Aquelas árvores sempre foram a coisa mais bonita daquele
bairro, ao menos para ela. Eram árvores grandes, com folhas vistosas, de um
verde romântico, como nos livros e filmes. O entardecer lá era tão
bonito, com o seu vento fresco e seu céu aberto... Maria encontrara em Campo
Grande um bairro no qual ela queria morar por toda a vida. Foi Pedro quem
apresentou esse lugar a ela e quem a convenceu, mesmo que implicitamente, a
morar lá com ele. Fora lá que aprendera a ser mulher, a ser adulta, a viver longe
dos antigos amigos e, principalmente, da irmã e da mãe, a quem tanto amava. Era
estranho visitar aquele bairro, aquela rua e ver aquelas árvores depois da
separação. Tudo isso, no início do casamento, logo quando fora morar ali,
simbolizava uma nova etapa da vida dela, sua união com o que ela acreditava ser
o homem de sua vida. Agora aquelas árvores pareciam que carregavam uma lágrima,
cada uma, por ela... O entardecer, limpo e claro, sempre tinha tido um quê de
triste naquele lugar. Mas agora era diferente. Tinha uma tonalidade mais
melancólica, como um conto gótico ou um poema simbolista...
Via isso tudo pela janela do ônibus agora, e carregava uma
dor no peito. Uma dor leve que a surpreendeu. Porque doía? Porque essa
tristeza? O casamento terminou como começara: bem. Tinham percebido que já não
estava mais a mesma coisa a relação. Tinham ficado impacientes um ao lado do
outro. Tinham mudado muito depois de 15 anos juntos. Ela ainda era uma mulher
bonita, com seus 38 anos bem expressos em um corpo maduro, onde os seios ainda
estavam milagrosamente duros, a barriga bem desenhada numa reta linda, que só
as mulheres lindas têm... O rosto... Carregava a mesma beleza de quando ela
tinha, sei lá, 14 anos. Só estavam ali acrescidos naquele olhar os anos de estudo,
de trabalho, de cinema, de amores, de livros, de amizades... Aquele rosto tinha
conquistado um ar que as mulheres fúteis jamais teriam. Ela era inteligente,
conversava sobre tudo, era descolada, moderna, ao mesmo tempo em que mantinha
dentro de si um tradicionalismo forte de uma mulher que se cuidava para o
marido, inovava por ele, enlouquecia-o na cama, mudava os móveis da casa, como
uma daquelas mulheres que cuidam da casa como se fosse o seu castelo,
defendendo-o das invasões dos visigodos.
Mas nada disso fez diferença. Tinham se afastado um do outro
nos últimos anos. Até que perceberam que já não davam mais certo juntos, que já
não tinha mais nada a ver. E aí, como um casal do século XXI, resolveram se
separar, numa boa, respeitando o momento individual da vida individual e dos
sentimentos individuais de cada um. Foi ela quem saiu de casa, e não Pedro. Ele
morava naquele bairro antes. E ela nem pensou em continuar morando ali, apesar
de ser, de longe, o lugar que ela mais gostava na cidade feia e sem graça que
era o Rio de Janeiro... Foi ali que ela fez os maiores planos de sua vida. Foi
ali que ela viveu as maiores mudanças. Foi ali que ela tinha se divertido tanto
com Pedro. Mas nem pensou em morar ali... Não mais...
Laranjeiras era um bairro também romântico, com um entardecer
encantador. Tinha sido uma boa escolha. Ajeitou o apartamento, fez um chá de
casa nova, reuniu amigos, bebeu, se divertiu. Foi trabalhar renovada, feliz com
o futuro que se descortinava pra ela. Afinal de contas ela era jovem, bonita,
uma profissional de sucesso. Assim como Pedro, ela começou a ter novos
encontros, reviver as surpresas da vida de solteira. Se encantar novamente.
Como uma mulher moderna o faria. Ela assim o fez, sem planejar. Tudo era muito
natural nela, muito espontâneo.
Até que naquele dia, depois de algum tempo, pra mais de ano,
ela voltou pra aquela casa para pegar algumas coisas que ainda tinham ficado
lá. “To chegando, Pedro. Deixa a porta aberta...”. “Ta bom, estou te
esperando”. Quando ela abriu a porta, o viu de frente para a escada. Ele estava
bonito, como sempre tinha sido. Vestia o suéter que ela tinha dado a ele em 99.
Era incrível como aquele suéter ficava bem nele... Beijaram-se no rosto,
viram-se, e entraram os dois na sala. A casa estava intacta, bem cuidada, mas
tão cheia de... Espaço. Deu numa rápida olhada na estante, e viu o quanto ela,
estranhamente, era o lugar onde mais havia espaço naquela casa. Logo percebeu
que as fotos dos dois, do casamento, das viagens, dos jantares, das reuniões com
os amigos não estavam mais ali. A casa fazia até eco sem a parte dela lá
dentro. Enquanto ela percebia isso, num punhado de segundos, riu.
Conversaram um pouco. Riram juntos. Se atualizaram um sobre o
outro. Fizeram um lanche com pães e mate. Ele pegou a caixa que continha as
coisas dela, uma caixa ornamentada com fotos do Elvis, e a entregou. E a
olhou... E sorriu... E a olhou de novo, dessa vez ficando sério...
Foi aí que se deram conta. Ele a olhava, meio perplexo. Uma
perplexidade que doía de tão repentina e profunda que era... Ele a olhava
enquanto ela olhava pra caixa, pois ela abaixara a cabeça rapidamente, atingida
pela mesma perplexidade que ele. O que tinha ocorrido ali, naquele momento,
naqueles segundos? Porque aquela caixa despertara aquele momento tão intenso
entre ele? Fora realmente aquela caixa que tinha despertado neles aquela
perplexidade? Não saberiam responder... Ela o olhou... Seus olhos a fixavam,
como quem perguntava como tinham chegado até ali... Não tinham se dado conta do
ponto final. Não tinham se dado conta da morte que tinham presenciado, que
tinham vivido. A vida correu num fluxo tão rápido, tão moderno, que não tinham
percebido que não estavam mais juntos, e o que isso significava. Trabalhavam,
voltavam pra casa, viam TV, liam um livro, saíam, voltavam, iam trabalhar de
novo, e mais, e de novo... O cotidiano parece que tinha escondido a tragédia
que era um casal que planejava estar junto por toda a vida, que se dava tão
bem, que passou momentos tão legais juntos que somente dois seres humanos muito
amantes um do outro poderiam passar... Que choraram, que riram, que brigaram,
que transavam noites a fio num gozo ardente, louco, apaixonado... Que chagaram
a criticar casais que desistiam um do outro, se separando. Pedro sentiria novamente
por uma mulher o que ele sentiu por Maria? E aquele sentimento todo, para onde
foi? O quer houve com ele? Acabou? Certeza que acabou...
Maria desviou os olhos dele. Sem graça disse até logo, e deu
as costas. Como sempre naquele lugar o ônibus não tardou a passar... E pela
janela dele ela estava contemplando a si mesma através das ruas e das
pessoas... E das árvores... “O que está havendo comigo?”, pensou. “Será que
ainda o amo?”. “Como foi mesmo que nos separamos?”. “Qual foi mesmo a razão?”.
Era estranho viver num mundo onde tanta coisa acontecia ao mesmo tempo. Onde
todos caminhavam juntos, se acotovelando porém com um abismo entre si... Era tudo muito demais, ônibus demais, trabalho demais, trânsito
demais, informações demais... E por vezes fica-se sem saber quem somos, o que
queremos, o que tivemos... Mas ela tinha certeza que estava tudo acabado. O que
foi, então, essa troca de olhares, pensou? O que queria dizer essa tristeza em
seu peito? Ela não era uma mulher bem resolvida? O que tinha sido perdido entre
os dois? Qual foi o fio que ela perdeu nesse tecido louco que se chama
sentimentos humanos? Porque estava tão balançada agora? Será que ainda o amava?
Será que ainda o queria? Será que algum dia tinha sequer deixado de querer
Pedro?
...
De repente o celular tocou... Era uma mensagem... Era o número
de Pedro... “Posso ir a sua casa hoje de noite? Quero te ver...”. Com um
sorriso de menina que dá seu primeiro beijo ela escreveu na resposta: “Sim”.

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