Hoje assisti com a minha mulher um filme argentino cujo título é O segredo dos seus olhos. O nome sugere um daqueles filmes românticos, profundamente dramáticos, mais parecido com novela mexicana ou com os livros de amor de banca de jornal. Mas não se trata de nada disso. A história do filme começa com um caso de estupro de uma bela jovem que tinha casado há pouco tempo antes do trágico acontecimento que a levou a morte. A partir daí o filme perpassa vários temas que são essenciais para qualquer ser humano, ao menos para aqueles que, como eu, se encantam pela humanidade.
Não que eu seja um otimista, ou um revolucionário que, como tal, acredita na mudança profunda de um mundo carente (e podem pôr a musiquinha do USA for Africa para dar um tchan nessa parte do texto). O que me encanta é a visão de seres humanos que têm diante de si somente a vida da forma como ela se lhes apresenta: misteriosa, cruel e carregada de paixão. É exatamente esse o caso dos personagens desse filme tão bonito e comovente. Benjamin Espósito é um ex-funcionário público da justiça argentina que, depois de velho, resolve escrever um romance sobre o caso de estupro ao qual me referi acima. Espósito nunca conseguiu se desvencilhar desse acontecimento que ele acompanhou nos tempos de trabalho, se envolvendo mais do que um simples funcionário público faria. Procura Hastings, sua antiga companheira de trabalho e uma mulher por quem tem, há 25 anos, um sentimento profundo e mal resolvido. A partir daí o filme, indo do presente ao passado, perpassa pelos temas mais caros à comédia humana, como diria Balzac: amor, amizade, paixão, falta de coragem, crueldade, castigo, dúvida e humor.
O filme possui algumas frases marcantes, como a que Espósito diz a Hastings quando, refletindo sobre a sua vida e tudo o que fizera nela ele pergunta: "Como se faz para viver uma vida vazia? Como se faz para viver uma vida cheia de nada" É uma daquelas frases de arrepiar, de fazer a gente parar e pensar sobre o que estamos fazendo com a nossa existência. Tipo, será que quando eu for um homem de meia-idade eu me perguntarei isso, como é uma vida cheia de nada? Espósito faz um balanço de sua vida diante de Hastings, com quem no passado teve a chance de se casar, mas que foi desperdiçada pelo próprio Espósito. Parece para ele que sua vida deveria ter sido ao lado dela, dormindo e acordando com ela, gozando em suas pernas, beijando sua boca, brigando com ela, se reconciliando com ela... Parece que Hastings foi a única mulher quem fez de Espósito um homem que queria uma única mulher em sua vida, pois foi ela a única que ficou, que marcou seu espírito... E a vida dele girou 25 anos em volta de um nada...
Uma outra frase marcante no filme é a de Morales, marido da menina morta da história, um homem que jamais conseguiu se curar da perda de sua bela esposa. Quando é procurado por Espósito pouco tempo depois da morte de sua mulher - Liliana - Morales diz a ele que se esforçava todos os dias para lembrar-se dela, pois ele não tinha facilidade em lembrar claramente dos momentos que vivera com Liliana. Ele a amava profundamente. Mas não conseguia se lembrar dela, não com nitidez... Irônico, não? Os sensacionalistas de plantão diriam que o amor verdadeiro jamais se esquece. Mas isso não é verdade... Pode-se esquecer de coisas muito caras a nós. A memória sempre foi para mim uma grande inimiga. Me parece que ela nunca guarda pra mim as coisas que eu amo de verdade, ou pelas quais sinto uma paixão forte. Muitas coisas importantes para o meu coração me escaparam da memória por várias vezes. Assim como aconteceu com Morales... E quando perdemos a memória, o que nos resta? Os sentimentos dependem da memória? Se nos esquecemos dos fatos, perdemos o sentimento por eles?
Penso que não. Morales nunca deixou de amar Liliana, assim como nunca deixou de lutar por justiça por ela. Mas ele não se lembrava dela. Estranho, não? Eu diria humano. Enquanto muitos procuram razões extra vida para a própria vida, seja em Alá, ou em Jesus, ou nos espíritos, ou em Exu ou em qualquer outro "deus" ou divindade, eu me encanto com a mísera comédia humana, nua, crua, sem sentido, mas cheia de paixão. Não que eu não tenha religião. Sou espírita. Mas uma coisa que me enoja nas religiões como um todo, inclusive na minha, é o constante olhar para o além do que se vê o tempo todo para explicar de forma minimamente lógica o que se está vendo, ou o que se viu. Daí chama-se as encarnações passadas, os versículos bíblicos que "explicam" uma determinada situação, ou as influências do além vida.
Ao contrário O segredo dos seus olhos é carregado de vida, com personagens envolventes, míseros, apaixonados, bem humorados e tristes. Até o Racing, famoso clube argentino, é homenageado no filme. Aliás há coisa mais humana que o futebol? Creio que não. O ser humano é capaz de criar sentido em tudo, construindo um caminho pra sua vida em coisas que podem parecer banais para um pessoa, mas que é vital para outra. Espósito tem um grande amigo, Sandoval, que tem uma paixão muito mal vista: o bar, o alcoolismo. E é no bar que Sandoval encontra um apaixonado pelo Racing, um conhecedor da história desse que é o maior de todos os clubes da Argentina. O futebol é ilógico visto de fora: ninguém ganha nada em perder a sua paz para torcer e se retorcer pelo seu time do coração. Ora, mas esse time pertence ao coração do indivíduo, e não à lógica dele. Então ri-se, chora-se, briga-se, entusiasma-se por um coisa que, em última instância, não nos é biologicamente vital, mas é espiritualmente essencial. E o filme trata o futebol da forma como ele é: um templo de paixão.
Os desmandos políticos latino-americanos são contemplados no filme quando o assassino de Liliana é preso, solto e transformado em capanga do governo por um agente judiciário, desafeto de Espósito. A justiça, contudo, aparece de uma forma calma, surda, resignada e dolorida no surpreendente final do filme...
O segredo dos seus olhos é um filme cheio de humanidade, como o título desse post sugere. A impressão que dá é que o homem, em sua imagem nua, aparece o tempo todo nesse filme, desprovido de qualquer cultura, pura carne e psiqué. E paixão, é claro.
Os desmandos políticos latino-americanos são contemplados no filme quando o assassino de Liliana é preso, solto e transformado em capanga do governo por um agente judiciário, desafeto de Espósito. A justiça, contudo, aparece de uma forma calma, surda, resignada e dolorida no surpreendente final do filme...
O segredo dos seus olhos é um filme cheio de humanidade, como o título desse post sugere. A impressão que dá é que o homem, em sua imagem nua, aparece o tempo todo nesse filme, desprovido de qualquer cultura, pura carne e psiqué. E paixão, é claro.
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