na sociedade onde vivia, a idéia não poderia ser boa. Deveria estar em conformidade com o rumo das coisas. E esse rumo não era decidido por ele. Ele não queria que as coisas rumassem desse jeito. Azar o dele... Juntou um punhado de terra em sua mão direita e a jogou longe... Foram essas idéias de defesa da democracia que o tinham levado a se juntar àquele grupo rebelde. Eram 10 soldados que acreditavam que a luta armada seria a solução contra aquele governo autoritário. “Um golpe pelo povo e para o povo”, era o resumo da idéia do grupo. “Um povo de dez pessoas”, pensou ele. “Que merda de povo era esse?”. Agora via com clareza que eles não tinham chance contra aquele governo com aquela pequena resistência. Porque não vira isso antes? Não saberia dizer... No calor das idéias, não percebera o óbvio: perderia a luta perdida. O exército dos rebeldes foi massacrado. Só ele tinha sobrevivido, e fora empurrado para aquela região inóspita da cidade. E estava sozinho agora sob aquela pequena árvore.

Sozinho até aquele momento. Ouviu um barulho nas suas costas. Virou-se. Viu ao longe um grupo de dezenas de soldados, cujos uniformes eram bicolores, amarelo e preto. “São eles”, pensou. “Vieram me buscar”. Teve medo. Vira o que ocorreu com os outros soldados quando foram pegos. Foram todos mortos, todos, sem exceção. Só ele tinha conseguido escapar até aquele momento, só Deus sabia como. E estava ali, com medo. Mas não havia mais o que fazer. Não agüentaria mais andar nem meio metro. Seus pés doíam demais. “Deus... eu tinha tantos planos para a minha vida... então... é assim que termina... a minha vida?”. Era trágico, mas era verdade. Olhou de novo para trás e viu os homens de amarelo e preto se aproximarem cada vez mais. De repente a tensão no seu corpo se desfez e ele relaxou. Tinha se entregado... De corpo e espírito... Pensou na irmã que não via há mais de 6 anos, desde que ela casara e fora morar longe dele... Pensou na última vez que fez amor, na sensação, no prazer, no que sentira em seu peito... Pensou na professora de artes, que tinha lhe ensinado dramaturgia.. Pensou no sorriso de sua mãe e nas palavras de cuidado dela... “Cuide-se, filho. Fuja dos homens maus...”. Pensou no seu time de futebol, que tanto o tinha feito chorar e sorrir, concedendo-lhe humanidade... Pensou nos sonhos que nunca, nunca se concretizariam em sua vida... A casa própria... Uma viagem pela Europa... Ver o nascimento de um filho seu... E pensou nos amigos satisfeitos com suas vidas de obediência e alienação... Pensou... Até que os passos pararam do seu lado, um chute beijou sua nuca com toda a violência desnecessária desse mundo desnecessário... Doeu... E caiu... Terra entrou em sua boca, e ele tossiu... Com o rosto grudado na terra e a cabeça latejando de dor, pensou em todas as pessoas que estavam levando suas vidas normalmente, felizes, com suas TVs, seus Xboxs, suas casas, suas camas, seus salários... Tudo certo... Todos protegidos... Todos rindo... Apesar de não saberem por quê riam...  E foi aí que ouviu um disparo.... E depois... Não pensou mais...

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Notas sobre o cansaço...

                           
                           
 



Sentia como se o dia tivesse acabado de terminar, mas eram 7:00 horas da manhã e acabara de chegar no trabalho. Quinta era o dia que ele mais trabalhava. Dava seis tempos de aula de manhã, 4 a tarde e mais 6 a noite. Algumas turmas suas tinham em torno de 55 alunos, a maioria adolescentes. Gostava de lecionar, talvez porque fosse a única coisa que ele sabia fazer bem, seu único talento. Contudo aquela rotina estava ficando cada vez mais cansativa. Sentia-se com 60 anos num corpo de um rapaz de 28 anos. A cabeça tremia as vezes, bem no centro do crânio, como se uma pequena mas profunda carga elétrica estivesse sendo descarregada em sua cabeça. A vista por vezes pesava. As olheiras eram densas, quase uma maquiagem. As costas doíam-lhe com intensidade, não só pelo peso da mochila e dos muitos livros que carregava. Sentia que as coisas estavam se somatizando: alunos, salários baixos, escolas, construção da casa, Helena grávida, textos do doutorado em língua estrangeira, greves mal sucedidas. E governo desgovernado, "eficientemente ineficiente", como dizia seu professor favorito na faculdade.

Naquela manhã, como nas outras e nas vindouras, o vagão do trem estava desumanamente lotado. Pegou uma edição de "Contos" de Allan Poe, uma bem pequena, teoricamente mais fácil de se manusear em transportes públicos cheios. Mas não era o caso. Nunca foi no trem da cidade do Rio. Até para ler aquele pequeno livro estava difícil. Estava posicionado como se fosse uma estátua grega no meio do vagão, sentindo a sua coluna sendo reconfigurada pelas pessoas que estavam em sua volta. Sentia um cotovelo em suas costas, uma repiração em seus queixo, uma barriga em sua cintura, uma braço na frente do seu olho esquerdo, um outro cruzando seu pescoço. Era difícil ler Poe ou qualquer coisa que fosse naquela posição. Ficou pior quando começou a ouvir os evangélicos começarem a cantar seus "hinos" a dois metros dele, em alto e desafinado som. "Bem que eu estava sentindo um cheiro de merda", pensou. Odiava evangélicos, mais a insituição do que as pessoas. "Mas as instituições estão nas pessoas", pensou. "Então sinto um profundo nojo pela maioria esmagadora desse povo escolhido do décimo mundo", concluiu. 

Pela janela do trem via retalhos da cidade. Retalhos de uma cidade feia que era o Rio. Prédios mal cuidados, outros inacabados, moradores de rua aos montes, cracudos, crianças sujas, mulheres pedintes... Inúmeros carros, ônibus, caminhões. Igrejas... Muitas igrejas... Muito trânsito... Outdoors... Lojas... Bairros desertos... A cidade pela janela do trem era o Rio mais real que alguém poderia conhecer... Dentro do trem era de uma surrealidade atroz... Todas as vezes em que saía do trem sentia uma espécie de alívio como se tivesse acabado de escalar uma montanha, sendo esse eternamente o seu destino, como um Sísifo carioca.

Trabalhava em 3 escolas, fazia doutorado e gostava de literatura e filosofia. Porém fazia tempo que não lia nem uma coisa nem outra. O doutorado não lhe permitia divagações literárias, por mais prazeirosas que elas fossem para ele. Prazer era uma coisa que não estava dentro de suas possibilidades. Há duas semanas não transava com Helena. Não por falta de desejo. Mesmo grávida ela permanecia muito bonita. Mas se o corpo pede descanso, o piru que aguente de prazer acumulado. Ou fode ou dorme. Ou vive ou trabalha. A última opção era a que se impunha com mais frequência do que ele podia suportar.

Ganhava R$ 2500 somando as 3 escolas em que trabalhava. Tinha de pagar contas e as dívidas da construção da casa. Estava construindo o quarto de João, aprontado-o para receber o seu primeiro filho... Helena já estava no sexto mês de gravidez. Ele estava apavorado. O que podia oferecer ao seu filho? Um pai constantemente cansado, sem tempo nem condições psicológicas para uma conversa de homem para homem, de pai para filhote? Em que colégio poria o filho para estudar? E as obras da casa, terminariam quando? O filho viveria sempre numa casa semi-construída? Por quanto tempo Helena continuaria trabalhando? O dinheiro dela ajudava, e muito. Mas ela não aguentava mais... Também era professora... Não aguentava mais... 

Amava ensinar. Contudo R$ 2500 por 3 escolas, sem vale-alimentação e vale-transporte, não valia a pena. Seus alunos o admiravam pela sua sapiência. Era bom no que fazia. Lia quase 20 livros por ano. Falava bem. A geração internet o ouvia às vezes por 40 minutos, o que era um milagre... E daí? Um intelectual de merda, num país de merda e numa cidade de merda. Pastores que vendiam a salvação contra "heresias" ganhavam infinitamente mais que ele. Os militares também. Grandes empresários, banqueiros, políticos... Os deuses da sociedade estavam sempre lucrando em cima dele ou alheios a existência dele, mas de alguma forma prejudicando ele. As taxas de juros e os impostos que apareciam no jornal da noite não eram decididos por ele, mas eram pagos por ele... Do que valia saber as consequências da modernidade na estrutura psíquica humana? O Eike Batista não sabia disso, mas ganhava vergonhosamente mais do que ele... Humilhantemente mais do que ele...

....................................................................................................................................................................

"Acorda, rapaz. Já chegamos", disse um homem barbudo que o cutucava. Olhou para o relógio. Eram 23:45. Saiu do trem e viu que estava na estação de Santa Cruz. Morava em Campo Grande. Tinha dormido e perdido a sua estação. E o último trem de volta. Amanhã era dia de trabalho. Acordaria às 4:50 da manhã... Sentou no banco da estação... Pensou em João... Em Helena... Na casa semi-construída... No salário... Na Paris que ele nunca conheceria... No escritório que ele jamais teria... No reconhecimento que ele nunca receberia... E chorou.... Profundamente...