Sentia como se o dia tivesse acabado de terminar, mas eram 7:00 horas da manhã e acabara de chegar no trabalho. Quinta era o dia que ele mais trabalhava. Dava seis tempos de aula de manhã, 4 a tarde e mais 6 a noite. Algumas turmas suas tinham em torno de 55 alunos, a maioria adolescentes. Gostava de lecionar, talvez porque fosse a única coisa que ele sabia fazer bem, seu único talento. Contudo aquela rotina estava ficando cada vez mais cansativa. Sentia-se com 60 anos num corpo de um rapaz de 28 anos. A cabeça tremia as vezes, bem no centro do crânio, como se uma pequena mas profunda carga elétrica estivesse sendo descarregada em sua cabeça. A vista por vezes pesava. As olheiras eram densas, quase uma maquiagem. As costas doíam-lhe com intensidade, não só pelo peso da mochila e dos muitos livros que carregava. Sentia que as coisas estavam se somatizando: alunos, salários baixos, escolas, construção da casa, Helena grávida, textos do doutorado em língua estrangeira, greves mal sucedidas. E governo desgovernado, "eficientemente ineficiente", como dizia seu professor favorito na faculdade.
Naquela manhã, como nas outras e nas vindouras, o vagão do trem estava desumanamente lotado. Pegou uma edição de "Contos" de Allan Poe, uma bem pequena, teoricamente mais fácil de se manusear em transportes públicos cheios. Mas não era o caso. Nunca foi no trem da cidade do Rio. Até para ler aquele pequeno livro estava difícil. Estava posicionado como se fosse uma estátua grega no meio do vagão, sentindo a sua coluna sendo reconfigurada pelas pessoas que estavam em sua volta. Sentia um cotovelo em suas costas, uma repiração em seus queixo, uma barriga em sua cintura, uma braço na frente do seu olho esquerdo, um outro cruzando seu pescoço. Era difícil ler Poe ou qualquer coisa que fosse naquela posição. Ficou pior quando começou a ouvir os evangélicos começarem a cantar seus "hinos" a dois metros dele, em alto e desafinado som. "Bem que eu estava sentindo um cheiro de merda", pensou. Odiava evangélicos, mais a insituição do que as pessoas. "Mas as instituições estão nas pessoas", pensou. "Então sinto um profundo nojo pela maioria esmagadora desse povo escolhido do décimo mundo", concluiu.
Pela janela do trem via retalhos da cidade. Retalhos de uma cidade feia que era o Rio. Prédios mal cuidados, outros inacabados, moradores de rua aos montes, cracudos, crianças sujas, mulheres pedintes... Inúmeros carros, ônibus, caminhões. Igrejas... Muitas igrejas... Muito trânsito... Outdoors... Lojas... Bairros desertos... A cidade pela janela do trem era o Rio mais real que alguém poderia conhecer... Dentro do trem era de uma surrealidade atroz... Todas as vezes em que saía do trem sentia uma espécie de alívio como se tivesse acabado de escalar uma montanha, sendo esse eternamente o seu destino, como um Sísifo carioca.
Trabalhava em 3 escolas, fazia doutorado e gostava de literatura e filosofia. Porém fazia tempo que não lia nem uma coisa nem outra. O doutorado não lhe permitia divagações literárias, por mais prazeirosas que elas fossem para ele. Prazer era uma coisa que não estava dentro de suas possibilidades. Há duas semanas não transava com Helena. Não por falta de desejo. Mesmo grávida ela permanecia muito bonita. Mas se o corpo pede descanso, o piru que aguente de prazer acumulado. Ou fode ou dorme. Ou vive ou trabalha. A última opção era a que se impunha com mais frequência do que ele podia suportar.
Ganhava R$ 2500 somando as 3 escolas em que trabalhava. Tinha de pagar contas e as dívidas da construção da casa. Estava construindo o quarto de João, aprontado-o para receber o seu primeiro filho... Helena já estava no sexto mês de gravidez. Ele estava apavorado. O que podia oferecer ao seu filho? Um pai constantemente cansado, sem tempo nem condições psicológicas para uma conversa de homem para homem, de pai para filhote? Em que colégio poria o filho para estudar? E as obras da casa, terminariam quando? O filho viveria sempre numa casa semi-construída? Por quanto tempo Helena continuaria trabalhando? O dinheiro dela ajudava, e muito. Mas ela não aguentava mais... Também era professora... Não aguentava mais...
Amava ensinar. Contudo R$ 2500 por 3 escolas, sem vale-alimentação e vale-transporte, não valia a pena. Seus alunos o admiravam pela sua sapiência. Era bom no que fazia. Lia quase 20 livros por ano. Falava bem. A geração internet o ouvia às vezes por 40 minutos, o que era um milagre... E daí? Um intelectual de merda, num país de merda e numa cidade de merda. Pastores que vendiam a salvação contra "heresias" ganhavam infinitamente mais que ele. Os militares também. Grandes empresários, banqueiros, políticos... Os deuses da sociedade estavam sempre lucrando em cima dele ou alheios a existência dele, mas de alguma forma prejudicando ele. As taxas de juros e os impostos que apareciam no jornal da noite não eram decididos por ele, mas eram pagos por ele... Do que valia saber as consequências da modernidade na estrutura psíquica humana? O Eike Batista não sabia disso, mas ganhava vergonhosamente mais do que ele... Humilhantemente mais do que ele...
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"Acorda, rapaz. Já chegamos", disse um homem barbudo que o cutucava. Olhou para o relógio. Eram 23:45. Saiu do trem e viu que estava na estação de Santa Cruz. Morava em Campo Grande. Tinha dormido e perdido a sua estação. E o último trem de volta. Amanhã era dia de trabalho. Acordaria às 4:50 da manhã... Sentou no banco da estação... Pensou em João... Em Helena... Na casa semi-construída... No salário... Na Paris que ele nunca conheceria... No escritório que ele jamais teria... No reconhecimento que ele nunca receberia... E chorou.... Profundamente...
Muito bom texto!
ResponderExcluirInfelizmente é a triste realidade do professor no Brasil....